Santuário

18 11 2009

No início, era medonho, confesso, a perspectiva de encontrá-los no banheiro, como manchas hipertrofiadas de mofo, bolas de limo que se despregaram dos vãos dos azulejos brancos, aquelas pedras de açougue ou de morgue, não sei, estética dos anos cinqüenta, mania-de-moda-de-minha-avó-que-comandava-a-casa, não sei.

O bolo histérico, portanto, o frio na espinha, o medo, mas medo de quê, cacete, o mesmo medo que costumávamos ter lá na selva na noite escura quando não havia calendários, eu, você e o soldado, todos nós, o medo insistente, medo que nos preservou, medo que também nos destrói. Mas depois, as gargalhadas, acostumamo-nos ao absurdo. Depois de vermos um santo emergindo de uma poça, o que mais nos espanta? Depois de vermos uma pessoa pela metade num acidente de carro cantar antigos boleros com sorriso na boca cheia de dentes que mascaram cerejas, enquanto os paramédicos não chegam, o que mais nos espanta? Depois de vermos um homem, apenas um homem, dar conta de oito guardas, empurrando-os como se de isopor fossem, o que mais nos espanta? Depois de vermos a moça que tirou o coração do peito e o levou, caminhando até o trabalho de seu amado, envolto num lenço roxo, o coração ainda pulsante, ela ainda viva, o que mais nos espanta? Talvez um dia, as velas digam o que pensam da escuridão.

Certamente, não seriam os hipopótamos no banheiro. Não eles, plácidos, doces, escorregadios, mas ao mesmo tempo brutos como tanques de guerra.

Não os hipopótamos no banheiro, que ocupam todo o espaço, que pisam nos cadernos de jornal, não raro devorando notícias, que fazem tremer, quando pisam no chão, aqueles potes de vidro que insistimos em conservar, a título de guardar coisas, cotonetes, algodão, giletes, cartelas com pílulas e drágeas misteriosas, que a poeira, o tempo e o pó do talco, numa vil conspiração, ajudaram a apagar a serventia e a validade, tubos de pomadas e de cremes enrolados rocambolescamente, cadáveres de pentes desdentados, como os estudiosos guardam seus fetos nos laboratórios. Eles (os hipo, permita-me a intimidade, afinal de contas, é no meu banheiro que eles ficam, então…) devoram nacos de sabonetes, e até mesmo sabonetes inteiros, arrotando bolhas que, quando estouram, espalham cheiro de produto químico e de mato e de rio. Que fazem o cubículo que é o banheiro parecer ainda mais cubículo, parecer um cubo mágico sem cores, cubo mágico monótono, cubo mágico de neve, parecer grade e, ao mesmo tempo, selva. E eu fico fumando, encolhido num canto, parecendo um guarda-chuva, paralelo à parede, eu fico pensando em contas, no dentista, na pintura da casa, no cão, na minha tia que tem escoliose, nas suas coxas, mas o som do motor de um barco que não é e que não está recorta o balãozinho da minha mente, a folha é amassada e arremessada para o cesto de papéis, rapidamente, descrevendo bela curva, antes que os hipopótamos tenham tempo de abrir suas bocarras, com aqueles dentes de pilar, de banco de concreto de pracinha, e de confundir a esfera enrugada que outrora foi meu balãozinho de preocupações com algo comestível e mesmo delicioso. Delicioso como seu seio, que formou outro balãozinho, enquanto tento apagar o toco do cigarro, patético, agachado num canto, pois o cinzeiro, inalcançável.

Gostaria que você estivesse aqui, você e seu seio e suas coxas, observando comigo os bichinhos que não são nada pequenos. Por outro lado, gostaria também que houvesse um mar de espaguete, assim como há o de sargaço, e também gostaria de ver uma pessoa andando de patins e sumindo na esquina, tragada pelo ar, aparecer novamente no interior de um pote de picles, para o espanto de todos os que ainda esperam no salão do restaurante, discursando com voz de tenor, e com brilhantismo, sobre as mais recentes descobertas da meteorologia. Uma dança com quiabos, numa tribo pagã que cultua um deus que vive no interior de uma moita, um deus que não tem corpo nem esqueleto nem músculos nem pele, mas que tem vísceras e que brilha no escuro, um deus com globos oculares do tamanho de bolas de golfe, um deus que se transforma num pequeno lobo e que persegue virgens descalças nas noites chuvosas de dezembro, uma divindade que não fala, mas que tudo diz, batendo o dedo indicador nos lábios, fazendo biribiribiri, um deus que tudo sabe e que tudo vê, apesar da umidade e da fuligem das vidraças e da fumaça fedorenta dos carros. Os ladrilhos, um dia os ladrilhos racham, o piso arrebentando, repare nisso, os hipopótamos caindo, parecem bombas, os hipopótamos em queda.





Além da janela

29 10 2009

Tinha ido aos fundos da casa, não me lembro bem o que ia fazer. Há uma janela, no quarto onde durmo, que dá para os fundos dos tais fundos, e vi a gata olhando através do vidro, com seu típico olhar de dragãozinho– um misto de espanto e de indignação, mais espanto do que indignação– como que pensando “Como você chegou aí fora e por que eu não posso atravessar– ela bem que tentou, sem sucesso, obviamente e graçasaDeus– essa barreira de dióxido de silício, carbonato de sódio e carbonato de cálcio ?”

Então, é assim que venho me sentindo nessas últimas semanas, só que estou no quarto, por trás da barreira transparente, no lugar da gata, e não nos fundos– se bem que “fundos” é uma palavra sugestiva, pois remete facilmente à situação em que me encontro, desde que eu não seja otimista. E você, você sim, nos fundos, você, com olhar de dragãozinho, não eu, eu com olhar de gente que não achou o que procura, com olhar de mar em dia de chuva, com olhar de quem olha-mas-não-vê, portanto. Pra ser sincero, já estive mais otimista, porque ao escrever pela primeira vez, pouco tempo havia se passado e ainda era presente. Hoje o tempo, bem, ainda é presente, mas será novamente o que fica para trás dentro em breve. Escrito no calor das respostas do jogo, que me dizia para ser paciente, que seria difícil-coisa-e-tal, porém Kuma wins (ou melhor Kuma WILL win, o fim é o futuro, levando em consideração que, com pronúncia de locutor da BBC de origem asiática, “Cuma vil vin e, pasme, will também significa vontade, olhe só, veja você) já que o assunto é jogo.

Aliás, tudo é jogo e o start foi dado por mim, a primeira mão—seria legal se “mão” significasse “não”, “Você aceita uma água, um café?”, “Mão, obrigado, mais j’ai surtout faim”– e o engraçado é que não sei as regras, apesar da taumaturgia. Sendo assim, não sei se terá fim e como será esse ponto de chegada. Posso sair da mesa a qualquer momento, já que (De Molay) jogo sozinho e sou o inventor da manobra. Então, por que não saio, por que não peço licença à minha sombra– ela está lá, com certeza– e finjo que vou ao banheiro? Difícil de responder. Não sei a resposta assim como não sei as regras e provavelmente tal silêncio seja uma das regras que estão criptografadas em tinta de suco de limão num papel onde a caneta não tocou e cuja localização eu desconheço, afinal de contas, eu não escrevi coisa alguma, só pensei, mas pensar é pior, porque papéis se perdem, já pensamentos, reticências. Quem colocou você no jogo fui eu, acho que você não sabe—será mesmo?

Não sei por quê, mas suco de limão me lembra de fim de tarde e é justamente essa imagem sua que me vem à cabeça, a luz do sol poente escurecendo seu rosto–como um véu– em posição de efígie. Também me invade o você-deitada-no-chão-ao-que-parece, com jeito de princesa-que-desperta, sua boca– beijável ao extremo–, seus olhos que miram algo ao lado– estaria dormindo? Existe um vampiro de certa nacionalidade que dorme com um dos olhos abertos–, seu pescoço e, putaquepariu, gostaria de mergulhar nesse chão-ao-que-parece onde você está/ estava. Gostaria dos lençóis amassados paisagem-de-Marte e da conversa com seus cabelos castanhos cobrindo o rosto que nem assombração de filme japonês, cortina, cortina, das listras de zebra que a escuridão do quarto tatua no seu corpo, da preguiça depois do sexo e da voz em volume baixo e das risadas regando aqueles assuntos banais.

Paciência, dizia o jogo, só que não é fácil você ver cada dia se esvaindo e outro chegando com suas repetições monótonas, vídeo-tape. Você vê que nada mudou, você grita em silêncio—cacos de Clave de Sol– ao ver que tudo continua na mesma apesar de tudo o que foi feito, de todas as manobras (ao menos as que você conhecia), percebe que nem uma folha se mexe, que tudo está congelado a despeito do calor que faz lá fora, e dá uma ponta de tristeza, ah, se dá, e também cansaço. Só que você continua esperando, você sempre volta ao mesmo ponto e, no final das contas, nem sabe o motivo, talvez o medo do vazio, o medo de algo que não aconteceu, o medo uma oportunidade perdida, o medo de que uma lembrança se transforme apenas numa lembrança que se queda no terreno impalpável da mente– e esse é o inferno das lembranças, a única interação possível é lembrar, vira uma historinha e quem garante que ela não foi criada por você?, ainda mais depois de muitas voltas dos ponteiros–, um precipício, então você se agacha e manuseia fantasmas, procura por ar que se dissolve no ar, tenta moldar água e fica com as mãos vazias, mas trêmulas, como se estivessem tentando segurar um peixe. Então eu fazendo malabarismo com garrafas imaginárias, você dragãozinho, além da janela.





Estância dos cavalos selvagens

27 10 2009

Ontem, a noite derreteu, antes mesmo que a garrafa santa pudesse amamentar os filhotes de velas. As bocas, as bocas desses filhotes eram imundas, esfoladas, porém cuspiam beleza, mas o cuspe, o cuspe se desenrolou, célere, e então verde. Um homem, um homem andava pela rua, era tarde, as sombras cantavam, mas o muro sorriu e tudo se tornou cadeira.

Porque o vinho que tomo é o mesmo que foi tomado pelo anjo do vilarejo, que caiu, assim como eu caio, mas uma centopéia ativou os canhões e, naquele exato momento, a menina na montanha chorou. Toda a fumaça é forma geométrica e o som é ouvido como um sussurro, enquanto a penumbra estende sua única mão para abrir uma porta que não houve. A mosca percorre a superfície da maçã, e seu interior, onde as formigas sabem o que você faz e o que você vê, embora mintam nos momentos em que marcham debaixo da terra: lá estava uma antiga boneca com apenas um dos olhos e um vestido azul. Elas falam entre si, as formigas mas também as bonecas, através das antenas, e as palavras se encaixam, uma de cada vez, e sempre que uma palavra se encaixa com a outra, um polvo revolve o lodo do fundo.

Louvada seja a procissão na cozinha e que o pano preto sirva como estandarte e, tenha certeza, moça, de que os garfos ainda brilham, pois o homem que foi devorado pelo sanduíche não riu dos ossos na lixeira.

Eu tenho, em cima de um pasto, um cavalo, porque vi você na estrebaria, e vi quando você escovava seu pêlo. Eu tenho, atrás da cômoda, um machado, para matar as paredes, caso elas andem. Eu tenho, debaixo da cama, uma moeda com seu rosto gravado. No meu sonho, você veio até mim e um macaco balbuciou o primeiro verbo. Na gaveta do meu sonho, você derramava mel em seu corpo nu, mas cobria sua mente com folhas de videira, com medo de que eu visse seu destino. Houve uma mulher, há três mil anos, que perfurou seu destino com uma lança. Um padre decepou a boca e permaneceu em silêncio e um batalhão de cartas beijou o vento. Tudo cheirava à carne crua e laranjas, depois que o violoncelo se partiu. Ainda assim, as notas arranhavam o ar. Lindos, lindos aqueles olhos que só tem pupilas. Mas são tristes e talvez tenham raiva.

Veja os lagartos dançando em torno da fogueira! Eu desejei ver o que se passou antes de todos nós e foi tudo o que vi. Eles pareciam índios e havia pedras lá. Era noite e, por isso, o fogo. Não sei se era uma festa, se era um funeral, quem sabe um sacrifício? Quando eu despertei, havia um facho de luz, e o som da tv, o som do rádio, canções velhas e um locutor cansado, gente na sala. Era tarde, mas havia gente. Era tarde, mas havia vida e eu estava em casa.

O afogado espera no cais e tem algo importante a dizer. O que eu pensei ontem subiu numa espiral azulada, que se deteve diante do focinho do cão. Num almoço, o ancião disse, “O queijo se transforma em vermes no seu estômago”. Eu era uma criança e o dia começava a enferrujar. Quando eu for ao velho mundo, fará frio. Eu vi isso, no quarto escuro, à luz de velas, e o selo do disco de vinil. Você me entregou sua virgindade como num rito, mas não conteve o ódio do deus de espuma, porque tudo o que ele deseja é honestidade. Seus belos pés, entretanto, tocam as flores, e o caminho é longo, desde ontem. Chove agora e pretendo te alcançar.