Às onze horas da noite, em ponto, eu estava encostado no portão de madeira na entrada da casa de Luisa. Cinco minutos depois, estava fumando um cigarro—nada de Luisa aparecer, me irrito com atrasos–, antes do poste da esquina, portanto fora do cone de luz. Uma coisa seria a minha mãe saber que eu estava perambulando por aí depois das dez, justamente no dia de seu plantão, a despeito de tantas recomendações—ela é enfermeira–, outra bem diferente seria acrescentar o tabagismo à vadiagem noturna. Parece que em Direito, chamam isso de “Agravante”.
Quase onze e dez, quando percebo um brilho avançando pelo gramado, em direção ao portão onde estivera minutos antes, sujando minha jaqueta de limo e de lascas de tinta velha, Luisa e seu casaco prateado, você quer ser notada, podem vê-la assim até da lua, ah, ela disse, e talvez estivesse certa, porque o céu estava nublado, a lua não- visível, joguei a guimba do cigarro no asfalto, amassando-a com a ponta do tênis enquanto ela gemia seu tchi, lamento do cigarro que não quer morrer.
Luisa estava especialmente bonita naquela noite chuvosa e não sei por que pensei nisso e digo isso, só sei que quase não a ouvia contar o relato do dia que, segundo ela, fora “incrivelmente” agitado, eu apenas fotografava os detalhes de seu rosto na minha mente, talvez para lembrar, como estou fazendo nesse exato momento e, caramba, ela parece estar aqui ao meu lado, novamente, como naquela noite. Eram cerca de onze e meia. Vamos, eu disse, vamos mais rápido, temos que começar, no máximo, à meia-noite e meia.
Consegui fazer com que ela andasse mais depressa e não era difícil, porque Luisa sempre ganhava as competições no colégio. Por volta de meia-noite, chegamos ao celeiro abandonado, ele não ficava muito longe. Tínhamos tempo suficiente para fazer os preparativos. Sabendo da escuridão que encontraríamos lá dentro—eu havia checado na semana anterior–, sugeri que abríssemos nossas mochilas para verificar se tínhamos trazido todo o material necessário. Eu estava certo de ter feito a minha parte, mas sei que Luisa andava normalmente com a cabeça nas nuvens e a falta de um único item estragaria tudo, meses de pesquisa e de planos jogados no lixo.
Feita a verificação, avançamos terreno adentro e empurramos o tapume de madeira que cobria a entrada do celeiro. Um cheiro forte de mofo se espalhou pelo ar, junto com um bafo morno e naquele exato momento, alguns raios de luar conseguiram furar o bloqueio das nuvens. Antes de entrarmos, acendemos o lampião—não podíamos usar lanternas: tradicionalmente, era feito com lampiões ou velas, segundo pesquisei. Parece que a luz elétrica atrapalhava de alguma forma a operação. Penetramos no celeiro. Quem nos visse lá da calçada, no início do leve aclive do terreno à frente do celeiro, diria que fomos tragados pela escuridão.
Olhei para o relógio, meia-noite e vinte e seis, um bom horário. Lá dentro, apenas o som de inúmeras goteiras e da madeira que estalava em intervalos irregulares, coisas que contribuíam para dar um aspecto ainda mais solitário ao celeiro. Não entendo até hoje a razão daquele lugar ter ficado tanto tempo inativo. Nem os mendigos se atreviam a ficar ali. Um lugar maldito? Talvez… Pensei ter ouvido um miado, mas não vi gato algum. Luisa teve a mesma impressão. No chão, um verdadeiro tapete feito de tralha de todo o tipo, coberta de ervas-daninhas, e poças de água da chuva, então um tropeço aqui e ali. O celeiro era enorme e lembro que tivemos que parar para observar a lua através de um rombo no teto que fazia as vezes de uma clarabóia gigante. Lembro também de ter lido que o luar era um fator positivo para a operação, então agradecemos a sorte das nuvens de chuva terem ido embora.
Conseguimos achar um ponto onde o chão estava livre do lixo e ali nos sentamos, um de frente para o outro, mantendo uma distância de cinco metros entre nós dois, com o lampião no meio, conforme as instruções. Começamos a tirar o material de nossas mochilas e, para não haver dúvidas, trouxe comigo uma lista, que li em voz alta, enquanto Luisa conferia tudo novamente:
-uma boneca;
-um punhado de areia de lago e de lodo;
-mel;
-cinco velas pretas;
-um vidrinho com sangue- humano ou de animal;
-uma faca enferrujada—que devia ter ficado enterrada por uma semana;
-um pedaço de roupa de pessoa que tivesse morrido recentemente;
-um rádio de pilhas—uma inovação na prática: descobriu-se que a estática funcionava como um catalisador;
-uma mistura, em pó, que continha osso moído, purpurina, folhas de dormideira desidratadas e incenso, tudo dentro de uma caixa de madeira;
Luisa acendeu as velas enquanto eu espalhava a mistura em pó no chão, junto com a areia. Em seguida, Luisa untou a boneca com o lodo—as partes mais importantes da operação tinham que ser feitas pela mulher, que representava a sacerdotisa. Li que, certa vez, na falta de uma moça, um dos membros vestiu-se de mulher, usando inclusive maquiagem. Depois, Luisa tirou a blusa e o sutiã e espalhou o mel em seu colo e eu despejei o sangue do vidrinho nas minhas mãos. Era também Luisa quem tinha que desfigurar a boneca com a faca enferrujada e assim ela fez. Estávamos prontos enfim para começar nossas orações e foi o que fizemos, logo depois que liguei o rádio de pilhas e o deixei fora da estação, de modo que a estática pudesse soar.
Então era o som da estática se misturando com o som das goteiras, que por sua vez se misturava com o som das nossas respirações ofegantes e com os batimentos cardíacos acelerados. Apesar de todo o estudo, de todo o preparo, estávamos bastante tensos, era a nossa primeira vez.
Foi como se todos esses sons tivessem se calado simultaneamente, por um tempo que não sei precisar, até o ar ser sacudido por outro, um estrondo?, e aquele som que eu não sei descrever até hoje, som de dezenas de sussurros, som de água descendo com força pelo cano, som que era baixo, mas ensurdecedor, que fazia os tímpanos doerem e que dava chicotadas de frio, eriçava os pêlos do corpo. Então as gargantas secas, talvez mesmo aquele sabor-de-sangue-de-garganta-inflamada, e um cheiro de terra, de legume sujo, eu sei lá… As coisas que vieram, que saíram lá do fundo do celeiro, cambaleantes, algumas, algumas num rodopio frenético, elas eram escuras, mas se destacavam na treva, a escuridão em alto relevo, tivemos medo, mas também achamos bonito, lembro da Luisa rindo, só que algo não estava certo, não era apenas a sensação de descontrole que repentinamente tomou conta de mim, eu tentando lembrar da operação, de cada detalhe, parecia tudo certo, fizemos o que devia ter sido feito, seguimos as instruções à risca, tudo o que sempre foi feito, mas mesmo assim, espere, seguimos à risca?, Luisa, Luisa, por favor, Luisa, olhe pra mim, o que houve com os seus olhos?, me responde, o pedaço de roupa era de sua tia, não era?, como ela morreu mesmo?, não, não, você sabia, nós lemos tantas vezes, você leu tantas vezes que em hipótese alguma poderíamos usar o vestido de uma pessoa que morreu num acidente, e a boneca, a boneca desfigurada havia se erguido, Luisa se parecia com a boneca e a boneca se parecia com Luísa e já não era mais possível saber qual era Luisa e qual era a boneca.