Além da janela

29 10 2009

Tinha ido aos fundos da casa, não me lembro bem o que ia fazer. Há uma janela, no quarto onde durmo, que dá para os fundos dos tais fundos, e vi a gata olhando através do vidro, com seu típico olhar de dragãozinho– um misto de espanto e de indignação, mais espanto do que indignação– como que pensando “Como você chegou aí fora e por que eu não posso atravessar– ela bem que tentou, sem sucesso, obviamente e graçasaDeus– essa barreira de dióxido de silício, carbonato de sódio e carbonato de cálcio ?”

Então, é assim que venho me sentindo nessas últimas semanas, só que estou no quarto, por trás da barreira transparente, no lugar da gata, e não nos fundos– se bem que “fundos” é uma palavra sugestiva, pois remete facilmente à situação em que me encontro, desde que eu não seja otimista. E você, você sim, nos fundos, você, com olhar de dragãozinho, não eu, eu com olhar de gente que não achou o que procura, com olhar de mar em dia de chuva, com olhar de quem olha-mas-não-vê, portanto. Pra ser sincero, já estive mais otimista, porque ao escrever pela primeira vez, pouco tempo havia se passado e ainda era presente. Hoje o tempo, bem, ainda é presente, mas será novamente o que fica para trás dentro em breve. Escrito no calor das respostas do jogo, que me dizia para ser paciente, que seria difícil-coisa-e-tal, porém Kuma wins (ou melhor Kuma WILL win, o fim é o futuro, levando em consideração que, com pronúncia de locutor da BBC de origem asiática, “Cuma vil vin e, pasme, will também significa vontade, olhe só, veja você) já que o assunto é jogo.

Aliás, tudo é jogo e o start foi dado por mim, a primeira mão—seria legal se “mão” significasse “não”, “Você aceita uma água, um café?”, “Mão, obrigado, mais j’ai surtout faim”– e o engraçado é que não sei as regras, apesar da taumaturgia. Sendo assim, não sei se terá fim e como será esse ponto de chegada. Posso sair da mesa a qualquer momento, já que (De Molay) jogo sozinho e sou o inventor da manobra. Então, por que não saio, por que não peço licença à minha sombra– ela está lá, com certeza– e finjo que vou ao banheiro? Difícil de responder. Não sei a resposta assim como não sei as regras e provavelmente tal silêncio seja uma das regras que estão criptografadas em tinta de suco de limão num papel onde a caneta não tocou e cuja localização eu desconheço, afinal de contas, eu não escrevi coisa alguma, só pensei, mas pensar é pior, porque papéis se perdem, já pensamentos, reticências. Quem colocou você no jogo fui eu, acho que você não sabe—será mesmo?

Não sei por quê, mas suco de limão me lembra de fim de tarde e é justamente essa imagem sua que me vem à cabeça, a luz do sol poente escurecendo seu rosto–como um véu– em posição de efígie. Também me invade o você-deitada-no-chão-ao-que-parece, com jeito de princesa-que-desperta, sua boca– beijável ao extremo–, seus olhos que miram algo ao lado– estaria dormindo? Existe um vampiro de certa nacionalidade que dorme com um dos olhos abertos–, seu pescoço e, putaquepariu, gostaria de mergulhar nesse chão-ao-que-parece onde você está/ estava. Gostaria dos lençóis amassados paisagem-de-Marte e da conversa com seus cabelos castanhos cobrindo o rosto que nem assombração de filme japonês, cortina, cortina, das listras de zebra que a escuridão do quarto tatua no seu corpo, da preguiça depois do sexo e da voz em volume baixo e das risadas regando aqueles assuntos banais.

Paciência, dizia o jogo, só que não é fácil você ver cada dia se esvaindo e outro chegando com suas repetições monótonas, vídeo-tape. Você vê que nada mudou, você grita em silêncio—cacos de Clave de Sol– ao ver que tudo continua na mesma apesar de tudo o que foi feito, de todas as manobras (ao menos as que você conhecia), percebe que nem uma folha se mexe, que tudo está congelado a despeito do calor que faz lá fora, e dá uma ponta de tristeza, ah, se dá, e também cansaço. Só que você continua esperando, você sempre volta ao mesmo ponto e, no final das contas, nem sabe o motivo, talvez o medo do vazio, o medo de algo que não aconteceu, o medo uma oportunidade perdida, o medo de que uma lembrança se transforme apenas numa lembrança que se queda no terreno impalpável da mente– e esse é o inferno das lembranças, a única interação possível é lembrar, vira uma historinha e quem garante que ela não foi criada por você?, ainda mais depois de muitas voltas dos ponteiros–, um precipício, então você se agacha e manuseia fantasmas, procura por ar que se dissolve no ar, tenta moldar água e fica com as mãos vazias, mas trêmulas, como se estivessem tentando segurar um peixe. Então eu fazendo malabarismo com garrafas imaginárias, você dragãozinho, além da janela.





Estância dos cavalos selvagens

27 10 2009

Ontem, a noite derreteu, antes mesmo que a garrafa santa pudesse amamentar os filhotes de velas. As bocas, as bocas desses filhotes eram imundas, esfoladas, porém cuspiam beleza, mas o cuspe, o cuspe se desenrolou, célere, e então verde. Um homem, um homem andava pela rua, era tarde, as sombras cantavam, mas o muro sorriu e tudo se tornou cadeira.

Porque o vinho que tomo é o mesmo que foi tomado pelo anjo do vilarejo, que caiu, assim como eu caio, mas uma centopéia ativou os canhões e, naquele exato momento, a menina na montanha chorou. Toda a fumaça é forma geométrica e o som é ouvido como um sussurro, enquanto a penumbra estende sua única mão para abrir uma porta que não houve. A mosca percorre a superfície da maçã, e seu interior, onde as formigas sabem o que você faz e o que você vê, embora mintam nos momentos em que marcham debaixo da terra: lá estava uma antiga boneca com apenas um dos olhos e um vestido azul. Elas falam entre si, as formigas mas também as bonecas, através das antenas, e as palavras se encaixam, uma de cada vez, e sempre que uma palavra se encaixa com a outra, um polvo revolve o lodo do fundo.

Louvada seja a procissão na cozinha e que o pano preto sirva como estandarte e, tenha certeza, moça, de que os garfos ainda brilham, pois o homem que foi devorado pelo sanduíche não riu dos ossos na lixeira.

Eu tenho, em cima de um pasto, um cavalo, porque vi você na estrebaria, e vi quando você escovava seu pêlo. Eu tenho, atrás da cômoda, um machado, para matar as paredes, caso elas andem. Eu tenho, debaixo da cama, uma moeda com seu rosto gravado. No meu sonho, você veio até mim e um macaco balbuciou o primeiro verbo. Na gaveta do meu sonho, você derramava mel em seu corpo nu, mas cobria sua mente com folhas de videira, com medo de que eu visse seu destino. Houve uma mulher, há três mil anos, que perfurou seu destino com uma lança. Um padre decepou a boca e permaneceu em silêncio e um batalhão de cartas beijou o vento. Tudo cheirava à carne crua e laranjas, depois que o violoncelo se partiu. Ainda assim, as notas arranhavam o ar. Lindos, lindos aqueles olhos que só tem pupilas. Mas são tristes e talvez tenham raiva.

Veja os lagartos dançando em torno da fogueira! Eu desejei ver o que se passou antes de todos nós e foi tudo o que vi. Eles pareciam índios e havia pedras lá. Era noite e, por isso, o fogo. Não sei se era uma festa, se era um funeral, quem sabe um sacrifício? Quando eu despertei, havia um facho de luz, e o som da tv, o som do rádio, canções velhas e um locutor cansado, gente na sala. Era tarde, mas havia gente. Era tarde, mas havia vida e eu estava em casa.

O afogado espera no cais e tem algo importante a dizer. O que eu pensei ontem subiu numa espiral azulada, que se deteve diante do focinho do cão. Num almoço, o ancião disse, “O queijo se transforma em vermes no seu estômago”. Eu era uma criança e o dia começava a enferrujar. Quando eu for ao velho mundo, fará frio. Eu vi isso, no quarto escuro, à luz de velas, e o selo do disco de vinil. Você me entregou sua virgindade como num rito, mas não conteve o ódio do deus de espuma, porque tudo o que ele deseja é honestidade. Seus belos pés, entretanto, tocam as flores, e o caminho é longo, desde ontem. Chove agora e pretendo te alcançar.





Entre o Branco e o Azul

3 10 2009

Não fosse a insônia, eu estaria dormindo. O teto então é uma tela onde se projetam minhas preocupações. As preocupações, elas gostam de se aninhar nos nossos cobertores quando percebem que não há sono, que os olhos estão abertos (por trás das pálpebras, os olhos estão sempre abertos); elas gostam do escuro. Uma forte trovoada acaba de fazer a casa tremer. A casa: a nova casa, estou aqui há uma semana. Passei os últimos seis meses no Pólo Sul. Aproveitei o fim do meu casamento. A separação mais a vontade de exílio foram o meu combustível. Seria mesmo capaz de continuar por lá. Só que a pesquisa terminou. Agora me ocorre que eu poderia ter dado um jeito de ficar. Bastava fugir do acampamento, construir um abrigo. Viver de caça e de pesca. Morrer de frio. Uma sepultura congelada.

Apesar da trovoada, ou melhor, das trovoadas, estourou mais uma agora, Nina nem se mexeu. Nina está ao meu lado, aqui na cama. Minha ex-esposa. A outra cama, a de hóspedes, não foi montada, portanto, ela ao meu lado. A separação foi amigável e ela tem me ajudado com a mudança. Por que o casamento acabou?- a pergunta me veio agora. Tudo vem com a insônia, menos o sono, que é o que me interessa. Se sono pudesse ser comprado… Até pode, tarja preta, mas eu não gosto dessas porcarias. Acordo torto, com a sensação de ter carregado um filhote de elefante na minha cabeça- depois de ter bebido várias doses de uísque. Pra ser sincero, nem sei direito porque nos separamos. Você consegue explicar tudo o que faz, tudo o que passa em sua cabeça? Eu não. Sei lá, não deu certo. Eu tenho sido meio rude nos últimos anos, parece que desaprendi toda sociabilidade que conhecia. Não era assim quando eu era mais jovem, eu era mais simpático, mais… como poderia dizer, leve? Talvez, leve. Acho que por isso encarei bem a minha estada naquele deserto gelado. Nina tem sido maravilhosa, mas às vezes até a presença dela me incomoda um pouco. Perdi o tato, desaprendi a lidar com companhias. Sozinho me sinto normal.Virei um ermitão.

A casa é velha, início do século XX. Na verdade, um casarão, sobrado, muito bonito. Conservado, apesar do tempo, precisou de umas reformas- que estão sendo feitas a toque de obra de igreja graças a minha preguiça. Tem um porão enorme que, curiosamente, não estava abarrotado de tralhas deixadas pelos antigos moradores- velhas cadeiras de balanço, relógios de parede, caixotes, brinquedos quebrados, álbuns de fotos esquecidos. Com isso, não tivemos trabalho de jogar coisas fora ou de empilhar a tralha legada em algum canto. E foi uma casa bastante habitada, parece que três famílias moraram aqui ao longo do século passado: a família que construiu a casa e mais duas. Perguntei ao corretor o motivo das mudanças, ele não soube responder. Imaginei se teriam sido causadas por problemas e que tipo de problemas seriam. Lembrei de Amytiville. Quando contei isso à Nina, ela me disse “Você é tão infantil…” Ora, fantasmas não são problemas? Em Amytiville foram um puta problema. Quem leu o livro ou viu o filme sabe do que estou falando.

Dizem que, nos casos de insônia, o melhor a fazer é sair do quarto, procurar alguma atividade e só voltar quando o sono dá as caras. É o que vou fazer. Quando passo pelo corredor em direção à escada, um flash de luz azul chicoteia o ambiente, TASH- há uma janela no fim do corredor, com um vitrô bem bonito. Paro e fico olhando a janela por uns instantes. Fumar, lembro do maço de cigarros que está no meu escritório- ou futuro escritório, dadas as condições nada amigáveis em termos de organização. Abro a porta, ou melhor, ia abrir, porque já está aberta- eu não tinha fechado? Ah, o vento. Pego o maço de cigarros e o isqueiro, volto ao corredor e começo a descer a escadaria. A madeira range um pouco, mas quase não faz barulho, por causa do temporal. Alguma corrente de ar traz o cheiro da chuva lá de fora. Gosto do cheiro da chuva.

Estou no hall, que é também açoitado pelos flashes azulados relampadejantes e sigo em direção à cozinha. Um chocolate quente vai cair bem. Chocolate quente, um cigarro, talvez ler alguma coisa, hum, os livros estão ainda num caixote, no porão.

Começo a aquecer o leite, já peguei a lata de chocolate em pó e procuro a caneca. Não está na pia, não está nos armários, onde está a caneca? Teria deixado a caneca em outro cômodo? Não é impossível. Nina reclamava disso. Ainda reclama, aliás. Ela diz “Você está bagunçando sua casa antes mesmo de terminar a arrumação. Como consegue?” Não sei, Nina, mas eu consigo. Droga de caneca. Estando acordada e observando a cena Nina diria “Droga de desleixo seu, não droga de caneca!” Engraçado, agora me ocorre que eu não tinha insônia enquanto estávamos casados.

Se não tenho caneca, tenho copos. Beber numa caneca é mais charmoso, mas o chocolate quente será bebido de qualquer maneira. Será que deixei a caneca no porão? Pode ser. Como tenho que ir lá para buscar um livro…

Porão. Acendo a luz, o comutador está perto da porta. A lâmpada é muito fraca, quase não ilumina e o espaço é grande, tenho que trocar. Cheiro de mofo, forte, mas que não há de sobreviver às naftalinas e sprays. Quantas caixas. Graças à praticidade de Nina, não será difícil achar os livros, porque ela escreveu no papelão “Livros”. Realmente, foi fácil de achar. Na caixa ao lado está escrito “Coisas”. Rá. “Coisas”!

Tomei um susto porque agora com o relâmpago percebi uma mancha escura na parede e sei que aquela mancha não estava lá. Seria uma infiltração, por causa da chuva? Quem sabe a sombra de algum caixote ou de algo lá fora… Tenho um gato preto, Prix, mas ele é pequeno e estava lá no quarto. Fechei a porta quando saí. Sei que gatos pulam e abrem a maçaneta, já vi Prix fazer isso, só que…

Vou me aproximando aos poucos da parede e, forçando os olhos, reparo que não é uma mancha, mas um buraco. Impossível. Seria sonho? Não, estou racionalizando demais as coisas. Meus sonhos são completamente loucos, sem pé nem cabeça, como visões de ácido. Paro em frente do buraco e percebo que não é bem um buraco, mas uma porta. É como se houvessem recortado a parede, porque não há batente como existe numa porta, mas o formato é de porta. Não há rachaduras, é uma abertura perfeita, as bordas são lisas como se muito bem cimentadas. Uma corrente de ar quente me atinge, primeiro meu rosto, e vai envolvendo meu corpo, não é quente demais, é morna, é agradável. Forço um pouquinho mais os olhos e acho que consigo enxergar uma luminosidade muito fraca lá dentro, algo entre o branco e o azul.

Antes de entrar estendo um braço para verificar a altura do interior. O teto não é baixo, embora a altura da porta não ultrapasse a minha cintura. Entro e mexo novamente com os braços, para cima e para os lados, procurando tatear alguma coisa. As paredes laterais também são distantes uma da outra. Que coisa estranha! Não sinto medo. Apenas curiosidade. Sinto- não sei explicar como- que tenho companhia, ou seja, que vou encontrar alguém quando me aproximar daquela luz que está a alguns metros à minha frente. Conforme ando- devagar, porque pode haver algum buraco no chão- vou percebendo que no fim desse corredor não muito longo existe uma outra “porta”, melhor seria dizer “passagem”, aparentemente idêntica à da entrada, mesma altura, coisa e tal. Chego à passagem e agora me agacho, porque a abertura é baixa, tal como a primeira porta. A luz que ilumina o interior dessa câmara é fraca, só que é possível ver tudo, e sem sombras, o que me deixou maravilhado. É um ambiente relativamente grande.

Agora, o que me deixou maravilhado mesmo foi a visão de, como dizer, as palavras fogem justamente quando mais precisamos delas, penso novamente em Nina que dorme lá em cima e nem sonha com isso tudo aqui, penso nas justificativas que eu poderia ter dado, que eu saberia dar, mas que desaguaram em mutismos, em caras e bocas de “não sei”, como dizer, eu dizia, a visão de uma reprodução perfeita da casa, da minha casa, lá estavam todos os cômodos- inclusive o porão e reparei que havia lá também uma abertura- era como uma casa de bonecas, que não tem a parede dos fundos e cujo interior é visível e manipulável. Então a menina brinca com as miniaturas de móveis e de objetos, pois é isso que eu vejo, os móveis em miniatura, tudo em miniatura, ou melhor, não chegavam a ser miniaturas, mas feitos numa escala menor. Móveis para crianças. Ou para anões.

O mais incrível de tudo é que mesmo todas as coisas que ainda não foram desembaladas estão aqui, é como se eu estivesse diante de um inventário materializado. Há aqui uma estante e nela estão todos os meus livros, por ordem de assunto e não de nome de autor, como eu costumo organizá-los. Na miniatura de cozinha, um fogão, onde ardia uma leiteira. A lata de chocolate em cima da pia. Na mesa, minha caneca, em miniatura. Ao lado da minha casa em menor escala, minha caneca verdadeira. Minha caneca verdadeira é feita de louça marrom escura. Na louça, marcas de dedos, dedos pequenos.

Uma voz invadiu minha cabeça, enquanto eu pegava minha caneca, uma voz cujo sexo não pude identificar. Disse a voz: “Eles estão aqui antes mesmo da construção da casa e imitam a vida de seus habitantes.” De repente, pensei ouvir a voz de Nina. Mais uma vez. Depois ouvi Prix miando. E novamente a voz de Nina.

Fui me afastando de costas, como se estivesse diante de um rei. Eu não tinha medo, como expliquei antes, estava maravilhado com tudo o que via, exatamente como eu costumava me sentir nas noites de Natal, quando eu era apenas um garotinho. Ao mesmo tempo em que sentia uma necessidade de voltar lá para cima, queria ficar e olhar mais. Queria ver quem eram “Eles que estão aqui mesmo antes da construção da casa”. Mas eu continuei me afastando até chegar à passagem de entrada. Caí sentado e quase que a caneca se espatifou. Rolou até bater num dos caixotes atrás de mim, fazendo um barulho engraçado. É a voz de Nina mesmo, não é impressão. Prix mia novamente.

Subo, dirijo-me à cozinha e encontro uma Nina com cara de sono e de zangada ao mesmo. “Você esqueceu o leite no fogão. Onde você estava?” Eu ergui a caneca e disse que a tinha esquecido no porão. “Qualquer dia você vai esquecer sua alma em algum lugar” e meneou a cabeça negativamente. Colocou mais leite na leiteira e começou a esquentá-lo. Ligou o rádio, que emitiu uma música antiga. Prix aproximou-se de minhas pernas, ronronando, com seus olhos de farol. Não contei o que vi porque Nina é extremamente cética. Para ser sincero, nem eu sei se acredito no que eu vi. Na minha cabeça lateja a dúvida. No meu peito, brilha uma luz fraca, entre o branco e o azul.





3

25 06 2009

Uma estranha concentração de pessoas numa madrugada de quinta-feira na porta de um restaurante que serve pratos mediterrâneos- ao menos no cardápio e no sotaque snob do garçom- não chamou atenção alguma da imprensa, que por sinal não estava presente na festa comemorativa-e-à fantasia dos três anos de aniversário do blog O Sublacustre. Na vitrine do restaurante, cuja vidraça encontra-se num tom tabaco muito provavelmente por conta dos fumos que insistem em escapar da cozinha que fica no mezanino, estava um cartaz feito de pano de prato, daqueles de origem hippie e até mesmo mambembe-alternativa, no qual era possível ler, em letras panais- pois se garrafais fossem, seria justo que estivessem gravadas numa garrafa- “Traje livre; use qualquer coisa, desde que o tema seja subaquático”.

Na calçada em frente ao restaurante jazia um sofá vermelho, cujo forro do acento estava rasgado, e uma mola emergia dessa fenda tal qual um bicho saindo de uma maçã- o sofá era vermelho, o vermelho é uma cor erótica e todo mundo sabe a que uma maçã cortada ao meio remete (assim como as orquídeas e as ostras, que são ligas metálicas igualmente afrodisíacas). No entanto, isso não interessa, porque o sofá não disse a que veio, certamente por timidez. Pode ser até o caso do sofá ser um agente secreto, vai saber? Ainda assim, isso realmente não tem interesse algum para os nossos propósitos.

De fato, muitas pessoas que estavam no interior do restaurante trajavam roupas de feição subaquática: a maioria, de homens-rã, uma minoria, de escafandro, por causa do tempo abafado, o que é perfeitamente compreensível. Apenas as garçonetes usavam trajes, digamos, terrestres: 1/3 do corpo servente vestia uniforme de cheerleader, o outro terço, uniforme de amazona, e o terço restante, que não era a banda de brazilian prog rock nem o objeto religioso, biquíni de peças amarelo-canário. Estavam uma graça, por sinal. E eram habilidosíssimas com as bandejas, aquelas adoráveis mocinhas.

A festa teve três partes. Na primeira parte, um coquetel, onde foram servidos canapés de espaguete à carbonara (linguiças subversivas que viviam nas florestas alemãs e italianas), croquetes de camarão com bife, sanduíches chineses do tamanho de uma cabeça de alfinete- sabor não identificado- e pizza de tamarindo. Pães fariam parte do cardápio, mas o Padeiro Lagosta comera tudo outra vez, aquele malandrão. Para beber, vodka à milanesa e água insípida e inodora. O autor, que fez um discurso na terceira e última parte da festa, bebeu com moderação, mas ficou tonto depois de dar algumas voltas na cadeira giratória, por causa de uma discussão a respeito de geometria Não- Euclidiana que teve com uma mosca. O som ficou ao cargo dos maravilhosos, fantásticos, monstruosos, nojentos, absurdos e impagáveis (o cachê é caríssimo, até o 20° aniversário quitamos, Deus é pai) caras do Mean Dad’s Combo, banda obscura de jazz-blues-rock-tecnho-dodecafônico. Um momento igualmente impagável- e inesperado- foi o cozinheiro incorporando Stockhausen e dando um concerto para dois garfos e um açucareiro . Houve ainda participações especiais do Residents, Katy Perry e do Tutuca, cantando Unchained Melody, como nos bons tempos do teatro de magazine. Um homem que entrou por engano no restaurante foi confundido com o Walmor Chagas e ovacionado: isso aconteceu exatamente às 3:00 da madrugada e todos pensaram que se tratava de uma das surpresas da festa. Mas não foi. Ah, sim, não falamos sobre a segunda parte da festa. Na segunda parte da festa, o autor distribuiu autógrafos, usando uma caneta de nanquim fosforescente. Depois de duas horas e meia de autógrafos, o autor declarou, com a mão enfiada numa terrina de patê gelado: “Meu pulso não doía desse jeito desde a adolescência”.

Os convidados receberam brindes, é claro, não usufruíram apenas da boca-livre que nos custou os olhos da cara- redigi este artigo usando os olhos que peguei emprestados com meu caracol: algas lacustres, feitas de açúcar e espinafre (sabor hortelã strong, do tipo black Halls) e canecas para cerveja sem fundo.

A festa terminou quando os primeiros raios de sol já pingavam no asfalto e só terminou ja auch por causa do número realmente expressivo de reclamações da vizinhança. A palavra “balbúrdia” apareceu em 300 das 234 reclamações, de acordo com o telefonista da polícia, que ficou com as orelhas em pandarecos.

Pois é, acabou (Parabéns, Sublacustre), terminou, ano que vem tem mais, a vida é assim mesmo, c’est la vie, não se vive só de festa, voltemos ao trabalho, felizes são os caras do Kiss que têm rock’n’roll toda noite e party todo santo dia ( incluindo os dias pagãos). Faltam apenas 364 dias para a próxima festa. Nos vemos lá. Beijos (e abraços e, e) para as mocinhas e cumprimentos cool humphreybogartianos para os brotha.





Sobre uma jangada de pães, e sobre Karla

19 06 2009

Impossível esquecer aquele inverno, aquela semana tão curta, quando tudo começou de repente, uma coisa aqui, outra ali, sem combinação aparente, mas com cheiro de conspiração no ar, conspiração metafísica, porque tudo parecia orquestrado, mas por outro lado, as pessoas envolvidas, era como se elas não tivessem a mínima idéia a respeito do que faziam e por que faziam, elas agiam simplesmente a partir de um impulso extremamente forte e de origem desconhecida e é exatamente aí que entra a idéia de algo arquitetado por alguém exterior- ou por alguma coisa exterior; por coisas…

No entanto, uma conspiração serve para alguma coisa, uma conspiração tem um fim, só que não sei dizer que finalidade essa conspiração em particular teve, se é que foi de fato uma conspiração. Eu não sei, fico confuso quando penso sobre isso. Dizem que às vezes é melhor não saber e eu não sei se concordo com isso, acho que não, porque certas dúvidas são uma merda, elas podem te corroer até você ficar oco como uma cabaça. Nisso sou mestre, só não fiquei oco porque me alimento muito bem, aprendi a recuperar pedaços meus, tal como alguns animais são capazes de fazer, e tenho aquela coisa esquisita e louca dentro de mim- e às vezes fora- que chamam de esperança. Pode ser o caso também de não ser exatamente esperança e sim teimosia, até mesmo burrice, mas, sei lá, pode valer à pena: a causa me parece nobre.

Foi numa terça-feira e o primeiro a ser atingido por aquela aparente epidemia de insanidade foi o Juca que, do nada, começou a quebrar sua casa com o objetivo de transformá-la numa catedral gótica. Nas primeiras horas, a esposa do Juca, uma enfermeira chamada Deise- que era gostosa e figurava nas fantasias da molecada da época, eu incluído- até aturou as marteladas, mas fugiu no meio do jantar, depois que Juca usou o purê de batatas para fazer a estátua de uma quimera.

Na quarta-feira, foi a vez do Dr. Mauro, que construiu um tanque no meio de seu jardim com o intuito de criar tubarões. Como a cidade ficava bem distante do litoral, não demorou a desistir da idéia. No entanto, pegou seus pertences mais caros, colocou-os numa mala e mudou-se para o tanque- vazio, lógico, já que ele não era um tubarão.

Na quinta-feira, Marlene, uma pacata e reservada professora de matemática começou a andar pelas ruas da cidade imitando coreografias de antigos musicais. Nesse mesmo dia, Gilberto, dono de uma granja, invadiu a emissora de rádio local e recitou um mesmo poema de Casimiro de Abreu quarenta vezes. À noite, quando o restante da população atônita pensou que nada mais iria acontecer, Túlio, o dono da lanchonete, colocou uma escada no topo de seu telhado, pois queria subir aos céus para beijar a lua.

Sexta-feira, treze- será que…?-, e a cidade ficou com o café da manhã incompleto, sem os pães, porque João, o padeiro, levou-os para a lagoa e resolveu construir uma jangada com eles. É claro que João afundou rapidamente- deve ter sido o naufrágio mais rápido de toda a história náutica- e aquele deve ter sido o dia mais feliz das vidas dos peixes e dos patos. À tarde: pessoas que passeavam no campo refugiaram-se apavoradas num celeiro porque afirmaram ter sido prontamente atendidas num órgão público. Noite: Dona Flauzina acorda a família inteira ao despertar batendo palmas. Levanta-se da cama, entra no quarto de seu filho que estava fora, na faculdade, e pega a gaita do rapaz. Tocando cantigas de roda, do tipo “Escravos de Jó”, caminha até a sala, como uma sonâmbula, acompanhada de perto por seu marido e filhos boquiabertos, até recostar-se na poltrona e cair num sono profundo. No dia seguinte, rouba o boneco de plástico de seu filho caçula, o Marinho, e o envolve com uma antiga manta, empoeirada e de um azul desbotado. Sai em ritmo de procissão pela cidade até se fixar no coreto, dizendo a todos que aquilo que ela carregava não era um boneco de plástico, mas sim o Menino Jesus de Willoughby, que viera salvar as pessoas solitárias, os filhotinhos de cães e as sementes de mostarda, conforme havia visto em seu sonho.

Como vocês puderam notar, nada de realmente grave aconteceu, exceto um homem que foi agredido por uma sopa. A coisa não parou na sexta-feira, o sábado foi igualmente marcado por ocorrências insólitas. A questão é que nada vi, porque foi justamente nesse dia que aconteceu minha primeira experiência sexual, que foi também insólita, não porque eu e ela tenhamos feito coisas tão bizarras na cama (algemas, cremes, livros de auto-ajuda, teatro engajado, você sabe), mas porque começou de um modo não convencional. Nessa época eu era um adolescente que tinha acabado de descobrir o sexo- mas não de decifrá-lo-, cheio de fantasias e ansiedades, ou seja, mais ou menos como sou hoje.

Karla, chamava-se Karla e tudo o que eu sabia sobre ela era uma meia-dúzia de coisas, das quais no mínimo três eram mentira. Ela era mais velha, já estava na universidade e só sei que eu ainda não havia me levantado da cama- falta de coragem, era inverno- quando ouvi um barulho que vinha da minha janela. Ao olhar, lá estava ela, Karla. Ela era tão bonita e eu estava tão surpreso e excitado- havia acabado de acordar, logo…- que nem sei descrever que tipo de roupa ela estava usando. Ela se aproximou da minha cama com a rapidez de um relâmpago e ao mesmo tempo com a leveza de um praticante de Tai Chi Chuan e me beijou antes que eu pudesse falar alguma coisa, é claro, e se eu fosse tão loquaz quanto um Fidel Castro?, ela estaria esperando até hoje, isso já faz uns trinta anos e hoje ela já deve ser avó. Foi tudo muito rápido e muito bom, as roupas dela, que não sei descrever até hoje, caindo no chão como meteoritos, o meu ridículo pijama. Jamais vou me esquecer dos cabelos dela, castanhos, do cheiro que tinham, leve perfume misturado ao perfume natural, the best of all. Dos olhos pretos, dois céus noturnos. De seus ombros alvos, macios e quentes, que os raios de sol invasores do quarto tentavam beijar com tanta sofreguidão quanto a minha boca trêmula. De seu colo, dos seios, das coxas. Do seu sexo, do momento em que me senti homem de verdade, finalmente, sensação de (re)encontrar um abrigo e um calor iniciáticos que eu buscaria para sempre a partir dali. Dos gemidos e do grito último, mas não menos importante. E ela se foi, assim como chegou, pela janela, sem explicação. Nunca mais a vi.

Naquela sábado, portanto, nada vi, por ter visto muita coisa, mais do que eu poderia imaginar. No domingo, tudo voltou ao normal. Nada de pessoas navegando em pães ou de cenas de filme mudo. Todos evitaram o assunto- ninguém se arriscou em aprofundar investigações- e seguiram suas vidas. Lá se vão trinta anos, nos quais nada demais aconteceu, além da rotina, que de tão chata chega a ser absurda, e que por isso, também parece fruto de um motim cósmico.





Intervalo

14 06 2009

Senti um vento muito frio bater em meu ombro e estranhei, porque fazia sol e não vi nenhuma folha que cobria o chão se mexer. Me virei para perguntar à Lilian se ela havia reparado na repentina lufada de vento quando vi um teto pintado de branco com pequenas rachaduras e ouvi um som agudo que aumentava de volume. O despertador, meu quarto- se ainda fosse a Casa da Salamandra de Lisieux- e a mão gelada de Sofia pousada em meu ombro. O “você nunca ouve o despertador” misturou-se ao cheiro de amaciante e de cabelo do lençol como o chocolate em pó se mistura ao leite. Na minha época, as pessoas costumavam dar bom dia. Hoje, as coisas mudaram e estamos casados há x anos. Ah, sim, o vento frio, mas o caminho repleto de folhas e o sol de inverno junto com a Lílian ficaram para trás. Restava o banho frio- porque era verão. Mais o café, as torradas, uma conversa que não ia muito longe- caminhada de monossílabos que quase não venciam as barreiras do jornal e da revista de fofocas- e o ônibus bege a caminho do centro da cidade.

Foi logo após o acesso de tosse, eu esperava outra coisa, não me espantaria nem mesmo em expelir sangue, após tantos anos enchendo e esvaziando cinzeiros. Tenho certeza de que não foram aquelas estrelinhas que você vê depois que comprime os olhos, tenho certeza de que foi uma palavra, quem sabe um nome, mas não digo nem morto que palavra nem que nome eu vi, porque sou discreto e não quero comprometer ninguém, ainda que esse alguém seja uma mera palavra (infelizmente, é muito mais do que isso). As palavras, pude perceber, têm a capacidade de flutuar e brilham, o que me remeteu a um daqueles seres que vivem nos abismos marinhos, aqueles que nadam em câmera lenta, sós, completamente sós e que lembram lenços agredidos por arame farpado. Eu descobri tudo isso no momento em que vi a palavra e comecei a acreditar naquelas teorias que falam a respeito da relatividade temporal.

Eu não tinha muito o que fazer além de observar a danada da palavra que flutuava como um peixinho por cima da pia de aço inoxidável. Eu poderia ter chamado a Sofia, mas provavelmente ela já estava debaixo do chuveiro recitando listas de compras e, além disso, eu senti que uma certa privacidade entre nós, entre mim e a palavra, era necessária. Tive medo da chegada da Sofia espantar a palavra. Imaginei o silêncio sepulcral invadindo a cozinha, subindo do chão para o teto, como um gás, sobrepondo-se ao silêncio pré-existente, formando uma pilha de silêncios que, cedo ou tarde, nos esmagaria. Um pouco de egoísmo também, eu confesso. Não tive vontade de compartilhar aquele momento com mais ninguém. Eu e a palavra, éramos suficientes, nos bastávamos, o mundo podia acabar lá fora, ficaríamos só nós dois, eu a palavra: eu, parado, em pé, com um pano de prato pendurado no ombro e as roupas em desalinho, e ela, a palavra, dançando o seu balé aéreo.

Notei um detalhe: a danada da palavrinha não projetava sombra e também tinha uma área transparente nas bordas de cada letra que a compunha. Mantenho a idéia de não dizer nada a respeito do significado da palavra (guardo-o como um alquimista), portanto, limitar-me-ei ao terreno da fisionomia. Como sou bom fisionomista, estou certo de que o relato terá algum interesse e sua leitura será menos maçante do que a leitura da seção de economia. O que posso dizer das cores? Pelo menos cinco delas compunham a pigmentação da pele da palavra e eu nunca as havia visto antes. Enquanto eu tentava confirmar o ineditismo daquelas cores, fui pego de surpresa por um novo acesso de tosse.

Eis que expeli uma nova palavrinha, que logo se juntou à primeira. O movimento das duas formava o símbolo do infinito no ar. Qualquer pessoa entraria em pânico, mas aquilo foi motivo de felicidade. Foi um grande alívio porque durante anos eu imaginei que era incapaz de falar. Sim, eu era capaz de ouvir o som da minha própria voz e recebia respostas (muitas foram evasivas, mas dane-se, se responderam é porque ouviram). Também tive oportunidade de gravá-la. O problema é que muito do que eu disse num caso em particular não foi ouvido, por isso, a desconfiança. Pior, não foi registrado. Foi como se eu não tivesse aberto a boca. Ou então tudo o que eu disse foi tomado como polidez e até mesmo mentira e, consequentemente, esquecido. E eu sei que expeli aquelas palavras espontaneamente. Agora eu me recordo: elas formaram no ar figuras ainda mais belas do que a do infinito, porque o infinito é um pouco assustador. Não houve ensaio. Eu não irritei a minha garganta para forçar a tosse. Demorei para descobrir que as minhas palavras não surtiram efeito algum. Eu cheguei a desconfiar disso, mas, como dizem, a esperança é a última que, então eu esperei durante um longo tempo, até constatar que eu entrei naquela história mudo e saí calado. Outras palavras foram ditas, não por mim, por outros, palavras parecidas, sinônimos, e foram registradas, por isso pensei: o problema é meu. Eu é que sou mudo. Não compreendi a dor. Eu a entenderia, caso tivesse reprimido a dança das palavras. O acúmulo delas na minha garganta, a pressão, sim, nesse caso, faria sentido. A dor ainda incomoda, como aquele cano que range na madrugada, aquele móvel que estala. Mas não me assusta mais. Não me surpreende.

A dupla de palavras começou a voar em círculos perto da janela da área, que estava fechada. Senti que elas queriam sair, porque se aproximavam do vidro e o tocavam com seus cílios quase transparentes. Tive um impulso de atraí-las para o meu bolso. Mas como? Com alguma isca, uma guloseima. Mas o quê? O que palavras comem? Então percebi o quanto esse ato seria egóico. Estendi as mãos e afastei delicadamente as palavras do vidro; pude até sentir seus cílios tocando o dorso de minha mão. Abri a janela e deixei que elas fossem. A dupla vôou, contente, até desaparecer do meu campo de visão. Foi triste, mas dormirei tranqüilo, pois acho que agi certo. E uma noite tranqüila de sono é melhor do que encontrar uma nota de 500 centavos perdida no chão. Agora, depois desse acesso de tosse, eu percebo que não sou mudo, só que tanto faz, porque fui mudo num momento em que eu disse tanto e não é possível voltar no tempo, apesar da relatividade. O caminho coberto por folhas, o sol de inverno e a Lílian ficaram para trás. Resta o silêncio de tudo o que foi dito.





Vida

14 03 2009

Típico de nosso bairro, a rua deserta e não era tão tarde assim. Um Bairro residencial. Andávamos no meio do asfalto e nenhum carro havia passado nos últimos dez minutos. Nada de barulho de rodas, canos de escapamento, buzinas, nem sinal. Nem mesmo uma bicicleta. Nem um gato se atreveu a cruzar a pista. Era uma sexta-feira que tinha sido chuvosa por todo o dia, uma sexta-feira que havia chorado muitas lágrimas. Agora apenas nuvens pesadas cobriam o céu. A temperatura havia caído um pouco. Ventava- desde o fim da tarde, um vento que fazia barulho de dor, de lamento- e, curiosamente, a lua cheia, com sua fria e esbranquiçada rebeldia, conseguia furar o bloqueio da capa de nuvens. Parecia um cenário de pesadelo, por causa de uma tênue neblina que fazia com que as lâmpadas dos postes ficassem parecidas com miragens.

Ao longe, alguns cães uivavam. Um humorista comentou certa vez que o som do latir dos cães sempre parece emitido à distância, e ele tinha toda razão. Isso dá um toque tenebroso ao uivo deles. E essa distância sonora também denota certa melancolia. Por quem os cães choram? Por quem chamam ou por quem esperam? Se eu soubesse te dizer… Por que a noite nos causa tantas impressões? Talvez porque ela tenha nos assustado de tal forma há milhares de anos que sua marca jamais nos abandonou. Isso foi quando não havia fogo e tudo desaparecia numa escuridão de buraco quando o sol abandonava o céu e então o medo, a taquicardia, o suor frio, os músculos retesados, o gosto amargo na língua e a sensação de morte. Mas agora, Fiat lux. Então?

Malu parecia não pensar nisso. Ela sempre fazia cara de desinteresse quando eu questionava esse tipo de coisa, mas eu tenho certeza de que, no fundo, ela se fazia as mesmas perguntas. O muro dela era seu sorriso de desinteresse e seu olhar fixado em horizontes que não existem. Malu tinha algo de sombrio em seu interior e eu pude perceber isso em duas ocasiões em especial. Numa delas, num dia em que vimos no jardim de minha casa uma centopéia lutar com um camundongo. A centopéia, enorme, acabou por envenenar o pobre camundongo. Os olhos de Malu brilhavam, ela, extática. Na outra ocasião, quando duas meninas brigaram no pátio da escola. Uma delas sangrou com um tapa e Malu parecia ter os olhos fixos em cada movimento da briga. Os olhos fixos no sangue que escorria da boca da menina. Ela nada disse e nenhum gesto esboçou, mas eu poderia jurar que Malu torcia para que aquela briga não terminasse antes que uma das duas estivesse seriamente ferida. Malu parecia sentir um prazer enorme com o evento da briga, com a violência, com o clima denso e nefasto que se espalhou no ar.

Enfim chegamos ao cemitério. Idéia de Malu. Ler relatos sobre vampiros, beber vinho, fumar alguns cigarros, jogar conversa fora. Tínhamos conosco três livros, um deles, de Montague Summers. Eu carregava comigo uma sacola com um dos livros, um maço de cigarros, algumas velas e uma caixa de fósforos. Malu carregava uma mochila, grande. Parecia cheia. O que teria dentro dela, além da garrafa de vinho, das canecas e dos dois livros?

Abrimos o portão de ferro, que estava encostado, e as grades gemeram com uma lentidão dolorosa, como se fosse um nascimento, como se não fosse aberto há muitos anos, e isso me deu um arrepio na espinha, embora eu não seja uma garota que se assuste facilmente. A neblina parecia mais densa ali e não era possível ver com clareza nem o chão nem as bases dos túmulos. A bola-de-luz-esbranquiçada-que-era-a-lua parada bem acima de nós, como um sol de meio-dia, a bola pálida cheia de manchas. O vento chacoalhava os galhos das árvores, sabe aquela lufada de vento estranha, que bate de repente e que enche de vida as coisas? A terra tinha um cheiro forte, talvez por estar ainda úmida com a chuva de todo um dia.

Cruzamos algumas ruas cheias de lápides e de túmulos. Vimos um gato assustado, que passou correndo, um sinal de vida no meio de toda aquela morte, de toda aquela massa de pedra, mármore e alvenaria, em parte coberta de musgo e de ervas daninhas. Um sinal de vida no meio de toda aquela solidão. Chegamos enfim à porta de um mausoléu, que parecia muito antigo. Tinha colunas, no estilo grego e as janelas, redondas, com vidros escuros. A porta era de uma madeira escura, cor tabaco, toda trabalhada em baixo relevo, e ficava aberta, coisa que tínhamos percebido numa visita diurna, anterior. Parecia abandonado, os familiares não deviam visitar aqueles mortos há muito tempo, a julgar pelo estado em que se encontrava. Entramos e estava quente lá dentro. Deixamos a porta entreaberta. Havia uma mesa de pedra lá dentro, com bancos igualmente feitos de pedra. Eu me sentei, retirei as velas e os fósforos da sacola e as acendi. Malu logo em seguida abriu a mochila e retirou a garrafa de vinho e também as canecas, colocando-as em cima da mesa. Pousou também sobre o tampo da mesa os livros. Deu um sorriso e, abraçando a mochila, avançou para um canto do mausoléu que estava mergulhado na escuridão, “Onde vai, o que vai fazer?”, eu perguntei, mas a única resposta que ouvi foi a reverberação da minha própria voz.

Alguns minutos depois, vi um vulto e, aos poucos, percebi que era Malu, que estava de volta. Vestia um biquíni, a louca, um biquíni branco. “Que isso? Vá se vestir, sua louca! E se o coveiro aparecer? E se ele for um tarado? E se um tarado estiver andando por aqui?, os tarados costumam freqüentar esses lugares, você sabe…” Malu riu e sua risada reverberou no ambiente. Um relâmpago. Virá um trovão. Sim, trovejou. Choveria mais? Logo em seguida, o barulho da chuva. O cheiro de terra molhada, lá fora, e o cheiro de mofo do mausoléu que despertava, seu cheirar a séculos. As chamas das velas tremulando, quase se apagaram. Eu já havia aberto o vinho e o despejava numa das canecas. Vinho parece sangue, comentei. e faz barulho de mijo caindo na privada quando se enche uma taça. Ofereci a Malu. Enchi a minha caneca e propus um brinde. Brindamos. Demos a primeira golada juntas. Malu pousou a caneca na mesa enquanto uma gota do vinho escorria do canto dos seus lábios. Malu tinha os olhos fixos em mim.

Ela avançou, rápido, e quando percebi, já estava com os braços e pernas me envolvendo, e os lábios no meu pescoço. “Não”, eu disse, e tentei afastá-la. Já havia acontecido antes, mas não agora, não aqui no mausoléu. Senti o cheiro de seus cabelos, o cheiro natural que emanava deles. Malu continuava agarrada no meu pescoço e, com um gesto mais brusco, consegui empurrá-la. Não, não agora. Senti nesse momento uma picada no meu pescoço: os dentes de Malu me arranharam quando a empurrei. Coloquei a mão no local e senti uma ardência. Olhei para os meus dedos e percebi sangue. Começou a ventar forte lá fora e uma corrente de ar fez com que a porta do mausoléu se escancarasse. Senti a corrente de ar que invadia o mausoléu passando entre os meus dedos sujos de sangue. Logo em seguida, um barulho, vindo do interior do mausoléu, da parte que estava encoberta pela escuridão que as bruxuleantes luzes amareladas das velas não tocavam. Madeira estalando? O vento, claro, o vento.O cheiro de mofo ficou mais forte, quase sufocante, minha garganta ardeu e minhas narinas deram sinais de congestão. Sou alérgica. Cheiro de terra e de roupa apodrecida. “Machucou muito? Desculpe, desculpe”, disse Malu, pegando em minha mão, curiosa com o sangue.

O barulho agora de alguma coisa que se arrastava. O vento, lógico, o vento. Mas alguma coisa parecia arrastar-se pelo chão, como um fardo sendo transportado com dificuldade, o material do fardo em atrito com o chão. Uma corrente de ar soprou novamente, com muita força, e as velas se apagaram. Meu coração disparou. Malu riu, porém foi um riso breve, daqueles nervosos, que logo cessam. Ela segurou na minha mão, sua mão quente, quase febril, levemente úmida na palma pelo suor, eu só conseguia ver o vulto dela no escuro, e os cabelos, os longos cabelos com seu cheiro forte e embriagante. O som do fardo que se arrastava parecia mais próximo, bem perto de nós.

Ao acender as velas reparei que Malu olhava para baixo, sorrindo, mas havia um traço de lágrima em seu rosto, a maquiagem levemente borrada. Ela olhava para baixo e roçava os pés descalços um no outro, como uma criança tensa. O barulho do fardo se arrastando soou com mais força, bem atrás de Malu, que girou o corpo no banco para ver o que era, o que fez com que eu também visse, o homem, que a princípio parecia estar de joelhos no chão, ou talvez, quem sabe, um anão, mas que na verdade não tinha pernas, os ossos e a carne aberta e sanguinolenta na altura dos joelhos, o homem patético, porém belo, e sua estranha beleza que nos paralisava, seu rosto de menino, pálido, o homem-menino que não tinha pernas mas que na velocidade de um relâmpago já estava ao nosso lado, com seus braços abertos, braços compridos demais, envergadura de asas de morcego, anormalmente compridos e que barravam qualquer possibilidade de fuga, que terminavam em mãos finas como os galhos do arvoredo, com seus lábios extremamente vermelhos como o vinho que enchia nossas canecas e que acabava de ser derrubado da mesa com o movimento de nossos braços assustados, o homem-menino-de-rosto-branco-de-lua que abria a boca com dentes caninos enormes e ameaçadores, o homem cujos olhos brilhavam mais nas trevas do que as velas que tinham se apagado novamente, deixando no ar aquele odor de cera, o homem-menino-sem pernas, vestido com farrapos putrefatos, enegrecidos, e que tinha parte da cabeça descarnada.





Mansão dos mortos

7 02 2009

Muito que fazer, era uma casa velha, quase 100 anos. Os últimos habitantes foram cuidadosos, porém não puderam avançar demais nas reformas, trataram daquilo que era urgente e ponto final. Isso não me incomodou, pelo contrário, eu precisava de ocupação, único modo de libertar minha mente de pensamentos desagradáveis e destrutivos; sendo assim, os dias de forte calor das duas primeiras semanas na nova casa foram preenchidos com muito, muito trabalho. Eu tinha um macete para amenizar o trabalho, para transformá-lo numa brincadeira, eu sempre imaginava que a razão de eu estar fazendo aquilo era completamente diferente da verdadeira, um jogo mental que conservei da infância: quando eu ficava trancado, estudando, cercado de livros, imaginava que era um pesquisador ou missionário, num país distante. Imaginava que meu quarto era uma tenda, e os prédios em volta desapareciam, só restando mato, parecia mágica, eu conseguia enxergar isso, apesar disso não existir, então era uma pesquisa ou uma missão num mundo completamente estranho ao meu, e não a chatice de ter que estudar para uma prova que permitiria minha mudança de ano, mas minha permanência no meu mundo, ou seja, naquele mundo que eu achava extremamente aborrecido e de que não gostava, pelo menos naquela época. Agora eu sei que o problema não era o mundo, mas a época; para ser mais preciso, o tempo.

Engraçada essa coisa de tempo, porque, no momento, eu gostaria de estar lá, se existisse um modo de voltar no tempo, se eu pudesse subir de volta naquele mesmo palco e participar daquela mesma peça, não pensaria meia vez. Estive procurando um modo de fazer isso, li alguns livros, tentei algumas experiências, bastante estranhas, você riria disso- e ficaria assustada com algumas delas- e… nada aconteceu. Tive, certa noite, um sonho bizarro: no sonho, algo me dizia, aquela voz interna a que chamam intuição que, se eu mudasse de quarto, e me deitasse na outra cama, eu despertaria no passado. Só que eu não quis mudar de quarto, decidi, ainda no sonho, permanecer no quarto em que eu estava. Resultado: acordei no presente, que hoje já é passado. E me arrependi. Nunca mais tive esse sonho. Nutri certa esperança de repeti-lo, já que alguns de meus sonhos são recorrentes. Esse em particular não foi. Eu tive uma escolha e não movi uma pedra… Se acontecesse novamente, eu mudaria de quarto e meu presente seria outro, você pode apostar.

O terreno que cercava a casa também demandava muito trabalho, muito mais do que o seu interior. Cerca quebrada em diversos pontos, árvores caídas, capim alto, buracos, montes de terra, formigueiros, tralha de muitos anos acumulada. Eu dedicava as primeiras horas do meu dia tentando arrumar o terreno. Sempre fui “perseguido” por arrumações, parece algo cármico, porque sempre estou às voltas com coisas para consertar, organizar e jogar fora. Isso me faz pensar que tipo de vida eu tive anteriormente. Tipo, por que não consigo escapar disso, por que nunca termina? Eu me sento à noite numa velha cadeira de balanço que fica na varanda, com uma caneca de chocolate quente e cigarros, e fico pensando nesse tipo de coisa, enquanto eu olho para o céu estrelado. Ultimamente, tem sido cerveja, por causa do calor. O céu do campo é lindo. Não entendo a razão de eu pensar sobre esses assuntos, porque ando numa fase cética, mas ao mesmo tempo, eu ainda acredito numa série de coisas que me davam esperança no passado. Logo eu, que detesto contradições… Talvez seja o mesmo mecanismo que uso para tornar tudo o que tenho que fazer menos penoso. Talvez seja apenas mais uma das muitas bengalas que usamos para nos apoiar ao longo da vida, porque, sem elas, seria impossível.

De modo que, num belo dia, enquanto arrancava umas ervas daninhas, deparei-me com um buraco que, com certeza, não estava ali no dia anterior. Sei disso porque não sou um tipo distraído e, mesmo que fosse, era uma abertura grande demais para não ser notada. Não parecia natural, parecia ter sido cavada, parecia trabalho humano. Quem sabe os últimos moradores…

Era a entrada de um túnel. Eu disse alguma coisa, próximo à abertura, e ouvi minha voz reverberar. Uma má impressão, algo me dizia para não entrar. Ao mesmo tempo, a curiosidade. Contradições. Voltei para casa e trouxe comigo uma lanterna. E entrei. Havia um declive que parecia não ter fim. O túnel levava a algum lugar debaixo do solo, e não a outro ponto do terreno, como imaginei inicialmente. Achei que me conduziria ao celeiro, por exemplo, e não me pergunte a razão. Aquela coisa tinha sido muito bem escavada. Na verdade, era como se a própria terra tivesse feito o trabalho, não consigo explicar. Do chão ao teto, exatamente a minha altura, nem mais, nem menos, o que era de certa maneira claustrofóbico. Túnel cilíndrico, como um duto.

Alguns metros à frente, muitos metros, porque não era mais possível ver a entrada banhada pela confortável luz solar, e o caminho subterrâneo tinha sido escavado em linha reta descendente, o fim. Terminava abruptamente, numa parede de terra. O facho de luz iluminou algumas inscrições que não pude reconhecer. Sinais, símbolos. No chão, um velho caderno com capa de couro bastante desgastado, um toco de lápis, o resto de uma vela, um lampião- antiquíssimo, só havia visto um como aquele em filmes!- e trapos de roupas. Entre os trapos, um tecido que se assemelhava a um vestido.

Agachei e peguei o antigo caderno, que estava úmido e cheirando a mofo. Abri aleatoriamente e comecei a ler o que parecia ser um relato:

O homem que aqui encontrei estava muito debilitado. O fato de ele estar vivo só podia ser um milagre, tal era sua condição física: roupas em trapo, os cabelos crescidos- assim como a barba-, a pele encardida, cinzenta e seca, a despeito do forte calor, os olhos anuviados, a respiração ofegante, os ossos pronunciados, as veias em alto relevo, os dentes arreganhados e escuros. Vermes, havia vermes rastejando em alguns pontos de seu castigado corpo, que exalava um cheiro terrivelmente ruim, embora ele não apresentasse ferimentos aparentes. Uma múmia viva, um cadáver animado por algum tipo de magia negra. Ele não sabia há quanto tempo estava aqui, não fazia a menor idéia. Só sabia de duas coisas, que me relatou com extrema dificuldade: a primeira, que tinha visto o buraco e entrado, atraído por uma força desconhecida que ele reputou como curiosidade, e a segunda, que passo a escrever na esperança de…

… Ele disse que encontrou uma mulher. No início, a chama do lampião iluminou somente seus cabelos, que lhe cobriam a face. Ele tentou afastar as longas mechas da moça, que estava agachada no canto, com os braços envolvendo os próprios joelhos, tal qual uma menina perdida e assustada, encostada na parede onde o túnel termina, mas ela o impediu, com um movimento brusco. E passou a falar, com uma voz rouca e tenebrosa que, há muito tempo, um homem mau enterrou um cachorrinho vivo, um pobre filhote, sem motivo, por pura maldade, pelo prazer de fazer algo ruim. E que a tristeza e o ódio do pequeno animal produziram um prodígio, que era o buraco, porque, em certas ocasiões, quando algo que não deve ser feito é feito, isso ocorre, foi o que a moça teria dito (e lembrei da história da menina que abriu com uma faca o ventre de uma boneca, e de como ela ficou horrorizada, ao ver as repugnantes lombrigas que saíram do ventre de plástico), e então eu senti que não poderia mais sair dali, senti que, mesmo que eu corresse, a abertura se fecharia, e olhei novamente para a moça, que agora não estava mais com os cabelos cobrindo seu rosto, e percebi que seu rosto não era de gente, mas de cão, e eu corri, e realmente não havia mais luz do sol e nem abertura, apenas a terra e o escuro e…

Pois eu larguei o livro e gritei, e o grito foi tão forte que feriu meus ouvidos, e o som do meu grito parecia ecoar infinitamente, eu corri, eu também corri, tropecei em alguma coisa, acho que eram ossos, mas não pude ver a luz do sol novamente, não pude ver a saída, só a terra, só o maldito cilindro de terra úmida, de terra gosmenta, um intestino feito de terra.





O Posto Policial

25 01 2009

Dezenas e dezenas de quilômetros de estrada erma e cercada de mato, numa região montanhosa, separavam-me do meu destino. A noite estava calma; a temperatura era agradável e o céu estava estrelado.

Não havia nenhum outro carro além do meu. O último que vi foi há quase uma hora atrás: foi para outro caminho, pegando uma bifurcação na estrada. Eu me sentia o único do mundo, ali, naquele lugar vazio. Eram cerca de vinte e uma horas, de uma quinta-feira do mês de Outubro de 1972.

Estava com o olhar fixo na estrada à frente. Aquela região era muito escura. De repente, notei que não estava mais só. Tinha um carro atrás de mim. Os faróis dele estavam tão baixos, que por mais um pouco não teria percebido. ”Que engraçado”, pensei. E pensei também que ele me ultrapassaria. Mas não ultrapassou. O espaço para a ultrapassagem era suficiente. A pista era larga. Alguma coisa estava errada.

Não estava gostando nada daquilo. Acelerei. O carro que me seguia fez o mesmo. Não sei, havia algo de anormal quanto à forma daquele veículo. Não só pelos faróis baixíssimos, mas também por causa da altura, da largura, enfim, do design do carro, como um todo. Ele estava bem próximo, mas eu não podia distinguir nenhum detalhe, como o pára-brisas, por exemplo. O carro parecia mais um tanque, todo blindado. E era todo preto, não tinha brilho de metal como qualquer carro.

O carro começou a se emparelhar com o meu. Aí é que meu desespero aumentou, porque vi que não era um carro. Era alguma coisa que imitava um carro. Era como se uma criança tivesse feito um carro de massa de modelar, muito bem feito, mas ainda assim, um carro de massa de modelar.

Aumentei a aceleração e o objeto maldito ainda me seguia. Não emitia ruído algum. À minha frente, a paisagem não mudava: somente a estrada deserta. Ao meu redor, um matagal sem fim. Um imenso vale, cercado por montanhas enormes e distantes. As únicas testemunhas de meu terror eram as estrelas.

Alguns metros depois, uma curva, e no fim dela, luzes. Tinha que ser um posto de gasolina, uma casa, qualquer coisa. Um milagre dos céus seria um posto policial. Só que não era. Era um objeto de tamanho descomunal. Estava pousado na margem da estrada. A luz espalhava-se por um enorme raio. O meu carro, cuja velocidade certamente estava acima dos cem quilômetros, parou. É inacreditável, eu sei… O falso carro também parou. Ao parar, começou a se desmanchar, como um pedaço de gelo, derretendo. Por fim, transformou-se numa massa amorfa, feito piche.

Dois seres apareceram. A luz, que enchia a estrada, parecia luz de lâmpada fluorescente. Os seres começaram a andar em direção ao carro. Comecei a saltar dentro do carro, mexendo as pernas e espancando freneticamente o volante. E berrava de pavor.
Os seres pareciam pessoas como eu: conformação do corpo, estatura. O modo de andar deles é que era diferente. Andavam com certa dificuldade, eles balançavam e tremiam. Era um andar patético. E artificial também, como se fosse uma imitação. Quando eles chegaram perto do carro, pude ver com clareza seus rostos. Não eram rostos, eram imitações de rosto. Eles pareciam bonecos.

Um formigamento tomou conta de meu braço. Alguma coisa estava fazendo com que meu braço, que estava no volante, fosse em direção à tranca do carro. Uma força me impelia a sair do carro. A luz fortíssima do objeto apagou-se, mas ele e os seres continuavam ali.

Reuni o restante de forças que eu tinha e tentei ligar o carro. Comecei a rezar. Eu gritava e já estava quase sem voz, com a garganta dolorida. Subitamente, o carro ligou. Pisei no acelerador e segui em frente. Os seres estavam à frente do carro. Iria atropelá-los, mas passei por eles como se eles fossem fantasmas.

Será que não encontraria ninguém naquela droga de estrada? Eu tinha que encontrar alguém, para ter certeza de que aquilo tudo não era uma hedionda alucinação. O tempo corria e o cenário era o mesmo: estrada escura e vazia, mato me cercando, silêncio. Eu tinha mergulhado num buraco escuro, num pesadelo que parecia infinito.

Finalmente, meus faróis iluminaram uma placa: posto policial. Logo em seguida, luzes. “Graças a Deus! Obrigado, meu Deus!”, eu repetia, balbuciando, ofegante. Todo meu corpo tremia. Cheguei ao posto buzinando loucamente e gritando por socorro.

A cabine estava vazia. Tinha uma luz fraca, vinda lá de dentro.Talvez fosse um televisor ligado. Olhei ao redor e vi dois guardas, conversando do outro lado do pátio do posto. Buzinei mais. Os guardas olharam em minha direção. “Socorro! Socorro! Ajudem, pelo amor de Deus!”, gritei.

Fechei os olhos e passei as mãos em minha testa, que estava banhada de suor frio. Meu coração estava disparado. Agradeci novamente a Deus por estar salvo, por ter fugido daquele terror.

Abri os olhos lentamente. Os guardas vinham em direção ao carro. Por que não vêm mais depressa? Eles estão andando devagar…Os dois andam do mesmo modo… devagar e …balançam o corpo… e TREMEM!!!





Toalhas Verdes Secam Mais Rápido

21 12 2008

Não me importava muito com sincronicidade, mas comecei a procurar por números 23 ligados a fatos relevantes da minha vida após a leitura sobre uma estranha descoberta feita por Burroughs. Achei dois, ligados a fatos marcantes. Para ser preciso, duas idades, a minha, quando eu tive 23 anos, e a de outra pessoa, que tinha 23 anos no momento em que a conheci. Foi só (porque foram apenas esses dois fatos, nada desprezíveis, muito pelo contrário, mudaram minha vida; talvez muito pelo contrário seja o melhor termo possível a ser empregado, pois eu virei uma pessoa do avesso e se você não enxerga artérias e células quando me olha, uma esponja de palha de aço em chamas, papel celofane azul e vermelho e amarelo, trata-se de um problema sexual seu, como diria meu bom amigo, o partículas de pão). Pode ser que eu tenha me esquecido de outros números 23. Se esqueci, não foram relevantes, já que não me lembro de nenhum episódio de amnésia. Igualmente não tomei nenhuma pancada na cabeça e nenhum agente borrifou um aerossol na minha cara, não senhor, Mr. Hammill.

Então, as coincidências. Lembrei-me, não sei por que cargas d’água, de um filme com zumbis. O filme sobre zumbis veio até mim. Dias depois, recebi um outro arquivo cuja temática era: zumbis. Semanas antes de lembrar-me desse mesmo filme que veio até mim, eu procurava por outro. O problema é que eu ainda não tinha começado a ligar fatos, então a procura por esse primeiro filme não conta, eu acho. Valer-me da procura por esse primeiro filme seria como acumular pontos antes do jogo ter começado, pegar os pontos conquistados numa outra partida- que talvez nem tenha acontecido- e somá-los com os possíveis pontos que irei ganhar, num hipotético e futuro jogo, ou melhor, no jogo que já estou jogando, não parece jogo limpo, hã? Além do mais, como comecei a levar a sério essa coisa toda de coincidência, não quero provocar nenhum desastre cósmico, como, por exemplo, ser absorvido por algum tipo de vida habitante de um meteoro que venha a cair no meu quintal e estragar o fundo de azulejos da minha piscina. “Homem devorado por coisa que habitava um meteoro”. Seria uma manchete ridícula, assim como aquela velha declaração de um lobisomem a um jornaleco de quinta categoria- há muita coisa sobre o cinco também, poderia ter pensado a respeito, mas não pensei- “Sempre quis ser conhecido, mas não da maneira que sou.” Jogo, eu disse. Minha intenção não era a de entrar num. Tarde demais. Comecei a pular no mosaico do chão.

Bocejei e desejei (muito) dormir após ter digitado “tarde demais”. Procurei, durante alguns segundos, estabelecer uma relação viável entre essas palavras. A questão era: relacioná-las a quê? Após pensar sobre relação, bocejei novamente. Esquisito. Sim, esquisito porque me desviei do assunto. Espere: e se eu tivesse que me desviar? Provavelmente eu não estaria aqui e sim, em casa, sentado confortavelmente diante da televisão desligada, mastigando salgadinhos e bebendo um bom copo de cerveja bem gelada. Cá estou, escrevendo essas linhas no meu braço, que virou meu caderno. Os pêlos são as pautas e louvado seja o Senhor por eu não ter nascido imberbe e por eu ter trazido num de meus bolsos, por engano (?), uma caneta de marcar cd. Meu braço é o caderno mais estranho que eu já tive. Não, uma coxa feminina já foi um papelzinho, quando eu tive que anotar às pressas um telefone- naquela época não existiam telefones celulares. Meu braço parece um membro de uma zebra. Quando eu erro? Ora, eu apago o que escrevi com a língua. Fiz isso enquanto passava por membros de uma tribo nômade, e eles cuspiram no chão, me olharam de cara feia e disseram algo equivalente a”obsceno”. Não me importei, depois de toda a dor e de toda a solidão que eu senti. A dor moral faz com que você se sinta como um lençol sendo torcido por uma lavadeira musculosa. Quando eu era criança, trabalhou lá em casa uma lavadeira que era pugilista. Ela não torcia as roupas, ela as golpeava enquanto estavam penduradas na corda. Ela batia no marido. Sumiu, nunca mais voltou. Disseram que ela ganhou numa loteria chamada “Paraíso Artificial” e que abriu uma loja de materiais de construção. Pode ser…

Não fosse o fato de procurar coincidências, não estaria aqui, subindo essa maldita escada rolante, voltando à superfície da terra. Ela é lenta demais. Do início dela, lá em baixo, até aqui, metade do caminho, gastei quatro horas. Mas é porque ela sobe e desce. Tive o azar de ser o único a subir e de estar aqui ao mesmo tempo em que 89 pessoas quiseram descer, ou seja, eu estava subindo e chegava um sujeito que queria descer e a escada começava a descer. Um desses sujeitos me disse uma coisa bem curiosa: “Estou aqui porque contei as gotas de chuva e as dividi pelo número de vasos de planta que existem no meu quarteirão. Peguei o resultado, escrevi num papel, meti num sanduíche de ovo frito e maionese, que comi, obviamente, e fui dormir. Tive um pesadelo com um tubarão que grampeava balancetes de escritório com os dentes. O sol, que brilhava acima do espelho d’água era uma gema de ovo. Os empregados do escritório eram espermatozóides. Uma velha saiu de um cesto de lixo, segurando um taco de golfe, e gritou “Arnica”.Relampejou na parede. Ao despertar, sabia que tinha que vir aqui.”

Eu soube por outros meios, os 23, os zumbis, a dor, a solidão, vocês sabem, conforme irei relatar- assim que eu sair dessa maldita escada rolante, cruzar o deserto e voltar para casa. Tudo bem. Só não me conformo de ter chegado ao hall que existe lá em baixo, após vencer obstáculos como um salão repleto de carneiros e um túnel feito de queijo, para enfim pegar no telefone que fica num latão cheio de gelo picado e de enguias, para ouvir um frustrante sinal de ocupado, e uma voz, uma gravação, que disse logo em seguida “Volte quando sua filha tiver 23 anos.” Para terminar: tenho uma calça de moletom azul e outra preta: por que a azul é mais pesada, se é do mesmo tamanho e da mesma marca? Acontece o mesmo com os casacos de moletom: porque o azul é mais pesado do que o preto? O jornaleiro parou de escrever poemas por causa da caspa e ele pensa ser um quadro.