Técnica

23 12 2009

Às onze horas da noite, em ponto, eu estava encostado no portão de madeira na entrada da casa de Luisa. Cinco minutos depois, estava fumando um cigarro—nada de Luisa aparecer, me irrito com atrasos–, antes do poste da esquina, portanto fora do cone de luz. Uma coisa seria a minha mãe saber que eu estava perambulando por aí depois das dez, justamente no dia de seu plantão, a despeito de tantas recomendações—ela é enfermeira–, outra bem diferente seria acrescentar o tabagismo à vadiagem noturna. Parece que em Direito, chamam isso de “Agravante”.

Quase onze e dez, quando percebo um brilho avançando pelo gramado, em direção ao portão onde estivera minutos antes, sujando minha jaqueta de limo e de lascas de tinta velha, Luisa e seu casaco prateado, você quer ser notada, podem vê-la assim até da lua, ah, ela disse, e talvez estivesse certa, porque o céu estava nublado, a lua não- visível, joguei a guimba do cigarro no asfalto, amassando-a com a ponta do tênis enquanto ela gemia seu tchi, lamento do cigarro que não quer morrer.

Luisa estava especialmente bonita naquela noite chuvosa e não sei por que pensei nisso e digo isso, só sei que quase não a ouvia contar o relato do dia que, segundo ela, fora “incrivelmente” agitado, eu apenas fotografava os detalhes de seu rosto na minha mente, talvez para lembrar, como estou fazendo nesse exato momento e, caramba, ela parece estar aqui ao meu lado, novamente, como naquela noite. Eram cerca de onze e meia. Vamos, eu disse, vamos mais rápido, temos que começar, no máximo, à meia-noite e meia.

Consegui fazer com que ela andasse mais depressa e não era difícil, porque Luisa sempre ganhava as competições no colégio. Por volta de meia-noite, chegamos ao celeiro abandonado, ele não ficava muito longe. Tínhamos tempo suficiente para fazer os preparativos. Sabendo da escuridão que encontraríamos lá dentro—eu havia checado na semana anterior–, sugeri que abríssemos nossas mochilas para verificar se tínhamos trazido todo o material necessário. Eu estava certo de ter feito a minha parte, mas sei que Luisa andava normalmente com a cabeça nas nuvens e a falta de um único item estragaria tudo, meses de pesquisa e de planos jogados no lixo.

Feita a verificação, avançamos terreno adentro e empurramos o tapume de madeira que cobria a entrada do celeiro. Um cheiro forte de mofo se espalhou pelo ar, junto com um bafo morno e naquele exato momento, alguns raios de luar conseguiram furar o bloqueio das nuvens. Antes de entrarmos, acendemos o lampião—não podíamos usar lanternas: tradicionalmente, era feito com lampiões ou velas, segundo pesquisei. Parece que a luz elétrica atrapalhava de alguma forma a operação. Penetramos no celeiro. Quem nos visse lá da calçada, no início do leve aclive do terreno à frente do celeiro, diria que fomos tragados pela escuridão.

Olhei para o relógio, meia-noite e vinte e seis, um bom horário. Lá dentro, apenas o som de inúmeras goteiras e da madeira que estalava em intervalos irregulares, coisas que contribuíam para dar um aspecto ainda mais solitário ao celeiro. Não entendo até hoje a razão daquele lugar ter ficado tanto tempo inativo. Nem os mendigos se atreviam a ficar ali. Um lugar maldito? Talvez… Pensei ter ouvido um miado, mas não vi gato algum. Luisa teve a mesma impressão. No chão, um verdadeiro tapete feito de tralha de todo o tipo, coberta de ervas-daninhas, e poças de água da chuva, então um tropeço aqui e ali. O celeiro era enorme e lembro que tivemos que parar para observar a lua através de um rombo no teto que fazia as vezes de uma clarabóia gigante. Lembro também de ter lido que o luar era um fator positivo para a operação, então agradecemos a sorte das nuvens de chuva terem ido embora.

Conseguimos achar um ponto onde o chão estava livre do lixo e ali nos sentamos, um de frente para o outro, mantendo uma distância de cinco metros entre nós dois, com o lampião no meio, conforme as instruções. Começamos a tirar o material de nossas mochilas e, para não haver dúvidas, trouxe comigo uma lista, que li em voz alta, enquanto Luisa conferia tudo novamente:

-uma boneca;
-um punhado de areia de lago e de lodo;
-mel;
-cinco velas pretas;
-um vidrinho com sangue- humano ou de animal;
-uma faca enferrujada—que devia ter ficado enterrada por uma semana;
-um pedaço de roupa de pessoa que tivesse morrido recentemente;
-um rádio de pilhas—uma inovação na prática: descobriu-se que a estática funcionava como um catalisador;
-uma mistura, em pó, que continha osso moído, purpurina, folhas de dormideira desidratadas e incenso, tudo dentro de uma caixa de madeira;

Luisa acendeu as velas enquanto eu espalhava a mistura em pó no chão, junto com a areia. Em seguida, Luisa untou a boneca com o lodo—as partes mais importantes da operação tinham que ser feitas pela mulher, que representava a sacerdotisa. Li que, certa vez, na falta de uma moça, um dos membros vestiu-se de mulher, usando inclusive maquiagem. Depois, Luisa tirou a blusa e o sutiã e espalhou o mel em seu colo e eu despejei o sangue do vidrinho nas minhas mãos. Era também Luisa quem tinha que desfigurar a boneca com a faca enferrujada e assim ela fez. Estávamos prontos enfim para começar nossas orações e foi o que fizemos, logo depois que liguei o rádio de pilhas e o deixei fora da estação, de modo que a estática pudesse soar.

Então era o som da estática se misturando com o som das goteiras, que por sua vez se misturava com o som das nossas respirações ofegantes e com os batimentos cardíacos acelerados. Apesar de todo o estudo, de todo o preparo, estávamos bastante tensos, era a nossa primeira vez.

Foi como se todos esses sons tivessem se calado simultaneamente, por um tempo que não sei precisar, até o ar ser sacudido por outro, um estrondo?, e aquele som que eu não sei descrever até hoje, som de dezenas de sussurros, som de água descendo com força pelo cano, som que era baixo, mas ensurdecedor, que fazia os tímpanos doerem e que dava chicotadas de frio, eriçava os pêlos do corpo. Então as gargantas secas, talvez mesmo aquele sabor-de-sangue-de-garganta-inflamada, e um cheiro de terra, de legume sujo, eu sei lá… As coisas que vieram, que saíram lá do fundo do celeiro, cambaleantes, algumas, algumas num rodopio frenético, elas eram escuras, mas se destacavam na treva, a escuridão em alto relevo, tivemos medo, mas também achamos bonito, lembro da Luisa rindo, só que algo não estava certo, não era apenas a sensação de descontrole que repentinamente tomou conta de mim, eu tentando lembrar da operação, de cada detalhe, parecia tudo certo, fizemos o que devia ter sido feito, seguimos as instruções à risca, tudo o que sempre foi feito, mas mesmo assim, espere, seguimos à risca?, Luisa, Luisa, por favor, Luisa, olhe pra mim, o que houve com os seus olhos?, me responde, o pedaço de roupa era de sua tia, não era?, como ela morreu mesmo?, não, não, você sabia, nós lemos tantas vezes, você leu tantas vezes que em hipótese alguma poderíamos usar o vestido de uma pessoa que morreu num acidente, e a boneca, a boneca desfigurada havia se erguido, Luisa se parecia com a boneca e a boneca se parecia com Luísa e já não era mais possível saber qual era Luisa e qual era a boneca.





Santuário

18 11 2009

No início, era medonho, confesso, a perspectiva de encontrá-los no banheiro, como manchas hipertrofiadas de mofo, bolas de limo que se despregaram dos vãos dos azulejos brancos, aquelas pedras de açougue ou de morgue, não sei, estética dos anos cinqüenta, mania-de-moda-de-minha-avó-que-comandava-a-casa, não sei.

O bolo histérico, portanto, o frio na espinha, o medo, mas medo de quê, cacete, o mesmo medo que costumávamos ter lá na selva na noite escura quando não havia calendários, eu, você e o soldado, todos nós, o medo insistente, medo que nos preservou, medo que também nos destrói. Mas depois, as gargalhadas, acostumamo-nos ao absurdo. Depois de vermos um santo emergindo de uma poça, o que mais nos espanta? Depois de vermos uma pessoa pela metade num acidente de carro cantar antigos boleros com sorriso na boca cheia de dentes que mascaram cerejas, enquanto os paramédicos não chegam, o que mais nos espanta? Depois de vermos um homem, apenas um homem, dar conta de oito guardas, empurrando-os como se de isopor fossem, o que mais nos espanta? Depois de vermos a moça que tirou o coração do peito e o levou, caminhando até o trabalho de seu amado, envolto num lenço roxo, o coração ainda pulsante, ela ainda viva, o que mais nos espanta? Talvez um dia, as velas digam o que pensam da escuridão.

Certamente, não seriam os hipopótamos no banheiro. Não eles, plácidos, doces, escorregadios, mas ao mesmo tempo brutos como tanques de guerra.

Não os hipopótamos no banheiro, que ocupam todo o espaço, que pisam nos cadernos de jornal, não raro devorando notícias, que fazem tremer, quando pisam no chão, aqueles potes de vidro que insistimos em conservar, a título de guardar coisas, cotonetes, algodão, giletes, cartelas com pílulas e drágeas misteriosas, que a poeira, o tempo e o pó do talco, numa vil conspiração, ajudaram a apagar a serventia e a validade, tubos de pomadas e de cremes enrolados rocambolescamente, cadáveres de pentes desdentados, como os estudiosos guardam seus fetos nos laboratórios. Eles (os hipo, permita-me a intimidade, afinal de contas, é no meu banheiro que eles ficam, então…) devoram nacos de sabonetes, e até mesmo sabonetes inteiros, arrotando bolhas que, quando estouram, espalham cheiro de produto químico e de mato e de rio. Que fazem o cubículo que é o banheiro parecer ainda mais cubículo, parecer um cubo mágico sem cores, cubo mágico monótono, cubo mágico de neve, parecer grade e, ao mesmo tempo, selva. E eu fico fumando, encolhido num canto, parecendo um guarda-chuva, paralelo à parede, eu fico pensando em contas, no dentista, na pintura da casa, no cão, na minha tia que tem escoliose, nas suas coxas, mas o som do motor de um barco que não é e que não está recorta o balãozinho da minha mente, a folha é amassada e arremessada para o cesto de papéis, rapidamente, descrevendo bela curva, antes que os hipopótamos tenham tempo de abrir suas bocarras, com aqueles dentes de pilar, de banco de concreto de pracinha, e de confundir a esfera enrugada que outrora foi meu balãozinho de preocupações com algo comestível e mesmo delicioso. Delicioso como seu seio, que formou outro balãozinho, enquanto tento apagar o toco do cigarro, patético, agachado num canto, pois o cinzeiro, inalcançável.

Gostaria que você estivesse aqui, você e seu seio e suas coxas, observando comigo os bichinhos que não são nada pequenos. Por outro lado, gostaria também que houvesse um mar de espaguete, assim como há o de sargaço, e também gostaria de ver uma pessoa andando de patins e sumindo na esquina, tragada pelo ar, aparecer novamente no interior de um pote de picles, para o espanto de todos os que ainda esperam no salão do restaurante, discursando com voz de tenor, e com brilhantismo, sobre as mais recentes descobertas da meteorologia. Uma dança com quiabos, numa tribo pagã que cultua um deus que vive no interior de uma moita, um deus que não tem corpo nem esqueleto nem músculos nem pele, mas que tem vísceras e que brilha no escuro, um deus com globos oculares do tamanho de bolas de golfe, um deus que se transforma num pequeno lobo e que persegue virgens descalças nas noites chuvosas de dezembro, uma divindade que não fala, mas que tudo diz, batendo o dedo indicador nos lábios, fazendo biribiribiri, um deus que tudo sabe e que tudo vê, apesar da umidade e da fuligem das vidraças e da fumaça fedorenta dos carros. Os ladrilhos, um dia os ladrilhos racham, o piso arrebentando, repare nisso, os hipopótamos caindo, parecem bombas, os hipopótamos em queda.





Além da janela

29 10 2009

Tinha ido aos fundos da casa, não me lembro bem o que ia fazer. Há uma janela, no quarto onde durmo, que dá para os fundos dos tais fundos, e vi a gata olhando através do vidro, com seu típico olhar de dragãozinho– um misto de espanto e de indignação, mais espanto do que indignação– como que pensando “Como você chegou aí fora e por que eu não posso atravessar– ela bem que tentou, sem sucesso, obviamente e graçasaDeus– essa barreira de dióxido de silício, carbonato de sódio e carbonato de cálcio ?”

Então, é assim que venho me sentindo nessas últimas semanas, só que estou no quarto, por trás da barreira transparente, no lugar da gata, e não nos fundos– se bem que “fundos” é uma palavra sugestiva, pois remete facilmente à situação em que me encontro, desde que eu não seja otimista. E você, você sim, nos fundos, você, com olhar de dragãozinho, não eu, eu com olhar de gente que não achou o que procura, com olhar de mar em dia de chuva, com olhar de quem olha-mas-não-vê, portanto. Pra ser sincero, já estive mais otimista, porque ao escrever pela primeira vez, pouco tempo havia se passado e ainda era presente. Hoje o tempo, bem, ainda é presente, mas será novamente o que fica para trás dentro em breve. Escrito no calor das respostas do jogo, que me dizia para ser paciente, que seria difícil-coisa-e-tal, porém Kuma wins (ou melhor Kuma WILL win, o fim é o futuro, levando em consideração que, com pronúncia de locutor da BBC de origem asiática, “Cuma vil vin e, pasme, will também significa vontade, olhe só, veja você) já que o assunto é jogo.

Aliás, tudo é jogo e o start foi dado por mim, a primeira mão—seria legal se “mão” significasse “não”, “Você aceita uma água, um café?”, “Mão, obrigado, mais j’ai surtout faim”– e o engraçado é que não sei as regras, apesar da taumaturgia. Sendo assim, não sei se terá fim e como será esse ponto de chegada. Posso sair da mesa a qualquer momento, já que (De Molay) jogo sozinho e sou o inventor da manobra. Então, por que não saio, por que não peço licença à minha sombra– ela está lá, com certeza– e finjo que vou ao banheiro? Difícil de responder. Não sei a resposta assim como não sei as regras e provavelmente tal silêncio seja uma das regras que estão criptografadas em tinta de suco de limão num papel onde a caneta não tocou e cuja localização eu desconheço, afinal de contas, eu não escrevi coisa alguma, só pensei, mas pensar é pior, porque papéis se perdem, já pensamentos, reticências. Quem colocou você no jogo fui eu, acho que você não sabe—será mesmo?

Não sei por quê, mas suco de limão me lembra de fim de tarde e é justamente essa imagem sua que me vem à cabeça, a luz do sol poente escurecendo seu rosto–como um véu– em posição de efígie. Também me invade o você-deitada-no-chão-ao-que-parece, com jeito de princesa-que-desperta, sua boca– beijável ao extremo–, seus olhos que miram algo ao lado– estaria dormindo? Existe um vampiro de certa nacionalidade que dorme com um dos olhos abertos–, seu pescoço e, putaquepariu, gostaria de mergulhar nesse chão-ao-que-parece onde você está/ estava. Gostaria dos lençóis amassados paisagem-de-Marte e da conversa com seus cabelos castanhos cobrindo o rosto que nem assombração de filme japonês, cortina, cortina, das listras de zebra que a escuridão do quarto tatua no seu corpo, da preguiça depois do sexo e da voz em volume baixo e das risadas regando aqueles assuntos banais.

Paciência, dizia o jogo, só que não é fácil você ver cada dia se esvaindo e outro chegando com suas repetições monótonas, vídeo-tape. Você vê que nada mudou, você grita em silêncio—cacos de Clave de Sol– ao ver que tudo continua na mesma apesar de tudo o que foi feito, de todas as manobras (ao menos as que você conhecia), percebe que nem uma folha se mexe, que tudo está congelado a despeito do calor que faz lá fora, e dá uma ponta de tristeza, ah, se dá, e também cansaço. Só que você continua esperando, você sempre volta ao mesmo ponto e, no final das contas, nem sabe o motivo, talvez o medo do vazio, o medo de algo que não aconteceu, o medo uma oportunidade perdida, o medo de que uma lembrança se transforme apenas numa lembrança que se queda no terreno impalpável da mente– e esse é o inferno das lembranças, a única interação possível é lembrar, vira uma historinha e quem garante que ela não foi criada por você?, ainda mais depois de muitas voltas dos ponteiros–, um precipício, então você se agacha e manuseia fantasmas, procura por ar que se dissolve no ar, tenta moldar água e fica com as mãos vazias, mas trêmulas, como se estivessem tentando segurar um peixe. Então eu fazendo malabarismo com garrafas imaginárias, você dragãozinho, além da janela.