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3 05 2008

Uma carta interrompida. O corte entre o ato de pensar e o de digitar. Pois bem, a sensação de deus que põe e dispõe de destinos. Alguém relatou- permanecendo mais um pouco no âmbito religioso, no assunto da divindade- que recebeu reclamações porque escrevia a palavra deus com a inicial minúscula. Alguém me relatou pessoalmente falando sobre si mesmo, contou a mim- relatando a estória de outrem- ou eu li a respeito- talvez o desabafo de um escritor-? Aaron Knoll Annie More. Mas a questão aqui é outra. Voltemos. Conforto? Não, senhor. Incerteza. Desperdiçara um momento, talvez. Desperdiçara um momento em prol de se expressar com a voz, tentando dizer aquilo tudo que ela- a voz- não consegue; selecionando assuntos, modo de deixá-lo em pauta, de mantê-lo pertinente. Não ser repetitivo, não ser um videoclipe de sensações.

O barulho na cozinha não fazia sentido algum. Estava só, não deixara nada mal posicionado, ao menos que se lembrasse- costumava dar atenção extra a isso, pois era naturalmente desastrado. Um rato procurando migalhas era uma hipótese. Um gato, atrás do rato, ou igualmente procurando migalhas, um gato de alimentação frugal, em regime espartano. Um híbrido de gato e rato- um grato, muito grato pela sua leitura. Um espectro. Tremores de terra, questões intestinas e recônditas e subterrâneas entre placas, onde o fogo parece um milk shake de luz- já estão entre nós, aquela piada começa a perder o sentido e a coisa começa a ficar nada engraçada ou ainda mais engraçada, porque tragicômica. “Vamos embora desse cinema, gata, porque estamos na primeira fileira e as cidades litorâneas serão atingidas em primeiro lugar!”- teria dito um rapaz um pouco nervoso. Penso no Van der Graaf e na capa do The Least We Can Do is Wave to Each Other, numa entrevista do Dusek de vinte anos atrás, num antigo projeto de transformar portas que separam cômodos em jangadas ou de uma permanência confortável- tanto quanto possível- no telhado; em outras coisas mais. Falávamos do barulho, não é? Sim. Vamos embora ver isso:

Talheres, ao que parecia, era um som de talheres. Afonso mete o dedo no interruptor e acende a luz. Para seu espanto e, por que não dizer, horror, torna-se testemunha de um duelo, um duelo entre um garfo e uma faca. Com o intuito de melhor ouvir ou de ouvir com uma maior fidelidade os barulhos talheirísticos, começou a colar chumaços de palha de aço nas orelhas: metal para ouvir metal- com isso a sintonia do canal 6 melhorou em seu olho esquerdo. Lembra-se do simbolismo da bandeira branca, não há bandeiras por perto, mas é claro, o tempo dos quartéis já passou, e ainda estava distante o das festas juninas, tenta pegar um guardanapo. Ao esticar a mão, num gesto que causaria inveja em qualquer atleta que precisasse de um rápido dispor de mãos caso o houvesse, apalpou o ar, porque o acendedor do fogão cuspiu fagulhas, fagulhas que, por sua vez, ao entrarem em contato com a superfície macia do papel, criaram chaminhas. Chamo de chaminhas para tornar o elemento fogo mais simpático, para estender a simpatia que lhe é natural apenas, penso eu, aos piromaníacos. “Amor é um fogo que arde sem se ver;”, dizia o WithHands. Foi com grande satisfação que o acendedor viu o guardanapo se transformar em cinzas, enquanto as chaminhas saíam em fila indiana, com suas barrigas cheias, mastigando canções de antigos musicais. Tudo isso com o intuito de não haver intervenção na luta. Na luta entre a faca e o garfo.

As frutas, no cesto, contentíssimas. Vibravam. Os pratos conservavam sua fleuma. Os armários embutidos pareciam máscaras de teatro grego. Armários são pacifistas. Um palito existencialista conversava em voz alta com um ralador de queijo niilista. Pareciam ignorar o duelo. Bacana foi o que aconteceu com a formiga, que mascou um grão de açúcar mascavo cheio de fungo e inflou tornando-se um silencioso estalar de mandíbulas de caracol. Logo em seguida, ela se transformou num saxofone de gás metífico, reproduzindo- hermafrodita- melodias escritas com lenços de veludo em superfície rugosa, melodias audíveis somente para pessoas que saem de uma agência bancária ao meio-dia em ponto no extremo oeste da Nova Zelândia- desde que estejam vestindo uma bermuda xadrez, com cores que não combinam entre si, como laranja e laranja.

a) o duelo entre garfo e faca: possíveis razões
a.1) o diálogo:

- Eu corto, você fura!- disse a faca, com convicção.
- Eu furo, você corta! – disse o garfo, com indignação.
- Eu posso rasgar!- berrou a faca.
- Eu também!- berrou igualmente o garfo.
-Eu também”- levantou a voz uma tesoura.

Entretanto, a tesoura não figurava no duelo. Com isso quero dizer que não havia indicação de sua presença- a dela. Sua intervenção- a dela- foi considerada inconveniente e, por isso mesmo, um grupo de colheres-ninjas desceu por cordas invisíveis feitas de baba-de-quiabo e despejou um pequeno vidro de vapor de água do tamanho de um edifício-garagem na pobre. Ela enferrujou em exatos doze segundos e meio. Ficou semelhante a uma múmia de pterodáctilo. Pobre tesoura. Tesoura morta, tesoura posta (de peixe).

b) explicação sociológica para o rancor inter-talheral:

Faca e garfo não se cruzam- antes das refeições.

c) o show deve continuar:

A briga durou a noite toda. Parecia interminável e aquela cena cansou Afonso que estava cansado desde o outro dia em que esteve cansado, igualmente na véspera desse mesmo dia. Pensou em escrever. Podia esperar mais algumas horas. Sim, seria melhor. O deus senhor-dos-destinos de novo. A merdra era que… Afonso não sabia. Os dedos coçavam, queriam deegitar.

Afonso levanta-se. Apagam-se as luzes do palco. O canhão de luz é projetado em Afonso, que está no canto esquerdo do palco que simula uma cozinha. Não há nada que indique a existência de uma cozinha ali, a não ser uma menina vestida de rã que passa correndo pelo palco segurando uma placa onde se lê “cozinha”. A menina cruza o palco da esquerda para a direita. No sentido oposto, vem correndo um menino fantasiado de ovo estrelado que diz “Eu sei, eu sei que é uma cozinha!”, em holandês. A frase deve ser dita num número ímpar, numa quantidade relevante de vezes, para causar irritação na platéia. A tradução para o português é simultânea, e feita por um homem coberto de pêlos cenográficos, sentado na primeira fileira. Afonso finge abrir uma lata de cerveja. Bebe a cerveja e diz em voz alta “Sem rima e sem razão, já dizia meu primo, um corrimão”. Aproxima-se da borda do palco. Senta-se. Simula a digitação de algo. A digitação da carta, Afonso vai digitar a carta. Um pedaço de bolo rodopia. O som da digitação deve ser simulado pelo cara da bilheteria e, para isso, é mister que ele esteja resfriado. Se resfriado não estiver, que lhe provoquem o resfriado, com portas de geladeira, com estimulantes à alergia, com penas de peteca, com um exército de ácaros, com discursos políticos, enfim, virem-se, porque Afonso já começou a digitar a carta.

Afonso digita, digita, digita, digita, digita, deegita, as palavras iniciais, as palavras iniciais, sempre elas, as palavras iniciais, então a carta, a carta as acata. Porque merdamente estou com insônia e você não me sai da cabeça, não me sai do pensamento, sua imagem, quase invertida, sua imagem , tão linda, logo, sua imagem, Afonso precisa digitar. É preciso dizer que garfo e faca desistiram de lutar e juntaram-se para comer uma pizza.




Não tomamos ainda aquela cerveja

12 04 2008

Não tomamos ainda aquela cerveja, fomos interrompidos por uma multidão que se juntou como aqueles bandos de curiosos mórbidos que formam um círculo diante de um cadáver estatelado no asfalto ou de um artista de rua fazendo malabarismos e coisas de faquir, uma multidão de camisas e de cores e de bolsas e de troncos e de braços e de vozes e de espirais de fumaça e de penteados que pareciam arbustos, um cardume de peixes que forma uma nuvem para encantar cnidários e fotógrafos submarinos que imitam seres aquáticos e, subitamente, fomos desviados um do outro como bolas de bilhar numa jogada, mas fixos naquela calçada que não tinha nada de verde, que não tinha caçapas- mas tinha bueiros!- de modo que se fizéssemos das árvores próximas tacos com os quais pudéssemos encaçapar aquele povo com a maestria de um Rui Chapéu, árvores são compridas e não precisaríamos de fanchones, seria ótimo, nós então diferentes das bolas de bilhar que ao menos rolam, cumprem um movimento, a cerveja interrompida apesar do calor, apesar do cansaço do fim da noite de um dia agitado, apesar da vontade de sorver aquele ouro líquido, espumante e gelado entre uma frase e outra, apesar da vontade de sorver as palavras ainda foscas, mas espumantes e em iminência de ebulição, ilhados diante daquela massa que estava ali por estar, nós não, naquele dia poderíamos ser um istmo daquela massa continental de gente.

Você, você parada no corredor à espera de sabe-se lá o quê, olhando para os vidros das portas das salas como quem olha um quadro numa galeria. Não havia mais ninguém lá além de você, apenas um banco de madeira, daqueles que ficam nas praças, e essa solidão não parecia afetar você, entretida que estava com alguma coisa inconcebível, levando-se em conta a precariedade e o vazio daquele cenário. Você com uma postura que eu classificaria de perfeita, talvez efeito dos saltos, que não eram tão altos, não sei de que tipo exato eram, não sou sapateiro nem estilista, mas é uma falha no meu currículo após tantos anos de observação. Pesquisar. Sei que eram pretos- palmilhas brancas-, porque entendo de cores, desenho um bocadinho sabe?, e combinavam com sua saia, igualmente preta, e me recordo bem de que você usava uma blusa branca. Içando os fatos da memória, vejo agora com mais clareza que você estava de braços cruzados. Seus gestos eram suaves e seus cabelos, dourados como a cerveja que não tomamos naquele dia das invasões bárbaras, estavam presos numa espécie de coque. Coque, deve ser isso, não entendo muito de penteados, apenas da sensação que certos penteados femininos me causam, como o rabo-de-cavalo, embora o hipismo me seja indiferente (curto aquela música do Saint-Säenz e acho divertida a rapidez do Ernani Pires Ferreira, é tudo). Palavra-chave: estática; cabelos eriçados, relacionar isso ao que foi dito anteriormente= metáfora. Um traje que lembrava o de uma secretária, e depois vim a saber, através das suas palavras espumantes, que você trabalhava como recepcionista de uma dessas firmas gigantescas multinacionais e capitalistas, num prédio muito alto, de muitos andares, cujos topos ou ficam invisíveis pelas cumulus nimbus de poluição do centro da cidade ou pelo nosso nanismo passageiro que se manifesta nos interiores dos coletivos, esses tubos horizontais de batatas chips que riscam o asfalto em sua luta contra a tangente. Daí a repetição (dia da marmota), a maldita e sacra- num sentido profano- repetição daquela combinação de vestuário, combinação que me persegue, meu Zahir, como dizia o Tio Borges. Como?, como você se deslocava até aquele corredor onde te vi pela segunda vez- posto (de gasolina) que a primeira vez em que te vi foi no dia dos visigodos- imaculada, impecável, como se tele- transportada tivesse sido? Depois soube que você andava a pé e que tomava o ônibus, e que era açoitada pelos raios UVB, como a maioria de nós, mortais da academia brasileira de lendas (urbanas). Como? Por isso mesmo, como.

Soube desses detalhes sobre seu trabalho, sobre como você se desloca pela nossa selva de concreto e de outros mais quando enfim tomamos aquela cerveja interrompida pela horda de ostrogodos, cerveja que, por ter sido interrompida, multiplicou-se num milagre pagão. E você falava mais coisas e eu observava seus lábios rosados e úmidos de lúpulo e eu também falava coisas sobre mim, o calor do dia se esvaindo e uma tontura boba tomando as rédeas dos nossos gestos, do nosso discurso, uma leve embriaguez. Sendo que ele trazia uma bolsa de loja, dessas de plástico, cujo conteúdo eu já sabia de antemão, porque tudo foi combinado, mas só vi o que estava dentro da sacola de plástico depois que entramos no quarto.

Anteriormente tentei fazer o mesmo com K, mas as roupas ficaram apertadas- notadamente a saia; ah, sim, os sapatos também eram de um número menor- e ela terminou o ato numa cachoeira de lágrimas. Não agüentou a troca da inicial do nome pela letra R- teria sido o começo do drama; a saia justa, a gota d’água. Procurei entender e entendi. Posteriormente. Tivesse eu entendido antes, não teria posto em prática. Tinha que fazê-lo, era uma compulsão, uma necessidade daquelas que rasga.

Foram meses de procura e de pesquisa. Parece simples, brother, mas não é, até porque não tenho tempo nem fundos suficientes para corroborar aquela hipótese do clone que deambula em algures, você com as faces sempre coradas sem traço algum de vergonha, pelo contrário, senhora de si, bem resolvida, natural. O rosa natural. Eis um traço importante, mas havia outros mais, válidos apenas se combinados formando um conjunto, o seu conjunto. É verdade que tal qual um Dr. Frankenstein (de gabinete) posso satisfazer-me com traços isolados que remetam a determinados gostos. Não, neste caso em particular. Talvez sim, porque num determinado dia consegui enxergar dois ou três de seus traços e, zás, estática. Hoje aconteceu algo similar, em dois momentos diferentes do dia, mas não relacionados a você. Esse é um jogo sem fim, porque quando tomarmos aquela cerveja será apenas o início.

Então eu tirei as roupas que estava usando- ele me observava-atentamente- e comecei a andar em direção ao banheiro, para tomar uma ducha, quando senti sua mão em meu braço: “Não”. Segurou meu braço de um jeito que não era nem forte nem fraco, não sei explicar, mas me conteve. Fiquei ali, a meio caminho entre o quarto e o banheiro, de sutiã, calcinha e sapatos, não me recordo das cores do sutiã e da calcinha, aliás as cores não faziam parte do pedido, tanto faziam. Perguntei se podia ligar o rádio, ele fez que sim. Liguei, deixei num volume baixo, música ambiente (que de modo sorrateiro preenche o ambiente todo).

Eu quero sentir o calor da sua pele, a sua organização de cheiros, não o fantasma de cloro da água encanada e do sabonete (sabonetes de hotel têm um cheiro de nada que ainda assim é um cheiro, paradoxal), você molhada como quem sai de uma piscina, o que não deixa de ser bom, mas não, não aqui. Vista as roupas que estão na sacola, para que eu possa contemplá-las por um instante, tocar nos tecidos, para que depois eu as retire e possa sentir os cheiros seus que nelas ficaram, em cada peça. E o calor da sua pele, as marcas dos botões e elásticos e fechos e tiras. Tire os sapatos e deixe pegadas no carpete e nos lençóis da cama. Prenda os cabelos, para que depois, instantes depois, ondulem, ondas que refletem aquele sol artificial enforcado lá em cima. Ponha os óculos de aros redondos, para que depois, instantes depois, seus olhos fiquem míopes de uma miopia que não há.

Vesti a saia preta e a blusa branca. Troquei os sapatos que eu estava usando pelos que ele trouxe. Daí fui pra frente do espelho e prendi os cabelos. Enquanto ajeitava o penteado, via o reflexo dele, ele atrás de mim, de pé, observando-atentamente cada movimento. “Perfeito”, ele disse, antes mesmo de eu terminar. E eu pensei: “Esquisito, ficou mesmo bom, apesar de eu não saber quem eu imitava…”. Logo depois, coloquei o par de óculos de aros redondos. Acho que estava pronta.

Pena que não haja corredor nem portas com janelas de vidro nem o banco de praça solitário e chumbado ao chão para que nenhum maluco pudesse pousá-lo no parapeito da varanda. Não, não tenha pressa, porque não tenho pressa, as pesquisas hão de prosseguir, visto que você não é você, visto que não tomamos ainda aquela cerveja.




Três Madrugadas

27 03 2008

1.

Não conseguia compreender o porquê da pressão de seus dedos não surtir nenhum efeito nos interruptores que não fosse manchá-los de impressões digitais, as lâmpadas não acendiam, simplesmente não acendiam, e o escuro com sua capa, com sua sombra que lambe os cômodos, pois então, os cômodos, em nenhum deles era possível acender a luz, o fiat lux, restavam as sombras e as lâmpadas que fingiam não ser com elas e uma angústia muito grande, uma vontade de fugir para um lugar que não sabia onde ficava, acabava fugindo para um outro cômodo onde o gesto se repetia, uma repetição mecânica e triste, os dedos no interruptor, o rosto úmido de lágrimas quase colado à parede como uma ventosa de tentáculo de polvo, como uma traça que se pendura numa cortina, o barulho das falanges dos dedos contra o plástico do espelho e não-luz, tão somente o hálito da luz exterior, azulada, distante, estranha como uma luminosidade de crepúsculo de outro planeta, alta, insuficiente para enxergar as coisas abaixo do lustre, para rasgar o lençol das sombras, Érebo aplaude a noite-que-jamais-acaba de Nix, as cores todas misturadas nas palmas de suas mãos desprendendo-se em poeira escura, e o sorriso obnóxio que obnubila.

o barulho, tinha também um barulho, de pilha de sabe-se-lá-o-quê caindo, um estrondo, um barulho maior do que o era de fato porque o sono e os susto são amplificadores potentes, e então pulou da cama de um modo ridículo, marionete, caminhonete (numa estrada ruim, num declive tortuoso), os músculos em alerta, naquele segmento BC de reta em que não se sabe, nunca se sabe ao certo o quanto há de real e de delírio, mas os músculos, retesados, figura de anatomia, vitrine de açougue, músculos em alerta, violão flamenco, madrugada, má drugada, depois,

durante todo o dia, quando já havia luz e sol e tudo era- aparentemente- simples, após as torradas e o copo de leite, os cigarros e jornal, ficou pensando a respeito, num mutismo de caracol, num silêncio de biblioteca que, por vezes, era apalpado por um resíduo de ruído exterior- sempre exterior. Foi um dia improdutivo, nada fez além de análises sintáticas de seu cotidiano. – Não posso ser nocauteado por um pesadelo ou por qualquer outra tolice deste gênero!- pensou. Mais para o fim do dia, um telefonema de um amigo, a conversa sobre gripes e maratonas de afazeres irritantes e planos para o fim de semana, coisas que distraem. Entretanto, — ler aqui uma tautologia tão conhecida, mas tão conhecida, que não me atrevo a escrevê-la — ,

2.

uma nova escuridão chegou, desta vez com gritos, talvez uma briga, embora só se lembre de ter visto a si mesmo, xingando, proferindo palavrões num descontrole e ritmos quase tourette, mas é claro que tinha mais gente naquela jogada ali, sim senhor, porque pôde entrever alguma coisa, silhuetas, silhuetas de turma-do-deixa-disso-rapaz, não vale a pena. Desta vez não houve eject patético do colchão, nem mesmo necessidade de tamborilar as falanges nos interruptores, a escuridão não incomodava, ela que ficasse por ali, à vontade, passeando e paciente numa espera pelo dia que viria logo em seguida, logo depois, essas coisas de dia e noite sempre vêm, sucessão (um sucesso grande, retumbante, hit)- e devem ser mesmo muito bem sucedidas, já que voltam ao palco ainda que não haja platéia nem aplausos nem pedidos de bis, mas voltam, teimosos que são, persistentes, tão insistentes que

3.

na terceira noite veio uma conversa, só isso, uma conversa e um comentário, algo que dizia respeito às eleições, diálogo rápido com uma pessoa que não via há bastante tempo, abre os olhos e localiza o ponto do dia de acordo com o que o rádio veicula, desta vez não houve interruptores nem lâmpadas caladas com seus crânios de humanóides de retratos-falados de livros de Ufologia e muxoxos de gente metida à besta, nem xingamentos, só isso, apenas isso, coisa banal, coisa sem graça de relatar, e não houve salto das cobertas, nem corrida para a sala para ligar o ventilador, abrir as frestas das janelas, acender a luz da cozinha, sapatear como naqueles musicais em busca dos chinelos, mijar e ouvir o barulho do jato de mijo furando a estagnação do espelho d’água do poço lá do fundo de louça do vaso sanitário, fumar um cigarro, fagocitar uma partícula de barra de chocolate, e depois, e depois, dormir. Veio o dia, ele sempre chega, engraçado, porque numa outra ocasião achou que não chegaria e teve medo, mas ele chega sim, junto com os tablóides do jornal, um tanto quanto amassados pela pressa da entrega e pela queda após o arremesso, zzzzziiiiIIIM!, e com o dia, coisas a fazer, tantas coisas a fazer que se esquece da treva à seguir.




Milton

22 03 2008

No início, Milton era um hamster comum. Parece demasiado idiota dizer isso, um hamster comum… O que seria um hamster incomum? Um hamster que se comporta como um camarão ou, quem sabe, um roedor que joga xadrez e ouve tango com uma rosa vermelha entre os dentes enquanto lê Borges? Aquilo no que ele se transformou, aquilo que ele é. Não me sinto bem ao dizer “aquilo”, gosto dele da mesma forma, isso não mudou desde o dia em que o trouxe da loja de animais, só que as coisas ficaram muito complicadas, as coisas tomaram um rumo que jamais imaginei, e isso é assustador, demais, meu chapa, principalmente quando tento racionalizar a questão, quando tento ser objetivo, realista, e chego à conclusão de que não há uma resposta convincente ou ao menos confortante, por mais que eu as tenha buscado em livros especializados, em conversas com veterinários e biólogos, em documentários… Apesar do ceticismo que me é característico, cheguei a buscar uma solução no terreno paranormal, mas o que encontrei foi tão estapafúrdio que só me rendeu risos. Ao menos eu ri, foi positivo naquele momento de angústia e de cansaço e de depressão do sistema nervoso semTraum.

Não foi o primeiro, houve outros ao longo da infância, hamsters têm um ciclo de vida curto, máximo de dois anos, o que é uma pena, adoro esses animais e a despedida é sempre dura, os enterros em canteiros abarrotados de plantas ornamentais realizados pelo porteiro e o rito fúnebre de levar-lhes nanoflores, o consolo do veterinário que fazia longas explanações sobre as Cruzadas e das pomadas para curar doenças de pele dos pobres bichos. Trouxe Milton para casa em Dezembro, antes do Papai Noel e do banquete do Reveião. Tudo ia bem, rotina de um hamster, ração, água, corrida na roda da gaiola, escaladas acrobáticas nas grades, atividade noturna, hibernação, troca do jornal que forra o fundo da gaiola e absorve o cocô e o xixi etc. No entanto, cerca de duas semanas depois, notei que Milton havia crescido um pouco demais para um hamster, eis a palavra de novo, comum, tanto que fui obrigado a providenciar uma gaiola bem maior. Passado um mês, Milton tinha o tamanho de um gato castrado que espalha a rama pelo chão- acarpetado. Com um mês e meio, já parecia um Dodô, aquele antepassado da galinha. E não havia mais lugar onde ele pudesse ficar que não fosse o quarto dos fundos. Pouco tempo depois, o quintal inteiro.

Pensei: se ponho este bicho a girar numa roda-gigante, cá tenho uma hidrelétrica ecologicamente correta e, puta que me pariu, estou rico, a fumar charutos acendidos com notas de euro, e o gerente do banco, bajulador, com um sorriso do tamanho de Júpiter, e a entulhar o estômago de porções anoréxicas de restaurantes luxuosos e a satisfazer aos caprichos de alpinistas sociais vestidas com casacos de pele, botas de prada e nuas por debaixo desse luxo todo no táxi de aeroporto a me chamar de “docinho” entre um beijo e outro de batom rosado e goles borbulhantes de champagne, bolinando as cuecas de seda a despertar meu pênis, reinações de Jacques Cousteau abaixo do espelho d’água da Jacuzzi. Mas ao invés disso, o dia seguinte, os montes de merda do tamanho de formigueiros da savana de um documentário da National Geographic, o carteiro esmurrando a porta, o telefone que toca com a noiva berrando, histérica pela perda do jantar com os sogros, eu com sono e barba por fazer e guimba de cigarro mata-rato no canto da boca, a louça acumulada na pia, o esfregão ficando velho, as ervas tomando conta do chão do quintal, e as dívidas, e dúvidas, e Milton tentando roer o sofá de três lugares. Quis ser arqueólogo um dia, mas não ter um dinossauro em casa, apesar de que, Milton, meu querido bicho de estimação, Milton, meu amigo hirsuto, Milton amigão.

Três meses depois Milton ocupava já a sala inteira, e eu obrigado a dormir debaixo dele, como um Neanderthal ao abrigo duma caverna, espirrando por causa dos pêlos, rinite alérgica. Não podia mais a essa altura receber visitas, tornara-me um anacoreta, um desgarrado de Lord of Flies, uma personagem de Lost, um Crusoé de quinta categoria. E Milton crescia, crescia, crescia, sem parar, aluguei a casa ao lado, dos vizinhos que fugiram aterrados na crença de que aquilo era um prodígio do príncipe das trevas, um sinal apocalíptico ou qualquer coisa desse top.

Foi-se o quarto mês e Milton seguia na sua hipertrofia de mioma e eu, desesperado, segurando o terço bizantino do benzodiazepínico e da masturbação mental existencialista, e cogitando: onde isto vai parar?, porque não há mais espaço, Milton, cesse a expansão, pelo amor de Deus, e minha mãe a dizer “Não morde Deus, que é pecado”, a noiva dando meia-volta no compasso de seus tamancos pretos, quatro por quatro, blues, meu brother, não posso lidar com um problema desse quilate, com um bicho de estimação tão grande quanto Anita Ekberg, giganta, nórdica, humilhando o pobre rapaz, no filme do Felllini, e sigo a pensar, “Onde isto vai parar?”, porque testo meus limites a cada dia e isso fode com a paciência da gente, sem consentimento nem licença, logo, um estupro.

Você me liga e pergunta: “Como tá?”, ao que respondo, “Agora ele ocupa todo o condomínio… E roeu a roupa de toda uma linhagem real romana, jogando um balde de água antártica nos sonhos dos prosélitos da monarquia. Seria o ano do Rato no horóscopo chinês?, perguntou-me essa amiga, a que me ligou, provavelmente para desviar-me do assunto, tem habilidade para me acalmar, para me fazer dormir, a voz dela é um cafuné com mão quentinha, um embalo gostoso no colo num final preguiçoso de uma tarde de um verão com um sol de reflexo de lembrança que entra enviesado pelas frestas das portas entreabertas da varanda, leve cantar na prosa, um princípio de sonho, um sonho lindo, sonho que me abraça do outro lado do mundo, vou mandar a noiva às favas e casar-me com essa, essa sim sabe do homem que vos fala now, at the present, at the moment, ela sabe me tranqüilizar e me conduzir, e isso é o que vale nessa porra toda, enquanto Milton não pensa em nada disso, a não ser em crescer, cres-SER, e roer tudo, dada a sua natureza de portentoso hamster, mesmo enquanto hiberna, enquanto sonha, tudo rói, roi des animaux, seu sonho peludo numa bola de serragem e de jornal picotado, que pulsa e pulsa incessantemente. Mas Milton, meu amigo, meu bicho de estimação, estimo-te, ainda que sejas minha ruína e motivo de insônia, meu cagaço matutino diante do espelho em que me vejo de barba por fazer e com cara de dez anos que se passaram num estalar de dedos. Na ligação seguinte a notícia é a de que Milton, após violento espasmo provocado por um espirro, derrubou as quatro paredes, cataplum!, e correu pras montanhas, pra brincar com as torres de televisão, roê-las, enquanto o repórter do jornal local, como eu, de barba por fazer e com cara de dez anos que se passaram num estalar de dedos noticia o evento, “Ele ocupa toda a montanha, onde se viam rochas, vê-se hamster, tão somente hamster, vê-se Milton, gigante, Milton, meu amigo, meu bicho de estimação, em seu sonho de liberdade que pulsa numa esfera de pêlos e jornal picotado e serragem, e você a me dizer com sua voz doce de afago de mão quentinha, gostosa de impressionar os tímpanos, “Descansa, vai deitar, tenta dormir”, enquanto o município é arrastado inteiro, com seus prédios e as favelas e as ruas e as avenidas com nomes de homens de vulto e os carros e as passarelas e as pessoas nas padarias a engolir seus cafés fumegantes da manhã com pão francês pincelado de manteiga e olhe lá, dê-se por satisfeito, e a cuspir suas preocupações e cagaços junto com a pasta de dentes direto no ralo da pia ou na louça da latrina, tudo isso arrastado pras bolsas onde ele, Milton, guarda as sementes de girassol, só pra prevenir, o rato é prevenido, faz stock, não sabe na ignorância mística dele se é seu ano no horóscopo chinês.




Muito bem,

19 03 2008

chove lá fora, há alguma novidade nisso, já que passamos por semanas de deserto, um calor irreal, com direito a tudo o que não pedimos porque não estamos numa praia ou numa piscina, mas no centro da cidade, e um pássaro resolveu esconder-se dos pingos- não é como o chuveiro para nós-, está há horas ali, aguardando uma estiagem. Abro a janela, ofereço-lhe um café que eu acabara de fazer, não sei se pássaros apreciam café, não faço idéia. Cigarro nem ofereço, suponho que pássaros não apreciam tabaco, no que fazem muito bem, lá- no céu- já há tanta nuvem, tanta fumaça, tanto gás, para que mais? Vejamos a mancha tipográfica (mas não é um livro!):

-Olá, pássaro!
-Olá!
-Não pára de chover desde cedo, hein? (questão: as pessoas dialogam dessa forma?)
- Sim, e isso atrapalha meu trabalho. Ia construir um ninho hoje, os filhotes, e veio esse tempo, minha mulher, já ouço as reclamações, serão muitas (serão? Não seria… um prognóstico… pretensioso?) , certamente,… E você, o que faz no seu ninho? (pássaros não falam!)
- Acabei de fazer esse café… Quer um pouco?

“O Havaí, conforme certa lenda, emergiu do mar quando uma divindade desceu e pôs um ovo” (1)

- Não é má idéia- E ele pousou na borda do copo e deu literalmente uma bicada no café (isso foi ridículo; entretanto, foi o que se deu, assim são as coisas).
- Forte e amargo… Quase não se sente o açúcar. Os apreciadores pensam que o verdadeiro café não deve ser adoçado.
- Eu não uso açúcar, uso adoçante, algumas gotas apenas…
- Você acredita em adoçantes?
- Bem, até agora, sim.
- Dizem que não funciona.
- Até agora não tive problemas com isso.
- Dizem que é cancerígeno.
- Você é da medicina?- Irritação, admito, foi uma semana cansativa.
- Não, apenas um pássaro interessado em artigos científicos…
- A ciência erra, meu amigo de asas… Pode crer!
- Virou uma religião laica…
- Tenho uma natureza mística, mas não sigo religiões.
- Mas acredita em alguma coisa?
- Em muitas coisas.
- Você, o que faz?
- Escrevo contos.
- Um sonhador.
- Sim. E isso é complicado.

Wish that I were a yellow bird/ I’d fly away with you/ But I am not a yellow bird/ So here I sit/ Nothing else to do. (2)

- Eu vôo. Isso também é complicado. Mas o céu é grande.
- Parece haver bastante espaço.
- E há. Há que se voar!

–Breve pausa—

É também por isso que gosto desse sujeito, o Sr. Pássaro. Muitos podem discordar. Corremos o sério risco de nos tornarmos ruínas. Não podemos mais nos dar ao luxo de deixar como legado pinturas rupestres- se é que foi apenas isso. Temos muito mais a dizer, com cores muito vivas, ainda que a linguagem empobreça e cubra de fuligem o sentimento, um gaguejar da cristalina leitura do músculo cardíaco, mutismo infame. E também basta de se dar ao luxo de se evadir da felicidade por conta da porra do medo do novo- fosse assim, o antropóide lá atrás não teria descido dos galhos, e os pilotos das naus teriam borrado as calças no segundo grito do conquistador que findou seus dias na ilha de Elba, e Fleming, jogado fora o bolor da nova medicina. Porque os futuros historiadores não acreditarão em nós. Essa é a parte trágica. Ou talvez a cômica, vá saber…

Passados dez minutos, era igualmente um pássaro. Porque tudo é possível numa sexta-feira. Neve de consistência elástica, por exemplo, ou uma moldura que toma a forma que bem entende. Beber uma cerveja com Augusto dos Anjos e comentar capítulos de novela enquanto se mastiga um bolinho perfurado por um palito. Inflação inexistente e progresso e evolução. Sapos que solfejam melodias de trip-hop. Desejar duas mulheres- amar uma nas primeiras doze horas, amar a outra nas doze horas seguintes, e revezar, para não haver ciúmes, uma delas poderá ser a mãe de seu (s) filho(s), ou ambas (case-se duas vezes) ou uma terceira hipótese cuja órbita se encontra num universo paralelo, daí que tudo sai ao contrário para o desespero do astrólogo do jornal impresso (jogar fora os jornais velhos), igualmente do astrofísico. Transformação do sono em especulação, para leitura de diversos romances, cartões de visita e até mesmo de faturas de contas que já foram pagas. Ser vitimado por uma insólita paralisia no polegar que faça com que o sinal de “legal” se torne permanente, ainda que as coisas não estejam tão “legais” (teria grande êxito em Roma, outra época, obviamente, para outros fins). Que alguma coisa tenha razão: a Química, a Biologia, a Psicologia, a Bruxaria, a Experiência de vida ou, no limite, o Caos, de modo que se possa dormir realmente em paz (não em pax, com o coração plácido, com o coração leve, como numa manhã de Domingo, cosmogonia egípcia, felicidade e gozo- que é todo o corpo, Lacan-, damas- não o jogo, refiro-me às damas, coxas lisas e brilhantes, leve penugem loura, e seios, e bunda- primeiro). Compreender as pipocas sob um ponto de vista Estruturalista às duas da manhã (vê-las como pão, na ausência do, no time for the supermarket, honey, a cozinha é um lócus surrealista quando se quebra a rotina de ir ao mercado) e, quem sabe, jogar cartas com o Curupira, caso haja tempo para tal.

(1) Os Pássaros. In: Homem, Mito & Magia. São Paulo: Editora Três, 1974.
(2) Yellow Bird, The Brothers Four.




Fortuna

18 01 2008

e folhas, muitas folhas, e o facão de bainha enferrujada que as decepa. Troncos, galhos, cipós, ninho de pássaro que já voou para longe daqui. E a chuva que não pára de cair, acentuando o cheiro do mato sem fim, dessa terra que só tem plantas e barro e distâncias, hoje quatro índios escorregaram ladeira abaixo, parecia uma prancha de navio feita de barro, engolidos pela folhas, eles engolidos pelas folhas, sorte que não têm alma, um dos missionários ainda rezou. Não podemos ver muita coisa pela frente na trilha que abrimos- em nome D’el Rey-, há uma nuvem densa que cobre tudo o que está pela frente como uma cortina, tinha uma cortina que cobria a cama de uma dama com quem estive, para espantar os mosquitos e as assombrações que vagam pela escuridão da noite- eu já vi, vi uma mulher coberta por um véu negro, ela segurava uma vela- , quando escapei do quarto, corri pelo escuro, não pude usar uma vela, e a cidade, tive que fugir, vivo fugindo, moça filha de donatário, homem que buliu com ela foi enforcado, isso eu também vi, o corpo balançando, a mulher que dizem ser bruxa espiando por trás das moitas à espera da mandrágora, bruxa velha, velha louca, faz o coração dela ser meu, se o coração dela que está no vilarejo for meu juro que, ó mulher de Satã, reza sua ladainha e dança na lua cheia, traz o coração dela para perto do meu, espinha de peixe, couro de cobra-coral, risca a terra com gravetos, ó mulher (Buena Dicha, Buena Dicha)… Mas o diabo me tenta, morte não me assusta, já vi tanta gente morrer, tanta gente morta, já mandei pro inferno tanta gente, eis o que me tornei, fugitivo, assassino, aventureiro, caçador. Para fugir já fui padre, índio, mulher de taverna, soldado e morto; já cruzei a baía atrás de baleias. Agora aqui, abro trilhas, o cheiro do mar já se perdeu, já é distante, os rastros no areal lá atrás, a pele coça, os mosquitos, um barulho de onça. A pele molhada, coberta de barro, rosto encardido.

E passamos por um homem morto, um esqueleto cheio de formigas, talvez um pirata, o crânio ri sua alegria putrefata enquanto os outros piratas se foram, quiçá para o barco, quiçá para o inferno, as ervas crescem como cabeleira e as formigas entram e saem pelas cavidades dos olhos, em fileiras, como nós avançando mato adentro. O crânio ri porque morto. Descansa no inferno da selva enquanto a alma repousa na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tem flechas no esqueleto, os outros índios, foram eles; são agressivos, já atacaram outro grupo que tentou avançar, ninguém consegue vê-los, são rápidos, muitos dizem que são diabos do mato, os missionários não gostam dessas crenças, o diabo que os carregue, nada vêem de dentro das missões, dos panos pretos dos confessionários, das liteiras, creio no que quero, já vi muita coisa nesse mundo; os mosquetes, machados e facões caem no chão e vão sendo cobertos pelas ervas, pelas raízes, apodrecendo com a chuva sem fim, tudo apodrece e viceja ao mesmo tempo nesse desgraçado deserto verde.

A caminhada já dura muitos dias, até porque não sabemos o nosso destino: ainda estamos a traçá-lo. Só Deus sabe se vamos chegar a um algum lugar. Talvez por isso eu me sinta perdido e triste. O calor é muito forte e sinto-me enjoado. A sede por água me paralisa como veneno, enquanto que a sede pela fortuna me empurra. As pedras, caso as ache, vendo-as. Guardo alguma para ti, para que tu faças um ornamento, uma jóia. Fugimos do vilarejo. Sei que queres ir, mas não podes por ora. Estás presa numa trilha, estou noutra. Sairei daqui e vou te buscar, casaremos, rabeca e vinho; uma cabana com um poço, galinhas e horta.

E comemos, porque tivemos sorte, porque os índios capturaram uma capivara, e havia a fogueira que estalava com as faíscas subindo para o céu que mal podíamos ver, só um pedaço negro de céu, uma mancha de pólvora, e as estórias dos índios, dos Boitatás e Mapinguaris, as fuças do missionário torcidas, estórias de guerras entre as tribos, e havia ainda a aguardente que tirou a dor dos cortes nos meus ombros, que me fez ver não o verde do mato que nos enredava, mas o verde dos olhos dela, moça bonita que ficou lá longe no vilarejo, quando abaixei a aba do meu chapéu, quando eu fechei meus olhos e acho que dormi

contigo, tua pele morena e teu cheiro de flor, a cruz de madeira balançando, batendo no teu colo, acima dos teus seios, tua pele morena molhada e quente, tuas coxas brilhando à luz do candeeiro

porque clareou muito rápido então devia ser sonho e alguns índios corriam assustados, falando aquela língua deles, correndo em círculos, gritando, batendo nas árvores, agitando os braços como gaivotas cercando os peixes, quem sabe abelhas, a onça, não, uma figura gigante aparece, uma mulher muito alta, vestida com vestido branco rendado, branco que quase não mais se via por causa do barro, cabelos louros encardidos pelo tempo passado no mato, marcas de lágrimas como sulcos de riacho na face igualmente enegrecida, segurava algo nas mãos, tentava correr, tentava falar, não era só barro no vestido, sangue, sangre

Trilla… La Trilla…

E o rosto encardido, máscara de pavor marcada por dois sulcos de lágrimas caiu como um pano revelando uma outra máscara, máscara de morte, rosto descarnado, os cabelos louros e encardidos no chão como uma peruca, atrás dela, atrás dela, dela que ainda gritava com aquele rosto que não era mais rosto

“Trilla, Trilla”

os outros, os outros índios, eram muitos, corpos cobertos de peles de animais e de pêlos, olhos brilhantes e injetados de sangue, sangre, o som de bordunas e flechas, peguei o facão e comecei a cortá-los como vinha fazendo com o mato, a chuva caindo agora mais forte, não era possível vê-los bem, as peles e os pêlos, a chuva açoitando meu rosto, o sangue, sangre que espirrava, os gritos deles ferindo meus ouvidos e me cegando, são muitos, há mais deles do que as gotas de chuva, do que as malditas folhas, estou preso nessa trilha e tu estás noutra, mas sairei daqui e vou te buscar, apesar dos gritos e dos uivos deles ferindo meus ouvidos e cegando meus olhos, o cheiro de carne, de terra molhada, sufocantes, o mato se movendo e caindo sobre nós como uma rede, como um abraço verde.




O incrível caso de Letzen Powell

30 12 2007

Berna, 1942. Era noite, porque não fazia sol, e conseqüentemente chovia- para cachorro: lembrar Costinha ou Tom Waits. Letzen Powell estava muito nervoso, seria sua ducentésima luta; até então, não havia conquistado vitórias, tampouco derrotas, apenas empates técnicos- certa vez, seu técnico, furioso, subiu ao ring e tentou intervir na luta, fazendo caretas e segurando a toalha de forma obscena ou Wândica; por sorte, era asmático e foi retirado pela garota-de-biquini-que-segura-a-placa, que lhe fez cócegas na testa, portanto, ele não atrapalhou no resultado do combate. O técnico teve um ataque, entrou em coma e passou dois anos e meio respirando com a a juda de aparelhos eletrodomésticos- um liquidificador e uma batedeira chamada Aurora- e balbuciando apenas quatro palavras: “Gostosa”, Biquini”, “Cócegas” e “Quetzalcoatl”.

Letzen iria lutar contra Pee Wee Willoughby, um ex-lenhador que entregou sua vida ao Boxe de Mesa após ter perdido 1/3 do cotovelo esquerdo num acidente com seu machado (de Assis). O ginásio estava lotado, cerca de 12 pessoas, meia-dúzia das quais pagando meia- refiro-me à entrada, porque eram estudantes, não relacionar com meia no sentido erótico-sexual-pervertido; o mesmo é válido para entrada. O público estava tenso, 11 pessoas liam gibis e uma dormia. Pee Wee Willoughby andava de um lado para o outro no ring-de-mesa, tal qual um uma pantera numa bacia

Enquanto isso, não havia aquilo. Por falta de espaço, e levando em consideração a lei da impenetrabilidade. Mas enquanto isso, Letzen rezava diante de um totem que representava figuras de animadores de auditório famosos, e calçava as luvas. Pensava no quanto seria boa uma vitória naquela noite. Numa garçonete chamada Vitória; numa cheerleader chamada Vitória; numa neurologista chamada Vitória; num estivador chamado Vitória; numa esferográfica chamada…

Eis que as luzes do ginásio se apagam e um spot ilumina um copo de cerveja no balcão do bar onde uma mosca nadava crawl. Obviamente, o iluminador errou, foi despedido sumariamente, e substituído pela bilheteira, que tinha fotofobia, e que de óculos escuros lembrava uma vespa. O spot ilumina finalmente o apresentador da luta, um daqueles caras que tem voz de nariz grampeado. O apresentador chama Willoughby, sem necessidade, pois ele já estava no ring há 3 horas. Logo em seguida, o nome de Letzen é anunciado. Letzen encaminha-se espontaneamente para o ring, empurrado por 16 escoteiros que passavam por ali ocasionalmente e que precisavam cumprir uma boa ação.

Letzen foi delicadamente jogado no ring. Suava frio. As gotas de suor transformavam-se em pedras de gelo que, ao tocarem o chão, sumiam. Um cientista que estava na platéia viu essa cena, foi para a casa, e em 15 minutos projetou a primeira geladeira frost free.

Soa o gongo e Willoughby começa a dançar freneticamente, como um Carlinhos de Jesus plugado numa usina nuclear. Letzen pensa “Que fazer? Que fazer?”. De repente, não mais e não menos do que de repente, Letzen ouve uma voz, vinda de algures. A voz perguntou: “Alô, é da farmácia?” Letzen disse: “Não, é da casa da minha avó!”, ao que a voz respondeu “Desculpe, foi engano, eu queria falar com a MINHA avó…” Mas então veio outra voz, que disse a Letzen: “Cordas!” “Cordas?”, perguntou Letzen, e a voz respondeu “Sim, imbecil, cooooooordas, cê-ó-erre-dê-á- ésse!” Uma lâmpada brilhou na cabeça de Letzen. Uma lâmpada econômica, pois era 1942, estávamos em plena guerra e havia escassez de lâmpadas, já que muitas foram convocadas para a infantaria da Resistência Francesa.

Sendo assim, Letzen começou a se jogar nas cordas e a quicar de um lado para o outro do ring. Willoughby tentava acertá-lo, mas só conseguia esmurrar seu próprio queixo e alguns fantasmas que ali estavam.

Um tremor de terra vindo do nada atinge o ginásio e simultaneamente dez metros quadrados da praia de Grumari. O teto abre-se como o Mar Vermelho, e de lá desce um cover de Benito de Paula, que começa a cantar “Amigo do Sol e Amigo da Lua”. Todos param- inclusive os lutadores- para ver a apresentação. O Benito fake é gongado ainda na primeira estrofe pelo espectro de Ary Barroso, que emerge de um saco de pipocas pertencente a um homem vestido com um sobretudo roxo sentado na primeira fila. O bonito cover parte inconsolável do ginásio montado num filhote de elefante inflável, que escapou do vendedor de balões. A luta prossegue. Na décima-oitava vez em que Letzen quicou, Willoughby acertou um jab de esquerda fatal no seu próprio baço, sofrendo um knockdown. Willoughby teve uma convulsão, levitou, imitou Fred Astaire e, por fim, desmaiou. O juiz só contou até 3, porque era péssimo em matemática. Por dois votos a um, Letzen foi considerado campeão do combate. Estava criado o estilo Estilingue do Boxe de Mesa. Nascia um mito: Letzen Powell.




Entregas

24 12 2007

Deixe-me ver se consigo explicar: não há apenas um homem que seja a figura a quem chamam de Papai Noel, mas vários. Sim, somos muitos, então o correto seria dizer Papais Noéis. Você certamente diria “Ah, perde-se a graça. E o encanto? A magia?”. Compreendo seu ponto de vista. É bem mais interessante pensar que apenas um homem distribui presentes para todas as crianças do mundo numa mesma noite. E pensar também que esse homem sai lá do Pólo Norte e que dirige um trenó puxado por renas, e que tudo isso- o trenó, as renas, o próprio senhor do Pólo Norte e todos os presentes- voa. Algo mais? Ah, sim, que esse homem conhecido como Papai Noel tem uma fábrica onde confecciona os presentes sob encomenda- as crianças de todo o planeta mandam suas cartinhas dizendo ao velho o que desejam ganhar; com o advento da espacialização, é bem possível que crianças de outros planetas também enviem suas missivas natalinas, no caso de não existir Papai Noel no mundo de origem delas. Nessa fábrica, trabalham anões, eles ajudam Papai Noel com as cartas, com a fabricação e com a entrega dos presentes. Divisão do trabalho.

Primeiro você franziu a testa- sempre faz isso quando fica zangada-, e depois riu. Mas o que posso fazer? Mentir? Não dá! Agora você está pensando também que o que estou contando é uma mentira, uma estória maluca, uma fantasia. Não é, é a mais pura verdade. Sei que muitas estórias são contadas antes de encontros e também durante encontros. E depois. Não é o caso, realmente não. Sei o que estou falando porque faço parte do processo.

Como funciona? Bem, é curioso… Como eu te disse, somos muitos, portanto esqueça realmente a idéia do bom velhinho polar e solitário que voa com suas renas e que é auxiliado por anões. Há anões entre nós, mas nem todos são anões, como reza a lenda, percebe? Digamos que é um tipo de empresa ou corporação. Hã… somos recrutados. Fazemos provas. No caso de aprovação, passamos por outra bateria de testes, inclusive exames de saúde física e mental. Não pode haver malucos nem irresponsáveis entre nós, porque, por exemplo, digamos que uma criança peça um urso de pelúcia, a carta é aberta por um delirante que resolve entregar um filhote de urso… Pense na confusão, no filhote de urso balançando a árvore de Natal, puxando com suas garras a toalha da mesa para devorar os restos da ceia, pessoas correndo de pijamas! E se a família morar num prédio? Pense no filhote de urso correndo pelos corredores; pessoas pegando o elevador e se deparando com o filhote de urso lá dentro.

Depois vem o treinamento- que não é nada fácil, eu diria que é quase… espartano. O treinamento leva meses, até que estejamos prontos. Aí é que começa a parte engraçada e bizarra do processo. Sim, você tem razão, refiro-me à entrega dos presentes. Mais uma bebida? Também vou querer.

Muito bem, os presentes são entregues para todas as crianças do mundo e no mesmo dia. Essa parte da estória é verdadeira. Como fazemos isso, sem que as famílias e as crianças percebam? Nós agimos sob disfarce. Sim, disfarçados, todo tipo de disfarce. Policiais, bombeiros, entregadores de pizza, bailarinas, garis, mergulhadores, astronautas, apicultores, médicos, esportistas, pedintes etc. Atuamos como agentes secretos.

Cada um usa um disfarce que facilite a entrada na residência de quem vai receber o presente. Nos disfarçamos de objetos, de animais e de plantas também. Eu já me disfarcei de pilastra, de telha, de palmeira, de cachorro, de rato de laboratório, de bola de bilhar, de mesa, de caixa de charutos, de tablóide. Essas fantasias são complicadas, não são como aquelas comuns- para carnaval, festas à fantasia, dia das bruxas e fantasias de cunho romântico-sexual- vendidas em lojas. São perfeitas, podem confundir qualquer um. São feitas sob medida e com uma tecnologia avançadíssima, só não me pergunte como é, não posso falar muito a respeito. Primeiro porque me é proibido, segundo porque não entendo bem, não sou cientista. Temos que parecer pessoas comuns. Ou animais comuns. Ou objetos comuns. No dia em que me disfarcei de pilastra, um zelador começou a me pintar. Como sou alérgico à tinta, espirrei- foi uma falha minha- e ele correu, achando que era uma alucinação ou que o lugar estava assombrado. Acidentes acontecem… Noutra ocasião, me disfarcei de quadro e fiquei dois dias pendurados na parede. Sempre que recebo a missão e percebo que serei humano ou animal, sinto um alívio enorme. Se bem que foi chato ser um pintassilgo… Temos que agir com a maior naturalidade possível mesmo quando somos obrigados a executar malabarismos ridículos, tudo em nome do cumprimento de nosso objetivo.

Só lamento porque não vemos os resultados do nosso trabalho. Só dá tempo de imaginar, porque são várias entregas ao longo da noite. Então os deslocamentos, as trocas de disfarces, como te contei, agora você sabe. Gosto de fazer isso, gosto mesmo, meu Natal tem sido mais feliz desde que entrei pro ramo.




Viscoso

22 12 2007

Não reconheci minha sala quando a olhei de fora de casa, tinha saído para pegar o jornal de madrugada. Por um instante muito breve, aquela sala não era a minha sala, a sala pela qual eu havia acabado de passar. Era como se eu olhasse um quadro retratando um ambiente que me era estranho ou uma foto mostrando uma sala alheia. Ainda assim, entrei, porque tinha que entrar, era minha sala, minha casa, já havia pegado o jornal, não tinha mais nada a fazer fora da casa. Olhei para o céu que começava a clarear, aquela estrela insistente e enorme brilhando. Penso que larguei o jornal numa cadeira de vime e pus as chaves num prego que fica pendurado na parede- as chaves balançando, dlin,dlin, pararam.

Não me recordo se voltei direto para o quarto ou se antes passei na cozinha e peguei um café. Sim, eu fui à cozinha, peguei o café, mas não voltei para o quarto. Parei na sala e acendi as luzes. A sala não me parecia mais um lugar exótico, seu clima familiar e hospitaleiro tinha voltado. A velha e boa desordem da sala. Ela esqueceu um casaco na sala e lá estava ele, estirado num sofá. Ainda emanava um leve perfume. Parecia me olhar. Lã que olha, lã que observa atentamente meus gestos desengonçados de não-lã. Toquei o casaco, um afago rápido, porque a lã não responde, a lã não se arrepia, como a pele dela, a penugem não se eriça, não há bolinhas que brotam do arrepio, não há gemidos nem suspiros nem risadinhas nem variações respiratórias, ao menos não percebo isso, meus sentidos não estão treinados para um diagnóstico da lã. Não havia dado tempo para saudade. Não sei por que toquei o casaco. Ela voltaria logo, antes do final de semana, certamente. Ligou cerca de uma hora atrás, eu dormia e o telefone pareceu um boi enfurecido invadindo um tranqüilo e silente oásis. A lua caindo e batendo na minha cabeça, o eco de uma visão de binóculo embaçado. Ela disse algumas sacanagens, fiquei excitado, isso expulsou meu sono. Ela viria antes do fim de semana.

Não queria estar ali. Queria estar em outro estado, outro país. Um dor de cabeça me disse um olá amargo. Esqueci de comer durante o dia, dia cheio, atendendo pessoas chatas que queriam resolver problemas chatos. Não gostava tanto do meu trabalho. Queria ser esgrimista. Ou caminhoneiro. Ou desenhista e projetar coisas interessantes. Poderia fazer quadrinhos também. No ano anterior, tive vários empregos. Me metia em trabalhos curiosos: carregador, encanador, garçom no turno da noite, porteiro. Larguei durante esse ano o escritório para buscar empregos diferentes, uma decisão de Ano Novo. Daí voltei a trabalhar na minha área.

Então, quando você derrama café ou refrigerante ou suco adoçado ou alguma bebida alcoólica. A sola do chinelo grudou em alguma coisa. Olhei para o chão e não reparei em nada. Algo transparente, quem sabe? Não fosse o chão, seria o próprio chinelo. Mas porque só senti o chinelo grudar naquele ponto da sala? Se tivesse pisado em alguma coisa lá fora, sentiria desde o primeiro passo dado na sala, porque o chão lá fora é de pedras. Dei um passo à frente. Nada. Pisei naquele ponto. O barulho outra vez, a sensação de grude, de pisar em líquido viscoso.

Andei por toda a sala e só sentia o grude naquele ponto, naquele taco de sinteco em particular. Repeti a operação de deambular por toda a casa. Nada, nada, nada. Voltava ao ponto e lá estava o grude. Passeei pela casa várias vezes, numa peregrinação louca, numa procissão sem vela nem fé. Pensei em ligar pra ela e comentar: “Olha, tem uma coisa que faz com que meu chinelo grude no chão, mas é só num ponto da sala, no mesmo ponto, já aconteceu com você?”. Mas era tarde, mais de das duas da manhã, creio que ela não gostaria de ser acordada para responder a uma pergunta tão sem sentido. Eu que ficasse com minha dúvida, com meu pequeno mistério.

Eu tinha é que dormir, isso sim, trabalho dali a algumas horas. Fui deitar. Apaguei as luzes do quarto. De barriga pra cima, olhando pro teto azulado com a claridade que vinha do poste da rua. Meus olhos deviam se fechar, mas não, abriam-se cada vez mais. Sabe aquele colírio que o oculista pinga na sua vista e que faz você sentir seu olho inchando, dando a impressão de que ele vai explodir? Pois é. Eu só pensava numa coisa: naquele ponto da sala.

Em segundos, estava de volta à sala. Olhava de longe o tal ponto, o sinteco grudento entre tantos outros que compunham o mosaico do piso da sala. O casaco de lã dela no sofá me olhava também. Acho que estava numa outra posição antes. Te acordei, minha linda? Fui até ele. Ele, o taco. Parei diante dele. Ergui uma perna, desci a perna e pisei. Schruuff, o chinelo continuava grudando nele. Papel de pegar moscas- existe isso ainda? Planta carnívora. Café ou refrigerante ou suco ou bebida alcoólica. Esmalte. Esperma. Cola. A dor de cabeça tinha passado. Que bom. Tomei uma decisão. Sim, aquilo não podia continuar. Fui ao quarto dos fundos. Depois peguei um fone de ouvidos, pluguei no I-pod e comecei a ouvir sambas antigos.

Agachei. Estava diante do taco. Entre mim e você, cara. Somos só nós dois e temos que resolver isso. Fazia calor. Aos poucos, comecei a suar. O suor gotejava, molhava a camisa, a camisa grudando no corpo, tive que tirar. Impressão de que alguém batia na porta, impressão de vozes, mas o samba alto. Sombra, uma sombra que ia e vinha, ritmada, lembrei das sacanagens que ela me falou, o suor escorrendo pelo rosto, os cabelos molhados, tudo molhado, eu água-viva.

Terminado o serviço, levantei e fui em direção à porta da sala. Mal abri e quase um vizinho caiu. Ele reclamava de alguma coisa, esqueci do nome dele, só vi um pijama que reclamava, e havia outros, com ou sem pijamas ou camisolas, rostos sonolentos, alguém já estava de terno, tinha uma mulher com roupa de secretária, todo mundo parecia irritado. Não tinha me dado conta, mas já amanhecera. Não estava sol, tempo nublado, calor terrível. Bla-bla-bla-bla-bla, pessoas reclamando, pessoas reclamam de tudo, não é verdade?

Eu parecia um homem que esteve perdido num matagal por dias. Barba por fazer, suando em bicas, a bermuda esfarrapada que uso pra dormir. É o que devem ter pensado. É o que um espelho me diria. Eu não queria estar ali, queria estar fora, em outro estado, em outro país. Logo, o mato era ali. Eu estava é num matagal, perdido, realmente perdido. Dentes trincados. No entanto, não era uma expressão de ódio: eu sorria na verdade. Não tinha mais dor de cabeça, mas naquele momento meu pescoço me incomodava um pouco…

Numa das minhas mãos eu tinha um martelo; na outra, o taco, o taco que arranquei. O taco viscoso, o taco que prendia o chinelo, que o atraía como um ímã. Andei na direção da lixeira. Abri a tampa. Ergui o braço, segurando o taco viscoso com o polegar e o indicador, como quem segura um rato morto pelo rabo. Joguei e o taco sumiu na escuridão do plástico preto que forrava a lixeira. Nem fez barulho ao cair lá dentro. Fechei a tampa. Fiquei parado diante da lixeira por alguns instantes. As pessoas, as pessoas olhando de longe.




O buraco na areia

6 12 2007

Lembro bem do dia em que vi Laís pela primeira vez, uma cena difícil de se esquecer. Ela parada na calçada, coberta por uma tinta cor de uva, e chovia, a tinta escorrendo pelas suas pernas, pintando as poças da calçada, que se alargavam, como o vinho derramado numa toalha branca. Depois descobri que não era tinta que cobria o corpo de Laís, era vinho mesmo, ela acabara de quebrar várias garrafas numa loja, nunca descobri por quê. Acostumado que estava a lacunas e mistérios, não liguei para aquilo. Já havia visto um homem emitir uma luz verde numa escada rolante, lembro que o homem gargalhava; brilhar parecia a coisa mais feliz que tinha acontecido na vida daquele homem. Também vi uma bola de futebol de salão ser tragada pelo teto; sim, tragada, ela não furou o teto, o teto a engoliu, absorveu-a como uma esponja absorve líquido. Já vi pessoas serem execradas pelos motivos mais banais ou mesmo por nada, assim como vi gente da pior espécie ganhar aplausos. Mas nesse dia, tirei-a dali, fomos para um hotel. Transamos por horas e também ficamos mudos por horas. A palavra parecia ser algo proibido dentro do quarto daquele hotel e isso foi um acordo tácito. Conversamos muito com os olhos e com as mãos. Por que aquele quarto de hotel parecia um túmulo? Talvez porque nós estivéssemos mortos. Ou prestes a morrer. Não sei. Eu não sabia, ela também não, embora ela pareça ser bem mais esperta do que eu. Esconde sua sagacidade num sorriso bobo.

Laís era uma náufraga da vida e foi minha tábua de salvação naquele momento, porque eu, igualmente náufrago, estava na iminência de descer para as profundezas geladas. Mais do que náufrago, acho que eu era um suicida, porque quis me lançar ao mar, mesmo sabendo que aquela travessia era impossível. Não era a minha primeira vez, parece que gosto de repetir erros. Parece que eu também fui uma tábua de salvação para ela. Fomos úteis um ao outro. Ainda somos. Parece que um salvou a vida do outro. Respeito-a por isso, mas não a amo. Se ela me ama? Creio que não, creio que haja um respeito muito grande e mútuo. É tudo. Talvez não seja o ideal, mas o que é ideal senão uma imagem que passa pela nossa cabeça? Ela teve uma vida muito conturbada e eu também. Agora as coisas estavam nos seus eixos. Há muito tempo atrás eu me peguei, sentado numa poltrona, de manhã muito cedo, pensando no quanto minha vida era aborrecida, porque não acontecia nada. Anos depois eu me peguei sentado não naquela poltrona, mas numa outra, me arrependendo amargamente de ter pensado tamanha estupidez. Nessa segunda manhã de filosofia estofada, decidi não pensar mais a respeito desse tipo de coisa; decidi não reclamar, pelo menos não reclamar demais daquilo que estava ao meu redor, porque paguei um preço muito alto pra descobrir que sempre pode ser pior. Não acredito em castigos, não se trata disso. É apenas uma questão prática, acredite. Quanto à Laís, Laís passou a ver, tanto quanto pôde, as coisas de um maneira bastante superficial. Como ela quase foi ao fundo, ou lá esteve, provavelmente esteve lá, é muito comum que tenhamos estado e não tenhamos nos dado conta, porque lá é escuro, é provável que tenha se agarrado a essa superficialidade por medo. Também se transformou numa pessoa fútil, tanto quanto pôde. A futilidade pode ser assustadora, mas é compreensível quando vista como fuga. E tenho visto demais isso. E ingênua, passou a ser ingênua: eis o porquê da sagacidade escondida atrás do sorriso bobo.

Há muito tempo não íamos à praia. Há muito tempo não íamos a lugar nenhum que não fossem nossos malditos trabalhos e compromissos- leia-se pesadelos- sociais. Portanto, era um feriado prolongado- não escrevi “feriadão” porque me parece bobo esse aumentativo, parece que essa última sílaba opera uma mutação plástica na pessoa que a pronuncia, parece que faz com que a pessoa que diz “feriadão” fique com um queixo tão comprido quanto uma prateleira- e pegamos o carro e dirigimos a manhã toda até chegarmos na praia, que era muito longe de onde costumávamos morar- atenção nisso: “onde costumávamos morar”. Bom. Chegamos cansados e começamos aquele ritual de armar barraca e cadeiras e estender esteira e tirar coisas inúteis e algumas até úteis da bolsa e de nos despir de camisetas e bermudões- você pode perguntar por que não apliquei aqui a minha regra que consiste em evitar aumentativos. Tudo o que posso dizer é que não sei a razão. Ou melhor sei: para mim, o aumentativo de bermuda não me remete a um queixo que cresce exageradamente e que põe em risco a existência de uma sala; não põe em risco a pessoa, a dona do queixo. No máximo, coloca em risco a estética, pois ela fica bizarra.- e chinelos. Só estávamos nós na praia. Estranho, porque era um feriado, deveria haver mais gente. A primeira coisa que fiz depois de cumprir esse ritual foi dar um mergulho. A água estava gelada, mas gostosa. Estava quente. Não fazia sol, tínhamos um mormaço. Quando voltei, sentei-me na cadeira, acendi um cigarro mentolado e pus-me a olhar para o horizonte. É bom olhar para o horizonte. Não sei por quê. Por favor, não me encha de perguntas. Estou realmente cansado. Pra ser sincero, exausto. Pra falar a verdade, gostaria de sumir; não definitivamente. Com isso quero dizer que, naquele momento, gostaria muito de ser tragado pelo teto, como aquela bola a que me referi lá atrás, com a diferença de que, ao contrário da bola, que não voltou- os caras que trabalhavam no ginásio e alguns jogadores foram lá em cima e não viram sinal algum da bola-, eu queria voltar.

Laís estava deitada de barriga para baixo na esteira, tentando bronzear-se com o não-sol- se bem que dizem que no mormaço queima-se mais. Fiquei olhando para Laís, para as costas dela, para a bunda, para o biquíni. Biquínis me dão um tesão, mesmo fora da praia. Eu desatando com os olhos os laços do biquíni da Laís. Para as pernas que ela balançava meio que nervosamente, como quem bate as pernas nadando, num ritmo menos intenso, é claro, enterrando e desenterrando as pontas dos dedos dos pés na areia. Queria que a areia fosse feita de açúcar e canela… Fui pegar no cigarro e queimei os dedos, a porra da guimba colou nos meus lábios e eu odeio quando isso acontece. Estava com os lábios secos e eu odeio quando isso acontece, porque é sinal de que alguma coisa vai acontecer. Eu não sou o tipo de cara místico. Já fui, deixei de ser diante de tanto desencanto. Por outro lado não acredito na ciência. Não sei no que acredito. Laís estava tão distraída que nem notou o quase salto ornamental que dei da cadeira quando a brasa do cigarro queimou meus dedos. Palavras muito belas passaram pela minha cabeça naquele momento.

Laís virou-se de barriga para cima, ergueu-se e sentou na esteira. Logo em seguida, ficou de pé. Olhava para algum ponto que distava de nós uma dezena de metros. Colocou a mão na testa, como quem faz viseira, para tampar aquele não-sol, aquela luz fraca que descia até nós ali na praia. Tinha uma expressão séria. Via alguma coisa que eu não podia ver. Mais do que isso, ouvia, sentia o cheiro, todos os sentidos dela pareciam estar ligados, captando algo que eu não captava.

Foi aí que Laís estendeu o braço e me tocou. E disse baixinho: “Celso…” Foi aí que eu vi, finalmente vi o que ela estava olhando. Ela olhava, como eu disse, para um ponto que distava de nós uma dezena de metros, isso por alto- não sou muito bom para calcular distâncias; não tenho aptidão para cálculos. Era como se a areia naquela altura caísse numa ampulheta, como se a areia estivesse sendo tragada por um buraco, um buraco que começou como um ponto, pequeno, mas que foi aumentando, expandindo seu diâmetro tal como a gota de vinho na toalha branca de uma mesa. Um buraco negro, uma mancha enorme de nanquim se espalhando pela areia. Que era aquilo?

Começamos a pegar nossas coisas, mas o buraco continuava crescendo, de tal modo, numa velocidade tão grande, que decidimos largar tudo lá na areia; só pegamos nossas bolsas e corremos em direção ao calçadão- calçadão também me parece um aumentativo idiota, mas é o que há. Enfim, fugimos. Ridículos, os dois. Ridículos como todos que fogem correndo. Mas sinceramente, não estávamos interessados em cair naquele buraco, até porque não sabíamos se ele tinha fundo. Um aspecto irritante desses acidentes naturais (?) é que eles não vêm com instrução, nem com garantia. Já na calçada, viramos para trás e vimos que o buraco tinha parado de se expandir. Apesar de já ter visto coisas bem absurdas, confesso que aquela coisa me assustou. E, creia-me, não me assustava há anos, apesar de não terem me faltado motivos para.

O fato de estarmos na calçada não nos deu a sensação de segurança que esperávamos. Tratamos de correr em direção ao carro. Entramos e arranquei com o carro, os pneus cantaram como uma soprano louca. Pelo retrovisor dava pra ver o sinistro negrume do buraco, que só foi diminuindo porque o carro se distanciava da praia. Ele, o buraco, continuou lá, em sua fria e plácida inércia, depois da fúria da expansão. Ele, o buraco, não emitiu barulho algum durante sua expansão. Mas tive a impressão de ouvir um riso, um riso contido, mas enervante. Eu devia estar ficando maluco. Ou não, quem sabe o buraco não ria de nosso espanto, de nossa ignorância, de nossa pequenez diante dele. Talvez o buraco tenha rido porque sabia da minha atração por buracos, por cavernas, por coisas escuras e subterrâneas, rido do meu interesse uterino.

Não conseguimos dizer nada um ao outro, dirigia em silêncio. Laís ligou o rádio e pegamos um noticiário começado. Falava da aparição de outros buracos em outros pontos do litoral. Nossa praia- oh, como somos possessivos- estava vazia, mas as outras não, então foram vitimados até aquele momento um vendedor de sanduíches-naturais, um quiosque com seu dono e mais dez clientes, um cachorro, uma bola de vôlei, um golfinho de plástico, uma família de oito pessoas e uma Kombi. Geólogos foram chamados para analisar o fenômeno, mas as explicações não vinham.

Mais havia as vítimas. O tempo passou e foram feitos enterros simbólicos, embora a esperança de que elas voltassem tenha permanecido. E Eu e a Laís lendo aquilo tudo nos jornais e revistas, vendo aquela coisa toda nos noticiários da tevê, conversando sobre a coisa, tecendo teorias incríveis, o que era uma fuga das discussões. Aliás, ao longo dessa época em que buracos apareciam nas areias mundo afora, mudamos várias vezes de apartamento, com medo de que nosso prédio fosse engolido por um buraco. Não sei se buracos mudam de hábito, mas e se começassem a surgir também no asfalto? Tive um pesadelo com isso, Laís teve vários, mas ela não me contou sobre eles. Como sei que teve? Porque ela acordava com uma sombra no rosto, era como se tivesse um véu, e aquilo me lembrava do negrume do buraco. Além disso, ao despertar, ela ficava por algum tempo fincando os dedos indicadores no colchão. A vida tem lá sua graça, porque as vítimas começaram a reaparecer na medida em que os buracos iam sumindo. O vendedor de sanduíches-naturais apareceu no Tibete; o quiosque com seu dono e os dez clientes foi parar no meio de uma exposição em Osaka; o cachorro reapareceu em cima de um muro em Valença; a bola de vôlei e o golfinho de plástico foram encontrados dentro de um daqueles bolos enormes que fazem para comemorações de aniversário de cidade: o aniversário no caso era o da cidade de Manaus, foi engraçado quando cortaram o bolo, a faca esbarrou no golfinho de plástico, e ele explodiu, lançando bolo pra tudo que é lado; a família de oito pessoas foi parar na Austrália e a Kombi, num ponto isolado da Cordilheira dos Andes. As vítimas do buraco não souberam dizer o que aconteceu enquanto estiveram sumidas. Todas voltaram com um sintoma em comum: seus discursos se alternavam entre o gecar e o falar. O golfinho morreu, bolas não dão testemunhos. A Kombi buzinava normalmente, com uma única diferença: sozinha, mesmo quando ninguém acionava a buzina. O cachorro passou a tritinar. Nas poucas vezes em que latia como qualquer cachorro comum, latia de uma forma muito triste, como um cão que sente dor. É possível que essas pessoas tenham visto coisas inacreditáveis e mesmo horríveis, e por isso suas falas tenham sofrido tal alteração. Entendo menos de sintomas, mais de nãotomas, por assim dizer. Sobre os buracos, apareceram em vários pontos do mundo, soube disso depois. Soube também que muita gente sumiu e que também reapareceu em lugares insólitos. Numa manhã acordei e Laís tinha sumido. Procurei-a por todo o apartamento. Procurei por um bilhete. Pensei em descer correndo as escadas para ver se ainda podia alcançá-la, mas detive-me diante de uma mancha no carpete. Uma mancha pequena e escura, como um pingo de nanquim, que começou a se expandir.