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25 06 2009

Uma estranha concentração de pessoas numa madrugada de quinta-feira na porta de um restaurante que serve pratos mediterrâneos- ao menos no cardápio e no sotaque snob do garçom- não chamou atenção alguma da imprensa, que por sinal não estava presente na festa comemorativa-e-à fantasia dos três anos de aniversário do blog O Sublacustre. Na vitrine do restaurante, cuja vidraça encontra-se num tom tabaco muito provavelmente por conta dos fumos que insistem em escapar da cozinha que fica no mezanino, estava um cartaz feito de pano de prato, daqueles de origem hippie e até mesmo mambembe-alternativa, no qual era possível ler, em letras panais- pois se garrafais fossem, seria justo que estivessem gravadas numa garrafa- “Traje livre; use qualquer coisa, desde que o tema seja subaquático”.

Na calçada em frente ao restaurante jazia um sofá vermelho, cujo forro do acento estava rasgado, e uma mola emergia dessa fenda tal qual um bicho saindo de uma maçã- o sofá era vermelho, o vermelho é uma cor erótica e todo mundo sabe a que uma maçã cortada ao meio remete (assim como as orquídeas e as ostras, que são ligas metálicas igualmente afrodisíacas). No entanto, isso não interessa, porque o sofá não disse a que veio, certamente por timidez. Pode ser até o caso do sofá ser um agente secreto, vai saber? Ainda assim, isso realmente não tem interesse algum para os nossos propósitos.

De fato, muitas pessoas que estavam no interior do restaurante trajavam roupas de feição subaquática: a maioria, de homens-rã, uma minoria, de escafandro, por causa do tempo abafado, o que é perfeitamente compreensível. Apenas as garçonetes usavam trajes, digamos, terrestres: 1/3 do corpo servente vestia uniforme de cheerleader, o outro terço, uniforme de amazona, e o terço restante, que não era a banda de brazilian prog rock nem o objeto religioso, biquíni de peças amarelo-canário. Estavam uma graça, por sinal. E eram habilidosíssimas com as bandejas, aquelas adoráveis mocinhas.

A festa teve três partes. Na primeira parte, um coquetel, onde foram servidos canapés de espaguete à carbonara (linguiças subversivas que viviam nas florestas alemãs e italianas), croquetes de camarão com bife, sanduíches chineses do tamanho de uma cabeça de alfinete- sabor não identificado- e pizza de tamarindo. Pães fariam parte do cardápio, mas o Padeiro Lagosta comera tudo outra vez, aquele malandrão. Para beber, vodka à milanesa e água insípida e inodora. O autor, que fez um discurso na terceira e última parte da festa, bebeu com moderação, mas ficou tonto depois de dar algumas voltas na cadeira giratória, por causa de uma discussão a respeito de geometria Não- Euclidiana que teve com uma mosca. O som ficou ao cargo dos maravilhosos, fantásticos, monstruosos, nojentos, absurdos e impagáveis (o cachê é caríssimo, até o 20° aniversário quitamos, Deus é pai) caras do Mean Dad’s Combo, banda obscura de jazz-blues-rock-tecnho-dodecafônico. Um momento igualmente impagável- e inesperado- foi o cozinheiro incorporando Stockhausen e dando um concerto para dois garfos e um açucareiro . Houve ainda participações especiais do Residents, Katy Perry e do Tutuca, cantando Unchained Melody, como nos bons tempos do teatro de magazine. Um homem que entrou por engano no restaurante foi confundido com o Walmor Chagas e ovacionado: isso aconteceu exatamente às 3:00 da madrugada e todos pensaram que se tratava de uma das surpresas da festa. Mas não foi. Ah, sim, não falamos sobre a segunda parte da festa. Na segunda parte da festa, o autor distribuiu autógrafos, usando uma caneta de nanquim fosforescente. Depois de duas horas e meia de autógrafos, o autor declarou, com a mão enfiada numa terrina de patê gelado: “Meu pulso não doía desse jeito desde a adolescência”.

Os convidados receberam brindes, é claro, não usufruíram apenas da boca-livre que nos custou os olhos da cara- redigi este artigo usando os olhos que peguei emprestados com meu caracol: algas lacustres, feitas de açúcar e espinafre (sabor hortelã strong, do tipo black Halls) e canecas para cerveja sem fundo.

A festa terminou quando os primeiros raios de sol já pingavam no asfalto e só terminou ja auch por causa do número realmente expressivo de reclamações da vizinhança. A palavra “balbúrdia” apareceu em 300 das 234 reclamações, de acordo com o telefonista da polícia, que ficou com as orelhas em pandarecos.

Pois é, acabou (Parabéns, Sublacustre), terminou, ano que vem tem mais, a vida é assim mesmo, c’est la vie, não se vive só de festa, voltemos ao trabalho, felizes são os caras do Kiss que têm rock’n’roll toda noite e party todo santo dia ( incluindo os dias pagãos). Faltam apenas 364 dias para a próxima festa. Nos vemos lá. Beijos (e abraços e, e) para as mocinhas e cumprimentos cool humphreybogartianos para os brotha.





Sobre uma jangada de pães, e sobre Karla

19 06 2009

Impossível esquecer aquele inverno, aquela semana tão curta, quando tudo começou de repente, uma coisa aqui, outra ali, sem combinação aparente, mas com cheiro de conspiração no ar, conspiração metafísica, porque tudo parecia orquestrado, mas por outro lado, as pessoas envolvidas, era como se elas não tivessem a mínima idéia a respeito do que faziam e por que faziam, elas agiam simplesmente a partir de um impulso extremamente forte e de origem desconhecida e é exatamente aí que entra a idéia de algo arquitetado por alguém exterior- ou por alguma coisa exterior; por coisas…

No entanto, uma conspiração serve para alguma coisa, uma conspiração tem um fim, só que não sei dizer que finalidade essa conspiração em particular teve, se é que foi de fato uma conspiração. Eu não sei, fico confuso quando penso sobre isso. Dizem que às vezes é melhor não saber e eu não sei se concordo com isso, acho que não, porque certas dúvidas são uma merda, elas podem te corroer até você ficar oco como uma cabaça. Nisso sou mestre, só não fiquei oco porque me alimento muito bem, aprendi a recuperar pedaços meus, tal como alguns animais são capazes de fazer, e tenho aquela coisa esquisita e louca dentro de mim- e às vezes fora- que chamam de esperança. Pode ser o caso também de não ser exatamente esperança e sim teimosia, até mesmo burrice, mas, sei lá, pode valer à pena: a causa me parece nobre.

Foi numa terça-feira e o primeiro a ser atingido por aquela aparente epidemia de insanidade foi o Juca que, do nada, começou a quebrar sua casa com o objetivo de transformá-la numa catedral gótica. Nas primeiras horas, a esposa do Juca, uma enfermeira chamada Deise- que era gostosa e figurava nas fantasias da molecada da época, eu incluído- até aturou as marteladas, mas fugiu no meio do jantar, depois que Juca usou o purê de batatas para fazer a estátua de uma quimera.

Na quarta-feira, foi a vez do Dr. Mauro, que construiu um tanque no meio de seu jardim com o intuito de criar tubarões. Como a cidade ficava bem distante do litoral, não demorou a desistir da idéia. No entanto, pegou seus pertences mais caros, colocou-os numa mala e mudou-se para o tanque- vazio, lógico, já que ele não era um tubarão.

Na quinta-feira, Marlene, uma pacata e reservada professora de matemática começou a andar pelas ruas da cidade imitando coreografias de antigos musicais. Nesse mesmo dia, Gilberto, dono de uma granja, invadiu a emissora de rádio local e recitou um mesmo poema de Casimiro de Abreu quarenta vezes. À noite, quando o restante da população atônita pensou que nada mais iria acontecer, Túlio, o dono da lanchonete, colocou uma escada no topo de seu telhado, pois queria subir aos céus para beijar a lua.

Sexta-feira, treze- será que…?-, e a cidade ficou com o café da manhã incompleto, sem os pães, porque João, o padeiro, levou-os para a lagoa e resolveu construir uma jangada com eles. É claro que João afundou rapidamente- deve ter sido o naufrágio mais rápido de toda a história náutica- e aquele deve ter sido o dia mais feliz das vidas dos peixes e dos patos. À tarde: pessoas que passeavam no campo refugiaram-se apavoradas num celeiro porque afirmaram ter sido prontamente atendidas num órgão público. Noite: Dona Flauzina acorda a família inteira ao despertar batendo palmas. Levanta-se da cama, entra no quarto de seu filho que estava fora, na faculdade, e pega a gaita do rapaz. Tocando cantigas de roda, do tipo “Escravos de Jó”, caminha até a sala, como uma sonâmbula, acompanhada de perto por seu marido e filhos boquiabertos, até recostar-se na poltrona e cair num sono profundo. No dia seguinte, rouba o boneco de plástico de seu filho caçula, o Marinho, e o envolve com uma antiga manta, empoeirada e de um azul desbotado. Sai em ritmo de procissão pela cidade até se fixar no coreto, dizendo a todos que aquilo que ela carregava não era um boneco de plástico, mas sim o Menino Jesus de Willoughby, que viera salvar as pessoas solitárias, os filhotinhos de cães e as sementes de mostarda, conforme havia visto em seu sonho.

Como vocês puderam notar, nada de realmente grave aconteceu, exceto um homem que foi agredido por uma sopa. A coisa não parou na sexta-feira, o sábado foi igualmente marcado por ocorrências insólitas. A questão é que nada vi, porque foi justamente nesse dia que aconteceu minha primeira experiência sexual, que foi também insólita, não porque eu e ela tenhamos feito coisas tão bizarras na cama (algemas, cremes, livros de auto-ajuda, teatro engajado, você sabe), mas porque começou de um modo não convencional. Nessa época eu era um adolescente que tinha acabado de descobrir o sexo- mas não de decifrá-lo-, cheio de fantasias e ansiedades, ou seja, mais ou menos como sou hoje.

Karla, chamava-se Karla e tudo o que eu sabia sobre ela era uma meia-dúzia de coisas, das quais no mínimo três eram mentira. Ela era mais velha, já estava na universidade e só sei que eu ainda não havia me levantado da cama- falta de coragem, era inverno- quando ouvi um barulho que vinha da minha janela. Ao olhar, lá estava ela, Karla. Ela era tão bonita e eu estava tão surpreso e excitado- havia acabado de acordar, logo…- que nem sei descrever que tipo de roupa ela estava usando. Ela se aproximou da minha cama com a rapidez de um relâmpago e ao mesmo tempo com a leveza de um praticante de Tai Chi Chuan e me beijou antes que eu pudesse falar alguma coisa, é claro, e se eu fosse tão loquaz quanto um Fidel Castro?, ela estaria esperando até hoje, isso já faz uns trinta anos e hoje ela já deve ser avó. Foi tudo muito rápido e muito bom, as roupas dela, que não sei descrever até hoje, caindo no chão como meteoritos, o meu ridículo pijama. Jamais vou me esquecer dos cabelos dela, castanhos, do cheiro que tinham, leve perfume misturado ao perfume natural, the best of all. Dos olhos pretos, dois céus noturnos. De seus ombros alvos, macios e quentes, que os raios de sol invasores do quarto tentavam beijar com tanta sofreguidão quanto a minha boca trêmula. De seu colo, dos seios, das coxas. Do seu sexo, do momento em que me senti homem de verdade, finalmente, sensação de (re)encontrar um abrigo e um calor iniciáticos que eu buscaria para sempre a partir dali. Dos gemidos e do grito último, mas não menos importante. E ela se foi, assim como chegou, pela janela, sem explicação. Nunca mais a vi.

Naquela sábado, portanto, nada vi, por ter visto muita coisa, mais do que eu poderia imaginar. No domingo, tudo voltou ao normal. Nada de pessoas navegando em pães ou de cenas de filme mudo. Todos evitaram o assunto- ninguém se arriscou em aprofundar investigações- e seguiram suas vidas. Lá se vão trinta anos, nos quais nada demais aconteceu, além da rotina, que de tão chata chega a ser absurda, e que por isso, também parece fruto de um motim cósmico.





Intervalo

14 06 2009

Senti um vento muito frio bater em meu ombro e estranhei, porque fazia sol e não vi nenhuma folha que cobria o chão se mexer. Me virei para perguntar à Lilian se ela havia reparado na repentina lufada de vento quando vi um teto pintado de branco com pequenas rachaduras e ouvi um som agudo que aumentava de volume. O despertador, meu quarto- se ainda fosse a Casa da Salamandra de Lisieux- e a mão gelada de Sofia pousada em meu ombro. O “você nunca ouve o despertador” misturou-se ao cheiro de amaciante e de cabelo do lençol como o chocolate em pó se mistura ao leite. Na minha época, as pessoas costumavam dar bom dia. Hoje, as coisas mudaram e estamos casados há x anos. Ah, sim, o vento frio, mas o caminho repleto de folhas e o sol de inverno junto com a Lílian ficaram para trás. Restava o banho frio- porque era verão. Mais o café, as torradas, uma conversa que não ia muito longe- caminhada de monossílabos que quase não venciam as barreiras do jornal e da revista de fofocas- e o ônibus bege a caminho do centro da cidade.

Foi logo após o acesso de tosse, eu esperava outra coisa, não me espantaria nem mesmo em expelir sangue, após tantos anos enchendo e esvaziando cinzeiros. Tenho certeza de que não foram aquelas estrelinhas que você vê depois que comprime os olhos, tenho certeza de que foi uma palavra, quem sabe um nome, mas não digo nem morto que palavra nem que nome eu vi, porque sou discreto e não quero comprometer ninguém, ainda que esse alguém seja uma mera palavra (infelizmente, é muito mais do que isso). As palavras, pude perceber, têm a capacidade de flutuar e brilham, o que me remeteu a um daqueles seres que vivem nos abismos marinhos, aqueles que nadam em câmera lenta, sós, completamente sós e que lembram lenços agredidos por arame farpado. Eu descobri tudo isso no momento em que vi a palavra e comecei a acreditar naquelas teorias que falam a respeito da relatividade temporal.

Eu não tinha muito o que fazer além de observar a danada da palavra que flutuava como um peixinho por cima da pia de aço inoxidável. Eu poderia ter chamado a Sofia, mas provavelmente ela já estava debaixo do chuveiro recitando listas de compras e, além disso, eu senti que uma certa privacidade entre nós, entre mim e a palavra, era necessária. Tive medo da chegada da Sofia espantar a palavra. Imaginei o silêncio sepulcral invadindo a cozinha, subindo do chão para o teto, como um gás, sobrepondo-se ao silêncio pré-existente, formando uma pilha de silêncios que, cedo ou tarde, nos esmagaria. Um pouco de egoísmo também, eu confesso. Não tive vontade de compartilhar aquele momento com mais ninguém. Eu e a palavra, éramos suficientes, nos bastávamos, o mundo podia acabar lá fora, ficaríamos só nós dois, eu a palavra: eu, parado, em pé, com um pano de prato pendurado no ombro e as roupas em desalinho, e ela, a palavra, dançando o seu balé aéreo.

Notei um detalhe: a danada da palavrinha não projetava sombra e também tinha uma área transparente nas bordas de cada letra que a compunha. Mantenho a idéia de não dizer nada a respeito do significado da palavra (guardo-o como um alquimista), portanto, limitar-me-ei ao terreno da fisionomia. Como sou bom fisionomista, estou certo de que o relato terá algum interesse e sua leitura será menos maçante do que a leitura da seção de economia. O que posso dizer das cores? Pelo menos cinco delas compunham a pigmentação da pele da palavra e eu nunca as havia visto antes. Enquanto eu tentava confirmar o ineditismo daquelas cores, fui pego de surpresa por um novo acesso de tosse.

Eis que expeli uma nova palavrinha, que logo se juntou à primeira. O movimento das duas formava o símbolo do infinito no ar. Qualquer pessoa entraria em pânico, mas aquilo foi motivo de felicidade. Foi um grande alívio porque durante anos eu imaginei que era incapaz de falar. Sim, eu era capaz de ouvir o som da minha própria voz e recebia respostas (muitas foram evasivas, mas dane-se, se responderam é porque ouviram). Também tive oportunidade de gravá-la. O problema é que muito do que eu disse num caso em particular não foi ouvido, por isso, a desconfiança. Pior, não foi registrado. Foi como se eu não tivesse aberto a boca. Ou então tudo o que eu disse foi tomado como polidez e até mesmo mentira e, consequentemente, esquecido. E eu sei que expeli aquelas palavras espontaneamente. Agora eu me recordo: elas formaram no ar figuras ainda mais belas do que a do infinito, porque o infinito é um pouco assustador. Não houve ensaio. Eu não irritei a minha garganta para forçar a tosse. Demorei para descobrir que as minhas palavras não surtiram efeito algum. Eu cheguei a desconfiar disso, mas, como dizem, a esperança é a última que, então eu esperei durante um longo tempo, até constatar que eu entrei naquela história mudo e saí calado. Outras palavras foram ditas, não por mim, por outros, palavras parecidas, sinônimos, e foram registradas, por isso pensei: o problema é meu. Eu é que sou mudo. Não compreendi a dor. Eu a entenderia, caso tivesse reprimido a dança das palavras. O acúmulo delas na minha garganta, a pressão, sim, nesse caso, faria sentido. A dor ainda incomoda, como aquele cano que range na madrugada, aquele móvel que estala. Mas não me assusta mais. Não me surpreende.

A dupla de palavras começou a voar em círculos perto da janela da área, que estava fechada. Senti que elas queriam sair, porque se aproximavam do vidro e o tocavam com seus cílios quase transparentes. Tive um impulso de atraí-las para o meu bolso. Mas como? Com alguma isca, uma guloseima. Mas o quê? O que palavras comem? Então percebi o quanto esse ato seria egóico. Estendi as mãos e afastei delicadamente as palavras do vidro; pude até sentir seus cílios tocando o dorso de minha mão. Abri a janela e deixei que elas fossem. A dupla vôou, contente, até desaparecer do meu campo de visão. Foi triste, mas dormirei tranqüilo, pois acho que agi certo. E uma noite tranqüila de sono é melhor do que encontrar uma nota de 500 centavos perdida no chão. Agora, depois desse acesso de tosse, eu percebo que não sou mudo, só que tanto faz, porque fui mudo num momento em que eu disse tanto e não é possível voltar no tempo, apesar da relatividade. O caminho coberto por folhas, o sol de inverno e a Lílian ficaram para trás. Resta o silêncio de tudo o que foi dito.





Vida

14 03 2009

Típico de nosso bairro, a rua deserta e não era tão tarde assim. Um Bairro residencial. Andávamos no meio do asfalto e nenhum carro havia passado nos últimos dez minutos. Nada de barulho de rodas, canos de escapamento, buzinas, nem sinal. Nem mesmo uma bicicleta. Nem um gato se atreveu a cruzar a pista. Era uma sexta-feira que tinha sido chuvosa por todo o dia, uma sexta-feira que havia chorado muitas lágrimas. Agora apenas nuvens pesadas cobriam o céu. A temperatura havia caído um pouco. Ventava- desde o fim da tarde, um vento que fazia barulho de dor, de lamento- e, curiosamente, a lua cheia, com sua fria e esbranquiçada rebeldia, conseguia furar o bloqueio da capa de nuvens. Parecia um cenário de pesadelo, por causa de uma tênue neblina que fazia com que as lâmpadas dos postes ficassem parecidas com miragens.

Ao longe, alguns cães uivavam. Um humorista comentou certa vez que o som do latir dos cães sempre parece emitido à distância, e ele tinha toda razão. Isso dá um toque tenebroso ao uivo deles. E essa distância sonora também denota certa melancolia. Por quem os cães choram? Por quem chamam ou por quem esperam? Se eu soubesse te dizer… Por que a noite nos causa tantas impressões? Talvez porque ela tenha nos assustado de tal forma há milhares de anos que sua marca jamais nos abandonou. Isso foi quando não havia fogo e tudo desaparecia numa escuridão de buraco quando o sol abandonava o céu e então o medo, a taquicardia, o suor frio, os músculos retesados, o gosto amargo na língua e a sensação de morte. Mas agora, Fiat lux. Então?

Malu parecia não pensar nisso. Ela sempre fazia cara de desinteresse quando eu questionava esse tipo de coisa, mas eu tenho certeza de que, no fundo, ela se fazia as mesmas perguntas. O muro dela era seu sorriso de desinteresse e seu olhar fixado em horizontes que não existem. Malu tinha algo de sombrio em seu interior e eu pude perceber isso em duas ocasiões em especial. Numa delas, num dia em que vimos no jardim de minha casa uma centopéia lutar com um camundongo. A centopéia, enorme, acabou por envenenar o pobre camundongo. Os olhos de Malu brilhavam, ela, extática. Na outra ocasião, quando duas meninas brigaram no pátio da escola. Uma delas sangrou com um tapa e Malu parecia ter os olhos fixos em cada movimento da briga. Os olhos fixos no sangue que escorria da boca da menina. Ela nada disse e nenhum gesto esboçou, mas eu poderia jurar que Malu torcia para que aquela briga não terminasse antes que uma das duas estivesse seriamente ferida. Malu parecia sentir um prazer enorme com o evento da briga, com a violência, com o clima denso e nefasto que se espalhou no ar.

Enfim chegamos ao cemitério. Idéia de Malu. Ler relatos sobre vampiros, beber vinho, fumar alguns cigarros, jogar conversa fora. Tínhamos conosco três livros, um deles, de Montague Summers. Eu carregava comigo uma sacola com um dos livros, um maço de cigarros, algumas velas e uma caixa de fósforos. Malu carregava uma mochila, grande. Parecia cheia. O que teria dentro dela, além da garrafa de vinho, das canecas e dos dois livros?

Abrimos o portão de ferro, que estava encostado, e as grades gemeram com uma lentidão dolorosa, como se fosse um nascimento, como se não fosse aberto há muitos anos, e isso me deu um arrepio na espinha, embora eu não seja uma garota que se assuste facilmente. A neblina parecia mais densa ali e não era possível ver com clareza nem o chão nem as bases dos túmulos. A bola-de-luz-esbranquiçada-que-era-a-lua parada bem acima de nós, como um sol de meio-dia, a bola pálida cheia de manchas. O vento chacoalhava os galhos das árvores, sabe aquela lufada de vento estranha, que bate de repente e que enche de vida as coisas? A terra tinha um cheiro forte, talvez por estar ainda úmida com a chuva de todo um dia.

Cruzamos algumas ruas cheias de lápides e de túmulos. Vimos um gato assustado, que passou correndo, um sinal de vida no meio de toda aquela morte, de toda aquela massa de pedra, mármore e alvenaria, em parte coberta de musgo e de ervas daninhas. Um sinal de vida no meio de toda aquela solidão. Chegamos enfim à porta de um mausoléu, que parecia muito antigo. Tinha colunas, no estilo grego e as janelas, redondas, com vidros escuros. A porta era de uma madeira escura, cor tabaco, toda trabalhada em baixo relevo, e ficava aberta, coisa que tínhamos percebido numa visita diurna, anterior. Parecia abandonado, os familiares não deviam visitar aqueles mortos há muito tempo, a julgar pelo estado em que se encontrava. Entramos e estava quente lá dentro. Deixamos a porta entreaberta. Havia uma mesa de pedra lá dentro, com bancos igualmente feitos de pedra. Eu me sentei, retirei as velas e os fósforos da sacola e as acendi. Malu logo em seguida abriu a mochila e retirou a garrafa de vinho e também as canecas, colocando-as em cima da mesa. Pousou também sobre o tampo da mesa os livros. Deu um sorriso e, abraçando a mochila, avançou para um canto do mausoléu que estava mergulhado na escuridão, “Onde vai, o que vai fazer?”, eu perguntei, mas a única resposta que ouvi foi a reverberação da minha própria voz.

Alguns minutos depois, vi um vulto e, aos poucos, percebi que era Malu, que estava de volta. Vestia um biquíni, a louca, um biquíni branco. “Que isso? Vá se vestir, sua louca! E se o coveiro aparecer? E se ele for um tarado? E se um tarado estiver andando por aqui?, os tarados costumam freqüentar esses lugares, você sabe…” Malu riu e sua risada reverberou no ambiente. Um relâmpago. Virá um trovão. Sim, trovejou. Choveria mais? Logo em seguida, o barulho da chuva. O cheiro de terra molhada, lá fora, e o cheiro de mofo do mausoléu que despertava, seu cheirar a séculos. As chamas das velas tremulando, quase se apagaram. Eu já havia aberto o vinho e o despejava numa das canecas. Vinho parece sangue, comentei. e faz barulho de mijo caindo na privada quando se enche uma taça. Ofereci a Malu. Enchi a minha caneca e propus um brinde. Brindamos. Demos a primeira golada juntas. Malu pousou a caneca na mesa enquanto uma gota do vinho escorria do canto dos seus lábios. Malu tinha os olhos fixos em mim.

Ela avançou, rápido, e quando percebi, já estava com os braços e pernas me envolvendo, e os lábios no meu pescoço. “Não”, eu disse, e tentei afastá-la. Já havia acontecido antes, mas não agora, não aqui no mausoléu. Senti o cheiro de seus cabelos, o cheiro natural que emanava deles. Malu continuava agarrada no meu pescoço e, com um gesto mais brusco, consegui empurrá-la. Não, não agora. Senti nesse momento uma picada no meu pescoço: os dentes de Malu me arranharam quando a empurrei. Coloquei a mão no local e senti uma ardência. Olhei para os meus dedos e percebi sangue. Começou a ventar forte lá fora e uma corrente de ar fez com que a porta do mausoléu se escancarasse. Senti a corrente de ar que invadia o mausoléu passando entre os meus dedos sujos de sangue. Logo em seguida, um barulho, vindo do interior do mausoléu, da parte que estava encoberta pela escuridão que as bruxuleantes luzes amareladas das velas não tocavam. Madeira estalando? O vento, claro, o vento.O cheiro de mofo ficou mais forte, quase sufocante, minha garganta ardeu e minhas narinas deram sinais de congestão. Sou alérgica. Cheiro de terra e de roupa apodrecida. “Machucou muito? Desculpe, desculpe”, disse Malu, pegando em minha mão, curiosa com o sangue.

O barulho agora de alguma coisa que se arrastava. O vento, lógico, o vento. Mas alguma coisa parecia arrastar-se pelo chão, como um fardo sendo transportado com dificuldade, o material do fardo em atrito com o chão. Uma corrente de ar soprou novamente, com muita força, e as velas se apagaram. Meu coração disparou. Malu riu, porém foi um riso breve, daqueles nervosos, que logo cessam. Ela segurou na minha mão, sua mão quente, quase febril, levemente úmida na palma pelo suor, eu só conseguia ver o vulto dela no escuro, e os cabelos, os longos cabelos com seu cheiro forte e embriagante. O som do fardo que se arrastava parecia mais próximo, bem perto de nós.

Ao acender as velas reparei que Malu olhava para baixo, sorrindo, mas havia um traço de lágrima em seu rosto, a maquiagem levemente borrada. Ela olhava para baixo e roçava os pés descalços um no outro, como uma criança tensa. O barulho do fardo se arrastando soou com mais força, bem atrás de Malu, que girou o corpo no banco para ver o que era, o que fez com que eu também visse, o homem, que a princípio parecia estar de joelhos no chão, ou talvez, quem sabe, um anão, mas que na verdade não tinha pernas, os ossos e a carne aberta e sanguinolenta na altura dos joelhos, o homem patético, porém belo, e sua estranha beleza que nos paralisava, seu rosto de menino, pálido, o homem-menino que não tinha pernas mas que na velocidade de um relâmpago já estava ao nosso lado, com seus braços abertos, braços compridos demais, envergadura de asas de morcego, anormalmente compridos e que barravam qualquer possibilidade de fuga, que terminavam em mãos finas como os galhos do arvoredo, com seus lábios extremamente vermelhos como o vinho que enchia nossas canecas e que acabava de ser derrubado da mesa com o movimento de nossos braços assustados, o homem-menino-de-rosto-branco-de-lua que abria a boca com dentes caninos enormes e ameaçadores, o homem cujos olhos brilhavam mais nas trevas do que as velas que tinham se apagado novamente, deixando no ar aquele odor de cera, o homem-menino-sem pernas, vestido com farrapos putrefatos, enegrecidos, e que tinha parte da cabeça descarnada.





Mansão dos mortos

7 02 2009

Muito que fazer, era uma casa velha, quase 100 anos. Os últimos habitantes foram cuidadosos, porém não puderam avançar demais nas reformas, trataram daquilo que era urgente e ponto final. Isso não me incomodou, pelo contrário, eu precisava de ocupação, único modo de libertar minha mente de pensamentos desagradáveis e destrutivos; sendo assim, os dias de forte calor das duas primeiras semanas na nova casa foram preenchidos com muito, muito trabalho. Eu tinha um macete para amenizar o trabalho, para transformá-lo numa brincadeira, eu sempre imaginava que a razão de eu estar fazendo aquilo era completamente diferente da verdadeira, um jogo mental que conservei da infância: quando eu ficava trancado, estudando, cercado de livros, imaginava que era um pesquisador ou missionário, num país distante. Imaginava que meu quarto era uma tenda, e os prédios em volta desapareciam, só restando mato, parecia mágica, eu conseguia enxergar isso, apesar disso não existir, então era uma pesquisa ou uma missão num mundo completamente estranho ao meu, e não a chatice de ter que estudar para uma prova que permitiria minha mudança de ano, mas minha permanência no meu mundo, ou seja, naquele mundo que eu achava extremamente aborrecido e de que não gostava, pelo menos naquela época. Agora eu sei que o problema não era o mundo, mas a época; para ser mais preciso, o tempo.

Engraçada essa coisa de tempo, porque, no momento, eu gostaria de estar lá, se existisse um modo de voltar no tempo, se eu pudesse subir de volta naquele mesmo palco e participar daquela mesma peça, não pensaria meia vez. Estive procurando um modo de fazer isso, li alguns livros, tentei algumas experiências, bastante estranhas, você riria disso- e ficaria assustada com algumas delas- e… nada aconteceu. Tive, certa noite, um sonho bizarro: no sonho, algo me dizia, aquela voz interna a que chamam intuição que, se eu mudasse de quarto, e me deitasse na outra cama, eu despertaria no passado. Só que eu não quis mudar de quarto, decidi, ainda no sonho, permanecer no quarto em que eu estava. Resultado: acordei no presente, que hoje já é passado. E me arrependi. Nunca mais tive esse sonho. Nutri certa esperança de repeti-lo, já que alguns de meus sonhos são recorrentes. Esse em particular não foi. Eu tive uma escolha e não movi uma pedra… Se acontecesse novamente, eu mudaria de quarto e meu presente seria outro, você pode apostar.

O terreno que cercava a casa também demandava muito trabalho, muito mais do que o seu interior. Cerca quebrada em diversos pontos, árvores caídas, capim alto, buracos, montes de terra, formigueiros, tralha de muitos anos acumulada. Eu dedicava as primeiras horas do meu dia tentando arrumar o terreno. Sempre fui “perseguido” por arrumações, parece algo cármico, porque sempre estou às voltas com coisas para consertar, organizar e jogar fora. Isso me faz pensar que tipo de vida eu tive anteriormente. Tipo, por que não consigo escapar disso, por que nunca termina? Eu me sento à noite numa velha cadeira de balanço que fica na varanda, com uma caneca de chocolate quente e cigarros, e fico pensando nesse tipo de coisa, enquanto eu olho para o céu estrelado. Ultimamente, tem sido cerveja, por causa do calor. O céu do campo é lindo. Não entendo a razão de eu pensar sobre esses assuntos, porque ando numa fase cética, mas ao mesmo tempo, eu ainda acredito numa série de coisas que me davam esperança no passado. Logo eu, que detesto contradições… Talvez seja o mesmo mecanismo que uso para tornar tudo o que tenho que fazer menos penoso. Talvez seja apenas mais uma das muitas bengalas que usamos para nos apoiar ao longo da vida, porque, sem elas, seria impossível.

De modo que, num belo dia, enquanto arrancava umas ervas daninhas, deparei-me com um buraco que, com certeza, não estava ali no dia anterior. Sei disso porque não sou um tipo distraído e, mesmo que fosse, era uma abertura grande demais para não ser notada. Não parecia natural, parecia ter sido cavada, parecia trabalho humano. Quem sabe os últimos moradores…

Era a entrada de um túnel. Eu disse alguma coisa, próximo à abertura, e ouvi minha voz reverberar. Uma má impressão, algo me dizia para não entrar. Ao mesmo tempo, a curiosidade. Contradições. Voltei para casa e trouxe comigo uma lanterna. E entrei. Havia um declive que parecia não ter fim. O túnel levava a algum lugar debaixo do solo, e não a outro ponto do terreno, como imaginei inicialmente. Achei que me conduziria ao celeiro, por exemplo, e não me pergunte a razão. Aquela coisa tinha sido muito bem escavada. Na verdade, era como se a própria terra tivesse feito o trabalho, não consigo explicar. Do chão ao teto, exatamente a minha altura, nem mais, nem menos, o que era de certa maneira claustrofóbico. Túnel cilíndrico, como um duto.

Alguns metros à frente, muitos metros, porque não era mais possível ver a entrada banhada pela confortável luz solar, e o caminho subterrâneo tinha sido escavado em linha reta descendente, o fim. Terminava abruptamente, numa parede de terra. O facho de luz iluminou algumas inscrições que não pude reconhecer. Sinais, símbolos. No chão, um velho caderno com capa de couro bastante desgastado, um toco de lápis, o resto de uma vela, um lampião- antiquíssimo, só havia visto um como aquele em filmes!- e trapos de roupas. Entre os trapos, um tecido que se assemelhava a um vestido.

Agachei e peguei o antigo caderno, que estava úmido e cheirando a mofo. Abri aleatoriamente e comecei a ler o que parecia ser um relato:

O homem que aqui encontrei estava muito debilitado. O fato de ele estar vivo só podia ser um milagre, tal era sua condição física: roupas em trapo, os cabelos crescidos- assim como a barba-, a pele encardida, cinzenta e seca, a despeito do forte calor, os olhos anuviados, a respiração ofegante, os ossos pronunciados, as veias em alto relevo, os dentes arreganhados e escuros. Vermes, havia vermes rastejando em alguns pontos de seu castigado corpo, que exalava um cheiro terrivelmente ruim, embora ele não apresentasse ferimentos aparentes. Uma múmia viva, um cadáver animado por algum tipo de magia negra. Ele não sabia há quanto tempo estava aqui, não fazia a menor idéia. Só sabia de duas coisas, que me relatou com extrema dificuldade: a primeira, que tinha visto o buraco e entrado, atraído por uma força desconhecida que ele reputou como curiosidade, e a segunda, que passo a escrever na esperança de…

… Ele disse que encontrou uma mulher. No início, a chama do lampião iluminou somente seus cabelos, que lhe cobriam a face. Ele tentou afastar as longas mechas da moça, que estava agachada no canto, com os braços envolvendo os próprios joelhos, tal qual uma menina perdida e assustada, encostada na parede onde o túnel termina, mas ela o impediu, com um movimento brusco. E passou a falar, com uma voz rouca e tenebrosa que, há muito tempo, um homem mau enterrou um cachorrinho vivo, um pobre filhote, sem motivo, por pura maldade, pelo prazer de fazer algo ruim. E que a tristeza e o ódio do pequeno animal produziram um prodígio, que era o buraco, porque, em certas ocasiões, quando algo que não deve ser feito é feito, isso ocorre, foi o que a moça teria dito (e lembrei da história da menina que abriu com uma faca o ventre de uma boneca, e de como ela ficou horrorizada, ao ver as repugnantes lombrigas que saíram do ventre de plástico), e então eu senti que não poderia mais sair dali, senti que, mesmo que eu corresse, a abertura se fecharia, e olhei novamente para a moça, que agora não estava mais com os cabelos cobrindo seu rosto, e percebi que seu rosto não era de gente, mas de cão, e eu corri, e realmente não havia mais luz do sol e nem abertura, apenas a terra e o escuro e…

Pois eu larguei o livro e gritei, e o grito foi tão forte que feriu meus ouvidos, e o som do meu grito parecia ecoar infinitamente, eu corri, eu também corri, tropecei em alguma coisa, acho que eram ossos, mas não pude ver a luz do sol novamente, não pude ver a saída, só a terra, só o maldito cilindro de terra úmida, de terra gosmenta, um intestino feito de terra.





O Posto Policial

25 01 2009

Dezenas e dezenas de quilômetros de estrada erma e cercada de mato, numa região montanhosa, separavam-me do meu destino. A noite estava calma; a temperatura era agradável e o céu estava estrelado.

Não havia nenhum outro carro além do meu. O último que vi foi há quase uma hora atrás: foi para outro caminho, pegando uma bifurcação na estrada. Eu me sentia o único do mundo, ali, naquele lugar vazio. Eram cerca de vinte e uma horas, de uma quinta-feira do mês de Outubro de 1972.

Estava com o olhar fixo na estrada à frente. Aquela região era muito escura. De repente, notei que não estava mais só. Tinha um carro atrás de mim. Os faróis dele estavam tão baixos, que por mais um pouco não teria percebido. ”Que engraçado”, pensei. E pensei também que ele me ultrapassaria. Mas não ultrapassou. O espaço para a ultrapassagem era suficiente. A pista era larga. Alguma coisa estava errada.

Não estava gostando nada daquilo. Acelerei. O carro que me seguia fez o mesmo. Não sei, havia algo de anormal quanto à forma daquele veículo. Não só pelos faróis baixíssimos, mas também por causa da altura, da largura, enfim, do design do carro, como um todo. Ele estava bem próximo, mas eu não podia distinguir nenhum detalhe, como o pára-brisas, por exemplo. O carro parecia mais um tanque, todo blindado. E era todo preto, não tinha brilho de metal como qualquer carro.

O carro começou a se emparelhar com o meu. Aí é que meu desespero aumentou, porque vi que não era um carro. Era alguma coisa que imitava um carro. Era como se uma criança tivesse feito um carro de massa de modelar, muito bem feito, mas ainda assim, um carro de massa de modelar.

Aumentei a aceleração e o objeto maldito ainda me seguia. Não emitia ruído algum. À minha frente, a paisagem não mudava: somente a estrada deserta. Ao meu redor, um matagal sem fim. Um imenso vale, cercado por montanhas enormes e distantes. As únicas testemunhas de meu terror eram as estrelas.

Alguns metros depois, uma curva, e no fim dela, luzes. Tinha que ser um posto de gasolina, uma casa, qualquer coisa. Um milagre dos céus seria um posto policial. Só que não era. Era um objeto de tamanho descomunal. Estava pousado na margem da estrada. A luz espalhava-se por um enorme raio. O meu carro, cuja velocidade certamente estava acima dos cem quilômetros, parou. É inacreditável, eu sei… O falso carro também parou. Ao parar, começou a se desmanchar, como um pedaço de gelo, derretendo. Por fim, transformou-se numa massa amorfa, feito piche.

Dois seres apareceram. A luz, que enchia a estrada, parecia luz de lâmpada fluorescente. Os seres começaram a andar em direção ao carro. Comecei a saltar dentro do carro, mexendo as pernas e espancando freneticamente o volante. E berrava de pavor.
Os seres pareciam pessoas como eu: conformação do corpo, estatura. O modo de andar deles é que era diferente. Andavam com certa dificuldade, eles balançavam e tremiam. Era um andar patético. E artificial também, como se fosse uma imitação. Quando eles chegaram perto do carro, pude ver com clareza seus rostos. Não eram rostos, eram imitações de rosto. Eles pareciam bonecos.

Um formigamento tomou conta de meu braço. Alguma coisa estava fazendo com que meu braço, que estava no volante, fosse em direção à tranca do carro. Uma força me impelia a sair do carro. A luz fortíssima do objeto apagou-se, mas ele e os seres continuavam ali.

Reuni o restante de forças que eu tinha e tentei ligar o carro. Comecei a rezar. Eu gritava e já estava quase sem voz, com a garganta dolorida. Subitamente, o carro ligou. Pisei no acelerador e segui em frente. Os seres estavam à frente do carro. Iria atropelá-los, mas passei por eles como se eles fossem fantasmas.

Será que não encontraria ninguém naquela droga de estrada? Eu tinha que encontrar alguém, para ter certeza de que aquilo tudo não era uma hedionda alucinação. O tempo corria e o cenário era o mesmo: estrada escura e vazia, mato me cercando, silêncio. Eu tinha mergulhado num buraco escuro, num pesadelo que parecia infinito.

Finalmente, meus faróis iluminaram uma placa: posto policial. Logo em seguida, luzes. “Graças a Deus! Obrigado, meu Deus!”, eu repetia, balbuciando, ofegante. Todo meu corpo tremia. Cheguei ao posto buzinando loucamente e gritando por socorro.

A cabine estava vazia. Tinha uma luz fraca, vinda lá de dentro.Talvez fosse um televisor ligado. Olhei ao redor e vi dois guardas, conversando do outro lado do pátio do posto. Buzinei mais. Os guardas olharam em minha direção. “Socorro! Socorro! Ajudem, pelo amor de Deus!”, gritei.

Fechei os olhos e passei as mãos em minha testa, que estava banhada de suor frio. Meu coração estava disparado. Agradeci novamente a Deus por estar salvo, por ter fugido daquele terror.

Abri os olhos lentamente. Os guardas vinham em direção ao carro. Por que não vêm mais depressa? Eles estão andando devagar…Os dois andam do mesmo modo… devagar e …balançam o corpo… e TREMEM!!!





Toalhas Verdes Secam Mais Rápido

21 12 2008

Não me importava muito com sincronicidade, mas comecei a procurar por números 23 ligados a fatos relevantes da minha vida após a leitura sobre uma estranha descoberta feita por Burroughs. Achei dois, ligados a fatos marcantes. Para ser preciso, duas idades, a minha, quando eu tive 23 anos, e a de outra pessoa, que tinha 23 anos no momento em que a conheci. Foi só (porque foram apenas esses dois fatos, nada desprezíveis, muito pelo contrário, mudaram minha vida; talvez muito pelo contrário seja o melhor termo possível a ser empregado, pois eu virei uma pessoa do avesso e se você não enxerga artérias e células quando me olha, uma esponja de palha de aço em chamas, papel celofane azul e vermelho e amarelo, trata-se de um problema sexual seu, como diria meu bom amigo, o partículas de pão). Pode ser que eu tenha me esquecido de outros números 23. Se esqueci, não foram relevantes, já que não me lembro de nenhum episódio de amnésia. Igualmente não tomei nenhuma pancada na cabeça e nenhum agente borrifou um aerossol na minha cara, não senhor, Mr. Hammill.

Então, as coincidências. Lembrei-me, não sei por que cargas d’água, de um filme com zumbis. O filme sobre zumbis veio até mim. Dias depois, recebi um outro arquivo cuja temática era: zumbis. Semanas antes de lembrar-me desse mesmo filme que veio até mim, eu procurava por outro. O problema é que eu ainda não tinha começado a ligar fatos, então a procura por esse primeiro filme não conta, eu acho. Valer-me da procura por esse primeiro filme seria como acumular pontos antes do jogo ter começado, pegar os pontos conquistados numa outra partida- que talvez nem tenha acontecido- e somá-los com os possíveis pontos que irei ganhar, num hipotético e futuro jogo, ou melhor, no jogo que já estou jogando, não parece jogo limpo, hã? Além do mais, como comecei a levar a sério essa coisa toda de coincidência, não quero provocar nenhum desastre cósmico, como, por exemplo, ser absorvido por algum tipo de vida habitante de um meteoro que venha a cair no meu quintal e estragar o fundo de azulejos da minha piscina. “Homem devorado por coisa que habitava um meteoro”. Seria uma manchete ridícula, assim como aquela velha declaração de um lobisomem a um jornaleco de quinta categoria- há muita coisa sobre o cinco também, poderia ter pensado a respeito, mas não pensei- “Sempre quis ser conhecido, mas não da maneira que sou.” Jogo, eu disse. Minha intenção não era a de entrar num. Tarde demais. Comecei a pular no mosaico do chão.

Bocejei e desejei (muito) dormir após ter digitado “tarde demais”. Procurei, durante alguns segundos, estabelecer uma relação viável entre essas palavras. A questão era: relacioná-las a quê? Após pensar sobre relação, bocejei novamente. Esquisito. Sim, esquisito porque me desviei do assunto. Espere: e se eu tivesse que me desviar? Provavelmente eu não estaria aqui e sim, em casa, sentado confortavelmente diante da televisão desligada, mastigando salgadinhos e bebendo um bom copo de cerveja bem gelada. Cá estou, escrevendo essas linhas no meu braço, que virou meu caderno. Os pêlos são as pautas e louvado seja o Senhor por eu não ter nascido imberbe e por eu ter trazido num de meus bolsos, por engano (?), uma caneta de marcar cd. Meu braço é o caderno mais estranho que eu já tive. Não, uma coxa feminina já foi um papelzinho, quando eu tive que anotar às pressas um telefone- naquela época não existiam telefones celulares. Meu braço parece um membro de uma zebra. Quando eu erro? Ora, eu apago o que escrevi com a língua. Fiz isso enquanto passava por membros de uma tribo nômade, e eles cuspiram no chão, me olharam de cara feia e disseram algo equivalente a”obsceno”. Não me importei, depois de toda a dor e de toda a solidão que eu senti. A dor moral faz com que você se sinta como um lençol sendo torcido por uma lavadeira musculosa. Quando eu era criança, trabalhou lá em casa uma lavadeira que era pugilista. Ela não torcia as roupas, ela as golpeava enquanto estavam penduradas na corda. Ela batia no marido. Sumiu, nunca mais voltou. Disseram que ela ganhou numa loteria chamada “Paraíso Artificial” e que abriu uma loja de materiais de construção. Pode ser…

Não fosse o fato de procurar coincidências, não estaria aqui, subindo essa maldita escada rolante, voltando à superfície da terra. Ela é lenta demais. Do início dela, lá em baixo, até aqui, metade do caminho, gastei quatro horas. Mas é porque ela sobe e desce. Tive o azar de ser o único a subir e de estar aqui ao mesmo tempo em que 89 pessoas quiseram descer, ou seja, eu estava subindo e chegava um sujeito que queria descer e a escada começava a descer. Um desses sujeitos me disse uma coisa bem curiosa: “Estou aqui porque contei as gotas de chuva e as dividi pelo número de vasos de planta que existem no meu quarteirão. Peguei o resultado, escrevi num papel, meti num sanduíche de ovo frito e maionese, que comi, obviamente, e fui dormir. Tive um pesadelo com um tubarão que grampeava balancetes de escritório com os dentes. O sol, que brilhava acima do espelho d’água era uma gema de ovo. Os empregados do escritório eram espermatozóides. Uma velha saiu de um cesto de lixo, segurando um taco de golfe, e gritou “Arnica”.Relampejou na parede. Ao despertar, sabia que tinha que vir aqui.”

Eu soube por outros meios, os 23, os zumbis, a dor, a solidão, vocês sabem, conforme irei relatar- assim que eu sair dessa maldita escada rolante, cruzar o deserto e voltar para casa. Tudo bem. Só não me conformo de ter chegado ao hall que existe lá em baixo, após vencer obstáculos como um salão repleto de carneiros e um túnel feito de queijo, para enfim pegar no telefone que fica num latão cheio de gelo picado e de enguias, para ouvir um frustrante sinal de ocupado, e uma voz, uma gravação, que disse logo em seguida “Volte quando sua filha tiver 23 anos.” Para terminar: tenho uma calça de moletom azul e outra preta: por que a azul é mais pesada, se é do mesmo tamanho e da mesma marca? Acontece o mesmo com os casacos de moletom: porque o azul é mais pesado do que o preto? O jornaleiro parou de escrever poemas por causa da caspa e ele pensa ser um quadro.





No Verão fazemos coisas estúpidas

3 12 2008

Ele acreditou piamente que aquele senhor era um vampiro. Tudo começou numa tarde de verão, daquelas em que há muito calor e nada, absolutamente nada para se fazer, a não ser ficar largado num canto, mole como uma trouxa de roupas, executando o mínimo possível de movimentos e bebendo litros de qualquer coisa que seja mais ou menos líquida, gelada e capaz de ser absorvida pelo estômago sem maiores problemas- portanto, esqueça os produtos de limpeza; sei que são bonitinhos, atraentes e coloridos, a fragrância atrai, eu sempre fico tentado a provar o detergente de côco, mas esqueça-os.

Conversávamos, eu e um amigo. Na verdade, não chegava a ser uma conversa e sim uma troca de frases muito curtas. Era o máximo que nossos cérebros podiam produzir, tal era o calor. Pelo que me recordo, quebrei minha inércia e me dirigi à janela, que dá para o pátio que fica entre um bloco e outro dos apartamentos do condomínio onde moro, na esperança de sentir uma lufada de ar-em-movimento. Ao lado direito?, sim, do lado direito do condomínio, há uma vila e é possível ver algumas das casas dessa vila até que um determinado ponto do muro nos separe.

Não me lembro a razão de ter feito o que fiz, mas lembro de ter apontado uma determinada casa, uma das que era visível através da minha janela, sombria, diga-se de passagem, e de ter dito que, naquela casa, morava um homem que era um vampiro. Meu amigo se levantou e se aproximou da janela. Olhou para a casa, olhou para mim e perguntou: “Tem certeza?”, ao que respondi “Sim, algumas pessoas já foram atacadas por ele.” “E ninguém faz nada a respeito disso?”, ele questionou. Olhei para ele esperando encontrar uma expressão de deboche, mas o que vi foi uma expressão indignada. “É um absurdo!”, ele completou (que você tenha acreditado no que eu disse, pensei eu, completando a indignação do meu amigo; é um absurdo também eu estar inventando uma história tão idiota). “Pois é, ninguém faz nada. As pessoas são muito egocêntricas. Só se mobilizam para bobagens, sabe…” Não sei como consegui permanecer sério. Normalmente eu já teria caído na risada, só que, por razões misteriosas, meu lado ator estava forte naquela tarde.

“Mas ele machuca pessoas inocentes. E animais. Alimenta-se de sangue (talvez ele seja uma seringa frustrada, pensei; “Alimenta-se de sangue”. É, há gosto pra tudo. Eu prefiro arroz, bife e fritas). É um monstro, uma criatura do demônio”, disse meu amigo. Desta vez eu nada disse, dei de ombros. Afastei-me da janela, coisa que ele também fez pouco depois. Voltamos aos nossos lugares, a nossa inércia e às bebidas, que, se não estou enganado, eram refrigerantes. A conversa sobre vampirismo não seguiu adiante e eu fiquei aliviado por isso. Estava um pouco arrependido porque ele parecia ter acreditado nas minhas palavras. A não ser que o lado dele de ator estivesse igualmente forte naquela tarde e ele estivesse igualmente me sacaneando.

Pouco tempo depois, alegando ter alguma coisa para fazer, ele se foi. Não me lembro mais do que fiz após a saída do meu amigo, se fui ouvir música ou se fui ler. Talvez eu tenha saído também. Não, eu só saí mais tarde, quando já havia escurecido. Depois voltei, já era madrugada. Vi um pouco de televisão, depois dormi.

Acordei com minha mãe de pé na porta do meu quarto com cara de sapo de desenho animado, os lábios caídos, os olhos arregalados. Caco, do Muppet Show pintado por Bosch. Pensei em processá-la por susto culposo, porque meus batimentos cardíacos se aceleraram de tal forma que, não que minha mãe fosse feia, ela era uma mulher bonita. Não quando assustada. Segurava numa das mãos o telefone. “Fim do mundo? Golpe de Estado? Que foi, porque essa cara?” “É a Dona Marluce, mãe do seu amigo Guilherme. Ele está na delegacia. Foi preso!” “Quê?”- esse “quê” brotou violentamente de um bocejo, rompendo-o em dezenas de pedaços. E pedaços de bocejo grudam no tapete. “Invasão de domicílio, parece que ele entrou na casa de um velho e…” “Puta que pariu, a história do vampiro!”- eu pensei. Pulei da cama, fui rapidamente ao banheiro, vesti a primeira roupa que encontrei e parti para a delegacia. No caminho, fui pensando: “Que louco de merda, que imbecil, como pôde acreditar numa história ridícula dessas!” Torcia também para que ele não tivesse ferido o velho e tornado a confusão ainda mais grave. Mas o velho estava lá, vi quando cheguei. Estava bem, irado, mas estava bem. Não tinha curativos, não parecia com uma bagagem. A mãe do Guilherme também estava lá, e uma tia e uma criatura que não consegui identificar, algo entre uma criança e um anão. Podia ser a sombra de algum objeto, mas era tridimensional—portanto não sombra– e segurava um carrinho amarelo—provavelmente uma criança mesmo.

Prontifiquei-me a pagar a fiança. Afinal de contas, eu era culpado em parte pelo desastre. Se eu soubesse que o Guilherme tinha o cérebro torto, jamais teria inventado aquilo. Conversei com o velho também. Expliquei-lhe que meu amigo não regulava bem das idéias, que o pai, quando criança, surrava-o com uma peruca, menti, dizendo que ele tomava remédios fortes e que ouvia vozes e via vultos e acreditava em horóscopo de jornal e em livros de auto-ajuda e em políticas públicas, que tinha mania de perseguição, que colecionava fotos de prédios tombados pelo patrimônio histórico e de esculturas em barro, blá, blá, blá. “Ele é louco, louco!”, repetia o velho em voz alta, e o louco parecia ele, o velho.

O velho me contou que estava tranqüilamente em sua biblioteca lendo um livro, quando alguém ou alguma coisa saltitante saiu detrás de uma das prateleiras segurando um enorme crucifixo de prata e berrando ladainhas. “Esse louco passou a noite me torturando de uma forma que nunca imaginei nem nos mais terríveis de meus pesadelos”- disse o velho. “Ele me obrigou a passar diante de um espelho dezenas de vezes. Não acreditava na aparição do meu reflexo, dizia que eu estava blefando. Jogou dentes de alho no meu rosto. Fez com que eu mastigasse alguns dentes de alho. Obrigava-me a tocar no crucifixo, a segurá-lo com ambas as mãos, a encostá-lo em minha testa. Borrifou na minha roupa e por toda a casa um líquido que dizia ser água-benta. Trancava-me em alguns cômodos, por alguns instantes, abria por fim a porta, e ficava esperando que eu passasse por ela. Arregalava os olhos, contrariado, e perguntava por que eu passava pela porta, apesar de não ter sido convidado. Rezava todo o tempo. Nunca ouvi tantas orações, nem na minha época de catecismo. Ao amanhecer, abriu todas as cortinas da casa, segurou-me diante de cada janela, de modo que os raios de sol iluminassem meu corpo. Graças a isso, um vizinho notou que algo de errado estava acontecendo e chamou a polícia. Seu amigo é um celerado!”

Poderia ter sido pior. Graças a Deus ele não levara uma estaca. Repeti mentalmente esse agradecimento. Várias vezes, pois, do contrário, estaria ouvindo o relato de um defunto. Imagine o velho com uma estaca tosca, feita de cabo de vassoura, cravada em seu peito. Criei, a partir de uma história impensada e idiota, um novo David Farrant… Uma versão masculina da Buffy. Poderia ter sido pior. Guilherme não mencionou meu nome, não disse que fui eu que contei a história do vampiro. Disse simplesmente que pensou ser o velho o Príncipe das Trevas em pessoa. E que diante disso, tinha que fazer alguma coisa. Era uma questão de comprometimento cívico. Comprometimento cívico… Ele foi obrigado a fazer um tratamento psiquiátrico, o Guilherme. Com uma frase, despertei algo latente, uma loucura que devia estar adormecida em Guilherme. O que me assusta, até hoje, é o fato do Guilherme não ter se convencido de que o velho não é um vampiro. O velho tinha dentes caninos bastante caninos, mas não era para tanto. Estava extremamente quente no dia em que estourou toda essa confusão. Fazia um sol forte, o céu estava bem azul, sem nuvens, um clima que não lembrava em nada os filmes de terror. Se bem que, vez ou outra, o bizarro se aproxima do terror, vice-versa. No verão fazemos coisas estúpidas, realmente estúpidas.





Checagem

14 11 2008

Só notou que havia deixado o rosto em casa ao tentar coçar aquele vão que fica entre as sobrancelhas, porque o porteiro, que tem um olhar de desenhista e que tudo comenta, nada disse a respeito, além do bom dia de costume. Também não reparou diferença alguma ao passar diante do espelho da portaria, se bem que não olhou direito por estar com pressa. Reunião. E estava atrasado. Por isso, o esquecimento. Onde poderia ter deixado? No banheiro? No quarto? Na saleta? Teria caído no elevador? Não, dificilmente, se tivesse caído no elevador, teria feito algum barulho, e ele não ouviu nada além do monótono som do cubículo de metal descendo e descendo. Pior, o cachorro do vizinho teria abocanhado o rosto, tão logo o encontrasse no chão, cães abocanham coisas que caem no chão, bem como as coisas que caem no ar, deve existir uma lei canina para. Poderia ser o caso de ter esquecido o rosto no dia anterior, no táxi, no restaurante. Podia, portanto, já estar sem rosto desde ontem.

Sentiu vontade de voltar ao prédio, mas não podia, estava realmente atrasado, não dava para perder tempo, era uma reunião que não podia começar sem a presença dele. Por outra, quem acreditaria nessa razão esquisita para o atraso?: “Desculpem-me, senhores, tive que voltar dois quarteirões porque esqueci meu rosto em casa, sabem como é, esses rostos… Além do mais, nem tinha certeza se estava em casa. O rosto; ele, o restante do corpo, estava na rua. Pensou em ligar para Janete, querida, você viu meu rosto por aí?, mas lembrou-se de que estavam separados há dois meses. Piloto automático, mesmo, porque já estava com o celular na mão e podia ouvir, nitidamente, em alto e bom som, com os tímpanos da mente, a reclamação de Janete, você só não esquece sua cabeça porque ela está presa ao pescoço (queria ouvi-la dizer isso na Revolução Francesa). Podia estar sem rosto há dois meses. Era esquecer que havia esquecido o rosto e ponto final, dia que segue.

Incrível, ninguém o olhou enviesado, nenhuma cara de espanto ao longo dos dois quarteirões (tinha que ir a pé, local de trabalho na contramão, as voltas que um ônibus ou que um táxi dariam não compensavam, atrasar-se-ia ainda mais), nenhum cão que latiu, nenhuma criança que tenha se agarrado às pernas da mãe e chorado convulsivamente. Petrônio, o jornaleiro que tinha um tentáculo, não teceu nenhum comentário quando ele comprou o jornal e ainda fez uma piada sobre o time dele, que estava em iminência de cair para a segunda divisão. Petrônio balançou o tentáculo, de modo octópode, mergulhou-o no aquário cheio de refrigerante, como sempre, e deu-lhe o troco, moedas reluzentes, Petrônio limpava as moedas (usando os cabelos) e, com isso, elas pareciam sempre novas, sempre moedas de brinquedo de tesouro do pirata ou aquelas moedas de chocolate que imitam as de metal. Gaspar, o aposentado que tinha asas de borboleta também não teceu comentários (afinal, borboleta, não tarântula) e olha que o velho era capaz de notar as espinhas mais recônditas, os fios brancos de cabelo mais tímidos, as calvícies ainda inauditas, pois era um daqueles sujeitos mal-educados o suficiente para agir desse modo sem culpa alguma, muito pelo contrário, achando que comentar esse tipo de coisa era a atitude mais natural do mundo, tudo bem que o velho Gaspar tinha um coração de mãe apesar desse olhar inconveniente, sempre coberto pelo fog marrom do Ray-ban, cuja marquise era a testa similar a uma casca de noz. Tudo bem. A Camila, sim, a Camila, a garota da agência de viagens, com aquela saia azul-marinho e com aquelas pernas sobrenaturais, que atende na porta por ter medo do interior da loja, não falou nada e, repare, ela o conhecia bem, saíram algumas vezes, mulheres são tão detalhistas quanto o Gaspar, só que mais educadas, de modo geral, exceto na ida ao banheiro em companhia das amigas, ocasião na qual fazem análises das mais cruéis, gélidas e calculistas. Entrementes (a minha, de narrador, e a sua, de leitor), Camila fora da loja, sem amigas por perto e sem banheiros.

Entrou no prédio da firma, foi cumprimentado pelos seguranças que olharam para a cara dele do mesmo jeito que olham há quatro anos, apesar de não haver cara ali sabe Deus desde quando. Podia estar sem rosto há muitos anos. Lembrou-se do enorme espelho no saguão do prédio e correu até ele. Queria ver com os próprios olhos a ausência do rosto. Decepção: o espelho havia sido retirado. Mas, por quê? Por causa do assalto. Ontem, de madrugada. Ah, o senhor não soube… Sete bandidos foram presos, mas o danado que carregava os malotes fugiu para o espelho. A polícia levou o espelho para perícia. Esperam que o ladrão renda-se e saia, por causa da fome e da sede e do cansaço e do tédio pelo dielétrico polido. Caso não saia e morra lá dentro, a idéia que eles têm em mente é a de enviar um esquadrão pró-reflexo para o interior do espelho. Recuperam o dinheiro e nós recuperamos o belo espelho que ornamenta esse saguão desde 1938, ano em que comecei a trabalhar aqui, o senhor sabe? Eu tinha quarenta anos e…

E se fosse apenas impressão? O resíduo de algum pesadelo? O rosto poderia estar lá, em seu rosto, onde sempre esteve. Afinal, ninguém apontou para ele e disse “Ei, cadê seu rosto?” Melhor, como não pensou nisso antes?, ele não seria reconhecido, claro, ninguém o cumprimentaria. Só notou novamente que havia deixado o rosto em casa quando foi enxugar com um lenço as gotas de suor que lhe brotavam da testa, enquanto subia pelo elevador, já não tão preocupado com o atraso para a reunião.





As águas de Almon

12 10 2008

Achei que fosse parte do sonho que eu estava tendo, aquela campainha tocando, insistente, um som desagradável, incômodo mesmo, que feria meus ouvidos, o som, distante, que foi aumentando, num fade in alucinante. Quando você desperta, tudo parece mais intenso, uma mosca voando é como um helicóptero. Ainda tonto e com muita pena de ter que abandonar as cobertas, era a madrugada mais fria do ano segundo os boletins meteorológicos, e eles tinham toda a razão, levantei-me e fui até a porta, Isa não se mexeu, invejo o sono pesado dela, e lá fui eu, escorando-me pelas paredes, como um bêbado, atender a porta, quem diabos poderia ser àquela hora que eu nem sabia qual era, ao levantar, olhei para o relógio por instinto, mas sem as minhas lentes ele me pareceu um borrão, nada mais que isso.

Abro a porta e me deparo com um senhor engraçado, baixinho, atarracado, de membros curtos, de pijama listrado, com um bigode de ditador, uma piteira com cigarro apagado pendurada no canto da boca, e com uma cara muito séria, zangado, eu diria, zangado não, impaciente, eu tentava fixar suas feições, meus olhos embaçados, era familiar, sim, o vizinho do andar de baixo, tinha visto aquele homem recentemente, numa daquelas aborrecidas reuniões de condomínio, creio eu.

Creio também que eu tenha conseguido dizer “Pois não?”, se é que não fazia parte do sonho, quem sabe eu tenha adormecido novamente antes de chegar até a porta, eu andava tão cansado naqueles dias… Havíamos nos mudado recentemente, ainda com as obras do apartamento por terminar, não houve como esperar a conclusão. Eu fui designado para um novo local de trabalho, fui escolhido para gerenciar uma nova sede da firma. Local novo, equipe nova, problemas novos. As coisas por lá estavam fora dos eixos e cabia a mim a responsabilidade de pôr tudo em ordem, “para ontem”, como sempre diz meu supervisor. Isa estava grávida, faltava menos de um mês para o bebê nascer- era uma menina. Meu pai estava adoentado, ele sempre foi muito dependente das pessoas, ficou ainda mais depois que minha mãe morreu, então eu tinha que ficar de olho, caso contrário ele não se cuidava direito, não tomava os remédios, alimentava-se mal… Nosso cachorro também estava doente, velhice. A mãe da Isa, idem. A velha estava com câncer. Eu não gostava dela, confesso, não tínhamos diálogo, e eu bem que tentei, não foi possível, mas cacete, câncer é uma doença pesada demais… Eu sofria mais pela Isa, muito agarrada à mãe. Como pode, elas são completamente diferentes: é difícil pensar que aquela velha de gênio insuportável- e meio mau-caráter- não só gerou como educou uma pessoa tão maravilhosa quanto a Isa. Incrível, tão díspares as duas… Tudo acontecendo ao mesmo tempo, minha amiga, 576 fatos se espremendo no mesmo espaço- curto- de que dispomos sempre, 7 dias por semana, 24 horas por dia, por que a madrugada é tão curta?, já reparou nisso?, as horas voam na madrugada, enquanto o dia parece infinito. A ciência mente, os relógios mentem, o tempo não é nada disso que falam por aí. Aliás, tem dias em que tudo, tudo parece ser uma grande mentira, até mesmo a verdade.

- Meu caro… – disse o vizinho, tentando se lembrar do meu nome. – André- respondi. – Caso não saiba- e afastou do pulso a manga do pijama, mostrando-me um relógio de um modelo antiqüíssimo, Deus, eu tive um daqueles quando eu era criança, dado pelo meu avô, se não estou enganado. – são três horas da manhã. Seria possível parar com esse silêncio?

- Como é que é??- Eu não podia acreditar no que aquele cara dizia. É, só podia ser um sonho. Ou melhor, um pesadelo, daqueles um tanto quanto ridículos, mas que deixam uma má impressão ao longo do dia, um gosto amargo no espírito.

- Silêncio… Não se faça de tonto, caríssimo! – “Caríssimo!”, eu pensei.

- Olha, senhor…

- Marcondes!- ele disse

- Seu Marcondes, me desculpe, mas não estou entendendo bem o que…

- Meu filho, esse silêncio que vocês estão fazendo. Parem com isso, são três da manhã, onde pensam que estão? Só porque são novos? Há regras aqui, não é a casa da mãe Joana- “Casa da Mãe Joana”, eu pensei. “De onde esse ser de pesadelo vem, da época das novelas de rádio? Só faltou ele empregar o termo “Fuzarca”. – Será que vou ter que chamar o síndico, ou mesmo a “polhícia”- tenho certeza de que ele pronunciou “polhícia”. – Tive vontade de rir, mas fui fechando a porta:

- O senhor está louco? Qual é???- e ele ainda tentou impedir que eu fechasse a porta, ainda vi o rosto dele colar-se à fresta, avermelhado como um caqui, tremendo como uma gelatina, enquanto ele dizia em voz alta “Ishpere! Hey, Hou, você não pode tratar assim um… SLAM, bati a porta. Agora a Isa acordou.

- Que que houve?- ela perguntou assustada.

- Você não vai acreditar…

- Hã…

- Sabe aquele cara aí de baixo, o bigodinho? Estava falando com ele. Ele veio reclamar do silêncio que estamos fazendo…

- Como é que é???- Isa quase cuspiu o gole de água que estava tomando.

- Pois é… Deve ser louco, só pode. É mole isso?

- Eu hein… Que esquisito…

- Também acho… Escuta, vamos voltar pra cama, daqui a pouco eu me levanto e não quero perder o sono.

Não foi difícil voltar a dormir. Como eu disse, andava extremamente cansado. E o diabo do tempo passa muito rápido de madrugada, então logo o despertador tocou, eu me levantei, jornal, café, banheiro, barba, banho, roupa, beijo de despedida, trabalho.

Na noite seguinte, tremi quando a campainha tocou. Olho no visor, o mesmo pijama, os mesmos cabelos grisalhos despenteados- ou penteados de uma maneira que quebra os cânones do pentear. Abri a porta, mas não destranquei a corrente. A mesma reclamação, parem com o silêncio, coisa e tal. O mesmo aconteceu três dias depois. Não cheguei a abrir a porta, mas vi o homem através do olho mágico. Os cabelos brancos formavam um redemoinho no alto da cabeça, como um redemoinho de água cheia de espuma de sabão num tanque entupido, o redemoinho girando, meu estômago girando, dor de cabeça. Pontas de cabelo, mechas que se estendiam como pedaços de arame, como galhos retorcidos, galhos brancos levemente amarelados nas pontas, sebosos. E havia também os cachos, alguns, poucos. Anéis de cebola. Cinco dias depois, a campainha, na mesma hora. Desta vez nem me levantei da cama. Aguardei, em silêncio. Ele insistiu, apenas uma vez. Dormi.

Fui conversar com o síndico e expus o problema. Ele não me pareceu surpreso. Disse: “Não ligue, daqui a pouco ele esquece.” Daqui a pouco ele esquece.

O dia foi infinito como de costume e eu mal podia esperar para pôr os pés em casa, tomar um banho quente, me jogar no sofá, ver alguma coisa bem idiota na televisão, conversar com a Isa, que, aliás, tinha passado a tranca, estranhei, “Isa, Isa, tá tudo bem? Sou eu…”, ela custou a abrir, mas ao perceber que era eu, sorriu aliviada e enfim retirou a corrente. Me abraçou como se não me visse há dias. “Que que aconteceu, por que você ta assim?” Ela me soltou e me entregou um papel. Era uma folha pautada de caderno. Tinha uma mensagem escrita à mão, em letras de fôrma, grandes, que diziam:

- É melhor que parem com esse silêncio todo.

- Fique aqui- disse para Isa- Eu vou falar com aquele doente!

- Cuidado!- ela gritou. – Nem pensei em esperar pelo elevador, desci pelas escadas. Ao chegar ao andar de baixo, pensei ter ouvido um grito abafado e também um rumor de passos vindos do andar de cima. No mesmo instante, notei que o elevador, subindo, passava pelo andar, vi a luz esbranquiçada de seu interior brilhar através do visor da porta. Era um elevador antigo, o prédio, aliás, era bem antigo, então ele tinha lá os seus rangidos que lembravam gemidos, era algo macabro. Nas primeiras noites, aquele som sofrido me incomodou um pouco. Depois eu me acostumei. E o cansaço faz milagres. O cansaço é o melhor ansiolítico.

Estava diante da porta do bigodinho e toquei a campainha. Nada. Insisti. Nada. Passei a bater na porta e ela recuou, com um rangido. Estava aberta! Mas que diabo? O apartamento, com as luzes apagadas. Tive uma sensação ruim. Resolvi subir, voltar para o meu apartamento, não quis explorar o do bigodinho. Era uma sensação muito ruim, a que me invadiu, uma angústia tremenda. Subi as escadas saltando os degraus de dois em dois, subi o mais rápido que eu pude. E a escada era, naqueles instantes, como o dia, infinita, os degraus pareciam se multiplicar. Cheguei ao meu andar e continuei correndo, ignorando o barulho que eu fazia no corredor, os passos atrapalhados ecoando, até constatar, aterrado, que a porta do meu apartamento estava aberta, Isa, a minha filha.

Porque teria arrombado a porta, mas estava aberta. Quando ceguei na sala, apenas a luz da luminária da mesa de centro, as sombras dos móveis cobrindo a parede. Num dos cantos da sala, Isa, sentada numa cadeira, parecia amarrada. “André!!!”, Ela gritou, e alguém saiu de trás da cortina. A sombra ambulante se moveu com extrema rapidez para trás da cadeira onde estava Isa e envolveu seu pescoço com um dos braços. Com o outro, parecia segurar uma faca. Meus olhos já tinham se acostumado à iluminação fraca da sala e pude perceber que a sombra não era sombra, era o velho bigodinho. Tinha uma expressão que misturava pavor e raiva estampada na sua face avermelhada de caqui. –Silêncio!- ele gritou. – Eu só pedi que parassem com aquele maldito silêncio… que estava me deixando louco!!!! O desgraçado aproximou a faca do pescoço da Isa, sua mão estava trêmula. Na verdade, ele estava inteiramente trêmulo. Gotas de suor brotavam de sua testa.

- Se você machucar minha mulher e minha filha, eu estraçalho você, seu maníaco desgraçado!

Tinha um celular em cima da mesa de centro, o meu celular. Ele tocou e, quando ele toca, suas luzes se acendem, naturalmente, luzes azuladas. Logo após o primeiro toque, o velho espirrou e exclamou: – Minha alergia, não!, desligue isso, desligue isso!

O celular tocando, as luzes se acendendo, o velho se afasta da Isa, espirra novamente, sua mão trêmula larga a faca, eu pulo como um goleiro e caio em cima do velho, ele espirra, grita, tenta se defender, grita, espirra, eu aperto seu pescoço, ele se debatendo como uma sardinha, espuma no bigode dele, a cara dele ainda mais vermelha, ainda mais apavorada, ainda mais raivosa, um olho de vidro, um dos olhos dele é de vidro, Isa grita e grita, parece que alguns vizinhos entraram no apartamento, também, com aquele barulho todo, o velho agora quieto, o velho com o silêncio que ele não queria.