Não fosse a insônia, eu estaria dormindo. O teto então é uma tela onde se projetam minhas preocupações. As preocupações, elas gostam de se aninhar nos nossos cobertores quando percebem que não há sono, que os olhos estão abertos (por trás das pálpebras, os olhos estão sempre abertos); elas gostam do escuro. Uma forte trovoada acaba de fazer a casa tremer. A casa: a nova casa, estou aqui há uma semana. Passei os últimos seis meses no Pólo Sul. Aproveitei o fim do meu casamento. A separação mais a vontade de exílio foram o meu combustível. Seria mesmo capaz de continuar por lá. Só que a pesquisa terminou. Agora me ocorre que eu poderia ter dado um jeito de ficar. Bastava fugir do acampamento, construir um abrigo. Viver de caça e de pesca. Morrer de frio. Uma sepultura congelada.
Apesar da trovoada, ou melhor, das trovoadas, estourou mais uma agora, Nina nem se mexeu. Nina está ao meu lado, aqui na cama. Minha ex-esposa. A outra cama, a de hóspedes, não foi montada, portanto, ela ao meu lado. A separação foi amigável e ela tem me ajudado com a mudança. Por que o casamento acabou?- a pergunta me veio agora. Tudo vem com a insônia, menos o sono, que é o que me interessa. Se sono pudesse ser comprado… Até pode, tarja preta, mas eu não gosto dessas porcarias. Acordo torto, com a sensação de ter carregado um filhote de elefante na minha cabeça- depois de ter bebido várias doses de uísque. Pra ser sincero, nem sei direito porque nos separamos. Você consegue explicar tudo o que faz, tudo o que passa em sua cabeça? Eu não. Sei lá, não deu certo. Eu tenho sido meio rude nos últimos anos, parece que desaprendi toda sociabilidade que conhecia. Não era assim quando eu era mais jovem, eu era mais simpático, mais… como poderia dizer, leve? Talvez, leve. Acho que por isso encarei bem a minha estada naquele deserto gelado. Nina tem sido maravilhosa, mas às vezes até a presença dela me incomoda um pouco. Perdi o tato, desaprendi a lidar com companhias. Sozinho me sinto normal.Virei um ermitão.
A casa é velha, início do século XX. Na verdade, um casarão, sobrado, muito bonito. Conservado, apesar do tempo, precisou de umas reformas- que estão sendo feitas a toque de obra de igreja graças a minha preguiça. Tem um porão enorme que, curiosamente, não estava abarrotado de tralhas deixadas pelos antigos moradores- velhas cadeiras de balanço, relógios de parede, caixotes, brinquedos quebrados, álbuns de fotos esquecidos. Com isso, não tivemos trabalho de jogar coisas fora ou de empilhar a tralha legada em algum canto. E foi uma casa bastante habitada, parece que três famílias moraram aqui ao longo do século passado: a família que construiu a casa e mais duas. Perguntei ao corretor o motivo das mudanças, ele não soube responder. Imaginei se teriam sido causadas por problemas e que tipo de problemas seriam. Lembrei de Amytiville. Quando contei isso à Nina, ela me disse “Você é tão infantil…” Ora, fantasmas não são problemas? Em Amytiville foram um puta problema. Quem leu o livro ou viu o filme sabe do que estou falando.
Dizem que, nos casos de insônia, o melhor a fazer é sair do quarto, procurar alguma atividade e só voltar quando o sono dá as caras. É o que vou fazer. Quando passo pelo corredor em direção à escada, um flash de luz azul chicoteia o ambiente, TASH- há uma janela no fim do corredor, com um vitrô bem bonito. Paro e fico olhando a janela por uns instantes. Fumar, lembro do maço de cigarros que está no meu escritório- ou futuro escritório, dadas as condições nada amigáveis em termos de organização. Abro a porta, ou melhor, ia abrir, porque já está aberta- eu não tinha fechado? Ah, o vento. Pego o maço de cigarros e o isqueiro, volto ao corredor e começo a descer a escadaria. A madeira range um pouco, mas quase não faz barulho, por causa do temporal. Alguma corrente de ar traz o cheiro da chuva lá de fora. Gosto do cheiro da chuva.
Estou no hall, que é também açoitado pelos flashes azulados relampadejantes e sigo em direção à cozinha. Um chocolate quente vai cair bem. Chocolate quente, um cigarro, talvez ler alguma coisa, hum, os livros estão ainda num caixote, no porão.
Começo a aquecer o leite, já peguei a lata de chocolate em pó e procuro a caneca. Não está na pia, não está nos armários, onde está a caneca? Teria deixado a caneca em outro cômodo? Não é impossível. Nina reclamava disso. Ainda reclama, aliás. Ela diz “Você está bagunçando sua casa antes mesmo de terminar a arrumação. Como consegue?” Não sei, Nina, mas eu consigo. Droga de caneca. Estando acordada e observando a cena Nina diria “Droga de desleixo seu, não droga de caneca!” Engraçado, agora me ocorre que eu não tinha insônia enquanto estávamos casados.
Se não tenho caneca, tenho copos. Beber numa caneca é mais charmoso, mas o chocolate quente será bebido de qualquer maneira. Será que deixei a caneca no porão? Pode ser. Como tenho que ir lá para buscar um livro…
Porão. Acendo a luz, o comutador está perto da porta. A lâmpada é muito fraca, quase não ilumina e o espaço é grande, tenho que trocar. Cheiro de mofo, forte, mas que não há de sobreviver às naftalinas e sprays. Quantas caixas. Graças à praticidade de Nina, não será difícil achar os livros, porque ela escreveu no papelão “Livros”. Realmente, foi fácil de achar. Na caixa ao lado está escrito “Coisas”. Rá. “Coisas”!
Tomei um susto porque agora com o relâmpago percebi uma mancha escura na parede e sei que aquela mancha não estava lá. Seria uma infiltração, por causa da chuva? Quem sabe a sombra de algum caixote ou de algo lá fora… Tenho um gato preto, Prix, mas ele é pequeno e estava lá no quarto. Fechei a porta quando saí. Sei que gatos pulam e abrem a maçaneta, já vi Prix fazer isso, só que…
Vou me aproximando aos poucos da parede e, forçando os olhos, reparo que não é uma mancha, mas um buraco. Impossível. Seria sonho? Não, estou racionalizando demais as coisas. Meus sonhos são completamente loucos, sem pé nem cabeça, como visões de ácido. Paro em frente do buraco e percebo que não é bem um buraco, mas uma porta. É como se houvessem recortado a parede, porque não há batente como existe numa porta, mas o formato é de porta. Não há rachaduras, é uma abertura perfeita, as bordas são lisas como se muito bem cimentadas. Uma corrente de ar quente me atinge, primeiro meu rosto, e vai envolvendo meu corpo, não é quente demais, é morna, é agradável. Forço um pouquinho mais os olhos e acho que consigo enxergar uma luminosidade muito fraca lá dentro, algo entre o branco e o azul.
Antes de entrar estendo um braço para verificar a altura do interior. O teto não é baixo, embora a altura da porta não ultrapasse a minha cintura. Entro e mexo novamente com os braços, para cima e para os lados, procurando tatear alguma coisa. As paredes laterais também são distantes uma da outra. Que coisa estranha! Não sinto medo. Apenas curiosidade. Sinto- não sei explicar como- que tenho companhia, ou seja, que vou encontrar alguém quando me aproximar daquela luz que está a alguns metros à minha frente. Conforme ando- devagar, porque pode haver algum buraco no chão- vou percebendo que no fim desse corredor não muito longo existe uma outra “porta”, melhor seria dizer “passagem”, aparentemente idêntica à da entrada, mesma altura, coisa e tal. Chego à passagem e agora me agacho, porque a abertura é baixa, tal como a primeira porta. A luz que ilumina o interior dessa câmara é fraca, só que é possível ver tudo, e sem sombras, o que me deixou maravilhado. É um ambiente relativamente grande.
Agora, o que me deixou maravilhado mesmo foi a visão de, como dizer, as palavras fogem justamente quando mais precisamos delas, penso novamente em Nina que dorme lá em cima e nem sonha com isso tudo aqui, penso nas justificativas que eu poderia ter dado, que eu saberia dar, mas que desaguaram em mutismos, em caras e bocas de “não sei”, como dizer, eu dizia, a visão de uma reprodução perfeita da casa, da minha casa, lá estavam todos os cômodos- inclusive o porão e reparei que havia lá também uma abertura- era como uma casa de bonecas, que não tem a parede dos fundos e cujo interior é visível e manipulável. Então a menina brinca com as miniaturas de móveis e de objetos, pois é isso que eu vejo, os móveis em miniatura, tudo em miniatura, ou melhor, não chegavam a ser miniaturas, mas feitos numa escala menor. Móveis para crianças. Ou para anões.
O mais incrível de tudo é que mesmo todas as coisas que ainda não foram desembaladas estão aqui, é como se eu estivesse diante de um inventário materializado. Há aqui uma estante e nela estão todos os meus livros, por ordem de assunto e não de nome de autor, como eu costumo organizá-los. Na miniatura de cozinha, um fogão, onde ardia uma leiteira. A lata de chocolate em cima da pia. Na mesa, minha caneca, em miniatura. Ao lado da minha casa em menor escala, minha caneca verdadeira. Minha caneca verdadeira é feita de louça marrom escura. Na louça, marcas de dedos, dedos pequenos.
Uma voz invadiu minha cabeça, enquanto eu pegava minha caneca, uma voz cujo sexo não pude identificar. Disse a voz: “Eles estão aqui antes mesmo da construção da casa e imitam a vida de seus habitantes.” De repente, pensei ouvir a voz de Nina. Mais uma vez. Depois ouvi Prix miando. E novamente a voz de Nina.
Fui me afastando de costas, como se estivesse diante de um rei. Eu não tinha medo, como expliquei antes, estava maravilhado com tudo o que via, exatamente como eu costumava me sentir nas noites de Natal, quando eu era apenas um garotinho. Ao mesmo tempo em que sentia uma necessidade de voltar lá para cima, queria ficar e olhar mais. Queria ver quem eram “Eles que estão aqui mesmo antes da construção da casa”. Mas eu continuei me afastando até chegar à passagem de entrada. Caí sentado e quase que a caneca se espatifou. Rolou até bater num dos caixotes atrás de mim, fazendo um barulho engraçado. É a voz de Nina mesmo, não é impressão. Prix mia novamente.
Subo, dirijo-me à cozinha e encontro uma Nina com cara de sono e de zangada ao mesmo. “Você esqueceu o leite no fogão. Onde você estava?” Eu ergui a caneca e disse que a tinha esquecido no porão. “Qualquer dia você vai esquecer sua alma em algum lugar” e meneou a cabeça negativamente. Colocou mais leite na leiteira e começou a esquentá-lo. Ligou o rádio, que emitiu uma música antiga. Prix aproximou-se de minhas pernas, ronronando, com seus olhos de farol. Não contei o que vi porque Nina é extremamente cética. Para ser sincero, nem eu sei se acredito no que eu vi. Na minha cabeça lateja a dúvida. No meu peito, brilha uma luz fraca, entre o branco e o azul.