No início, era medonho, confesso, a perspectiva de encontrá-los no banheiro, como manchas hipertrofiadas de mofo, bolas de limo que se despregaram dos vãos dos azulejos brancos, aquelas pedras de açougue ou de morgue, não sei, estética dos anos cinqüenta, mania-de-moda-de-minha-avó-que-comandava-a-casa, não sei.
O bolo histérico, portanto, o frio na espinha, o medo, mas medo de quê, cacete, o mesmo medo que costumávamos ter lá na selva na noite escura quando não havia calendários, eu, você e o soldado, todos nós, o medo insistente, medo que nos preservou, medo que também nos destrói. Mas depois, as gargalhadas, acostumamo-nos ao absurdo. Depois de vermos um santo emergindo de uma poça, o que mais nos espanta? Depois de vermos uma pessoa pela metade num acidente de carro cantar antigos boleros com sorriso na boca cheia de dentes que mascaram cerejas, enquanto os paramédicos não chegam, o que mais nos espanta? Depois de vermos um homem, apenas um homem, dar conta de oito guardas, empurrando-os como se de isopor fossem, o que mais nos espanta? Depois de vermos a moça que tirou o coração do peito e o levou, caminhando até o trabalho de seu amado, envolto num lenço roxo, o coração ainda pulsante, ela ainda viva, o que mais nos espanta? Talvez um dia, as velas digam o que pensam da escuridão.
Certamente, não seriam os hipopótamos no banheiro. Não eles, plácidos, doces, escorregadios, mas ao mesmo tempo brutos como tanques de guerra.
Não os hipopótamos no banheiro, que ocupam todo o espaço, que pisam nos cadernos de jornal, não raro devorando notícias, que fazem tremer, quando pisam no chão, aqueles potes de vidro que insistimos em conservar, a título de guardar coisas, cotonetes, algodão, giletes, cartelas com pílulas e drágeas misteriosas, que a poeira, o tempo e o pó do talco, numa vil conspiração, ajudaram a apagar a serventia e a validade, tubos de pomadas e de cremes enrolados rocambolescamente, cadáveres de pentes desdentados, como os estudiosos guardam seus fetos nos laboratórios. Eles (os hipo, permita-me a intimidade, afinal de contas, é no meu banheiro que eles ficam, então…) devoram nacos de sabonetes, e até mesmo sabonetes inteiros, arrotando bolhas que, quando estouram, espalham cheiro de produto químico e de mato e de rio. Que fazem o cubículo que é o banheiro parecer ainda mais cubículo, parecer um cubo mágico sem cores, cubo mágico monótono, cubo mágico de neve, parecer grade e, ao mesmo tempo, selva. E eu fico fumando, encolhido num canto, parecendo um guarda-chuva, paralelo à parede, eu fico pensando em contas, no dentista, na pintura da casa, no cão, na minha tia que tem escoliose, nas suas coxas, mas o som do motor de um barco que não é e que não está recorta o balãozinho da minha mente, a folha é amassada e arremessada para o cesto de papéis, rapidamente, descrevendo bela curva, antes que os hipopótamos tenham tempo de abrir suas bocarras, com aqueles dentes de pilar, de banco de concreto de pracinha, e de confundir a esfera enrugada que outrora foi meu balãozinho de preocupações com algo comestível e mesmo delicioso. Delicioso como seu seio, que formou outro balãozinho, enquanto tento apagar o toco do cigarro, patético, agachado num canto, pois o cinzeiro, inalcançável.
Gostaria que você estivesse aqui, você e seu seio e suas coxas, observando comigo os bichinhos que não são nada pequenos. Por outro lado, gostaria também que houvesse um mar de espaguete, assim como há o de sargaço, e também gostaria de ver uma pessoa andando de patins e sumindo na esquina, tragada pelo ar, aparecer novamente no interior de um pote de picles, para o espanto de todos os que ainda esperam no salão do restaurante, discursando com voz de tenor, e com brilhantismo, sobre as mais recentes descobertas da meteorologia. Uma dança com quiabos, numa tribo pagã que cultua um deus que vive no interior de uma moita, um deus que não tem corpo nem esqueleto nem músculos nem pele, mas que tem vísceras e que brilha no escuro, um deus com globos oculares do tamanho de bolas de golfe, um deus que se transforma num pequeno lobo e que persegue virgens descalças nas noites chuvosas de dezembro, uma divindade que não fala, mas que tudo diz, batendo o dedo indicador nos lábios, fazendo biribiribiri, um deus que tudo sabe e que tudo vê, apesar da umidade e da fuligem das vidraças e da fumaça fedorenta dos carros. Os ladrilhos, um dia os ladrilhos racham, o piso arrebentando, repare nisso, os hipopótamos caindo, parecem bombas, os hipopótamos em queda.