Fomos informados através de um sinal sonoro- algo como um bip- precedido por uma luz- pense num sonar; não é exatamente a mesma coisa, mas é o melhor que pude arrumar por hora- da chegada de uma carta. A epístola foi largada na selva, ponto. A selva ficava distante de nossa base, ponto. Isso significava que teríamos que pôr aquelas vestimentas estúpidas e pesadas, que faziam com que andássemos como patos ou caricaturas de astronautas, já que a gravidade não era zero. Deixava ela vestir-se primeiro. A porta do vestiário sempre ficava entreaberta e eu espiava o corpo dela libertando-se do casulo das roupas de laboratório, que eram penduradas no armário com um capricho de camareira. Depois vinha a segunda pele de látex, a droga do macacão, as botas e toda aquela parafernália. Ela sabia que eu a espiava, parecia não se importar com isso. Às vezes, ela olhava para a fresta da porta e nossos quatro globos oculares se encontravam. Era uma coisa de segundos. Segundos eternos, o mar observando a pedra. Era tudo o que podíamos ter, até que recebêssemos um sinal de que a peste estava extinta, e de que ao fazer sexo nossos corpos não ficariam parecidos com nozes e passíveis de virar pó com o menor toque. Mas estava pra chegar o dia em que um grande foda-se seria o estandarte de nossos destinos, nós na cama, gozando juntos, e depois, dois montes de poeira ocre, dois montes alegres de poeira, pra que ser sólido num mundo como aquele? Tinha tanta vontade de tocá-la que sonhei. Sonhei na noite anterior que estávamos num quarto e que lá estava também uma terceira pessoa. E então ela estendeu a mão, eu segurei- pude sentir a mão dela sem segunda pele, sem luvas, o calor, a delicada firmeza e tudo mais-, e ela disse algo mais ou menos como “tudo vai dar certo”, sorriu e tinha os olhos úmidos, aquela coisa de rir e chorar ao mesmo tempo que só mulheres fazem, coisa bonita. Mas tive que sair pra ver uma outra casa, e o caminho até a casa era em preto-e-branco, a casa com a porta aberta, coisa que estranhei, mas eu estava preocupado em voltar porque ela estava lá no outro ponto do sonho e acordei.
Não dava pra saber de fato se o dia estava quente ou não, só através dos termômetros, do pequeno computador com seu display. Através das viseiras, enxergávamos um mundo azul, como um cara com óculos psicodélicos na esquina em 1967. Não era possível ver o sol, o sol estava com frio, vejam vocês, e ficava metido num edredom de nuvens. Na tundra, era difícil avançar com aquela quantidade grande de noquis- novas quimeras- pululando. “Os fauninhos e sereiazinhas”, dizia ela. Ainda tinha a capacidade de se encantar. Mas sabia ser durona, se sabia…
Seguindo as coordenadas, chegamos ao ponto onde deveria estar a carta. E lá estava ela, dentro de um plástico. Claro estava que não podíamos abrir ali, que teríamos de seguir os procedimentos, era tão ridículo o objeto achado flutuando e sendo escaneado por aquelas luzes coloridas, e pensar que um dia eu gostei de ficção científica, na verdade, muitos dias, quando era moleque, e que isso me levou a ser cientista.
Ouvimos um barulho de graveto seco sendo pisado e vimos uma moça. Hesitei, e minha ajudante me puxou, lembrando que aquela presença obviamente era efeito do octocarbol, que tomávamos em doses nada homeopáticas há quase uma década. Alucinação. Hesitei porque se tratava de uma mulher, quem sabe a situação toda tivesse voltado ao normal, quem sabe fosse uma moça de um outro posto, e nós ali, desinformados, presos num presente estúpido, numa rotina torta como garfo torcido por paranormal. Já nem me importava mais com rinocerontes em cima de postes abandonados ou minotauros barítonos.
De volta ao posto, aconteceu o ritual de troca de roupa, e percebi que a coisa tinha se invertido, agora era ela quem me olhava. Não tinha percebido antes. Logo em seguida, após o estrondo do fechar da porta do vestiário- como um piano caindo do segundo andar numa piscina-, pusemos a carta no cubo de análise. – Você ou eu? Quer abrir?- ela perguntou, mas já tinha começado a passar o pequeno bastão de laser no envelope.
De repente ela começou a rir, e não parava mais,e eu ali, perguntando “por quê?, o quê? O que foi?”, sem resposta, as gargalhadas ultrapassando qualquer tentativa de explicação da parte dela, ela só mexia o outro braço, o que não segurava a carta, na intenção de indicar alguma coisa, mas o riso imperava. Por fim, estendeu o braço e me passou a carta. Olhei com atenção enquanto ela já estava sentada no chão, rindo, com ambas as mãos pousadas na barriga. A carta era uma lista de compras. Eu tentei rir, mas não consegui, nos primeiros segundos. Depois sim. Amanhã começa tudo de novo. Esperar que encontrem novos objetos, esperar por um grande achado, por uma resposta, pela salvação. Esperar.