Rascunho de carta que não terá como destino o cesto de lixo
12 09 2007Planície Oval, 13 de dezembro de 1999
Querida ———-,
É segunda-feira de manhã e continuo
Finalmente encontrei uma brecha na louca correria em que estou para escrever estas linhas tortas pra você- não são seus olhos, é minha caligrafia que anda péssima. Sinta ao informar isso ao seu oftalmologista, aquele cara engraçado que parece uma figura de desenho animado e que pinta pontos pretos no aparelho de medição de grau só para pregar peças em seus pacientes.
Não saberia dizer com convicção se tudo por aqui está bom ou ruim, e lamento por isso, pois sou sabedor de seu gosto pela objetividade. Por outro lado, assim deve ser, já que (Cousteau) não posso mentir; não seria capaz de mentir pra você: dormiria mal, acredite. Sendo assim, não sei em que situação me encontro. A coisa é complicada, eu seria injusto ao contar que as coisas estão ruins. Você sabe que algumas coisas boas têm ocorrido- minha máquina de lavar se deslocou por 5 metros, batendo um recorde familiar que não era quebrado desde 1978, época em que meu avô em segundo grau criava camarões na banheira, consegui tomar um rumo que me parece enfim seguro, muito da minha vida tende a melhorar, a não ser que um cofre caia no meu ombro, impossibilitando-me de dançar ritmos latinos durante uma pá de tempo. A palavra-chave seria confusão.
Tenho evitado de ficar só, procuro seguir seus conselhos. Então venho saindo com uma mulher, —— o nome dela. Uma boa moça, mas confesso que não estou satisfeito. Digo mais: pensei em você o tempo todo- sua imagem é muito forte; não a culpo, não entra na minha cabeça essa fantasmagoria de culpa aplicada a cada movimento que fazemos-, enquanto estive com ela ontem, enquanto transamos e… você sabe o que eu penso, você me conhece, não me sinto bem fazendo esse tipo de coisa- se ela estava se entregando a mim, se ela tentava dizer meu nome entre gemidos e respiração arfante e palavrões e arranhões e mordidas e na linguagem muda-barulhenta de expressões faciais e pêlos arrepiados e taquicardia e calor irradiado pela pele como uma lâmpada amarela de muitas velas e eu não estava ali, estava em você, logo, ela entregava-se a alguém que não era eu, mas a um simulacro, a um ator que
Não dá pra escrever quando alguém te interrompe a cada três minutos
Por causa do tempo que perdi a interrupção a cada três minutos continuou e agora tenho que sair sinto muito pela pressa mas tenho realmente que ir diga a sua mãe que nada tenho contra ela é uma impressão ruim que ficou tudo por causa tinha também aquela coisa de me sentir inferior indigno de estar ali entre vocês grande bobagem por isso parecia amuado fechado um grande abraço no seu pai no irmãozinho ele ainda gosta de aviões vi um na semana passada lembrei dele e o cachorro ainda com problemas coitado está velho você sabe e a casa nova adaptando-se bem minha querida saiba que ainda que eu não consiga escrever por um período mais longo ou que não escreva nunca mais você será querda querida pra sempre haja o que houver muitos beijos do seu
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