Palavrões

16 09 2007

Exaustos, estavam largados na cama, quase formando uma letra xis- sorria, eles sorriam, “n or cheese”-, ela por cima, espalhando o peso que de peso nada tinha de, e ele acariciando os cabelos soltos dela, enquanto entabulavam uma conversa que só os pássaros que se escondem da chuva sabem fazer. No teto, um ventilador preguiçoso, ligado só para constar, porque naqueles últimos dias o tempo mostrava-se mais ameno- só para parecer filme, um clima de cinema noir, no ar, percebe?, entende?, hein?, sacudo você só como desculpa para tocar nos seus ombros.

É (era) uma coletânea de diálogos das mais sensacionais. Jamais conversarei com alguém desse (daquele) modo. Eis um estranho ponto da vida: jamais. Se jamais, para que aconteceu? Só para ser uma lembrança? Por que não aconteceu e ficou eterno? Será que não seria eterno, será que nosso virtuosismo se esgotaria? Então veio a outra, ainda mais linda. Parece que se foi, porque veio mais uma, igualmente ainda mais linda. Não, ela não se foi, gosto das duas. Jamais (novamente a palavra) pensei (sempre penso, é um inferno, minha cabeça não tira férias, é workaholic, maníaca) que isso fosse acontecer… Achei que era ficção; só que ficção é diferente de falso. Enquanto isso, alguém trabalha com cera num país onde os barcos têm pernas.

Sentia-se liberta de toda dor e de todo fogo, no não-lugar, pouso, oásis, porto destinado a todos aqueles que se libertaram das tormentas da paixão; no estranho vazio preenchido, na parede branca, sem quadros, mas cheia de furos de pregos e de sombras que insistiam em gravar suas superfícies cinzentas. Imersa naquela sensação de convalescença, em que se duvida da cura e se sente certa saudade da doença, porque há a fraqueza, o pedido de colo, a regressão da idade, o deixar-se levar pela sonolência e pelo delírio, mas agora não, era um novo dia, o que fazer dali pra frente, o que esperar, se nada havia para?

Antes e durante toda a dança frenética de troncos, braços e pernas, beijaram-se como sanguessugas, como ventosas de polvo, como aspiradores de pó. Fizeram-se pó e ao pó voltaram, contentes como partículas que formam um cutão dum canto abandonado de casa. Alguém falou sobre a impossibilidade física da transferência de força, mas é mentira, quem baila a dança frenética sabe, ah, se sabe. Primeiro, a força emana dela e o envolve; depois ele, como um escorpião cutucado e irritado por uma vareta de madeira que antes tinha sido usada por um radiestesista insano e sonhador, enquanto se esconde sob o limo da fenda da rocha, explode e devolve a força. As metáforas são tolas e alcançam o teto da questão tanto quanto uma formiga usando pernas-de-pau. As metáforas serão desnecessárias quando houver um cabo que transmita para um monitor aquilo que se sente, aquilo que se pensa. Metáforas são desnecessárias quando se sabe ler as entrelinhas do globo ocular, quando a voz cardíaca- que começa rouca, tímida, mas que aumenta de volume gradativamente até que pareça ser um barítono com papada de bigorna que sobe e desce as escadarias de uma escola de música solfejando árias obscuras e talvez nunca marcadas em pauta- consegue ser ouvida. Metáforas são desnecessárias quando o muro dela desaba e permite a passagem do operário- note bem: é sempre o muro dela que desaba e não o operário que levanta a marreta. Ledo engano de quem pensa o contrário. Faça as faculdades de engenharia que quiser, foda-se. Quando isso ocorre, não há mister de cabo, tampouco de monitor, muito menos de aparelho algum. Quando isso acontece, pode-se dizer um “Puta-que-pariu!” amoral e ao mesmo tempo beato, num P.A., para que os quatro ventos sejam todo ouvidos.

Ainda exaustos, levantaram-se, colados pelo suor, colados por uma irmandade xipófaga, porque não queriam separar-se nem que a vaca tossisse- e para prevenir um incidente de tão infeliz quilate, anotaram num papel de bombom o telefone de um laboratório de xaropes-, e foram até a janela. O céu estava com uma cor alaranjada e ela achou isso muito, mas muito estranho. Se ela achava que algo era estranho, era porque de fato era. Fato…

A primeira dor, ah, sentimo-la ao ver que não embarcamos. E ela sobe, aguda, como dor ciática, como broca de dentista, pula o fosso da alma e é isso mesmo, tanto faz, é imponderável. E você sobe num elevador alucinado. Depois, a queda livre, agora tem isso em parques de diversão, veja você. Poft!

A segunda dor é ver o barco partir, ver que não tem lenço branco nas mãos para dar adeus. Então, resta a mimese de mariposa, de bruxa, de inseto que fica parado por horas, independente do tremor das telas oleosas dos quadros. Segurança ontológica é saber que o cofre não vai cair no toldo de um caminhão de entulho, porque cofres não costumam passear pelos parapeitos de edifícios antigos. Mas é saber que não será assim, porque sempre foi. Porém, o susto da percepção do não-embarque- “sinto muito, não posso levá-lo como passageiro, seu estilo de nado não me agrada; gosto de natação, mas vou levar o passageiro que pratica squash e come waffles, ainda que goste de nado, ainda que waffles remetam minha língua ao papelão, ainda que o som do squash me lembre o de uma pipoqueira”- é o mesmo de um cervo que vê uma leoa (quem caça é a leoa, palhação, ela é a rainha da selva). É um direito seu- e ainda um esquerdo seu, caso sua opção seja a via oriental revolucionária- tentar moldar o que já está, hã, como direi, faltam-me expressões, porque minha cabeça está cheia de frases que já foram ditas à exaustão, mas de uma sincera e singela beleza, pré-fabricado. As estrelas, sempre elas.

A terceira dor é a consciência de abandonar o sonho, sendo o sonho o embarque. Porque é irritante, triste, e você se questiona: por que diabos tenho que fazer isso? O diabo não responde, não é louco de meter-se numa furada metafísica dessas. Ele sai pra jogar boliche ou rir de jornais sensacionalistas. Ele é louco de querer entender? Querer entender é para nós, mortais, cara pálida, cara de pão, cara de rosto. Viadutos e túneis são obras de arte, segundo o Código Nacional de Trânsito.

Certa vez, ele brincava de pique-esconde. No lugar onde morava, havia pátios cercados por canteiros cheios de pequenos arbustos. Escondeu-se tão bem, que a brincadeira cessou sem que o achassem. Ouviu a voz dos outros meninos, que voltaram para seus apartamentos com a certeza de que ele havia feito o mesmo. Ele conseguiu a proeza de ficar ali, camuflado pelas plantas, por uma hora, é bem provável que tenha sido uma hora mesmo.

A terceira dor é a pior. Talvez. Não, é a pior sim. Mas passível de cura com sono, vinho tinto, caminhadas sem destino pelas ruas, pornografia e cambalhotas no tapete, pois são coisas comuns, nós é que somos insanos de querer o incomum (?)- eu diria que somos sãos. Como recursos extremos, um beijo de língua no travesseiro- travesseiros são eróticos, porquanto rechonchudos- e sonhar com decoração de interiores. I think I ping, therefore I pong. Tinha algo mais a dizer, mas… esqueci (?). Depois da pausa, a coisa recomeça. Ora, pueril ilusão, essa a de não existir um moto-perpétuo. Só não é máquina, está dentro de uma.Sempre perco a memória quando como massas ao sugo, capisce? Lá maior, afinação de concerto, 4/4. Dispenso o metrônomo, bato levemente com o sapato no chão. Assim ele segue tocando seus acordes.

… e de fato, não importa qual era a cor do céu, ou se fumaram ou se riram dos carros que passavam lá embaixo e que pareciam engraçados porque tão pequenos eram. O que importa é que metáforas são insuficientes. Só as utilizei até aqui porque eu sou insuficiente e porque não sei o que fazer, além de tentar esculpir marretas no meu prato de mingau. Não sei o que fazer da minha vida. Não sei trabalhar com figuras e comparações. Não sei o que fazer da minha vida, além de concordar que o céu encontra-se alaranjado.


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