Thank U, Gracias, Obrigado, Merci, Danke
18 09 2007Ainda na segunda página do livro sobre hialurgia e reparou nos dois pares de botas no meio do tapete da sala, deu um pulo, o livro acompanhou, mas logo caiu, maçã de Newton em brochura, eram dois homens, ladrões!- ladrinhos, eram de baixa estatura, ela perdia a vida, mas não perdia o trocadilho-, entretanto vestiam-se como detetives particulares de filme antigo, não deu tempo dela perguntar, porque disseram em coro:
- Viemos te limpar da coisa.
- Coisa??? Minha casa tem alarme-que-toca-lá-na-delegacia!- e bateu com o calcanhar na base do sofá, no botão inexistente.
- Não insista, boneca, é para o seu bem!
- Boneca?- ela pensou.- São mesmo de filme antigo (isso ela disse em voz alta).
- Aprendemos seu vocabulário indo ao cinema, baby.
- O que vocês querem?
- Já dissemos, fofura. Viemos te limpar da coisa.
- Não, esperem!- e tentou passar entre os dois, fugir pra cozinha, pegar uma frigideira, uma faca, um vidro de maionese, mas eles, mais rápidos, empurram-na de volta para o sofá.
- Socorro, tarados!- e braços de metal saíram das costas dos dois sujeitos, como asas de um anjo se abrindo, só que eles pareciam pterodátilos, não anjos, os braços tinham garras de ferro- pterodatilografia-; um par de braços segurava penas, o outro, uma garrafa com um líquido viscoso e que tinha cor roxa.
- Parem!- e as penas fazendo-lhe cócegas, enquanto o líquido era derramado. O cheiro do líquido lembrava baunilha.
- Loucos! Monstros!- e as penas não paravam, moviam-se com a mesma rapidez das cerdas de uma escova-de-dentes elétrica.
- Não vai demorar, princesa!- disse um dos nanicos. – Princesa, meu Deus…- ela pensou.
- Ei, parem, parem!- O conteúdo da garrafa acabou, mas o nanico que estava à esquerda meteu a mão no sobretudo cinza e puxou uma outra garrafa, desta vez, com o líquido verde.
A garra de ferro afastou-se da moça e, curvando-se, pegou a garrafa da mão do tal nanico, destampou a rolha com seu polegar de metal e começou a derramar o conteúdo. Esse cheirava a papel queimado.
-Chega! Chega!- mas a insana atividade dos agentes de algures não parava. Eis que o aparelho de som liga sozinho e começa a tocar uma música:
Velha amiga eu volto à nossa casa…
- Não, essa música não, ela me lembra do…
- Por isso mesmo, docinho!- disse o nanico da direita (Queremos una vida mejor para nuestro pueblo).
- Nãããããããããããão!- penas, líquido e viravam a moça pra um lado e pro outro, pra um lado e pro outro, pés pra cima, cabeça pra baixo, cabeça pra cima, pés pra baixo, frente e verso, vice-versa, prosa e verso.
A confusão durou cerca de uma hora. Quando ela deu por si, os nanicos já haviam sumido. Nenhum sinal deles na sala, só o cheiro de baunilha e de papel queimado. No corpo, nenhum sinal das penas e dos líquidos, mas o cabelo bagunçado e as roupas amassadas, tortas. Resolver tomar um longo banho. Refeita, voltou pro sofá e pro livro de hialurgia. Sentia-se leve. Sentia-se livre. Feliz. Livre da coisa. E não é que eles tinham razão? Estava livre da coisa.
Estou matutando até agora no que poderia ser “a coisa”… Que só poderia ser solucionada através de uma abdução…?
Credo em cruz, Driekie. Apesar de eu achar verde e roxo duas cores importantíssimas quando falamos sobre cromoterapia.