Um, Dois, Três, Quatro!

29 09 2007

Levava a vida que queria. Seus planos para o futuro foram decididos numa noite de insônia ainda na adolescência, de estalo: “quero tocar (guitarra), morar numa rua de ladeira, ter bons amigos e amores com quem eu possa tomar algumas cervejas, e comer macarronada às quintas-feiras, é tudo”. Bastava-lhe, e assim se passaram muitos anos.

Subia quase todas as noites no palco, boa parte da semana. Não era membro de uma banda que freqüentava a mídia; só era conhecida por um público não tão grande, mas cativo, que enchia o lugar onde tocavam. Receberam uma proposta de gravação. Uma vez. Mas não quiseram. Na verdade, não ambicionavam mais do que aquele nicho em que estavam- seus amigos tiveram o mesmo estalo que ele teve, no mesmo dia- melhor dizendo, na mesma noite, para que não falem por aí que estou me contradizendo. A única diferença é que não faziam questão do item macarronada às quintas, como ele. De resto, possuíam gostos gêmeos. A vida deles era aquele contexto e, meu amigo, o palco flutuava quando eles começavam a tocar, apesar da porrada da massa sonora. Os amplificadores pareciam feitos de massinha de modelar, porque ondulavam, sabe quando você vê uma coisa através do vapor que sobe do asfalto num dia muito quente? Então… Tinha gente que pulava, girava como pião; tinha muito air guitar, air bass, air drums; alguns ficavam estáticos, mas percebia-se nesses um leve tremor, como o de uma janela vibrando com a passagem de um trem ao longe- essas figuras ficavam nos cantos, como sanguessugas de pilastras, já que era impossível ficar parado voluntariamente no meio do recinto; as garotas ficavam loucas e bebiam e cantavam as músicas ao mesmo tempo sem engasgar, demonstrando uma habilidade oral bastante interessante. Ah, quase ia me esquecendo, havia uma figura que batia palmas muito altas, produzia um som metálico, e eram tão altas que, numa ocasião, o tarol do baterista furou, e ele fez o papel do tarol, com suas palmas, ou seja, ele batia palmas toda vez que o batera teria que bater no tarol, em perfeita sincronia, porque sabia de cor o repertório inteiro. Certa vez, uma garota se empolgou e quis tirar a blusa. O gerente, que ficava sentado num daqueles bancos altos de madeira, fez menção de se levantar assim que viu a moça começar a puxar a blusa e disse “Nô”. Desceu do banco. Só que recebeu uma vaia de alguns que perceberam que ele impediria a nudez da moça. Aí ele mudou de idéia, disse “Jimm-a”, pulou de volta pro banco- era um homem baixinho e troncudo- usando a propulsão das molas que tinha em seus coturnos, e voltou a conferir as contas dos clientes. A moça fez seu strip-tease parcial, sem maiores problemas (que seios bonitos ela tinha, latinha, latinha, favor considerar o eco, par de bexigas de festa não tão cheias de água, mamilos rosados). Os freqüentadores sabiam que “Nô” era a negativa do cara, e que “Jimm-a” era o sim. Mas não sabiam de onde ele era oriundo. Ele chegou no bairro num balão e logo depois abriu a casa de shows. Isso mudou a vida do bairro. Grande figura, esse sujeito!

Acontecia uma coisa esquisita. Sempre. Todos os dias em que a banda tocava. Mas escrevo sobre isso daqui a pouco. Antes, deixe-me escrever sobre um episódio que aconteceu com nosso amigo guitarrista. Num belo dia, ele ficou mal, deprimido. Bebeu muito. Acordou péssimo e sem vontade de tocar. Sentou no sofá, com o corpo inclinado pra esquerda. Parecia um churros- ficou com a roupa e a cara marcadas pelos frisos desse mesmo sofá onde apagou embriagado. Vendo essa cena, a guitarra saiu do case, plugou-se no amp e tocou a primeira música que nela foi tocada. Depois parou de tocar a si mesma e consolou nosso amigo, dizendo notas muito bonitas, que acabaram por reanimá-lo. E aí ele ficou bem novamente, fez as coisas que tinha que fazer naquele dia, e à noite partiu pra casa de shows, pra tocar, como vinha fazendo há anos, como queria fazer pra sempre.

Porém, contudo, todavia, ocorria um estranho fato, todos os dias em que a banda tocava. Antes do show da banda começar, uma sombra gigantesca invadia o ambiente. O público ficava assustado, a banda também, o dono da casa igualmente, obrigado. Depois vinha um tranco, como se a casa de shows estivesse sendo puxada de suas fundações. Tudo balançava um pouco. Aí vinha a sensação de se estar voando, como se a casa de shows tivesse sido erguida no ar. Um novo tranco, desta vez, como se a casa tivesse pousado, após o breve vôo. Então um novo movimento era sentido, era como se a casa se deslocasse como um carro, só que por poucos metros, pois logo parava. Daí, ficava tudo escuro! e a casa parecia girar como um disco. Vinha uma luz bonita, um facho de luz, que cortava a escuridão. E a banda começava a tocar. Pedro ouvia aquele cd gravado ao vivo quase todas as noites, boa parte da semana.


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