Nada para dizer

7 10 2007

Por que uso isso? Primeiro, porque enche a barriga, enche sem encher, mas enche, porque esqueço que a barriga tá vazia, porque aplaca a fome, aplaca quem diz é quem escreve, não sei o que quer dizer isso. E tem a tontura, meio sono, e vejo uns brilhos estranhos, fica tudo meio feliz, meio torto, já vi as coisas assim, na água que fica perto da calçada, que vai pro ralo, na fumaça quando alguém taca fogo na lata de lixo, quando bebi também, porque já bebi.

Não tenho muito pra dizer não, só que as coisas são assim. Não sei o que é pensar, isso que dizem aí, de pensar, deve ser a minha voz que eu escuto aqui dentro. Tem um monte assim como eu, e é isso. O que tô falando é só falar, porque já falei, vou continuar falando, e acho que não muda, não adianta, porque lembro de ontem, e de outro dia, e é tudo parecido. Isso é que é pensar, é?

Acho que penso então, penso sim. Escuto muito “por quê”. Dentro da minha cabeça. Já falei sozinho isso também. Tem esse negócio de sorte, de azar, que ouvi gente falando por aí. Acho que tenho azar, porque não sei o que tô fazendo aqui, assim desse jeito, porque os outros são diferentes, têm pra onde ir, têm coisas que não tenho, têm tudo. Tem esse negócio de Deus aí. Uma vez um cara de Deus disse que ele ia ajudar, tô esperando, não veio ninguém. Vem muita gente que passa, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá.

O que eu queria mesmo é que o asfalto se despregasse, e começasse a se enrolar feito um rocambole, feito um tapete, um rocambole de piche, uma faixa de buraco negro, e que os postes se curvassem em genuflexões perante a passagem do tapete-real-de-piche. O tapete-real-de-piche seguiria seu trajeto, sem freios, sem sinal que o impedisse, sem guardas, sem apitos, sem sirenes, sem multas, cem quilômetros, percorrendo retas, curvas, lépido, sem perda de tempo, maldição do hoje, perda de tempo, de momento que não volta, que fica na geléia da memória, cultura de laboratório. Antes a memória tivesse cheiro de geléia, tem cheiro de laranja estragada, de amônia, de gás, de esgoto, de rio sujo, de carne crua, de suor impregnando pêlos, de rato morto.

Podia em mãos ter flor
Tenho pedra? que te parece?
Tenho nada, tenho calos
Na anemia das unhas, horror

Tudo isso só para ser engraçado, só para rirmos um pouco, rirmos de verdade, sem vergonha, sem medo, sem pausa, porque seria engraçada a passagem do asfalto-rocambole, da faixa-de-luto-do-sistema-econômico, da faixa-grevista-japonesa. Faz tempo que não rimos; se rirmos, pode ser perigoso, pode parecer que há diversão, quando não há. Alguns podem dizer que sim, e portar-se como se a resposta fosse afirmativa, mas isso não passa de uma capa, que não protege do frio e da chuva, não totalmente, só um pouco, é como uma peneira, mas que protege do amplo terror de se estar desperto.

As pernas muito finas, cada vez mais finas, se é que é possível- o que é impossível? De uns tempos pra cá, tudo aquilo que era possível, todas as doces estórias que nos contavam antes que nossas pálpebras descessem como grades de lojas -, que só sabiam mover-se de duas maneiras, vagando e correndo, vagar de zumbi, de bêbado, de dopado, de desanimado, de viajante sem rumo definido que procura algo; correr fora de brincadeira, fora do esporte, Não-Paul-Tergat, correr de fuga; corriam, e corriam, e corriam, era um dos momentos felizes e tortos, pedaço do dia cortado à faca sem simetria alguma, sem etiqueta, sem educação, sem preocupação de repartir, apenas de cortar, corte nervoso, inábil, débil. Não deu tempo, apesar dos freios acionados, apesar do guarda, do apito, da multa, não deu tempo.


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