Os Campos de Ialu

13 10 2007

Minha intenção não é outra senão a de narrar os fatos ocorridos naquele verão de 1982 da maneira mais fidedigna possível. Acompanhei inicialmente a estória pelos jornais e fui testemunha ocular de seu desfecho porque fui vítima- talvez vítima seja uma palavra por demais dramática, mas enfim…- de um acidente medíocre. Não sei se posso dizer “Tive a sorte de estar lá no exato momento em que…”, pois a cena que vi junto com muitas outras pessoas perturba-me até hoje. A sorte, portanto, seria o prêmio para aqueles que se encontram comigo e que querem estar a par da estória.

Começo pelo que soube através da leitura de jornais e revistas, por coisas que foram publicadas e comentadas por pessoas mais próximas após o encerramento do caso. Devo advertir que é uma estória incompleta, carregada de muitos pontos obscuros e de saltos no tempo. Era uma família sem muitas posses, pais e dois filhos homens, com uma diferença pequena de idade entre os irmãos, dois, três anos no máximo, é o que parece. O irmão mais novo morre, ao que tudo indica, vitimado por uma meningite. Não é desnecessário dizer que foi uma tragédia, que esse acontecimento representou uma ave negra que abriu suas enormes asas projetando uma infeliz e amarga sombra na família. Os pais, que eram pessoas falantes, emudeceram. O filho sobrevivente, o mais velho, que já possuía uma forte tendência à introspecção, mergulhou nela obstinadamente. Contam que os jantares naquela casa pareciam quadros de natureza morta, apesar da presença de pessoas na mesa, diante daqueles pratos e talheres e pães e frutas. Num desses jantares, o pai morreu: seu último movimento foi levar uma colher de sopa à boca, e assim ele ficou, exatamente nessa posição, com o braço segurando a colher diante da boca. Congelou, como se um expectador invisível tivesse apertado a tecla de pausa de um controle remoto. Ele ficou lá, sentado, como uma estátua de museu-de-cera, com um sorriso nervoso nos lábios, sorriso de quem faz pose para foto, de praticante de ginástica aeróbica, de dançarina de programa de variedades, tal qual um carimbo, uma caricatura bizarra dele mesmo, sorriso provavelmente provocado por alguma dor que sentira antes de morrer, até que o carro da funerária o levasse embora. Não se sabe a causa mortis daquele jovem senhor. A mãe, desde esse fatídico dia, só saía de sua cadeira de balanço para tomar banho, alimentar-se- mal, muito pouco- e para voltar ao quarto para dormir. O rapaz, que era ainda um estudante na época desses eventos miseráveis, foi obrigado a largar os estudos para trabalhar numa farmácia. Mas parece que lia muito e compensou com isso a sua ausência do mundo escolar. Vivia na biblioteca da cidade, nas horas vagas. A presença dele chamava a atenção, pela alta estatura, pela compleição física- era forte-, e pelo fato da expressão facial ser marcante. Anos depois, a mãe morreu e ele ficou só no mundo.

Era um bairro relativamente tranqüilo, sem histórico até aquele momento de muitos roubos, furtos, assassinatos, acidentes. Ocorriam incidentes aqui e ali, mas nada de extraordinário, o que por si só já era de certa forma extraordinário, levando em consideração o fato de estarmos numa cidade grande. Foi então que tudo começou. Havia- e ainda há- um parque em nosso bairro, onde as crianças costumam brincar, onde os jovens se encontram para namorar, aposentados jogam partidas de xadrez , damas ou jogam cartas, enfim, uma praça, como eu poderia dizer?, bastante praça. É tudo, eis a descrição. Pois bem, uma menina brincava com sua boneca, quando um vulto passou e arrancou o brinquedo de suas mãos. Não é preciso dizer que a menina gritou e começou a chorar, apontando na direção em que o vulto corria. A mãe e outras pessoas que estavam por perto olharam, com espanto, sem entender direito o que estava acontecendo, mas puderam ver com clareza uma figura toda vestida de preto dobrando a esquina do outro lado da rua, enquanto acudiam a pobre criança em seu desespero de brinquedo roubado. Foi possível perceber que se tratava de um adulto, o que fez com que todos ficassem ainda mais intrigados, inclusive o guarda, que coçava insistentemente a cabeça e que tinha um leve tique nervoso: apertar os dentes caninos com o polegar. Por que um adulto roubaria uma boneca? Devia ser um louco. Mas o bairro tinha loucos? Ninguém o sabia… A questão foi discutida na reunião de associação dos moradores e um homem deu um murro na mesa, enquanto gritava “Nosso bairro não tem loucos!”. Ele esmurrou a mesa algumas vezes e repetiu a mesma frase, “Nosso bairro não tem loucos!”. Espumava, como um sonrisal imerso num copo (experimente dizer seguidamente copocopocopo, é legal). Um dos moradores cochichou com outro: “Este velho diz que o bairro não tem loucos. E ele é o quê?”, e o outro perguntou “Acha que ele é louco?”, ao que o primeiro respondeu: “Uma vez eu o vi dançando valsa na rua, de madrugada, sem par. E dizem que ele cria girinos na banheira.”

Alguns dias se passaram, e quando o bizarro caso estava quase esquecido tal e qual o carrinho-de-mão de uma antiga obra que ficou numa esquina do bairro e que virou um mini-pântano, novos eventos se sucederam. Uma boneca roubada na praça novamente, à luz do dia, e sem que ninguém pudesse impedir, outra roubada perto de uma porta de colégio, uma terceira na fila do caixa de uma loja de brinquedos… E só dava tempo de ver a tal figura de preto sumindo numa esquina ou perdendo-se na multidão.

Ele não soube explicar o porquê. Era uma vontade que crescia, que ficava cada vez mais forte, um vício como o próximo cigarro ou a outra barra de chocolate, uma compulsão, já lera sobre isso, só sabia que era incontrolável. Uma vez, teve um trabalho danado. Viu uma menina entrar numa casa, numa casa grande e bonita, com um jardim imenso, cheio de árvores, carregando uma boneca enorme, quase do tamanho dela, parecia uma outra menina, e ele estudou minuciosamente os hábitos daquelas pessoas que habitavam a casa, e aproveitou um dia em que saíram, para pular o muro, invadir a casa, pegou a boneca, não contava com a presença da empregada, teve que empurra-la pro banheiro e trancar a porta, e ela o xingava de todos os palavrões do mundo, ele ficou corado ao ouvir aquelas palavras pesadas que ela gritava, A Pesada das Palavras, chegou a chorar, a maquiagem ficou um pouco borrada, foi complicado escalar o muro carregando aquilo, a tal boneca que era bem grande, agora a polícia já tinha uma descrição, era um homem todo vestido de preto- isso já sabiam, mas não sabiam que era homem, muitas testemunhas afirmavam que a figura usava um vestido preto, como uma viúva-, maquiado, era estranho, afirmou a empregada, era como um travesti, usava maquiagem, muita maquiagem, parecia uma mulher de zona lá da cidade pequena de onde vim, ela afirmava, e era esquisito, porque ele tinha o rosto bem másculo, queixo quadrado, maçãs-do-rosto proeminentes, nariz aquilino, ficava muito estranho maquiado, com aquele batom vermelho, tinha olhos arregalados, olhos de louco, de santo em êxtase, tudo foi muito rápido mas ela pôde reparar nos detalhes, era tão esquisito que ela “gravou tudo na cabeça”, jamais iria esquecer, poderia reconhecê-lo até durante um blecaute, obrigado pela sua colaboração, senhorita, se lembrar de mais alguma coisa, procure-nos na delegacia, etc.

A descrição batia com a figura de Rodrigo, mas que coisa estranha, ele era conhecido no bairro, a estória trágica da família dele ainda estava fresca na memória de muita gente, ele nunca se envolvera em confusão, brigas, bebedeiras, era pacato, solitário, apenas isso, e era compreensível, levando-se em consideração aquilo tudo por que passou. Uma armadilha, tinham que fazer uma armadilha, não era nada tão grave, apenas bonecas roubadas, mas aquilo tinha que parar, aquilo podia dar merda, como disse o delegado, podia acontecer uma desgraça maior, uma morte, sabe-se lá, de qualquer maneira, tinha que parar, as notícias já corriam, “Ladrão de Bonecas à solta no bairro Bloblobló”, era desagradável, ridículo, e a reputação do bairro?, “Nosso bairro não tem loucos!”, berrava o sonrisal-man.

Pois deixaram uma boneca tão bonita, ainda maior do que aquela que ficava no casarão que teve que invadir, não houve jeito, era forte demais, mais forte do que ele, e ele pegou a boneca, nem estranhou o fato dela estar solta ali, sem dona, sem menina por perto, ou se estranhou, não se importou, talvez estivesse cansado daquilo tudo e quisesse dar um basta, pessoas o seguiram, ele subiu devagar a escadaria do sobrado em que morava, bem devagar, sombras lá embaixo, as pessoas que estavam em seu encalço, policiais, curiosos, eu também estava lá, cruzei com ele na escadaria, queria descer, fui ao sobrado tirar uma radiografia do tornozelo que torci horas antes, eu quis descer mas o fluxo daquelas pessoas no encalço dele me empurraram para o segundo andar de novo, aquela correnteza de malucos, ele abriu a porta do apartamento, tudo estava escuro, cruzou a sala, toda escura, uma fraca luminosidade invadia a sala através de um buraco do papel pardo que cobria a vidraça da janela, provavelmente feito por uma traça, ele seguiu pelo corredor igualmente escuro, lá no fundo do corredor, um quarto, uma luz tremulava lá no quarto e dava à entrada do quarto um aspecto de pesadelo, ele tirou o xale preto dos ombros, pousou na Cadeira, acendeu um incenso, as pessoas seguiam cada passo vagaroso que ele dava, guardando uma distância segura, é claro, e no quarto havia urnas de barro, tocha, havia uma tocha na parede, que estava coberta de fuligem, muitas urnas de barro, tinha um armário duplex enorme, de jacarandá, ele abriu as portas do armário, a sombra dele na parede, de perfil, lembrava um chacal, tinha um escaravelho lá em cima do criado-mudo, escaravelho feito de porcelana, tinha umas estátuas diferentes também, mas ele abriu as portas do armário, e caíram várias bonecas, o armário cuspiu bonecas, bonecas envolvidas em linho, pareciam múmias, lá na prateleira do meio, dentro do armário, a boneca grande, toda envolvida em linho, pareciam múmias, “Ele mumificava bonecas!”, ele ficou Estático, olhando fixamente para a boneca maior de todas, a que era a mais bonita, chorou, em silêncio, as lágrimas borraram sua maquiagem forte.


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