Argolas e Pinos

28 10 2007

Um texto era o que eu via claramente, um texto cuja redação era incessante. Não era texto escrito manualmente, era texto digitado, apesar de eu não poder ver quem o digitava e como o fazia- se com máquina de escrever, creio que não, pois não ouvia som algum e máquinas de escrever emitem algum som, ou com um computador. O espaço das folhas era preenchido com uma velocidade grande, mas que não chegava às raias do absurdo. O texto crescia e esse detalhe não me era o mais incômodo, o que me incomodava realmente era o fato de não saber do que tratava o texto, que tipo de texto era esse, se era artigo acadêmico, se era crônica, se era conto, se era um romance que acabara de explodir… Tampouco sabia em que idioma o texto estava sendo redigido, confesso que podia ver os caracteres, mas não conseguia lê-los, nem uma palavra sequer. Sem formatação aparente, como trepada sem corte de palavras, silenciosa, daquela que estoura só com olhares e gestos, selvagem, rápida, de pé, tendo como cama uma parede, com calças e saias e cuecas e calcinhas descendo como as argolas descem nos pinos naquele jogo que não sei como se chama. Não consigo descrever a que distância eu me encontrava da folha- que estava entre mim e a janela do quarto; antes que perguntem, não, a folha não aparecia na vidraça da janela, porque entre mim e a vidraça da janela existe uma persiana preta-, se é que era folha, podia ser uma tela. Agora, pondo em ordem meus pensamentos, percebo que era sim uma tela; aliás, é uma tela, porque o texto continua sendo digitado, digamos, apesar dos não-dedos, apesar da não-presença do digitador, então seria um prestidigitador? , apesar da não-máquina-de-escrever, do não-computador. No entanto eu disse não-computador. Assim sendo, há um não-monitor, então não-tela. Retângulo? que tenho diante de mim, o que és? O que estou dizendo? Se és texto mas não estás impresso em papel, nem aberto em tela, não és texto, és um não-texto. Entretanto és texto porque vejo em ti todas as características de um. Chamar-te-ei de Avantexto, texto fantasma, pareces com as palavras que não disse a ela, palavras fantasmas, logo, Palavrasmas.

Linha após linha, o Avantexto crescia como um bolor, como massa misturada com fermento podre em tabletes, como carne esponjosa, como uma teia de aranha feita em forma de cortina, caía como chuva sem vento. Disse que caía, mas como cair, se é não-forma, se apenas assemelha-se a retângulo? Então não cai, porque não está sujeito à gravidade. Eu durmo e acordo, acordo e durmo, isso durou a noite toda, começou quando ainda estava escuro e dormi e acordei dezenas de vezes, já era possível ver a claridade lá de fora penetrando no quarto através das frestas da persiana e Tu continuas aí, aqui e ali, a crescer. Ambos, Vós, Avantexto, e Ela Fantasma, Elasma.

O Avantexto avança, grotesco. Grotexto. Penso que as páginas já preenchidas somem, quiçá sejam engolidas por uma boca invisível, quem sabe sejam depositadas numa não-urna, nada sei de fato, tudo é mera especulação. Escrevo em nome do desespero do não-saber, atacado pelo não-saber como um porco-do-mato picado por vespas. O Avantexto e sua presença opressiva. A densidade daquilo que desconheço. Não, palavra infeliz. Não. Não somente em casa, saio para trabalhar, para resolver as coisas, ônibus, metrô, caminhada nas ruas, trabalho, estudo, como, converso, fumo, mijo, muitas horas se passam, o avanço do tempo é parecido com o progresso do Avantexto, se é que se pode chamar de progresso o avanço do Avantexto, já que desconheço seu escopo, e o Avantexto me acompanha, Elasma idem, o Avantexto com sua sobrecarga de palavras escritas que não leio, Elasma com seu excesso de ausência de palavras faladas que só ouço internamente.

Custa-me escrever, cada letra vem com uma gota de suor que brota da testa, cada letra é uma gota de teto de caverna, cheia de calcário, que quando cai faz um plosh que reverbera assim como a imagem de Elasma se multiplica na Casa-de-espelhos-deParque-de-Diversão que tem sido minha cabeça, cada palavra é um trabalho de estiva, trabalho penoso, tripalium, sento e levanto, ando em círculos, o corpo ficando oleoso, crescendo e diminuindo de maneira desproporcional e bizarra, tal como ocorreu com Alice, faz calor, faço na esperança de que cada palavra apague a angústia, o Avantexto tira as palavras da minha boca, suga meu repertório como um vampiro, a figura ridícula de alguém arreganhando os caninos, um sombrio dentuço-que-arregala-os-olhos. Um inferno de Jimmy Hatlo, embora eu não tenha rabiscado nas toalhas de mesa de restaurante, um inferno polar do Zé do Caixão, com pessoas presas pelo gelo nas laterais de um túnel, embora eu não tenha pecado, praticamente.

Repare como são as coisas, eis que olho e o Avantexto não está mais aqui, ele sumiu. É possível erguer P com os dedos indicadores, desde que as mãos sejam colocadas umas sobre as outras- e que ambas as mãos de um mesmo operador não se toquem- na cabeça de P por um breve intervalo. Primeiro veio um alívio, alívio muito grande, foi cansativo aquele cinema incessante, aquele videoclipe que parecia infinito, um pergaminho que se desenrolava como uma estrada que liga vários Estados, porque o movimento do Avantexto era mecânico, instintivo, ele seguia em frente e ponto, nothing more left to say, Mas depois vieram o vazio e o medo, cara, nem sei de que exatamente, para ser sincero. A cabeça oca, o cansaço, a angústia pressionando o peito. Veio uma vontade de rir, riso antes nervoso que alegre, também de chorar, as palavras parecem sempre insuficientes para expressar as coisas tal como elas se passam, ainda mais agora que o Avantexto roubou-as de mim e foi-se, simplesmente foi-se, deixando vazia aquela distância entre mim e a janela, a distância entre mim e o quarto de onde fugi, para não voltar mais a não ser na hora em que o sono aparecesse para roubar-me o estar desperto, o espaço retangular que crescia para baixo, agora desocupado, eu tentando encontrar explicações, para quê?, é assim mesmo, a coisa acontece e você fica com cara de máscara de borracha enquanto balança a cabeça como quem diz “Sim”, com aquela sensação de querer voltar para um pesadelo, embora esteja aliviado por despertar, apenas para buscar o sentido que ele encerra, para buscar a porra da chave que ele contém, o tal do significado, nesse momento um solo de trompete vem lá da rua, um carro-de-som, não-trompetista solando, e eu aqui, Avantexto algures, porque se foi, sem maiores detalhes, nem menores, nem sórdidos, nem belos. Faz um calor grande, e o mundo tem um céu líquido, uma terra gasosa e mares, lagos, lagoas e rios de consistência gelatinosa. Você abre a torneira e caem cubos, não gotas.


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