É apenas fantasia

10 11 2007

Agachado na relva, agitado, mexia em parafusos, placas de metal, molas, fios, fusíveis, pedaços de plástico, periféricos. Tudo isso estava misturado de forma confusa numa bolsa de couro, e agora, espalhado na grama. Ele procurava por uma peça que possivelmente faltava à máquina que acabara de montar, máquina que estava voltada para o norte. Também havia ferramentas de todos os tipos, que estavam numa segunda bolsa que ele carregara com certa dificuldade até aquela clareira, pois eram pesadas, ambas as bolsas, ele trouxe de casa tudo o que pôde. Parava vez ou outra para conferir um esquema traçado numa folha de papel: era quando largava as peças e ferramentas que tilintavam ao caírem no solo. O barulho atraiu uma fada que lia atentamente um manuscrito gravado numa pétala de flor. Curiosa com aquela agitação que quebrava o silêncio da floresta, abandonou o aconchegante arbusto onde se distraía e flutuou até a clareira onde se encontrava o rapaz. Flutuar no ar não é como flutuar numa piscina. Sei flutuar numa piscina; no ar, não sei, por isso não posso descrever os detalhes da flutuação da fada. Qualquer coisa que eu escrevesse a respeito disso seria mera especulação e até mesmo mentira, e, portanto, não o farei. Peço desculpas por isso.

Percebendo a possibilidade de diálogo, os canais abertos no ar, a mudança nas cores do vento e a pulsação dos galhos das árvores próximas- porque o diálogo entre elementais e humanos é raríssimo; e o diálogo entre humanos e humanos também está se tornando igualmente raro, algo triste de se constatar- , perguntou ao rapaz:

- O que faz?

- Tentando consertar uma coisa. – respondeu sem tirar os olhos do complicado esquema traçado na folha de papel.

- E o que é essa coisa?

- Uma porta, uma passagem para um lugar aonde eu ia sempre e que se fechou, não sei por que, talvez um acidente, talvez a mudança de temperatura, alguma peça que se soltou da máquina, eu não sei… só sei que gostava de ir para lá.

- Por que não vai a outros lugares? Daqui, do seu mundo…

- Não tenho para onde ir…- respondeu com o olhar distante e triste. Olhava provavelmente para o local onde a porta costumava se abrir, ponto que para outras pessoas seria o nada.

- É apenas fantasia.- disse a fada num tom amável.

- Eu sei… – respondeu o rapaz. Parecia amargurado e confuso. – Mas é tão bonito lá…

- Você tem o seu mundo, seus afazeres… – continuou a fada.

- Não gosto daqui. Tudo daqui perdeu o encanto, é como se tudo tivesse sido coberto por fuligem ou lama, sabe?

- Eu sei. – A fada ficou pensativa.

Ele também pensava. Buscava uma razão para o fato. Erro ao calcular os ângulos? Estaria a máquina realmente voltada para o norte? Era o que dizia a bússola. Sempre deu certo, desde a primeira vez, contrariando expectativas. Por que não funcionava? O que tinha acontecido? Um dos infernos é o não saber. É melhor saber, acredite, por pior que seja, é melhor saber. Quando se sabe, há um impacto inicial que traz dor, mas é dor que passa. Quando não se sabe, a dor permanece.

Enquanto isso, a fada lia os pensamentos do rapaz. A priori, pensou que se tratava do mesmo que vinha observando em todas as pessoas que passavam pela floresta, escapismo, medo de crescer, medo do retorno de dores anteriores, retorno que parecia eterno, da descida ao inferno medíocre e ao mesmo tempo excepcional, tipo de excursão em que todos os humanos se metem, mesmo quando estão de férias. Ela nunca compreendeu a razão de tanto sofrimento, nunca entendeu por que uns torturam tanto os outros, grandalhões confusos, perdidos… Mas essa leitura foi rápida- porque as fadas captam tudo de um jeito muitíssimo rápido-, e ela viu que não era o caso daquele jovem rapaz: não era à toa que ele queria fugir. Decidiu ajudá-lo, embora essa atitude pudesse contrariar certas leis. Essa decisão foi igualmente rápida para nós, humanos, porque a contagem de tempo dos elementais é completamente diversa da nossa.

- Gire a chave para a direita e para a esquerda, faça isso três vezes. – disse a fada.

- Como é?- perguntou o rapaz, que estava enredado por suas dúvidas.

- A chave, gire-a para a direita e para a esquerda. Faça isso três vezes. Depois, digite no teclado a tecla A, também por três vezes. Faça o mesmo com a tecla C. Por fim, comprima a mola que fica próxima ao cabo amarelo.

- Ta, entendi.- e ele executou a operação ditada pela fada.

- E agora?

- Espere…

Silêncio, nada podia se ouvir na floresta, o que é, convenhamos, difícil. Nada de som de pássaros, nada de som de insetos, nada de som de pequenos e de grandes mamíferos que costumavam circular por ali, nada de som de folhas e de galhos, nada de som da água que corria no regato.

- Não aconteceu nada!- reclamou o rapaz.

- Espere mais um pouco- disse a fada.

- Não é possível abrir mais esse portal… Sinto muito.

- Não! – gritou o rapaz. Você já viu uma expressão de desespero? Se viu, pense nisso, e poderá visualizar claramente a expressão do rapaz.

- Sinto muito!- repetiu a fada. E ela sentia muito mesmo, não era apenas modo de dizer.

Grossos pingos de chuva batendo na máquina, na relva, no rapaz, em tudo que estava abaixo das nuvens, quebraram o silêncio sepulcral da espera de que algo ocorresse. A máquina entrou em curto-circuito. O rapaz ficou imóvel por alguns instantes, com o desespero ainda estampado em sua face. Aí ele se levantou e começou a correr. Para onde correu, não se sabe… Se a fada não soube, imagine eu. Tudo o que nós- eu a fada- sabemos, é que ele não correu para onde queria ir.


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