O buraco na areia

6 12 2007

Lembro bem do dia em que vi Laís pela primeira vez, uma cena difícil de se esquecer. Ela parada na calçada, coberta por uma tinta cor de uva, e chovia, a tinta escorrendo pelas suas pernas, pintando as poças da calçada, que se alargavam, como o vinho derramado numa toalha branca. Depois descobri que não era tinta que cobria o corpo de Laís, era vinho mesmo, ela acabara de quebrar várias garrafas numa loja, nunca descobri por quê. Acostumado que estava a lacunas e mistérios, não liguei para aquilo. Já havia visto um homem emitir uma luz verde numa escada rolante, lembro que o homem gargalhava; brilhar parecia a coisa mais feliz que tinha acontecido na vida daquele homem. Também vi uma bola de futebol de salão ser tragada pelo teto; sim, tragada, ela não furou o teto, o teto a engoliu, absorveu-a como uma esponja absorve líquido. Já vi pessoas serem execradas pelos motivos mais banais ou mesmo por nada, assim como vi gente da pior espécie ganhar aplausos. Mas nesse dia, tirei-a dali, fomos para um hotel. Transamos por horas e também ficamos mudos por horas. A palavra parecia ser algo proibido dentro do quarto daquele hotel e isso foi um acordo tácito. Conversamos muito com os olhos e com as mãos. Por que aquele quarto de hotel parecia um túmulo? Talvez porque nós estivéssemos mortos. Ou prestes a morrer. Não sei. Eu não sabia, ela também não, embora ela pareça ser bem mais esperta do que eu. Esconde sua sagacidade num sorriso bobo.

Laís era uma náufraga da vida e foi minha tábua de salvação naquele momento, porque eu, igualmente náufrago, estava na iminência de descer para as profundezas geladas. Mais do que náufrago, acho que eu era um suicida, porque quis me lançar ao mar, mesmo sabendo que aquela travessia era impossível. Não era a minha primeira vez, parece que gosto de repetir erros. Parece que eu também fui uma tábua de salvação para ela. Fomos úteis um ao outro. Ainda somos. Parece que um salvou a vida do outro. Respeito-a por isso, mas não a amo. Se ela me ama? Creio que não, creio que haja um respeito muito grande e mútuo. É tudo. Talvez não seja o ideal, mas o que é ideal senão uma imagem que passa pela nossa cabeça? Ela teve uma vida muito conturbada e eu também. Agora as coisas estavam nos seus eixos. Há muito tempo atrás eu me peguei, sentado numa poltrona, de manhã muito cedo, pensando no quanto minha vida era aborrecida, porque não acontecia nada. Anos depois eu me peguei sentado não naquela poltrona, mas numa outra, me arrependendo amargamente de ter pensado tamanha estupidez. Nessa segunda manhã de filosofia estofada, decidi não pensar mais a respeito desse tipo de coisa; decidi não reclamar, pelo menos não reclamar demais daquilo que estava ao meu redor, porque paguei um preço muito alto pra descobrir que sempre pode ser pior. Não acredito em castigos, não se trata disso. É apenas uma questão prática, acredite. Quanto à Laís, Laís passou a ver, tanto quanto pôde, as coisas de um maneira bastante superficial. Como ela quase foi ao fundo, ou lá esteve, provavelmente esteve lá, é muito comum que tenhamos estado e não tenhamos nos dado conta, porque lá é escuro, é provável que tenha se agarrado a essa superficialidade por medo. Também se transformou numa pessoa fútil, tanto quanto pôde. A futilidade pode ser assustadora, mas é compreensível quando vista como fuga. E tenho visto demais isso. E ingênua, passou a ser ingênua: eis o porquê da sagacidade escondida atrás do sorriso bobo.

Há muito tempo não íamos à praia. Há muito tempo não íamos a lugar nenhum que não fossem nossos malditos trabalhos e compromissos- leia-se pesadelos- sociais. Portanto, era um feriado prolongado- não escrevi “feriadão” porque me parece bobo esse aumentativo, parece que essa última sílaba opera uma mutação plástica na pessoa que a pronuncia, parece que faz com que a pessoa que diz “feriadão” fique com um queixo tão comprido quanto uma prateleira- e pegamos o carro e dirigimos a manhã toda até chegarmos na praia, que era muito longe de onde costumávamos morar- atenção nisso: “onde costumávamos morar”. Bom. Chegamos cansados e começamos aquele ritual de armar barraca e cadeiras e estender esteira e tirar coisas inúteis e algumas até úteis da bolsa e de nos despir de camisetas e bermudões- você pode perguntar por que não apliquei aqui a minha regra que consiste em evitar aumentativos. Tudo o que posso dizer é que não sei a razão. Ou melhor sei: para mim, o aumentativo de bermuda não me remete a um queixo que cresce exageradamente e que põe em risco a existência de uma sala; não põe em risco a pessoa, a dona do queixo. No máximo, coloca em risco a estética, pois ela fica bizarra.- e chinelos. Só estávamos nós na praia. Estranho, porque era um feriado, deveria haver mais gente. A primeira coisa que fiz depois de cumprir esse ritual foi dar um mergulho. A água estava gelada, mas gostosa. Estava quente. Não fazia sol, tínhamos um mormaço. Quando voltei, sentei-me na cadeira, acendi um cigarro mentolado e pus-me a olhar para o horizonte. É bom olhar para o horizonte. Não sei por quê. Por favor, não me encha de perguntas. Estou realmente cansado. Pra ser sincero, exausto. Pra falar a verdade, gostaria de sumir; não definitivamente. Com isso quero dizer que, naquele momento, gostaria muito de ser tragado pelo teto, como aquela bola a que me referi lá atrás, com a diferença de que, ao contrário da bola, que não voltou- os caras que trabalhavam no ginásio e alguns jogadores foram lá em cima e não viram sinal algum da bola-, eu queria voltar.

Laís estava deitada de barriga para baixo na esteira, tentando bronzear-se com o não-sol- se bem que dizem que no mormaço queima-se mais. Fiquei olhando para Laís, para as costas dela, para a bunda, para o biquíni. Biquínis me dão um tesão, mesmo fora da praia. Eu desatando com os olhos os laços do biquíni da Laís. Para as pernas que ela balançava meio que nervosamente, como quem bate as pernas nadando, num ritmo menos intenso, é claro, enterrando e desenterrando as pontas dos dedos dos pés na areia. Queria que a areia fosse feita de açúcar e canela… Fui pegar no cigarro e queimei os dedos, a porra da guimba colou nos meus lábios e eu odeio quando isso acontece. Estava com os lábios secos e eu odeio quando isso acontece, porque é sinal de que alguma coisa vai acontecer. Eu não sou o tipo de cara místico. Já fui, deixei de ser diante de tanto desencanto. Por outro lado não acredito na ciência. Não sei no que acredito. Laís estava tão distraída que nem notou o quase salto ornamental que dei da cadeira quando a brasa do cigarro queimou meus dedos. Palavras muito belas passaram pela minha cabeça naquele momento.

Laís virou-se de barriga para cima, ergueu-se e sentou na esteira. Logo em seguida, ficou de pé. Olhava para algum ponto que distava de nós uma dezena de metros. Colocou a mão na testa, como quem faz viseira, para tampar aquele não-sol, aquela luz fraca que descia até nós ali na praia. Tinha uma expressão séria. Via alguma coisa que eu não podia ver. Mais do que isso, ouvia, sentia o cheiro, todos os sentidos dela pareciam estar ligados, captando algo que eu não captava.

Foi aí que Laís estendeu o braço e me tocou. E disse baixinho: “Celso…” Foi aí que eu vi, finalmente vi o que ela estava olhando. Ela olhava, como eu disse, para um ponto que distava de nós uma dezena de metros, isso por alto- não sou muito bom para calcular distâncias; não tenho aptidão para cálculos. Era como se a areia naquela altura caísse numa ampulheta, como se a areia estivesse sendo tragada por um buraco, um buraco que começou como um ponto, pequeno, mas que foi aumentando, expandindo seu diâmetro tal como a gota de vinho na toalha branca de uma mesa. Um buraco negro, uma mancha enorme de nanquim se espalhando pela areia. Que era aquilo?

Começamos a pegar nossas coisas, mas o buraco continuava crescendo, de tal modo, numa velocidade tão grande, que decidimos largar tudo lá na areia; só pegamos nossas bolsas e corremos em direção ao calçadão- calçadão também me parece um aumentativo idiota, mas é o que há. Enfim, fugimos. Ridículos, os dois. Ridículos como todos que fogem correndo. Mas sinceramente, não estávamos interessados em cair naquele buraco, até porque não sabíamos se ele tinha fundo. Um aspecto irritante desses acidentes naturais (?) é que eles não vêm com instrução, nem com garantia. Já na calçada, viramos para trás e vimos que o buraco tinha parado de se expandir. Apesar de já ter visto coisas bem absurdas, confesso que aquela coisa me assustou. E, creia-me, não me assustava há anos, apesar de não terem me faltado motivos para.

O fato de estarmos na calçada não nos deu a sensação de segurança que esperávamos. Tratamos de correr em direção ao carro. Entramos e arranquei com o carro, os pneus cantaram como uma soprano louca. Pelo retrovisor dava pra ver o sinistro negrume do buraco, que só foi diminuindo porque o carro se distanciava da praia. Ele, o buraco, continuou lá, em sua fria e plácida inércia, depois da fúria da expansão. Ele, o buraco, não emitiu barulho algum durante sua expansão. Mas tive a impressão de ouvir um riso, um riso contido, mas enervante. Eu devia estar ficando maluco. Ou não, quem sabe o buraco não ria de nosso espanto, de nossa ignorância, de nossa pequenez diante dele. Talvez o buraco tenha rido porque sabia da minha atração por buracos, por cavernas, por coisas escuras e subterrâneas, rido do meu interesse uterino.

Não conseguimos dizer nada um ao outro, dirigia em silêncio. Laís ligou o rádio e pegamos um noticiário começado. Falava da aparição de outros buracos em outros pontos do litoral. Nossa praia- oh, como somos possessivos- estava vazia, mas as outras não, então foram vitimados até aquele momento um vendedor de sanduíches-naturais, um quiosque com seu dono e mais dez clientes, um cachorro, uma bola de vôlei, um golfinho de plástico, uma família de oito pessoas e uma Kombi. Geólogos foram chamados para analisar o fenômeno, mas as explicações não vinham.

Mais havia as vítimas. O tempo passou e foram feitos enterros simbólicos, embora a esperança de que elas voltassem tenha permanecido. E Eu e a Laís lendo aquilo tudo nos jornais e revistas, vendo aquela coisa toda nos noticiários da tevê, conversando sobre a coisa, tecendo teorias incríveis, o que era uma fuga das discussões. Aliás, ao longo dessa época em que buracos apareciam nas areias mundo afora, mudamos várias vezes de apartamento, com medo de que nosso prédio fosse engolido por um buraco. Não sei se buracos mudam de hábito, mas e se começassem a surgir também no asfalto? Tive um pesadelo com isso, Laís teve vários, mas ela não me contou sobre eles. Como sei que teve? Porque ela acordava com uma sombra no rosto, era como se tivesse um véu, e aquilo me lembrava do negrume do buraco. Além disso, ao despertar, ela ficava por algum tempo fincando os dedos indicadores no colchão. A vida tem lá sua graça, porque as vítimas começaram a reaparecer na medida em que os buracos iam sumindo. O vendedor de sanduíches-naturais apareceu no Tibete; o quiosque com seu dono e os dez clientes foi parar no meio de uma exposição em Osaka; o cachorro reapareceu em cima de um muro em Valença; a bola de vôlei e o golfinho de plástico foram encontrados dentro de um daqueles bolos enormes que fazem para comemorações de aniversário de cidade: o aniversário no caso era o da cidade de Manaus, foi engraçado quando cortaram o bolo, a faca esbarrou no golfinho de plástico, e ele explodiu, lançando bolo pra tudo que é lado; a família de oito pessoas foi parar na Austrália e a Kombi, num ponto isolado da Cordilheira dos Andes. As vítimas do buraco não souberam dizer o que aconteceu enquanto estiveram sumidas. Todas voltaram com um sintoma em comum: seus discursos se alternavam entre o gecar e o falar. O golfinho morreu, bolas não dão testemunhos. A Kombi buzinava normalmente, com uma única diferença: sozinha, mesmo quando ninguém acionava a buzina. O cachorro passou a tritinar. Nas poucas vezes em que latia como qualquer cachorro comum, latia de uma forma muito triste, como um cão que sente dor. É possível que essas pessoas tenham visto coisas inacreditáveis e mesmo horríveis, e por isso suas falas tenham sofrido tal alteração. Entendo menos de sintomas, mais de nãotomas, por assim dizer. Sobre os buracos, apareceram em vários pontos do mundo, soube disso depois. Soube também que muita gente sumiu e que também reapareceu em lugares insólitos. Numa manhã acordei e Laís tinha sumido. Procurei-a por todo o apartamento. Procurei por um bilhete. Pensei em descer correndo as escadas para ver se ainda podia alcançá-la, mas detive-me diante de uma mancha no carpete. Uma mancha pequena e escura, como um pingo de nanquim, que começou a se expandir.


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