Viscoso
22 12 2007Não reconheci minha sala quando a olhei de fora de casa, tinha saído para pegar o jornal de madrugada. Por um instante muito breve, aquela sala não era a minha sala, a sala pela qual eu havia acabado de passar. Era como se eu olhasse um quadro retratando um ambiente que me era estranho ou uma foto mostrando uma sala alheia. Ainda assim, entrei, porque tinha que entrar, era minha sala, minha casa, já havia pegado o jornal, não tinha mais nada a fazer fora da casa. Olhei para o céu que começava a clarear, aquela estrela insistente e enorme brilhando. Penso que larguei o jornal numa cadeira de vime e pus as chaves num prego que fica pendurado na parede- as chaves balançando, dlin,dlin, pararam.
Não me recordo se voltei direto para o quarto ou se antes passei na cozinha e peguei um café. Sim, eu fui à cozinha, peguei o café, mas não voltei para o quarto. Parei na sala e acendi as luzes. A sala não me parecia mais um lugar exótico, seu clima familiar e hospitaleiro tinha voltado. A velha e boa desordem da sala. Ela esqueceu um casaco na sala e lá estava ele, estirado num sofá. Ainda emanava um leve perfume. Parecia me olhar. Lã que olha, lã que observa atentamente meus gestos desengonçados de não-lã. Toquei o casaco, um afago rápido, porque a lã não responde, a lã não se arrepia, como a pele dela, a penugem não se eriça, não há bolinhas que brotam do arrepio, não há gemidos nem suspiros nem risadinhas nem variações respiratórias, ao menos não percebo isso, meus sentidos não estão treinados para um diagnóstico da lã. Não havia dado tempo para saudade. Não sei por que toquei o casaco. Ela voltaria logo, antes do final de semana, certamente. Ligou cerca de uma hora atrás, eu dormia e o telefone pareceu um boi enfurecido invadindo um tranqüilo e silente oásis. A lua caindo e batendo na minha cabeça, o eco de uma visão de binóculo embaçado. Ela disse algumas sacanagens, fiquei excitado, isso expulsou meu sono. Ela viria antes do fim de semana.
Não queria estar ali. Queria estar em outro estado, outro país. Um dor de cabeça me disse um olá amargo. Esqueci de comer durante o dia, dia cheio, atendendo pessoas chatas que queriam resolver problemas chatos. Não gostava tanto do meu trabalho. Queria ser esgrimista. Ou caminhoneiro. Ou desenhista e projetar coisas interessantes. Poderia fazer quadrinhos também. No ano anterior, tive vários empregos. Me metia em trabalhos curiosos: carregador, encanador, garçom no turno da noite, porteiro. Larguei durante esse ano o escritório para buscar empregos diferentes, uma decisão de Ano Novo. Daí voltei a trabalhar na minha área.
Então, quando você derrama café ou refrigerante ou suco adoçado ou alguma bebida alcoólica. A sola do chinelo grudou em alguma coisa. Olhei para o chão e não reparei em nada. Algo transparente, quem sabe? Não fosse o chão, seria o próprio chinelo. Mas porque só senti o chinelo grudar naquele ponto da sala? Se tivesse pisado em alguma coisa lá fora, sentiria desde o primeiro passo dado na sala, porque o chão lá fora é de pedras. Dei um passo à frente. Nada. Pisei naquele ponto. O barulho outra vez, a sensação de grude, de pisar em líquido viscoso.
Andei por toda a sala e só sentia o grude naquele ponto, naquele taco de sinteco em particular. Repeti a operação de deambular por toda a casa. Nada, nada, nada. Voltava ao ponto e lá estava o grude. Passeei pela casa várias vezes, numa peregrinação louca, numa procissão sem vela nem fé. Pensei em ligar pra ela e comentar: “Olha, tem uma coisa que faz com que meu chinelo grude no chão, mas é só num ponto da sala, no mesmo ponto, já aconteceu com você?”. Mas era tarde, mais de das duas da manhã, creio que ela não gostaria de ser acordada para responder a uma pergunta tão sem sentido. Eu que ficasse com minha dúvida, com meu pequeno mistério.
Eu tinha é que dormir, isso sim, trabalho dali a algumas horas. Fui deitar. Apaguei as luzes do quarto. De barriga pra cima, olhando pro teto azulado com a claridade que vinha do poste da rua. Meus olhos deviam se fechar, mas não, abriam-se cada vez mais. Sabe aquele colírio que o oculista pinga na sua vista e que faz você sentir seu olho inchando, dando a impressão de que ele vai explodir? Pois é. Eu só pensava numa coisa: naquele ponto da sala.
Em segundos, estava de volta à sala. Olhava de longe o tal ponto, o sinteco grudento entre tantos outros que compunham o mosaico do piso da sala. O casaco de lã dela no sofá me olhava também. Acho que estava numa outra posição antes. Te acordei, minha linda? Fui até ele. Ele, o taco. Parei diante dele. Ergui uma perna, desci a perna e pisei. Schruuff, o chinelo continuava grudando nele. Papel de pegar moscas- existe isso ainda? Planta carnívora. Café ou refrigerante ou suco ou bebida alcoólica. Esmalte. Esperma. Cola. A dor de cabeça tinha passado. Que bom. Tomei uma decisão. Sim, aquilo não podia continuar. Fui ao quarto dos fundos. Depois peguei um fone de ouvidos, pluguei no I-pod e comecei a ouvir sambas antigos.
Agachei. Estava diante do taco. Entre mim e você, cara. Somos só nós dois e temos que resolver isso. Fazia calor. Aos poucos, comecei a suar. O suor gotejava, molhava a camisa, a camisa grudando no corpo, tive que tirar. Impressão de que alguém batia na porta, impressão de vozes, mas o samba alto. Sombra, uma sombra que ia e vinha, ritmada, lembrei das sacanagens que ela me falou, o suor escorrendo pelo rosto, os cabelos molhados, tudo molhado, eu água-viva.
Terminado o serviço, levantei e fui em direção à porta da sala. Mal abri e quase um vizinho caiu. Ele reclamava de alguma coisa, esqueci do nome dele, só vi um pijama que reclamava, e havia outros, com ou sem pijamas ou camisolas, rostos sonolentos, alguém já estava de terno, tinha uma mulher com roupa de secretária, todo mundo parecia irritado. Não tinha me dado conta, mas já amanhecera. Não estava sol, tempo nublado, calor terrível. Bla-bla-bla-bla-bla, pessoas reclamando, pessoas reclamam de tudo, não é verdade?
Eu parecia um homem que esteve perdido num matagal por dias. Barba por fazer, suando em bicas, a bermuda esfarrapada que uso pra dormir. É o que devem ter pensado. É o que um espelho me diria. Eu não queria estar ali, queria estar fora, em outro estado, em outro país. Logo, o mato era ali. Eu estava é num matagal, perdido, realmente perdido. Dentes trincados. No entanto, não era uma expressão de ódio: eu sorria na verdade. Não tinha mais dor de cabeça, mas naquele momento meu pescoço me incomodava um pouco…
Numa das minhas mãos eu tinha um martelo; na outra, o taco, o taco que arranquei. O taco viscoso, o taco que prendia o chinelo, que o atraía como um ímã. Andei na direção da lixeira. Abri a tampa. Ergui o braço, segurando o taco viscoso com o polegar e o indicador, como quem segura um rato morto pelo rabo. Joguei e o taco sumiu na escuridão do plástico preto que forrava a lixeira. Nem fez barulho ao cair lá dentro. Fechei a tampa. Fiquei parado diante da lixeira por alguns instantes. As pessoas, as pessoas olhando de longe.