Entregas

24 12 2007

Deixe-me ver se consigo explicar: não há apenas um homem que seja a figura a quem chamam de Papai Noel, mas vários. Sim, somos muitos, então o correto seria dizer Papais Noéis. Você certamente diria “Ah, perde-se a graça. E o encanto? A magia?”. Compreendo seu ponto de vista. É bem mais interessante pensar que apenas um homem distribui presentes para todas as crianças do mundo numa mesma noite. E pensar também que esse homem sai lá do Pólo Norte e que dirige um trenó puxado por renas, e que tudo isso- o trenó, as renas, o próprio senhor do Pólo Norte e todos os presentes- voa. Algo mais? Ah, sim, que esse homem conhecido como Papai Noel tem uma fábrica onde confecciona os presentes sob encomenda- as crianças de todo o planeta mandam suas cartinhas dizendo ao velho o que desejam ganhar; com o advento da espacialização, é bem possível que crianças de outros planetas também enviem suas missivas natalinas, no caso de não existir Papai Noel no mundo de origem delas. Nessa fábrica, trabalham anões, eles ajudam Papai Noel com as cartas, com a fabricação e com a entrega dos presentes. Divisão do trabalho.

Primeiro você franziu a testa- sempre faz isso quando fica zangada-, e depois riu. Mas o que posso fazer? Mentir? Não dá! Agora você está pensando também que o que estou contando é uma mentira, uma estória maluca, uma fantasia. Não é, é a mais pura verdade. Sei que muitas estórias são contadas antes de encontros e também durante encontros. E depois. Não é o caso, realmente não. Sei o que estou falando porque faço parte do processo.

Como funciona? Bem, é curioso… Como eu te disse, somos muitos, portanto esqueça realmente a idéia do bom velhinho polar e solitário que voa com suas renas e que é auxiliado por anões. Há anões entre nós, mas nem todos são anões, como reza a lenda, percebe? Digamos que é um tipo de empresa ou corporação. Hã… somos recrutados. Fazemos provas. No caso de aprovação, passamos por outra bateria de testes, inclusive exames de saúde física e mental. Não pode haver malucos nem irresponsáveis entre nós, porque, por exemplo, digamos que uma criança peça um urso de pelúcia, a carta é aberta por um delirante que resolve entregar um filhote de urso… Pense na confusão, no filhote de urso balançando a árvore de Natal, puxando com suas garras a toalha da mesa para devorar os restos da ceia, pessoas correndo de pijamas! E se a família morar num prédio? Pense no filhote de urso correndo pelos corredores; pessoas pegando o elevador e se deparando com o filhote de urso lá dentro.

Depois vem o treinamento- que não é nada fácil, eu diria que é quase… espartano. O treinamento leva meses, até que estejamos prontos. Aí é que começa a parte engraçada e bizarra do processo. Sim, você tem razão, refiro-me à entrega dos presentes. Mais uma bebida? Também vou querer.

Muito bem, os presentes são entregues para todas as crianças do mundo e no mesmo dia. Essa parte da estória é verdadeira. Como fazemos isso, sem que as famílias e as crianças percebam? Nós agimos sob disfarce. Sim, disfarçados, todo tipo de disfarce. Policiais, bombeiros, entregadores de pizza, bailarinas, garis, mergulhadores, astronautas, apicultores, médicos, esportistas, pedintes etc. Atuamos como agentes secretos.

Cada um usa um disfarce que facilite a entrada na residência de quem vai receber o presente. Nos disfarçamos de objetos, de animais e de plantas também. Eu já me disfarcei de pilastra, de telha, de palmeira, de cachorro, de rato de laboratório, de bola de bilhar, de mesa, de caixa de charutos, de tablóide. Essas fantasias são complicadas, não são como aquelas comuns- para carnaval, festas à fantasia, dia das bruxas e fantasias de cunho romântico-sexual- vendidas em lojas. São perfeitas, podem confundir qualquer um. São feitas sob medida e com uma tecnologia avançadíssima, só não me pergunte como é, não posso falar muito a respeito. Primeiro porque me é proibido, segundo porque não entendo bem, não sou cientista. Temos que parecer pessoas comuns. Ou animais comuns. Ou objetos comuns. No dia em que me disfarcei de pilastra, um zelador começou a me pintar. Como sou alérgico à tinta, espirrei- foi uma falha minha- e ele correu, achando que era uma alucinação ou que o lugar estava assombrado. Acidentes acontecem… Noutra ocasião, me disfarcei de quadro e fiquei dois dias pendurados na parede. Sempre que recebo a missão e percebo que serei humano ou animal, sinto um alívio enorme. Se bem que foi chato ser um pintassilgo… Temos que agir com a maior naturalidade possível mesmo quando somos obrigados a executar malabarismos ridículos, tudo em nome do cumprimento de nosso objetivo.

Só lamento porque não vemos os resultados do nosso trabalho. Só dá tempo de imaginar, porque são várias entregas ao longo da noite. Então os deslocamentos, as trocas de disfarces, como te contei, agora você sabe. Gosto de fazer isso, gosto mesmo, meu Natal tem sido mais feliz desde que entrei pro ramo.


Ações

Informações

Deixe um comentário

Você pode usar estas tags : <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>