Fortuna
18 01 2008e folhas, muitas folhas, e o facão de bainha enferrujada que as decepa. Troncos, galhos, cipós, ninho de pássaro que já voou para longe daqui. E a chuva que não pára de cair, acentuando o cheiro do mato sem fim, dessa terra que só tem plantas e barro e distâncias, hoje quatro índios escorregaram ladeira abaixo, parecia uma prancha de navio feita de barro, engolidos pela folhas, eles engolidos pelas folhas, sorte que não têm alma, um dos missionários ainda rezou. Não podemos ver muita coisa pela frente na trilha que abrimos- em nome D’el Rey-, há uma nuvem densa que cobre tudo o que está pela frente como uma cortina, tinha uma cortina que cobria a cama de uma dama com quem estive, para espantar os mosquitos e as assombrações que vagam pela escuridão da noite- eu já vi, vi uma mulher coberta por um véu negro, ela segurava uma vela- , quando escapei do quarto, corri pelo escuro, não pude usar uma vela, e a cidade, tive que fugir, vivo fugindo, moça filha de donatário, homem que buliu com ela foi enforcado, isso eu também vi, o corpo balançando, a mulher que dizem ser bruxa espiando por trás das moitas à espera da mandrágora, bruxa velha, velha louca, faz o coração dela ser meu, se o coração dela que está no vilarejo for meu juro que, ó mulher de Satã, reza sua ladainha e dança na lua cheia, traz o coração dela para perto do meu, espinha de peixe, couro de cobra-coral, risca a terra com gravetos, ó mulher (Buena Dicha, Buena Dicha)… Mas o diabo me tenta, morte não me assusta, já vi tanta gente morrer, tanta gente morta, já mandei pro inferno tanta gente, eis o que me tornei, fugitivo, assassino, aventureiro, caçador. Para fugir já fui padre, índio, mulher de taverna, soldado e morto; já cruzei a baía atrás de baleias. Agora aqui, abro trilhas, o cheiro do mar já se perdeu, já é distante, os rastros no areal lá atrás, a pele coça, os mosquitos, um barulho de onça. A pele molhada, coberta de barro, rosto encardido.
E passamos por um homem morto, um esqueleto cheio de formigas, talvez um pirata, o crânio ri sua alegria putrefata enquanto os outros piratas se foram, quiçá para o barco, quiçá para o inferno, as ervas crescem como cabeleira e as formigas entram e saem pelas cavidades dos olhos, em fileiras, como nós avançando mato adentro. O crânio ri porque morto. Descansa no inferno da selva enquanto a alma repousa na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tem flechas no esqueleto, os outros índios, foram eles; são agressivos, já atacaram outro grupo que tentou avançar, ninguém consegue vê-los, são rápidos, muitos dizem que são diabos do mato, os missionários não gostam dessas crenças, o diabo que os carregue, nada vêem de dentro das missões, dos panos pretos dos confessionários, das liteiras, creio no que quero, já vi muita coisa nesse mundo; os mosquetes, machados e facões caem no chão e vão sendo cobertos pelas ervas, pelas raízes, apodrecendo com a chuva sem fim, tudo apodrece e viceja ao mesmo tempo nesse desgraçado deserto verde.
A caminhada já dura muitos dias, até porque não sabemos o nosso destino: ainda estamos a traçá-lo. Só Deus sabe se vamos chegar a um algum lugar. Talvez por isso eu me sinta perdido e triste. O calor é muito forte e sinto-me enjoado. A sede por água me paralisa como veneno, enquanto que a sede pela fortuna me empurra. As pedras, caso as ache, vendo-as. Guardo alguma para ti, para que tu faças um ornamento, uma jóia. Fugimos do vilarejo. Sei que queres ir, mas não podes por ora. Estás presa numa trilha, estou noutra. Sairei daqui e vou te buscar, casaremos, rabeca e vinho; uma cabana com um poço, galinhas e horta.
E comemos, porque tivemos sorte, porque os índios capturaram uma capivara, e havia a fogueira que estalava com as faíscas subindo para o céu que mal podíamos ver, só um pedaço negro de céu, uma mancha de pólvora, e as estórias dos índios, dos Boitatás e Mapinguaris, as fuças do missionário torcidas, estórias de guerras entre as tribos, e havia ainda a aguardente que tirou a dor dos cortes nos meus ombros, que me fez ver não o verde do mato que nos enredava, mas o verde dos olhos dela, moça bonita que ficou lá longe no vilarejo, quando abaixei a aba do meu chapéu, quando eu fechei meus olhos e acho que dormi
contigo, tua pele morena e teu cheiro de flor, a cruz de madeira balançando, batendo no teu colo, acima dos teus seios, tua pele morena molhada e quente, tuas coxas brilhando à luz do candeeiro
porque clareou muito rápido então devia ser sonho e alguns índios corriam assustados, falando aquela língua deles, correndo em círculos, gritando, batendo nas árvores, agitando os braços como gaivotas cercando os peixes, quem sabe abelhas, a onça, não, uma figura gigante aparece, uma mulher muito alta, vestida com vestido branco rendado, branco que quase não mais se via por causa do barro, cabelos louros encardidos pelo tempo passado no mato, marcas de lágrimas como sulcos de riacho na face igualmente enegrecida, segurava algo nas mãos, tentava correr, tentava falar, não era só barro no vestido, sangue, sangre
Trilla… La Trilla…
E o rosto encardido, máscara de pavor marcada por dois sulcos de lágrimas caiu como um pano revelando uma outra máscara, máscara de morte, rosto descarnado, os cabelos louros e encardidos no chão como uma peruca, atrás dela, atrás dela, dela que ainda gritava com aquele rosto que não era mais rosto
“Trilla, Trilla”
os outros, os outros índios, eram muitos, corpos cobertos de peles de animais e de pêlos, olhos brilhantes e injetados de sangue, sangre, o som de bordunas e flechas, peguei o facão e comecei a cortá-los como vinha fazendo com o mato, a chuva caindo agora mais forte, não era possível vê-los bem, as peles e os pêlos, a chuva açoitando meu rosto, o sangue, sangre que espirrava, os gritos deles ferindo meus ouvidos e me cegando, são muitos, há mais deles do que as gotas de chuva, do que as malditas folhas, estou preso nessa trilha e tu estás noutra, mas sairei daqui e vou te buscar, apesar dos gritos e dos uivos deles ferindo meus ouvidos e cegando meus olhos, o cheiro de carne, de terra molhada, sufocantes, o mato se movendo e caindo sobre nós como uma rede, como um abraço verde.
Ao iniciar o texto, disse a mim mesma: o que deu em Driekie? A coisa está aventureira, mas um tanto realista pra ser dele, rs… Mas o final trouxe a mim o bom e velho espírito. Muito bom!
Saudade do seu inusitado, do seu inesperado, do seu fantástico, do seu non sense! Saudade, liebling, é tudo o que eu posso dizer do tempo em que fazíamos mais textos! =*