Muito bem,
19 03 2008chove lá fora, há alguma novidade nisso, já que passamos por semanas de deserto, um calor irreal, com direito a tudo o que não pedimos porque não estamos numa praia ou numa piscina, mas no centro da cidade, e um pássaro resolveu esconder-se dos pingos- não é como o chuveiro para nós-, está há horas ali, aguardando uma estiagem. Abro a janela, ofereço-lhe um café que eu acabara de fazer, não sei se pássaros apreciam café, não faço idéia. Cigarro nem ofereço, suponho que pássaros não apreciam tabaco, no que fazem muito bem, lá- no céu- já há tanta nuvem, tanta fumaça, tanto gás, para que mais? Vejamos a mancha tipográfica (mas não é um livro!):
-Olá, pássaro!
-Olá!
-Não pára de chover desde cedo, hein? (questão: as pessoas dialogam dessa forma?)
- Sim, e isso atrapalha meu trabalho. Ia construir um ninho hoje, os filhotes, e veio esse tempo, minha mulher, já ouço as reclamações, serão muitas (serão? Não seria… um prognóstico… pretensioso?) , certamente,… E você, o que faz no seu ninho? (pássaros não falam!)
- Acabei de fazer esse café… Quer um pouco?
“O Havaí, conforme certa lenda, emergiu do mar quando uma divindade desceu e pôs um ovo” (1)
- Não é má idéia- E ele pousou na borda do copo e deu literalmente uma bicada no café (isso foi ridículo; entretanto, foi o que se deu, assim são as coisas).
- Forte e amargo… Quase não se sente o açúcar. Os apreciadores pensam que o verdadeiro café não deve ser adoçado.
- Eu não uso açúcar, uso adoçante, algumas gotas apenas…
- Você acredita em adoçantes?
- Bem, até agora, sim.
- Dizem que não funciona.
- Até agora não tive problemas com isso.
- Dizem que é cancerígeno.
- Você é da medicina?- Irritação, admito, foi uma semana cansativa.
- Não, apenas um pássaro interessado em artigos científicos…
- A ciência erra, meu amigo de asas… Pode crer!
- Virou uma religião laica…
- Tenho uma natureza mística, mas não sigo religiões.
- Mas acredita em alguma coisa?
- Em muitas coisas.
- Você, o que faz?
- Escrevo contos.
- Um sonhador.
- Sim. E isso é complicado.
Wish that I were a yellow bird/ I’d fly away with you/ But I am not a yellow bird/ So here I sit/ Nothing else to do. (2)
- Eu vôo. Isso também é complicado. Mas o céu é grande.
- Parece haver bastante espaço.
- E há. Há que se voar!
–Breve pausa—
É também por isso que gosto desse sujeito, o Sr. Pássaro. Muitos podem discordar. Corremos o sério risco de nos tornarmos ruínas. Não podemos mais nos dar ao luxo de deixar como legado pinturas rupestres- se é que foi apenas isso. Temos muito mais a dizer, com cores muito vivas, ainda que a linguagem empobreça e cubra de fuligem o sentimento, um gaguejar da cristalina leitura do músculo cardíaco, mutismo infame. E também basta de se dar ao luxo de se evadir da felicidade por conta da porra do medo do novo- fosse assim, o antropóide lá atrás não teria descido dos galhos, e os pilotos das naus teriam borrado as calças no segundo grito do conquistador que findou seus dias na ilha de Elba, e Fleming, jogado fora o bolor da nova medicina. Porque os futuros historiadores não acreditarão em nós. Essa é a parte trágica. Ou talvez a cômica, vá saber…
Passados dez minutos, era igualmente um pássaro. Porque tudo é possível numa sexta-feira. Neve de consistência elástica, por exemplo, ou uma moldura que toma a forma que bem entende. Beber uma cerveja com Augusto dos Anjos e comentar capítulos de novela enquanto se mastiga um bolinho perfurado por um palito. Inflação inexistente e progresso e evolução. Sapos que solfejam melodias de trip-hop. Desejar duas mulheres- amar uma nas primeiras doze horas, amar a outra nas doze horas seguintes, e revezar, para não haver ciúmes, uma delas poderá ser a mãe de seu (s) filho(s), ou ambas (case-se duas vezes) ou uma terceira hipótese cuja órbita se encontra num universo paralelo, daí que tudo sai ao contrário para o desespero do astrólogo do jornal impresso (jogar fora os jornais velhos), igualmente do astrofísico. Transformação do sono em especulação, para leitura de diversos romances, cartões de visita e até mesmo de faturas de contas que já foram pagas. Ser vitimado por uma insólita paralisia no polegar que faça com que o sinal de “legal” se torne permanente, ainda que as coisas não estejam tão “legais” (teria grande êxito em Roma, outra época, obviamente, para outros fins). Que alguma coisa tenha razão: a Química, a Biologia, a Psicologia, a Bruxaria, a Experiência de vida ou, no limite, o Caos, de modo que se possa dormir realmente em paz (não em pax, com o coração plácido, com o coração leve, como numa manhã de Domingo, cosmogonia egípcia, felicidade e gozo- que é todo o corpo, Lacan-, damas- não o jogo, refiro-me às damas, coxas lisas e brilhantes, leve penugem loura, e seios, e bunda- primeiro). Compreender as pipocas sob um ponto de vista Estruturalista às duas da manhã (vê-las como pão, na ausência do, no time for the supermarket, honey, a cozinha é um lócus surrealista quando se quebra a rotina de ir ao mercado) e, quem sabe, jogar cartas com o Curupira, caso haja tempo para tal.
(1) Os Pássaros. In: Homem, Mito & Magia. São Paulo: Editora Três, 1974.
(2) Yellow Bird, The Brothers Four.