Milton
22 03 2008No início, Milton era um hamster comum. Parece demasiado idiota dizer isso, um hamster comum… O que seria um hamster incomum? Um hamster que se comporta como um camarão ou, quem sabe, um roedor que joga xadrez e ouve tango com uma rosa vermelha entre os dentes enquanto lê Borges? Aquilo no que ele se transformou, aquilo que ele é. Não me sinto bem ao dizer “aquilo”, gosto dele da mesma forma, isso não mudou desde o dia em que o trouxe da loja de animais, só que as coisas ficaram muito complicadas, as coisas tomaram um rumo que jamais imaginei, e isso é assustador, demais, meu chapa, principalmente quando tento racionalizar a questão, quando tento ser objetivo, realista, e chego à conclusão de que não há uma resposta convincente ou ao menos confortante, por mais que eu as tenha buscado em livros especializados, em conversas com veterinários e biólogos, em documentários… Apesar do ceticismo que me é característico, cheguei a buscar uma solução no terreno paranormal, mas o que encontrei foi tão estapafúrdio que só me rendeu risos. Ao menos eu ri, foi positivo naquele momento de angústia e de cansaço e de depressão do sistema nervoso semTraum.
Não foi o primeiro, houve outros ao longo da infância, hamsters têm um ciclo de vida curto, máximo de dois anos, o que é uma pena, adoro esses animais e a despedida é sempre dura, os enterros em canteiros abarrotados de plantas ornamentais realizados pelo porteiro e o rito fúnebre de levar-lhes nanoflores, o consolo do veterinário que fazia longas explanações sobre as Cruzadas e das pomadas para curar doenças de pele dos pobres bichos. Trouxe Milton para casa em Dezembro, antes do Papai Noel e do banquete do Reveião. Tudo ia bem, rotina de um hamster, ração, água, corrida na roda da gaiola, escaladas acrobáticas nas grades, atividade noturna, hibernação, troca do jornal que forra o fundo da gaiola e absorve o cocô e o xixi etc. No entanto, cerca de duas semanas depois, notei que Milton havia crescido um pouco demais para um hamster, eis a palavra de novo, comum, tanto que fui obrigado a providenciar uma gaiola bem maior. Passado um mês, Milton tinha o tamanho de um gato castrado que espalha a rama pelo chão- acarpetado. Com um mês e meio, já parecia um Dodô, aquele antepassado da galinha. E não havia mais lugar onde ele pudesse ficar que não fosse o quarto dos fundos. Pouco tempo depois, o quintal inteiro.
Pensei: se ponho este bicho a girar numa roda-gigante, cá tenho uma hidrelétrica ecologicamente correta e, puta que me pariu, estou rico, a fumar charutos acendidos com notas de euro, e o gerente do banco, bajulador, com um sorriso do tamanho de Júpiter, e a entulhar o estômago de porções anoréxicas de restaurantes luxuosos e a satisfazer aos caprichos de alpinistas sociais vestidas com casacos de pele, botas de prada e nuas por debaixo desse luxo todo no táxi de aeroporto a me chamar de “docinho” entre um beijo e outro de batom rosado e goles borbulhantes de champagne, bolinando as cuecas de seda a despertar meu pênis, reinações de Jacques Cousteau abaixo do espelho d’água da Jacuzzi. Mas ao invés disso, o dia seguinte, os montes de merda do tamanho de formigueiros da savana de um documentário da National Geographic, o carteiro esmurrando a porta, o telefone que toca com a noiva berrando, histérica pela perda do jantar com os sogros, eu com sono e barba por fazer e guimba de cigarro mata-rato no canto da boca, a louça acumulada na pia, o esfregão ficando velho, as ervas tomando conta do chão do quintal, e as dívidas, e dúvidas, e Milton tentando roer o sofá de três lugares. Quis ser arqueólogo um dia, mas não ter um dinossauro em casa, apesar de que, Milton, meu querido bicho de estimação, Milton, meu amigo hirsuto, Milton amigão.
Três meses depois Milton ocupava já a sala inteira, e eu obrigado a dormir debaixo dele, como um Neanderthal ao abrigo duma caverna, espirrando por causa dos pêlos, rinite alérgica. Não podia mais a essa altura receber visitas, tornara-me um anacoreta, um desgarrado de Lord of Flies, uma personagem de Lost, um Crusoé de quinta categoria. E Milton crescia, crescia, crescia, sem parar, aluguei a casa ao lado, dos vizinhos que fugiram aterrados na crença de que aquilo era um prodígio do príncipe das trevas, um sinal apocalíptico ou qualquer coisa desse top.
Foi-se o quarto mês e Milton seguia na sua hipertrofia de mioma e eu, desesperado, segurando o terço bizantino do benzodiazepínico e da masturbação mental existencialista, e cogitando: onde isto vai parar?, porque não há mais espaço, Milton, cesse a expansão, pelo amor de Deus, e minha mãe a dizer “Não morde Deus, que é pecado”, a noiva dando meia-volta no compasso de seus tamancos pretos, quatro por quatro, blues, meu brother, não posso lidar com um problema desse quilate, com um bicho de estimação tão grande quanto Anita Ekberg, giganta, nórdica, humilhando o pobre rapaz, no filme do Felllini, e sigo a pensar, “Onde isto vai parar?”, porque testo meus limites a cada dia e isso fode com a paciência da gente, sem consentimento nem licença, logo, um estupro.
Você me liga e pergunta: “Como tá?”, ao que respondo, “Agora ele ocupa todo o condomínio… E roeu a roupa de toda uma linhagem real romana, jogando um balde de água antártica nos sonhos dos prosélitos da monarquia. Seria o ano do Rato no horóscopo chinês?, perguntou-me essa amiga, a que me ligou, provavelmente para desviar-me do assunto, tem habilidade para me acalmar, para me fazer dormir, a voz dela é um cafuné com mão quentinha, um embalo gostoso no colo num final preguiçoso de uma tarde de um verão com um sol de reflexo de lembrança que entra enviesado pelas frestas das portas entreabertas da varanda, leve cantar na prosa, um princípio de sonho, um sonho lindo, sonho que me abraça do outro lado do mundo, vou mandar a noiva às favas e casar-me com essa, essa sim sabe do homem que vos fala now, at the present, at the moment, ela sabe me tranqüilizar e me conduzir, e isso é o que vale nessa porra toda, enquanto Milton não pensa em nada disso, a não ser em crescer, cres-SER, e roer tudo, dada a sua natureza de portentoso hamster, mesmo enquanto hiberna, enquanto sonha, tudo rói, roi des animaux, seu sonho peludo numa bola de serragem e de jornal picotado, que pulsa e pulsa incessantemente. Mas Milton, meu amigo, meu bicho de estimação, estimo-te, ainda que sejas minha ruína e motivo de insônia, meu cagaço matutino diante do espelho em que me vejo de barba por fazer e com cara de dez anos que se passaram num estalar de dedos. Na ligação seguinte a notícia é a de que Milton, após violento espasmo provocado por um espirro, derrubou as quatro paredes, cataplum!, e correu pras montanhas, pra brincar com as torres de televisão, roê-las, enquanto o repórter do jornal local, como eu, de barba por fazer e com cara de dez anos que se passaram num estalar de dedos noticia o evento, “Ele ocupa toda a montanha, onde se viam rochas, vê-se hamster, tão somente hamster, vê-se Milton, gigante, Milton, meu amigo, meu bicho de estimação, em seu sonho de liberdade que pulsa numa esfera de pêlos e jornal picotado e serragem, e você a me dizer com sua voz doce de afago de mão quentinha, gostosa de impressionar os tímpanos, “Descansa, vai deitar, tenta dormir”, enquanto o município é arrastado inteiro, com seus prédios e as favelas e as ruas e as avenidas com nomes de homens de vulto e os carros e as passarelas e as pessoas nas padarias a engolir seus cafés fumegantes da manhã com pão francês pincelado de manteiga e olhe lá, dê-se por satisfeito, e a cuspir suas preocupações e cagaços junto com a pasta de dentes direto no ralo da pia ou na louça da latrina, tudo isso arrastado pras bolsas onde ele, Milton, guarda as sementes de girassol, só pra prevenir, o rato é prevenido, faz stock, não sabe na ignorância mística dele se é seu ano no horóscopo chinês.