Três Madrugadas
27 03 20081.
Não conseguia compreender o porquê da pressão de seus dedos não surtir nenhum efeito nos interruptores que não fosse manchá-los de impressões digitais, as lâmpadas não acendiam, simplesmente não acendiam, e o escuro com sua capa, com sua sombra que lambe os cômodos, pois então, os cômodos, em nenhum deles era possível acender a luz, o fiat lux, restavam as sombras e as lâmpadas que fingiam não ser com elas e uma angústia muito grande, uma vontade de fugir para um lugar que não sabia onde ficava, acabava fugindo para um outro cômodo onde o gesto se repetia, uma repetição mecânica e triste, os dedos no interruptor, o rosto úmido de lágrimas quase colado à parede como uma ventosa de tentáculo de polvo, como uma traça que se pendura numa cortina, o barulho das falanges dos dedos contra o plástico do espelho e não-luz, tão somente o hálito da luz exterior, azulada, distante, estranha como uma luminosidade de crepúsculo de outro planeta, alta, insuficiente para enxergar as coisas abaixo do lustre, para rasgar o lençol das sombras, Érebo aplaude a noite-que-jamais-acaba de Nix, as cores todas misturadas nas palmas de suas mãos desprendendo-se em poeira escura, e o sorriso obnóxio que obnubila.
o barulho, tinha também um barulho, de pilha de sabe-se-lá-o-quê caindo, um estrondo, um barulho maior do que o era de fato porque o sono e os susto são amplificadores potentes, e então pulou da cama de um modo ridículo, marionete, caminhonete (numa estrada ruim, num declive tortuoso), os músculos em alerta, naquele segmento BC de reta em que não se sabe, nunca se sabe ao certo o quanto há de real e de delírio, mas os músculos, retesados, figura de anatomia, vitrine de açougue, músculos em alerta, violão flamenco, madrugada, má drugada, depois,
durante todo o dia, quando já havia luz e sol e tudo era- aparentemente- simples, após as torradas e o copo de leite, os cigarros e jornal, ficou pensando a respeito, num mutismo de caracol, num silêncio de biblioteca que, por vezes, era apalpado por um resíduo de ruído exterior- sempre exterior. Foi um dia improdutivo, nada fez além de análises sintáticas de seu cotidiano. – Não posso ser nocauteado por um pesadelo ou por qualquer outra tolice deste gênero!- pensou. Mais para o fim do dia, um telefonema de um amigo, a conversa sobre gripes e maratonas de afazeres irritantes e planos para o fim de semana, coisas que distraem. Entretanto, — ler aqui uma tautologia tão conhecida, mas tão conhecida, que não me atrevo a escrevê-la — ,
2.
uma nova escuridão chegou, desta vez com gritos, talvez uma briga, embora só se lembre de ter visto a si mesmo, xingando, proferindo palavrões num descontrole e ritmos quase tourette, mas é claro que tinha mais gente naquela jogada ali, sim senhor, porque pôde entrever alguma coisa, silhuetas, silhuetas de turma-do-deixa-disso-rapaz, não vale a pena. Desta vez não houve eject patético do colchão, nem mesmo necessidade de tamborilar as falanges nos interruptores, a escuridão não incomodava, ela que ficasse por ali, à vontade, passeando e paciente numa espera pelo dia que viria logo em seguida, logo depois, essas coisas de dia e noite sempre vêm, sucessão (um sucesso grande, retumbante, hit)- e devem ser mesmo muito bem sucedidas, já que voltam ao palco ainda que não haja platéia nem aplausos nem pedidos de bis, mas voltam, teimosos que são, persistentes, tão insistentes que
3.
na terceira noite veio uma conversa, só isso, uma conversa e um comentário, algo que dizia respeito às eleições, diálogo rápido com uma pessoa que não via há bastante tempo, abre os olhos e localiza o ponto do dia de acordo com o que o rádio veicula, desta vez não houve interruptores nem lâmpadas caladas com seus crânios de humanóides de retratos-falados de livros de Ufologia e muxoxos de gente metida à besta, nem xingamentos, só isso, apenas isso, coisa banal, coisa sem graça de relatar, e não houve salto das cobertas, nem corrida para a sala para ligar o ventilador, abrir as frestas das janelas, acender a luz da cozinha, sapatear como naqueles musicais em busca dos chinelos, mijar e ouvir o barulho do jato de mijo furando a estagnação do espelho d’água do poço lá do fundo de louça do vaso sanitário, fumar um cigarro, fagocitar uma partícula de barra de chocolate, e depois, e depois, dormir. Veio o dia, ele sempre chega, engraçado, porque numa outra ocasião achou que não chegaria e teve medo, mas ele chega sim, junto com os tablóides do jornal, um tanto quanto amassados pela pressa da entrega e pela queda após o arremesso, zzzzziiiiIIIM!, e com o dia, coisas a fazer, tantas coisas a fazer que se esquece da treva à seguir.
Voltou com tudo! Muito bom, Driekie. Ultimamente ando meio cheia de coisas, meio de saco cheio da net também, mas sempre que posso dou uma passadinha por aqui. Küsse!