Não tomamos ainda aquela cerveja

12 04 2008

Não tomamos ainda aquela cerveja, fomos interrompidos por uma multidão que se juntou como aqueles bandos de curiosos mórbidos que formam um círculo diante de um cadáver estatelado no asfalto ou de um artista de rua fazendo malabarismos e coisas de faquir, uma multidão de camisas e de cores e de bolsas e de troncos e de braços e de vozes e de espirais de fumaça e de penteados que pareciam arbustos, um cardume de peixes que forma uma nuvem para encantar cnidários e fotógrafos submarinos que imitam seres aquáticos e, subitamente, fomos desviados um do outro como bolas de bilhar numa jogada, mas fixos naquela calçada que não tinha nada de verde, que não tinha caçapas- mas tinha bueiros!- de modo que se fizéssemos das árvores próximas tacos com os quais pudéssemos encaçapar aquele povo com a maestria de um Rui Chapéu, árvores são compridas e não precisaríamos de fanchones, seria ótimo, nós então diferentes das bolas de bilhar que ao menos rolam, cumprem um movimento, a cerveja interrompida apesar do calor, apesar do cansaço do fim da noite de um dia agitado, apesar da vontade de sorver aquele ouro líquido, espumante e gelado entre uma frase e outra, apesar da vontade de sorver as palavras ainda foscas, mas espumantes e em iminência de ebulição, ilhados diante daquela massa que estava ali por estar, nós não, naquele dia poderíamos ser um istmo daquela massa continental de gente.

Você, você parada no corredor à espera de sabe-se lá o quê, olhando para os vidros das portas das salas como quem olha um quadro numa galeria. Não havia mais ninguém lá além de você, apenas um banco de madeira, daqueles que ficam nas praças, e essa solidão não parecia afetar você, entretida que estava com alguma coisa inconcebível, levando-se em conta a precariedade e o vazio daquele cenário. Você com uma postura que eu classificaria de perfeita, talvez efeito dos saltos, que não eram tão altos, não sei de que tipo exato eram, não sou sapateiro nem estilista, mas é uma falha no meu currículo após tantos anos de observação. Pesquisar. Sei que eram pretos- palmilhas brancas-, porque entendo de cores, desenho um bocadinho sabe?, e combinavam com sua saia, igualmente preta, e me recordo bem de que você usava uma blusa branca. Içando os fatos da memória, vejo agora com mais clareza que você estava de braços cruzados. Seus gestos eram suaves e seus cabelos, dourados como a cerveja que não tomamos naquele dia das invasões bárbaras, estavam presos numa espécie de coque. Coque, deve ser isso, não entendo muito de penteados, apenas da sensação que certos penteados femininos me causam, como o rabo-de-cavalo, embora o hipismo me seja indiferente (curto aquela música do Saint-Säenz e acho divertida a rapidez do Ernani Pires Ferreira, é tudo). Palavra-chave: estática; cabelos eriçados, relacionar isso ao que foi dito anteriormente= metáfora. Um traje que lembrava o de uma secretária, e depois vim a saber, através das suas palavras espumantes, que você trabalhava como recepcionista de uma dessas firmas gigantescas multinacionais e capitalistas, num prédio muito alto, de muitos andares, cujos topos ou ficam invisíveis pelas cumulus nimbus de poluição do centro da cidade ou pelo nosso nanismo passageiro que se manifesta nos interiores dos coletivos, esses tubos horizontais de batatas chips que riscam o asfalto em sua luta contra a tangente. Daí a repetição (dia da marmota), a maldita e sacra- num sentido profano- repetição daquela combinação de vestuário, combinação que me persegue, meu Zahir, como dizia o Tio Borges. Como?, como você se deslocava até aquele corredor onde te vi pela segunda vez- posto (de gasolina) que a primeira vez em que te vi foi no dia dos visigodos- imaculada, impecável, como se tele- transportada tivesse sido? Depois soube que você andava a pé e que tomava o ônibus, e que era açoitada pelos raios UVB, como a maioria de nós, mortais da academia brasileira de lendas (urbanas). Como? Por isso mesmo, como.

Soube desses detalhes sobre seu trabalho, sobre como você se desloca pela nossa selva de concreto e de outros mais quando enfim tomamos aquela cerveja interrompida pela horda de ostrogodos, cerveja que, por ter sido interrompida, multiplicou-se num milagre pagão. E você falava mais coisas e eu observava seus lábios rosados e úmidos de lúpulo e eu também falava coisas sobre mim, o calor do dia se esvaindo e uma tontura boba tomando as rédeas dos nossos gestos, do nosso discurso, uma leve embriaguez. Sendo que ele trazia uma bolsa de loja, dessas de plástico, cujo conteúdo eu já sabia de antemão, porque tudo foi combinado, mas só vi o que estava dentro da sacola de plástico depois que entramos no quarto.

Anteriormente tentei fazer o mesmo com K, mas as roupas ficaram apertadas- notadamente a saia; ah, sim, os sapatos também eram de um número menor- e ela terminou o ato numa cachoeira de lágrimas. Não agüentou a troca da inicial do nome pela letra R- teria sido o começo do drama; a saia justa, a gota d’água. Procurei entender e entendi. Posteriormente. Tivesse eu entendido antes, não teria posto em prática. Tinha que fazê-lo, era uma compulsão, uma necessidade daquelas que rasga.

Foram meses de procura e de pesquisa. Parece simples, brother, mas não é, até porque não tenho tempo nem fundos suficientes para corroborar aquela hipótese do clone que deambula em algures, você com as faces sempre coradas sem traço algum de vergonha, pelo contrário, senhora de si, bem resolvida, natural. O rosa natural. Eis um traço importante, mas havia outros mais, válidos apenas se combinados formando um conjunto, o seu conjunto. É verdade que tal qual um Dr. Frankenstein (de gabinete) posso satisfazer-me com traços isolados que remetam a determinados gostos. Não, neste caso em particular. Talvez sim, porque num determinado dia consegui enxergar dois ou três de seus traços e, zás, estática. Hoje aconteceu algo similar, em dois momentos diferentes do dia, mas não relacionados a você. Esse é um jogo sem fim, porque quando tomarmos aquela cerveja será apenas o início.

Então eu tirei as roupas que estava usando- ele me observava-atentamente- e comecei a andar em direção ao banheiro, para tomar uma ducha, quando senti sua mão em meu braço: “Não”. Segurou meu braço de um jeito que não era nem forte nem fraco, não sei explicar, mas me conteve. Fiquei ali, a meio caminho entre o quarto e o banheiro, de sutiã, calcinha e sapatos, não me recordo das cores do sutiã e da calcinha, aliás as cores não faziam parte do pedido, tanto faziam. Perguntei se podia ligar o rádio, ele fez que sim. Liguei, deixei num volume baixo, música ambiente (que de modo sorrateiro preenche o ambiente todo).

Eu quero sentir o calor da sua pele, a sua organização de cheiros, não o fantasma de cloro da água encanada e do sabonete (sabonetes de hotel têm um cheiro de nada que ainda assim é um cheiro, paradoxal), você molhada como quem sai de uma piscina, o que não deixa de ser bom, mas não, não aqui. Vista as roupas que estão na sacola, para que eu possa contemplá-las por um instante, tocar nos tecidos, para que depois eu as retire e possa sentir os cheiros seus que nelas ficaram, em cada peça. E o calor da sua pele, as marcas dos botões e elásticos e fechos e tiras. Tire os sapatos e deixe pegadas no carpete e nos lençóis da cama. Prenda os cabelos, para que depois, instantes depois, ondulem, ondas que refletem aquele sol artificial enforcado lá em cima. Ponha os óculos de aros redondos, para que depois, instantes depois, seus olhos fiquem míopes de uma miopia que não há.

Vesti a saia preta e a blusa branca. Troquei os sapatos que eu estava usando pelos que ele trouxe. Daí fui pra frente do espelho e prendi os cabelos. Enquanto ajeitava o penteado, via o reflexo dele, ele atrás de mim, de pé, observando-atentamente cada movimento. “Perfeito”, ele disse, antes mesmo de eu terminar. E eu pensei: “Esquisito, ficou mesmo bom, apesar de eu não saber quem eu imitava…”. Logo depois, coloquei o par de óculos de aros redondos. Acho que estava pronta.

Pena que não haja corredor nem portas com janelas de vidro nem o banco de praça solitário e chumbado ao chão para que nenhum maluco pudesse pousá-lo no parapeito da varanda. Não, não tenha pressa, porque não tenho pressa, as pesquisas hão de prosseguir, visto que você não é você, visto que não tomamos ainda aquela cerveja.


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