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3 05 2008Uma carta interrompida. O corte entre o ato de pensar e o de digitar. Pois bem, a sensação de deus que põe e dispõe de destinos. Alguém relatou- permanecendo mais um pouco no âmbito religioso, no assunto da divindade- que recebeu reclamações porque escrevia a palavra deus com a inicial minúscula. Alguém me relatou pessoalmente falando sobre si mesmo, contou a mim- relatando a estória de outrem- ou eu li a respeito- talvez o desabafo de um escritor-? Aaron Knoll Annie More. Mas a questão aqui é outra. Voltemos. Conforto? Não, senhor. Incerteza. Desperdiçara um momento, talvez. Desperdiçara um momento em prol de se expressar com a voz, tentando dizer aquilo tudo que ela- a voz- não consegue; selecionando assuntos, modo de deixá-lo em pauta, de mantê-lo pertinente. Não ser repetitivo, não ser um videoclipe de sensações.
O barulho na cozinha não fazia sentido algum. Estava só, não deixara nada mal posicionado, ao menos que se lembrasse- costumava dar atenção extra a isso, pois era naturalmente desastrado. Um rato procurando migalhas era uma hipótese. Um gato, atrás do rato, ou igualmente procurando migalhas, um gato de alimentação frugal, em regime espartano. Um híbrido de gato e rato- um grato, muito grato pela sua leitura. Um espectro. Tremores de terra, questões intestinas e recônditas e subterrâneas entre placas, onde o fogo parece um milk shake de luz- já estão entre nós, aquela piada começa a perder o sentido e a coisa começa a ficar nada engraçada ou ainda mais engraçada, porque tragicômica. “Vamos embora desse cinema, gata, porque estamos na primeira fileira e as cidades litorâneas serão atingidas em primeiro lugar!”- teria dito um rapaz um pouco nervoso. Penso no Van der Graaf e na capa do The Least We Can Do is Wave to Each Other, numa entrevista do Dusek de vinte anos atrás, num antigo projeto de transformar portas que separam cômodos em jangadas ou de uma permanência confortável- tanto quanto possível- no telhado; em outras coisas mais. Falávamos do barulho, não é? Sim. Vamos embora ver isso:
Talheres, ao que parecia, era um som de talheres. Afonso mete o dedo no interruptor e acende a luz. Para seu espanto e, por que não dizer, horror, torna-se testemunha de um duelo, um duelo entre um garfo e uma faca. Com o intuito de melhor ouvir ou de ouvir com uma maior fidelidade os barulhos talheirísticos, começou a colar chumaços de palha de aço nas orelhas: metal para ouvir metal- com isso a sintonia do canal 6 melhorou em seu olho esquerdo. Lembra-se do simbolismo da bandeira branca, não há bandeiras por perto, mas é claro, o tempo dos quartéis já passou, e ainda estava distante o das festas juninas, tenta pegar um guardanapo. Ao esticar a mão, num gesto que causaria inveja em qualquer atleta que precisasse de um rápido dispor de mãos caso o houvesse, apalpou o ar, porque o acendedor do fogão cuspiu fagulhas, fagulhas que, por sua vez, ao entrarem em contato com a superfície macia do papel, criaram chaminhas. Chamo de chaminhas para tornar o elemento fogo mais simpático, para estender a simpatia que lhe é natural apenas, penso eu, aos piromaníacos. “Amor é um fogo que arde sem se ver;”, dizia o WithHands. Foi com grande satisfação que o acendedor viu o guardanapo se transformar em cinzas, enquanto as chaminhas saíam em fila indiana, com suas barrigas cheias, mastigando canções de antigos musicais. Tudo isso com o intuito de não haver intervenção na luta. Na luta entre a faca e o garfo.
As frutas, no cesto, contentíssimas. Vibravam. Os pratos conservavam sua fleuma. Os armários embutidos pareciam máscaras de teatro grego. Armários são pacifistas. Um palito existencialista conversava em voz alta com um ralador de queijo niilista. Pareciam ignorar o duelo. Bacana foi o que aconteceu com a formiga, que mascou um grão de açúcar mascavo cheio de fungo e inflou tornando-se um silencioso estalar de mandíbulas de caracol. Logo em seguida, ela se transformou num saxofone de gás metífico, reproduzindo- hermafrodita- melodias escritas com lenços de veludo em superfície rugosa, melodias audíveis somente para pessoas que saem de uma agência bancária ao meio-dia em ponto no extremo oeste da Nova Zelândia- desde que estejam vestindo uma bermuda xadrez, com cores que não combinam entre si, como laranja e laranja.
a) o duelo entre garfo e faca: possíveis razões
a.1) o diálogo:
- Eu corto, você fura!- disse a faca, com convicção.
- Eu furo, você corta! – disse o garfo, com indignação.
- Eu posso rasgar!- berrou a faca.
- Eu também!- berrou igualmente o garfo.
-Eu também”- levantou a voz uma tesoura.
Entretanto, a tesoura não figurava no duelo. Com isso quero dizer que não havia indicação de sua presença- a dela. Sua intervenção- a dela- foi considerada inconveniente e, por isso mesmo, um grupo de colheres-ninjas desceu por cordas invisíveis feitas de baba-de-quiabo e despejou um pequeno vidro de vapor de água do tamanho de um edifício-garagem na pobre. Ela enferrujou em exatos doze segundos e meio. Ficou semelhante a uma múmia de pterodáctilo. Pobre tesoura. Tesoura morta, tesoura posta (de peixe).
b) explicação sociológica para o rancor inter-talheral:
Faca e garfo não se cruzam- antes das refeições.
c) o show deve continuar:
A briga durou a noite toda. Parecia interminável e aquela cena cansou Afonso que estava cansado desde o outro dia em que esteve cansado, igualmente na véspera desse mesmo dia. Pensou em escrever. Podia esperar mais algumas horas. Sim, seria melhor. O deus senhor-dos-destinos de novo. A merdra era que… Afonso não sabia. Os dedos coçavam, queriam deegitar.
Afonso levanta-se. Apagam-se as luzes do palco. O canhão de luz é projetado em Afonso, que está no canto esquerdo do palco que simula uma cozinha. Não há nada que indique a existência de uma cozinha ali, a não ser uma menina vestida de rã que passa correndo pelo palco segurando uma placa onde se lê “cozinha”. A menina cruza o palco da esquerda para a direita. No sentido oposto, vem correndo um menino fantasiado de ovo estrelado que diz “Eu sei, eu sei que é uma cozinha!”, em holandês. A frase deve ser dita num número ímpar, numa quantidade relevante de vezes, para causar irritação na platéia. A tradução para o português é simultânea, e feita por um homem coberto de pêlos cenográficos, sentado na primeira fileira. Afonso finge abrir uma lata de cerveja. Bebe a cerveja e diz em voz alta “Sem rima e sem razão, já dizia meu primo, um corrimão”. Aproxima-se da borda do palco. Senta-se. Simula a digitação de algo. A digitação da carta, Afonso vai digitar a carta. Um pedaço de bolo rodopia. O som da digitação deve ser simulado pelo cara da bilheteria e, para isso, é mister que ele esteja resfriado. Se resfriado não estiver, que lhe provoquem o resfriado, com portas de geladeira, com estimulantes à alergia, com penas de peteca, com um exército de ácaros, com discursos políticos, enfim, virem-se, porque Afonso já começou a digitar a carta.
Afonso digita, digita, digita, digita, digita, deegita, as palavras iniciais, as palavras iniciais, sempre elas, as palavras iniciais, então a carta, a carta as acata. Porque merdamente estou com insônia e você não me sai da cabeça, não me sai do pensamento, sua imagem, quase invertida, sua imagem , tão linda, logo, sua imagem, Afonso precisa digitar. É preciso dizer que garfo e faca desistiram de lutar e juntaram-se para comer uma pizza.