As águas de Almon

12 10 2008

Achei que fosse parte do sonho que eu estava tendo, aquela campainha tocando, insistente, um som desagradável, incômodo mesmo, que feria meus ouvidos, o som, distante, que foi aumentando, num fade in alucinante. Quando você desperta, tudo parece mais intenso, uma mosca voando é como um helicóptero. Ainda tonto e com muita pena de ter que abandonar as cobertas, era a madrugada mais fria do ano segundo os boletins meteorológicos, e eles tinham toda a razão, levantei-me e fui até a porta, Isa não se mexeu, invejo o sono pesado dela, e lá fui eu, escorando-me pelas paredes, como um bêbado, atender a porta, quem diabos poderia ser àquela hora que eu nem sabia qual era, ao levantar, olhei para o relógio por instinto, mas sem as minhas lentes ele me pareceu um borrão, nada mais que isso.

Abro a porta e me deparo com um senhor engraçado, baixinho, atarracado, de membros curtos, de pijama listrado, com um bigode de ditador, uma piteira com cigarro apagado pendurada no canto da boca, e com uma cara muito séria, zangado, eu diria, zangado não, impaciente, eu tentava fixar suas feições, meus olhos embaçados, era familiar, sim, o vizinho do andar de baixo, tinha visto aquele homem recentemente, numa daquelas aborrecidas reuniões de condomínio, creio eu.

Creio também que eu tenha conseguido dizer “Pois não?”, se é que não fazia parte do sonho, quem sabe eu tenha adormecido novamente antes de chegar até a porta, eu andava tão cansado naqueles dias… Havíamos nos mudado recentemente, ainda com as obras do apartamento por terminar, não houve como esperar a conclusão. Eu fui designado para um novo local de trabalho, fui escolhido para gerenciar uma nova sede da firma. Local novo, equipe nova, problemas novos. As coisas por lá estavam fora dos eixos e cabia a mim a responsabilidade de pôr tudo em ordem, “para ontem”, como sempre diz meu supervisor. Isa estava grávida, faltava menos de um mês para o bebê nascer- era uma menina. Meu pai estava adoentado, ele sempre foi muito dependente das pessoas, ficou ainda mais depois que minha mãe morreu, então eu tinha que ficar de olho, caso contrário ele não se cuidava direito, não tomava os remédios, alimentava-se mal… Nosso cachorro também estava doente, velhice. A mãe da Isa, idem. A velha estava com câncer. Eu não gostava dela, confesso, não tínhamos diálogo, e eu bem que tentei, não foi possível, mas cacete, câncer é uma doença pesada demais… Eu sofria mais pela Isa, muito agarrada à mãe. Como pode, elas são completamente diferentes: é difícil pensar que aquela velha de gênio insuportável- e meio mau-caráter- não só gerou como educou uma pessoa tão maravilhosa quanto a Isa. Incrível, tão díspares as duas… Tudo acontecendo ao mesmo tempo, minha amiga, 576 fatos se espremendo no mesmo espaço- curto- de que dispomos sempre, 7 dias por semana, 24 horas por dia, por que a madrugada é tão curta?, já reparou nisso?, as horas voam na madrugada, enquanto o dia parece infinito. A ciência mente, os relógios mentem, o tempo não é nada disso que falam por aí. Aliás, tem dias em que tudo, tudo parece ser uma grande mentira, até mesmo a verdade.

- Meu caro… – disse o vizinho, tentando se lembrar do meu nome. – André- respondi. – Caso não saiba- e afastou do pulso a manga do pijama, mostrando-me um relógio de um modelo antiqüíssimo, Deus, eu tive um daqueles quando eu era criança, dado pelo meu avô, se não estou enganado. – são três horas da manhã. Seria possível parar com esse silêncio?

- Como é que é??- Eu não podia acreditar no que aquele cara dizia. É, só podia ser um sonho. Ou melhor, um pesadelo, daqueles um tanto quanto ridículos, mas que deixam uma má impressão ao longo do dia, um gosto amargo no espírito.

- Silêncio… Não se faça de tonto, caríssimo! – “Caríssimo!”, eu pensei.

- Olha, senhor…

- Marcondes!- ele disse

- Seu Marcondes, me desculpe, mas não estou entendendo bem o que…

- Meu filho, esse silêncio que vocês estão fazendo. Parem com isso, são três da manhã, onde pensam que estão? Só porque são novos? Há regras aqui, não é a casa da mãe Joana- “Casa da Mãe Joana”, eu pensei. “De onde esse ser de pesadelo vem, da época das novelas de rádio? Só faltou ele empregar o termo “Fuzarca”. – Será que vou ter que chamar o síndico, ou mesmo a “polhícia”- tenho certeza de que ele pronunciou “polhícia”. – Tive vontade de rir, mas fui fechando a porta:

- O senhor está louco? Qual é???- e ele ainda tentou impedir que eu fechasse a porta, ainda vi o rosto dele colar-se à fresta, avermelhado como um caqui, tremendo como uma gelatina, enquanto ele dizia em voz alta “Ishpere! Hey, Hou, você não pode tratar assim um… SLAM, bati a porta. Agora a Isa acordou.

- Que que houve?- ela perguntou assustada.

- Você não vai acreditar…

- Hã…

- Sabe aquele cara aí de baixo, o bigodinho? Estava falando com ele. Ele veio reclamar do silêncio que estamos fazendo…

- Como é que é???- Isa quase cuspiu o gole de água que estava tomando.

- Pois é… Deve ser louco, só pode. É mole isso?

- Eu hein… Que esquisito…

- Também acho… Escuta, vamos voltar pra cama, daqui a pouco eu me levanto e não quero perder o sono.

Não foi difícil voltar a dormir. Como eu disse, andava extremamente cansado. E o diabo do tempo passa muito rápido de madrugada, então logo o despertador tocou, eu me levantei, jornal, café, banheiro, barba, banho, roupa, beijo de despedida, trabalho.

Na noite seguinte, tremi quando a campainha tocou. Olho no visor, o mesmo pijama, os mesmos cabelos grisalhos despenteados- ou penteados de uma maneira que quebra os cânones do pentear. Abri a porta, mas não destranquei a corrente. A mesma reclamação, parem com o silêncio, coisa e tal. O mesmo aconteceu três dias depois. Não cheguei a abrir a porta, mas vi o homem através do olho mágico. Os cabelos brancos formavam um redemoinho no alto da cabeça, como um redemoinho de água cheia de espuma de sabão num tanque entupido, o redemoinho girando, meu estômago girando, dor de cabeça. Pontas de cabelo, mechas que se estendiam como pedaços de arame, como galhos retorcidos, galhos brancos levemente amarelados nas pontas, sebosos. E havia também os cachos, alguns, poucos. Anéis de cebola. Cinco dias depois, a campainha, na mesma hora. Desta vez nem me levantei da cama. Aguardei, em silêncio. Ele insistiu, apenas uma vez. Dormi.

Fui conversar com o síndico e expus o problema. Ele não me pareceu surpreso. Disse: “Não ligue, daqui a pouco ele esquece.” Daqui a pouco ele esquece.

O dia foi infinito como de costume e eu mal podia esperar para pôr os pés em casa, tomar um banho quente, me jogar no sofá, ver alguma coisa bem idiota na televisão, conversar com a Isa, que, aliás, tinha passado a tranca, estranhei, “Isa, Isa, tá tudo bem? Sou eu…”, ela custou a abrir, mas ao perceber que era eu, sorriu aliviada e enfim retirou a corrente. Me abraçou como se não me visse há dias. “Que que aconteceu, por que você ta assim?” Ela me soltou e me entregou um papel. Era uma folha pautada de caderno. Tinha uma mensagem escrita à mão, em letras de fôrma, grandes, que diziam:

- É melhor que parem com esse silêncio todo.

- Fique aqui- disse para Isa- Eu vou falar com aquele doente!

- Cuidado!- ela gritou. – Nem pensei em esperar pelo elevador, desci pelas escadas. Ao chegar ao andar de baixo, pensei ter ouvido um grito abafado e também um rumor de passos vindos do andar de cima. No mesmo instante, notei que o elevador, subindo, passava pelo andar, vi a luz esbranquiçada de seu interior brilhar através do visor da porta. Era um elevador antigo, o prédio, aliás, era bem antigo, então ele tinha lá os seus rangidos que lembravam gemidos, era algo macabro. Nas primeiras noites, aquele som sofrido me incomodou um pouco. Depois eu me acostumei. E o cansaço faz milagres. O cansaço é o melhor ansiolítico.

Estava diante da porta do bigodinho e toquei a campainha. Nada. Insisti. Nada. Passei a bater na porta e ela recuou, com um rangido. Estava aberta! Mas que diabo? O apartamento, com as luzes apagadas. Tive uma sensação ruim. Resolvi subir, voltar para o meu apartamento, não quis explorar o do bigodinho. Era uma sensação muito ruim, a que me invadiu, uma angústia tremenda. Subi as escadas saltando os degraus de dois em dois, subi o mais rápido que eu pude. E a escada era, naqueles instantes, como o dia, infinita, os degraus pareciam se multiplicar. Cheguei ao meu andar e continuei correndo, ignorando o barulho que eu fazia no corredor, os passos atrapalhados ecoando, até constatar, aterrado, que a porta do meu apartamento estava aberta, Isa, a minha filha.

Porque teria arrombado a porta, mas estava aberta. Quando ceguei na sala, apenas a luz da luminária da mesa de centro, as sombras dos móveis cobrindo a parede. Num dos cantos da sala, Isa, sentada numa cadeira, parecia amarrada. “André!!!”, Ela gritou, e alguém saiu de trás da cortina. A sombra ambulante se moveu com extrema rapidez para trás da cadeira onde estava Isa e envolveu seu pescoço com um dos braços. Com o outro, parecia segurar uma faca. Meus olhos já tinham se acostumado à iluminação fraca da sala e pude perceber que a sombra não era sombra, era o velho bigodinho. Tinha uma expressão que misturava pavor e raiva estampada na sua face avermelhada de caqui. –Silêncio!- ele gritou. – Eu só pedi que parassem com aquele maldito silêncio… que estava me deixando louco!!!! O desgraçado aproximou a faca do pescoço da Isa, sua mão estava trêmula. Na verdade, ele estava inteiramente trêmulo. Gotas de suor brotavam de sua testa.

- Se você machucar minha mulher e minha filha, eu estraçalho você, seu maníaco desgraçado!

Tinha um celular em cima da mesa de centro, o meu celular. Ele tocou e, quando ele toca, suas luzes se acendem, naturalmente, luzes azuladas. Logo após o primeiro toque, o velho espirrou e exclamou: – Minha alergia, não!, desligue isso, desligue isso!

O celular tocando, as luzes se acendendo, o velho se afasta da Isa, espirra novamente, sua mão trêmula larga a faca, eu pulo como um goleiro e caio em cima do velho, ele espirra, grita, tenta se defender, grita, espirra, eu aperto seu pescoço, ele se debatendo como uma sardinha, espuma no bigode dele, a cara dele ainda mais vermelha, ainda mais apavorada, ainda mais raivosa, um olho de vidro, um dos olhos dele é de vidro, Isa grita e grita, parece que alguns vizinhos entraram no apartamento, também, com aquele barulho todo, o velho agora quieto, o velho com o silêncio que ele não queria.


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Uma resposta

13 10 2008
martacosta

«Nada é permanente neste mundo cruel. Nem mesmo os nossos problemas.»

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