Checagem

14 11 2008

Só notou que havia deixado o rosto em casa ao tentar coçar aquele vão que fica entre as sobrancelhas, porque o porteiro, que tem um olhar de desenhista e que tudo comenta, nada disse a respeito, além do bom dia de costume. Também não reparou diferença alguma ao passar diante do espelho da portaria, se bem que não olhou direito por estar com pressa. Reunião. E estava atrasado. Por isso, o esquecimento. Onde poderia ter deixado? No banheiro? No quarto? Na saleta? Teria caído no elevador? Não, dificilmente, se tivesse caído no elevador, teria feito algum barulho, e ele não ouviu nada além do monótono som do cubículo de metal descendo e descendo. Pior, o cachorro do vizinho teria abocanhado o rosto, tão logo o encontrasse no chão, cães abocanham coisas que caem no chão, bem como as coisas que caem no ar, deve existir uma lei canina para. Poderia ser o caso de ter esquecido o rosto no dia anterior, no táxi, no restaurante. Podia, portanto, já estar sem rosto desde ontem.

Sentiu vontade de voltar ao prédio, mas não podia, estava realmente atrasado, não dava para perder tempo, era uma reunião que não podia começar sem a presença dele. Por outra, quem acreditaria nessa razão esquisita para o atraso?: “Desculpem-me, senhores, tive que voltar dois quarteirões porque esqueci meu rosto em casa, sabem como é, esses rostos… Além do mais, nem tinha certeza se estava em casa. O rosto; ele, o restante do corpo, estava na rua. Pensou em ligar para Janete, querida, você viu meu rosto por aí?, mas lembrou-se de que estavam separados há dois meses. Piloto automático, mesmo, porque já estava com o celular na mão e podia ouvir, nitidamente, em alto e bom som, com os tímpanos da mente, a reclamação de Janete, você só não esquece sua cabeça porque ela está presa ao pescoço (queria ouvi-la dizer isso na Revolução Francesa). Podia estar sem rosto há dois meses. Era esquecer que havia esquecido o rosto e ponto final, dia que segue.

Incrível, ninguém o olhou enviesado, nenhuma cara de espanto ao longo dos dois quarteirões (tinha que ir a pé, local de trabalho na contramão, as voltas que um ônibus ou que um táxi dariam não compensavam, atrasar-se-ia ainda mais), nenhum cão que latiu, nenhuma criança que tenha se agarrado às pernas da mãe e chorado convulsivamente. Petrônio, o jornaleiro que tinha um tentáculo, não teceu nenhum comentário quando ele comprou o jornal e ainda fez uma piada sobre o time dele, que estava em iminência de cair para a segunda divisão. Petrônio balançou o tentáculo, de modo octópode, mergulhou-o no aquário cheio de refrigerante, como sempre, e deu-lhe o troco, moedas reluzentes, Petrônio limpava as moedas (usando os cabelos) e, com isso, elas pareciam sempre novas, sempre moedas de brinquedo de tesouro do pirata ou aquelas moedas de chocolate que imitam as de metal. Gaspar, o aposentado que tinha asas de borboleta também não teceu comentários (afinal, borboleta, não tarântula) e olha que o velho era capaz de notar as espinhas mais recônditas, os fios brancos de cabelo mais tímidos, as calvícies ainda inauditas, pois era um daqueles sujeitos mal-educados o suficiente para agir desse modo sem culpa alguma, muito pelo contrário, achando que comentar esse tipo de coisa era a atitude mais natural do mundo, tudo bem que o velho Gaspar tinha um coração de mãe apesar desse olhar inconveniente, sempre coberto pelo fog marrom do Ray-ban, cuja marquise era a testa similar a uma casca de noz. Tudo bem. A Camila, sim, a Camila, a garota da agência de viagens, com aquela saia azul-marinho e com aquelas pernas sobrenaturais, que atende na porta por ter medo do interior da loja, não falou nada e, repare, ela o conhecia bem, saíram algumas vezes, mulheres são tão detalhistas quanto o Gaspar, só que mais educadas, de modo geral, exceto na ida ao banheiro em companhia das amigas, ocasião na qual fazem análises das mais cruéis, gélidas e calculistas. Entrementes (a minha, de narrador, e a sua, de leitor), Camila fora da loja, sem amigas por perto e sem banheiros.

Entrou no prédio da firma, foi cumprimentado pelos seguranças que olharam para a cara dele do mesmo jeito que olham há quatro anos, apesar de não haver cara ali sabe Deus desde quando. Podia estar sem rosto há muitos anos. Lembrou-se do enorme espelho no saguão do prédio e correu até ele. Queria ver com os próprios olhos a ausência do rosto. Decepção: o espelho havia sido retirado. Mas, por quê? Por causa do assalto. Ontem, de madrugada. Ah, o senhor não soube… Sete bandidos foram presos, mas o danado que carregava os malotes fugiu para o espelho. A polícia levou o espelho para perícia. Esperam que o ladrão renda-se e saia, por causa da fome e da sede e do cansaço e do tédio pelo dielétrico polido. Caso não saia e morra lá dentro, a idéia que eles têm em mente é a de enviar um esquadrão pró-reflexo para o interior do espelho. Recuperam o dinheiro e nós recuperamos o belo espelho que ornamenta esse saguão desde 1938, ano em que comecei a trabalhar aqui, o senhor sabe? Eu tinha quarenta anos e…

E se fosse apenas impressão? O resíduo de algum pesadelo? O rosto poderia estar lá, em seu rosto, onde sempre esteve. Afinal, ninguém apontou para ele e disse “Ei, cadê seu rosto?” Melhor, como não pensou nisso antes?, ele não seria reconhecido, claro, ninguém o cumprimentaria. Só notou novamente que havia deixado o rosto em casa quando foi enxugar com um lenço as gotas de suor que lhe brotavam da testa, enquanto subia pelo elevador, já não tão preocupado com o atraso para a reunião.


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