Ele acreditou piamente que aquele senhor era um vampiro. Tudo começou numa tarde de verão, daquelas em que há muito calor e nada, absolutamente nada para se fazer, a não ser ficar largado num canto, mole como uma trouxa de roupas, executando o mínimo possível de movimentos e bebendo litros de qualquer coisa que seja mais ou menos líquida, gelada e capaz de ser absorvida pelo estômago sem maiores problemas- portanto, esqueça os produtos de limpeza; sei que são bonitinhos, atraentes e coloridos, a fragrância atrai, eu sempre fico tentado a provar o detergente de côco, mas esqueça-os.
Conversávamos, eu e um amigo. Na verdade, não chegava a ser uma conversa e sim uma troca de frases muito curtas. Era o máximo que nossos cérebros podiam produzir, tal era o calor. Pelo que me recordo, quebrei minha inércia e me dirigi à janela, que dá para o pátio que fica entre um bloco e outro dos apartamentos do condomínio onde moro, na esperança de sentir uma lufada de ar-em-movimento. Ao lado direito?, sim, do lado direito do condomínio, há uma vila e é possível ver algumas das casas dessa vila até que um determinado ponto do muro nos separe.
Não me lembro a razão de ter feito o que fiz, mas lembro de ter apontado uma determinada casa, uma das que era visível através da minha janela, sombria, diga-se de passagem, e de ter dito que, naquela casa, morava um homem que era um vampiro. Meu amigo se levantou e se aproximou da janela. Olhou para a casa, olhou para mim e perguntou: “Tem certeza?”, ao que respondi “Sim, algumas pessoas já foram atacadas por ele.” “E ninguém faz nada a respeito disso?”, ele questionou. Olhei para ele esperando encontrar uma expressão de deboche, mas o que vi foi uma expressão indignada. “É um absurdo!”, ele completou (que você tenha acreditado no que eu disse, pensei eu, completando a indignação do meu amigo; é um absurdo também eu estar inventando uma história tão idiota). “Pois é, ninguém faz nada. As pessoas são muito egocêntricas. Só se mobilizam para bobagens, sabe…” Não sei como consegui permanecer sério. Normalmente eu já teria caído na risada, só que, por razões misteriosas, meu lado ator estava forte naquela tarde.
“Mas ele machuca pessoas inocentes. E animais. Alimenta-se de sangue (talvez ele seja uma seringa frustrada, pensei; “Alimenta-se de sangue”. É, há gosto pra tudo. Eu prefiro arroz, bife e fritas). É um monstro, uma criatura do demônio”, disse meu amigo. Desta vez eu nada disse, dei de ombros. Afastei-me da janela, coisa que ele também fez pouco depois. Voltamos aos nossos lugares, a nossa inércia e às bebidas, que, se não estou enganado, eram refrigerantes. A conversa sobre vampirismo não seguiu adiante e eu fiquei aliviado por isso. Estava um pouco arrependido porque ele parecia ter acreditado nas minhas palavras. A não ser que o lado dele de ator estivesse igualmente forte naquela tarde e ele estivesse igualmente me sacaneando.
Pouco tempo depois, alegando ter alguma coisa para fazer, ele se foi. Não me lembro mais do que fiz após a saída do meu amigo, se fui ouvir música ou se fui ler. Talvez eu tenha saído também. Não, eu só saí mais tarde, quando já havia escurecido. Depois voltei, já era madrugada. Vi um pouco de televisão, depois dormi.
Acordei com minha mãe de pé na porta do meu quarto com cara de sapo de desenho animado, os lábios caídos, os olhos arregalados. Caco, do Muppet Show pintado por Bosch. Pensei em processá-la por susto culposo, porque meus batimentos cardíacos se aceleraram de tal forma que, não que minha mãe fosse feia, ela era uma mulher bonita. Não quando assustada. Segurava numa das mãos o telefone. “Fim do mundo? Golpe de Estado? Que foi, porque essa cara?” “É a Dona Marluce, mãe do seu amigo Guilherme. Ele está na delegacia. Foi preso!” “Quê?”- esse “quê” brotou violentamente de um bocejo, rompendo-o em dezenas de pedaços. E pedaços de bocejo grudam no tapete. “Invasão de domicílio, parece que ele entrou na casa de um velho e…” “Puta que pariu, a história do vampiro!”- eu pensei. Pulei da cama, fui rapidamente ao banheiro, vesti a primeira roupa que encontrei e parti para a delegacia. No caminho, fui pensando: “Que louco de merda, que imbecil, como pôde acreditar numa história ridícula dessas!” Torcia também para que ele não tivesse ferido o velho e tornado a confusão ainda mais grave. Mas o velho estava lá, vi quando cheguei. Estava bem, irado, mas estava bem. Não tinha curativos, não parecia com uma bagagem. A mãe do Guilherme também estava lá, e uma tia e uma criatura que não consegui identificar, algo entre uma criança e um anão. Podia ser a sombra de algum objeto, mas era tridimensional—portanto não sombra– e segurava um carrinho amarelo—provavelmente uma criança mesmo.
Prontifiquei-me a pagar a fiança. Afinal de contas, eu era culpado em parte pelo desastre. Se eu soubesse que o Guilherme tinha o cérebro torto, jamais teria inventado aquilo. Conversei com o velho também. Expliquei-lhe que meu amigo não regulava bem das idéias, que o pai, quando criança, surrava-o com uma peruca, menti, dizendo que ele tomava remédios fortes e que ouvia vozes e via vultos e acreditava em horóscopo de jornal e em livros de auto-ajuda e em políticas públicas, que tinha mania de perseguição, que colecionava fotos de prédios tombados pelo patrimônio histórico e de esculturas em barro, blá, blá, blá. “Ele é louco, louco!”, repetia o velho em voz alta, e o louco parecia ele, o velho.
O velho me contou que estava tranqüilamente em sua biblioteca lendo um livro, quando alguém ou alguma coisa saltitante saiu detrás de uma das prateleiras segurando um enorme crucifixo de prata e berrando ladainhas. “Esse louco passou a noite me torturando de uma forma que nunca imaginei nem nos mais terríveis de meus pesadelos”- disse o velho. “Ele me obrigou a passar diante de um espelho dezenas de vezes. Não acreditava na aparição do meu reflexo, dizia que eu estava blefando. Jogou dentes de alho no meu rosto. Fez com que eu mastigasse alguns dentes de alho. Obrigava-me a tocar no crucifixo, a segurá-lo com ambas as mãos, a encostá-lo em minha testa. Borrifou na minha roupa e por toda a casa um líquido que dizia ser água-benta. Trancava-me em alguns cômodos, por alguns instantes, abria por fim a porta, e ficava esperando que eu passasse por ela. Arregalava os olhos, contrariado, e perguntava por que eu passava pela porta, apesar de não ter sido convidado. Rezava todo o tempo. Nunca ouvi tantas orações, nem na minha época de catecismo. Ao amanhecer, abriu todas as cortinas da casa, segurou-me diante de cada janela, de modo que os raios de sol iluminassem meu corpo. Graças a isso, um vizinho notou que algo de errado estava acontecendo e chamou a polícia. Seu amigo é um celerado!”
Poderia ter sido pior. Graças a Deus ele não levara uma estaca. Repeti mentalmente esse agradecimento. Várias vezes, pois, do contrário, estaria ouvindo o relato de um defunto. Imagine o velho com uma estaca tosca, feita de cabo de vassoura, cravada em seu peito. Criei, a partir de uma história impensada e idiota, um novo David Farrant… Uma versão masculina da Buffy. Poderia ter sido pior. Guilherme não mencionou meu nome, não disse que fui eu que contei a história do vampiro. Disse simplesmente que pensou ser o velho o Príncipe das Trevas em pessoa. E que diante disso, tinha que fazer alguma coisa. Era uma questão de comprometimento cívico. Comprometimento cívico… Ele foi obrigado a fazer um tratamento psiquiátrico, o Guilherme. Com uma frase, despertei algo latente, uma loucura que devia estar adormecida em Guilherme. O que me assusta, até hoje, é o fato do Guilherme não ter se convencido de que o velho não é um vampiro. O velho tinha dentes caninos bastante caninos, mas não era para tanto. Estava extremamente quente no dia em que estourou toda essa confusão. Fazia um sol forte, o céu estava bem azul, sem nuvens, um clima que não lembrava em nada os filmes de terror. Se bem que, vez ou outra, o bizarro se aproxima do terror, vice-versa. No verão fazemos coisas estúpidas, realmente estúpidas.