Não me importava muito com sincronicidade, mas comecei a procurar por números 23 ligados a fatos relevantes da minha vida após a leitura sobre uma estranha descoberta feita por Burroughs. Achei dois, ligados a fatos marcantes. Para ser preciso, duas idades, a minha, quando eu tive 23 anos, e a de outra pessoa, que tinha 23 anos no momento em que a conheci. Foi só (porque foram apenas esses dois fatos, nada desprezíveis, muito pelo contrário, mudaram minha vida; talvez muito pelo contrário seja o melhor termo possível a ser empregado, pois eu virei uma pessoa do avesso e se você não enxerga artérias e células quando me olha, uma esponja de palha de aço em chamas, papel celofane azul e vermelho e amarelo, trata-se de um problema sexual seu, como diria meu bom amigo, o partículas de pão). Pode ser que eu tenha me esquecido de outros números 23. Se esqueci, não foram relevantes, já que não me lembro de nenhum episódio de amnésia. Igualmente não tomei nenhuma pancada na cabeça e nenhum agente borrifou um aerossol na minha cara, não senhor, Mr. Hammill.
Então, as coincidências. Lembrei-me, não sei por que cargas d’água, de um filme com zumbis. O filme sobre zumbis veio até mim. Dias depois, recebi um outro arquivo cuja temática era: zumbis. Semanas antes de lembrar-me desse mesmo filme que veio até mim, eu procurava por outro. O problema é que eu ainda não tinha começado a ligar fatos, então a procura por esse primeiro filme não conta, eu acho. Valer-me da procura por esse primeiro filme seria como acumular pontos antes do jogo ter começado, pegar os pontos conquistados numa outra partida- que talvez nem tenha acontecido- e somá-los com os possíveis pontos que irei ganhar, num hipotético e futuro jogo, ou melhor, no jogo que já estou jogando, não parece jogo limpo, hã? Além do mais, como comecei a levar a sério essa coisa toda de coincidência, não quero provocar nenhum desastre cósmico, como, por exemplo, ser absorvido por algum tipo de vida habitante de um meteoro que venha a cair no meu quintal e estragar o fundo de azulejos da minha piscina. “Homem devorado por coisa que habitava um meteoro”. Seria uma manchete ridícula, assim como aquela velha declaração de um lobisomem a um jornaleco de quinta categoria- há muita coisa sobre o cinco também, poderia ter pensado a respeito, mas não pensei- “Sempre quis ser conhecido, mas não da maneira que sou.” Jogo, eu disse. Minha intenção não era a de entrar num. Tarde demais. Comecei a pular no mosaico do chão.
Bocejei e desejei (muito) dormir após ter digitado “tarde demais”. Procurei, durante alguns segundos, estabelecer uma relação viável entre essas palavras. A questão era: relacioná-las a quê? Após pensar sobre relação, bocejei novamente. Esquisito. Sim, esquisito porque me desviei do assunto. Espere: e se eu tivesse que me desviar? Provavelmente eu não estaria aqui e sim, em casa, sentado confortavelmente diante da televisão desligada, mastigando salgadinhos e bebendo um bom copo de cerveja bem gelada. Cá estou, escrevendo essas linhas no meu braço, que virou meu caderno. Os pêlos são as pautas e louvado seja o Senhor por eu não ter nascido imberbe e por eu ter trazido num de meus bolsos, por engano (?), uma caneta de marcar cd. Meu braço é o caderno mais estranho que eu já tive. Não, uma coxa feminina já foi um papelzinho, quando eu tive que anotar às pressas um telefone- naquela época não existiam telefones celulares. Meu braço parece um membro de uma zebra. Quando eu erro? Ora, eu apago o que escrevi com a língua. Fiz isso enquanto passava por membros de uma tribo nômade, e eles cuspiram no chão, me olharam de cara feia e disseram algo equivalente a”obsceno”. Não me importei, depois de toda a dor e de toda a solidão que eu senti. A dor moral faz com que você se sinta como um lençol sendo torcido por uma lavadeira musculosa. Quando eu era criança, trabalhou lá em casa uma lavadeira que era pugilista. Ela não torcia as roupas, ela as golpeava enquanto estavam penduradas na corda. Ela batia no marido. Sumiu, nunca mais voltou. Disseram que ela ganhou numa loteria chamada “Paraíso Artificial” e que abriu uma loja de materiais de construção. Pode ser…
Não fosse o fato de procurar coincidências, não estaria aqui, subindo essa maldita escada rolante, voltando à superfície da terra. Ela é lenta demais. Do início dela, lá em baixo, até aqui, metade do caminho, gastei quatro horas. Mas é porque ela sobe e desce. Tive o azar de ser o único a subir e de estar aqui ao mesmo tempo em que 89 pessoas quiseram descer, ou seja, eu estava subindo e chegava um sujeito que queria descer e a escada começava a descer. Um desses sujeitos me disse uma coisa bem curiosa: “Estou aqui porque contei as gotas de chuva e as dividi pelo número de vasos de planta que existem no meu quarteirão. Peguei o resultado, escrevi num papel, meti num sanduíche de ovo frito e maionese, que comi, obviamente, e fui dormir. Tive um pesadelo com um tubarão que grampeava balancetes de escritório com os dentes. O sol, que brilhava acima do espelho d’água era uma gema de ovo. Os empregados do escritório eram espermatozóides. Uma velha saiu de um cesto de lixo, segurando um taco de golfe, e gritou “Arnica”.Relampejou na parede. Ao despertar, sabia que tinha que vir aqui.”
Eu soube por outros meios, os 23, os zumbis, a dor, a solidão, vocês sabem, conforme irei relatar- assim que eu sair dessa maldita escada rolante, cruzar o deserto e voltar para casa. Tudo bem. Só não me conformo de ter chegado ao hall que existe lá em baixo, após vencer obstáculos como um salão repleto de carneiros e um túnel feito de queijo, para enfim pegar no telefone que fica num latão cheio de gelo picado e de enguias, para ouvir um frustrante sinal de ocupado, e uma voz, uma gravação, que disse logo em seguida “Volte quando sua filha tiver 23 anos.” Para terminar: tenho uma calça de moletom azul e outra preta: por que a azul é mais pesada, se é do mesmo tamanho e da mesma marca? Acontece o mesmo com os casacos de moletom: porque o azul é mais pesado do que o preto? O jornaleiro parou de escrever poemas por causa da caspa e ele pensa ser um quadro.
pois eu virei uma pessoa do avesso e se você não enxerga artérias e células quando me olha, uma esponja de palha de aço em chamas, papel celofane azul e vermelho e amarelo, trata-se de um problema sexual seu, como diria meu bom amigo, o partículas de pão)
Ok, cliquei no enter sem querer. Eu ia citar aquela parte porque achei engraçada etc. x]
Você esqueceu de um pequeno detalhe: O número de gotas de chuva dividido pelo número de plantas daquele quarteirão resulta em 23.
São muitos vasos.
E tô morrendo de rir com o post anterior! hahaha!
Porque a palavra vasos em gaélico mancês tem 23 letras.
Paranóia, paranóia… Dá pra jogar no bicho ou freqüentar as reuniões da caballa.
Sim, talvez Madonna possa esclarecer as dúvidas do personagem.