Dezenas e dezenas de quilômetros de estrada erma e cercada de mato, numa região montanhosa, separavam-me do meu destino. A noite estava calma; a temperatura era agradável e o céu estava estrelado.
Não havia nenhum outro carro além do meu. O último que vi foi há quase uma hora atrás: foi para outro caminho, pegando uma bifurcação na estrada. Eu me sentia o único do mundo, ali, naquele lugar vazio. Eram cerca de vinte e uma horas, de uma quinta-feira do mês de Outubro de 1972.
Estava com o olhar fixo na estrada à frente. Aquela região era muito escura. De repente, notei que não estava mais só. Tinha um carro atrás de mim. Os faróis dele estavam tão baixos, que por mais um pouco não teria percebido. ”Que engraçado”, pensei. E pensei também que ele me ultrapassaria. Mas não ultrapassou. O espaço para a ultrapassagem era suficiente. A pista era larga. Alguma coisa estava errada.
Não estava gostando nada daquilo. Acelerei. O carro que me seguia fez o mesmo. Não sei, havia algo de anormal quanto à forma daquele veículo. Não só pelos faróis baixíssimos, mas também por causa da altura, da largura, enfim, do design do carro, como um todo. Ele estava bem próximo, mas eu não podia distinguir nenhum detalhe, como o pára-brisas, por exemplo. O carro parecia mais um tanque, todo blindado. E era todo preto, não tinha brilho de metal como qualquer carro.
O carro começou a se emparelhar com o meu. Aí é que meu desespero aumentou, porque vi que não era um carro. Era alguma coisa que imitava um carro. Era como se uma criança tivesse feito um carro de massa de modelar, muito bem feito, mas ainda assim, um carro de massa de modelar.
Aumentei a aceleração e o objeto maldito ainda me seguia. Não emitia ruído algum. À minha frente, a paisagem não mudava: somente a estrada deserta. Ao meu redor, um matagal sem fim. Um imenso vale, cercado por montanhas enormes e distantes. As únicas testemunhas de meu terror eram as estrelas.
Alguns metros depois, uma curva, e no fim dela, luzes. Tinha que ser um posto de gasolina, uma casa, qualquer coisa. Um milagre dos céus seria um posto policial. Só que não era. Era um objeto de tamanho descomunal. Estava pousado na margem da estrada. A luz espalhava-se por um enorme raio. O meu carro, cuja velocidade certamente estava acima dos cem quilômetros, parou. É inacreditável, eu sei… O falso carro também parou. Ao parar, começou a se desmanchar, como um pedaço de gelo, derretendo. Por fim, transformou-se numa massa amorfa, feito piche.
Dois seres apareceram. A luz, que enchia a estrada, parecia luz de lâmpada fluorescente. Os seres começaram a andar em direção ao carro. Comecei a saltar dentro do carro, mexendo as pernas e espancando freneticamente o volante. E berrava de pavor.
Os seres pareciam pessoas como eu: conformação do corpo, estatura. O modo de andar deles é que era diferente. Andavam com certa dificuldade, eles balançavam e tremiam. Era um andar patético. E artificial também, como se fosse uma imitação. Quando eles chegaram perto do carro, pude ver com clareza seus rostos. Não eram rostos, eram imitações de rosto. Eles pareciam bonecos.
Um formigamento tomou conta de meu braço. Alguma coisa estava fazendo com que meu braço, que estava no volante, fosse em direção à tranca do carro. Uma força me impelia a sair do carro. A luz fortíssima do objeto apagou-se, mas ele e os seres continuavam ali.
Reuni o restante de forças que eu tinha e tentei ligar o carro. Comecei a rezar. Eu gritava e já estava quase sem voz, com a garganta dolorida. Subitamente, o carro ligou. Pisei no acelerador e segui em frente. Os seres estavam à frente do carro. Iria atropelá-los, mas passei por eles como se eles fossem fantasmas.
Será que não encontraria ninguém naquela droga de estrada? Eu tinha que encontrar alguém, para ter certeza de que aquilo tudo não era uma hedionda alucinação. O tempo corria e o cenário era o mesmo: estrada escura e vazia, mato me cercando, silêncio. Eu tinha mergulhado num buraco escuro, num pesadelo que parecia infinito.
Finalmente, meus faróis iluminaram uma placa: posto policial. Logo em seguida, luzes. “Graças a Deus! Obrigado, meu Deus!”, eu repetia, balbuciando, ofegante. Todo meu corpo tremia. Cheguei ao posto buzinando loucamente e gritando por socorro.
A cabine estava vazia. Tinha uma luz fraca, vinda lá de dentro.Talvez fosse um televisor ligado. Olhei ao redor e vi dois guardas, conversando do outro lado do pátio do posto. Buzinei mais. Os guardas olharam em minha direção. “Socorro! Socorro! Ajudem, pelo amor de Deus!”, gritei.
Fechei os olhos e passei as mãos em minha testa, que estava banhada de suor frio. Meu coração estava disparado. Agradeci novamente a Deus por estar salvo, por ter fugido daquele terror.
Abri os olhos lentamente. Os guardas vinham em direção ao carro. Por que não vêm mais depressa? Eles estão andando devagar…Os dois andam do mesmo modo… devagar e …balançam o corpo… e TREMEM!!!