Mansão dos mortos

7 02 2009

Muito que fazer, era uma casa velha, quase 100 anos. Os últimos habitantes foram cuidadosos, porém não puderam avançar demais nas reformas, trataram daquilo que era urgente e ponto final. Isso não me incomodou, pelo contrário, eu precisava de ocupação, único modo de libertar minha mente de pensamentos desagradáveis e destrutivos; sendo assim, os dias de forte calor das duas primeiras semanas na nova casa foram preenchidos com muito, muito trabalho. Eu tinha um macete para amenizar o trabalho, para transformá-lo numa brincadeira, eu sempre imaginava que a razão de eu estar fazendo aquilo era completamente diferente da verdadeira, um jogo mental que conservei da infância: quando eu ficava trancado, estudando, cercado de livros, imaginava que era um pesquisador ou missionário, num país distante. Imaginava que meu quarto era uma tenda, e os prédios em volta desapareciam, só restando mato, parecia mágica, eu conseguia enxergar isso, apesar disso não existir, então era uma pesquisa ou uma missão num mundo completamente estranho ao meu, e não a chatice de ter que estudar para uma prova que permitiria minha mudança de ano, mas minha permanência no meu mundo, ou seja, naquele mundo que eu achava extremamente aborrecido e de que não gostava, pelo menos naquela época. Agora eu sei que o problema não era o mundo, mas a época; para ser mais preciso, o tempo.

Engraçada essa coisa de tempo, porque, no momento, eu gostaria de estar lá, se existisse um modo de voltar no tempo, se eu pudesse subir de volta naquele mesmo palco e participar daquela mesma peça, não pensaria meia vez. Estive procurando um modo de fazer isso, li alguns livros, tentei algumas experiências, bastante estranhas, você riria disso- e ficaria assustada com algumas delas- e… nada aconteceu. Tive, certa noite, um sonho bizarro: no sonho, algo me dizia, aquela voz interna a que chamam intuição que, se eu mudasse de quarto, e me deitasse na outra cama, eu despertaria no passado. Só que eu não quis mudar de quarto, decidi, ainda no sonho, permanecer no quarto em que eu estava. Resultado: acordei no presente, que hoje já é passado. E me arrependi. Nunca mais tive esse sonho. Nutri certa esperança de repeti-lo, já que alguns de meus sonhos são recorrentes. Esse em particular não foi. Eu tive uma escolha e não movi uma pedra… Se acontecesse novamente, eu mudaria de quarto e meu presente seria outro, você pode apostar.

O terreno que cercava a casa também demandava muito trabalho, muito mais do que o seu interior. Cerca quebrada em diversos pontos, árvores caídas, capim alto, buracos, montes de terra, formigueiros, tralha de muitos anos acumulada. Eu dedicava as primeiras horas do meu dia tentando arrumar o terreno. Sempre fui “perseguido” por arrumações, parece algo cármico, porque sempre estou às voltas com coisas para consertar, organizar e jogar fora. Isso me faz pensar que tipo de vida eu tive anteriormente. Tipo, por que não consigo escapar disso, por que nunca termina? Eu me sento à noite numa velha cadeira de balanço que fica na varanda, com uma caneca de chocolate quente e cigarros, e fico pensando nesse tipo de coisa, enquanto eu olho para o céu estrelado. Ultimamente, tem sido cerveja, por causa do calor. O céu do campo é lindo. Não entendo a razão de eu pensar sobre esses assuntos, porque ando numa fase cética, mas ao mesmo tempo, eu ainda acredito numa série de coisas que me davam esperança no passado. Logo eu, que detesto contradições… Talvez seja o mesmo mecanismo que uso para tornar tudo o que tenho que fazer menos penoso. Talvez seja apenas mais uma das muitas bengalas que usamos para nos apoiar ao longo da vida, porque, sem elas, seria impossível.

De modo que, num belo dia, enquanto arrancava umas ervas daninhas, deparei-me com um buraco que, com certeza, não estava ali no dia anterior. Sei disso porque não sou um tipo distraído e, mesmo que fosse, era uma abertura grande demais para não ser notada. Não parecia natural, parecia ter sido cavada, parecia trabalho humano. Quem sabe os últimos moradores…

Era a entrada de um túnel. Eu disse alguma coisa, próximo à abertura, e ouvi minha voz reverberar. Uma má impressão, algo me dizia para não entrar. Ao mesmo tempo, a curiosidade. Contradições. Voltei para casa e trouxe comigo uma lanterna. E entrei. Havia um declive que parecia não ter fim. O túnel levava a algum lugar debaixo do solo, e não a outro ponto do terreno, como imaginei inicialmente. Achei que me conduziria ao celeiro, por exemplo, e não me pergunte a razão. Aquela coisa tinha sido muito bem escavada. Na verdade, era como se a própria terra tivesse feito o trabalho, não consigo explicar. Do chão ao teto, exatamente a minha altura, nem mais, nem menos, o que era de certa maneira claustrofóbico. Túnel cilíndrico, como um duto.

Alguns metros à frente, muitos metros, porque não era mais possível ver a entrada banhada pela confortável luz solar, e o caminho subterrâneo tinha sido escavado em linha reta descendente, o fim. Terminava abruptamente, numa parede de terra. O facho de luz iluminou algumas inscrições que não pude reconhecer. Sinais, símbolos. No chão, um velho caderno com capa de couro bastante desgastado, um toco de lápis, o resto de uma vela, um lampião- antiquíssimo, só havia visto um como aquele em filmes!- e trapos de roupas. Entre os trapos, um tecido que se assemelhava a um vestido.

Agachei e peguei o antigo caderno, que estava úmido e cheirando a mofo. Abri aleatoriamente e comecei a ler o que parecia ser um relato:

O homem que aqui encontrei estava muito debilitado. O fato de ele estar vivo só podia ser um milagre, tal era sua condição física: roupas em trapo, os cabelos crescidos- assim como a barba-, a pele encardida, cinzenta e seca, a despeito do forte calor, os olhos anuviados, a respiração ofegante, os ossos pronunciados, as veias em alto relevo, os dentes arreganhados e escuros. Vermes, havia vermes rastejando em alguns pontos de seu castigado corpo, que exalava um cheiro terrivelmente ruim, embora ele não apresentasse ferimentos aparentes. Uma múmia viva, um cadáver animado por algum tipo de magia negra. Ele não sabia há quanto tempo estava aqui, não fazia a menor idéia. Só sabia de duas coisas, que me relatou com extrema dificuldade: a primeira, que tinha visto o buraco e entrado, atraído por uma força desconhecida que ele reputou como curiosidade, e a segunda, que passo a escrever na esperança de…

… Ele disse que encontrou uma mulher. No início, a chama do lampião iluminou somente seus cabelos, que lhe cobriam a face. Ele tentou afastar as longas mechas da moça, que estava agachada no canto, com os braços envolvendo os próprios joelhos, tal qual uma menina perdida e assustada, encostada na parede onde o túnel termina, mas ela o impediu, com um movimento brusco. E passou a falar, com uma voz rouca e tenebrosa que, há muito tempo, um homem mau enterrou um cachorrinho vivo, um pobre filhote, sem motivo, por pura maldade, pelo prazer de fazer algo ruim. E que a tristeza e o ódio do pequeno animal produziram um prodígio, que era o buraco, porque, em certas ocasiões, quando algo que não deve ser feito é feito, isso ocorre, foi o que a moça teria dito (e lembrei da história da menina que abriu com uma faca o ventre de uma boneca, e de como ela ficou horrorizada, ao ver as repugnantes lombrigas que saíram do ventre de plástico), e então eu senti que não poderia mais sair dali, senti que, mesmo que eu corresse, a abertura se fecharia, e olhei novamente para a moça, que agora não estava mais com os cabelos cobrindo seu rosto, e percebi que seu rosto não era de gente, mas de cão, e eu corri, e realmente não havia mais luz do sol e nem abertura, apenas a terra e o escuro e…

Pois eu larguei o livro e gritei, e o grito foi tão forte que feriu meus ouvidos, e o som do meu grito parecia ecoar infinitamente, eu corri, eu também corri, tropecei em alguma coisa, acho que eram ossos, mas não pude ver a luz do sol novamente, não pude ver a saída, só a terra, só o maldito cilindro de terra úmida, de terra gosmenta, um intestino feito de terra.


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