Típico de nosso bairro, a rua deserta e não era tão tarde assim. Um Bairro residencial. Andávamos no meio do asfalto e nenhum carro havia passado nos últimos dez minutos. Nada de barulho de rodas, canos de escapamento, buzinas, nem sinal. Nem mesmo uma bicicleta. Nem um gato se atreveu a cruzar a pista. Era uma sexta-feira que tinha sido chuvosa por todo o dia, uma sexta-feira que havia chorado muitas lágrimas. Agora apenas nuvens pesadas cobriam o céu. A temperatura havia caído um pouco. Ventava- desde o fim da tarde, um vento que fazia barulho de dor, de lamento- e, curiosamente, a lua cheia, com sua fria e esbranquiçada rebeldia, conseguia furar o bloqueio da capa de nuvens. Parecia um cenário de pesadelo, por causa de uma tênue neblina que fazia com que as lâmpadas dos postes ficassem parecidas com miragens.
Ao longe, alguns cães uivavam. Um humorista comentou certa vez que o som do latir dos cães sempre parece emitido à distância, e ele tinha toda razão. Isso dá um toque tenebroso ao uivo deles. E essa distância sonora também denota certa melancolia. Por quem os cães choram? Por quem chamam ou por quem esperam? Se eu soubesse te dizer… Por que a noite nos causa tantas impressões? Talvez porque ela tenha nos assustado de tal forma há milhares de anos que sua marca jamais nos abandonou. Isso foi quando não havia fogo e tudo desaparecia numa escuridão de buraco quando o sol abandonava o céu e então o medo, a taquicardia, o suor frio, os músculos retesados, o gosto amargo na língua e a sensação de morte. Mas agora, Fiat lux. Então?
Malu parecia não pensar nisso. Ela sempre fazia cara de desinteresse quando eu questionava esse tipo de coisa, mas eu tenho certeza de que, no fundo, ela se fazia as mesmas perguntas. O muro dela era seu sorriso de desinteresse e seu olhar fixado em horizontes que não existem. Malu tinha algo de sombrio em seu interior e eu pude perceber isso em duas ocasiões em especial. Numa delas, num dia em que vimos no jardim de minha casa uma centopéia lutar com um camundongo. A centopéia, enorme, acabou por envenenar o pobre camundongo. Os olhos de Malu brilhavam, ela, extática. Na outra ocasião, quando duas meninas brigaram no pátio da escola. Uma delas sangrou com um tapa e Malu parecia ter os olhos fixos em cada movimento da briga. Os olhos fixos no sangue que escorria da boca da menina. Ela nada disse e nenhum gesto esboçou, mas eu poderia jurar que Malu torcia para que aquela briga não terminasse antes que uma das duas estivesse seriamente ferida. Malu parecia sentir um prazer enorme com o evento da briga, com a violência, com o clima denso e nefasto que se espalhou no ar.
Enfim chegamos ao cemitério. Idéia de Malu. Ler relatos sobre vampiros, beber vinho, fumar alguns cigarros, jogar conversa fora. Tínhamos conosco três livros, um deles, de Montague Summers. Eu carregava comigo uma sacola com um dos livros, um maço de cigarros, algumas velas e uma caixa de fósforos. Malu carregava uma mochila, grande. Parecia cheia. O que teria dentro dela, além da garrafa de vinho, das canecas e dos dois livros?
Abrimos o portão de ferro, que estava encostado, e as grades gemeram com uma lentidão dolorosa, como se fosse um nascimento, como se não fosse aberto há muitos anos, e isso me deu um arrepio na espinha, embora eu não seja uma garota que se assuste facilmente. A neblina parecia mais densa ali e não era possível ver com clareza nem o chão nem as bases dos túmulos. A bola-de-luz-esbranquiçada-que-era-a-lua parada bem acima de nós, como um sol de meio-dia, a bola pálida cheia de manchas. O vento chacoalhava os galhos das árvores, sabe aquela lufada de vento estranha, que bate de repente e que enche de vida as coisas? A terra tinha um cheiro forte, talvez por estar ainda úmida com a chuva de todo um dia.
Cruzamos algumas ruas cheias de lápides e de túmulos. Vimos um gato assustado, que passou correndo, um sinal de vida no meio de toda aquela morte, de toda aquela massa de pedra, mármore e alvenaria, em parte coberta de musgo e de ervas daninhas. Um sinal de vida no meio de toda aquela solidão. Chegamos enfim à porta de um mausoléu, que parecia muito antigo. Tinha colunas, no estilo grego e as janelas, redondas, com vidros escuros. A porta era de uma madeira escura, cor tabaco, toda trabalhada em baixo relevo, e ficava aberta, coisa que tínhamos percebido numa visita diurna, anterior. Parecia abandonado, os familiares não deviam visitar aqueles mortos há muito tempo, a julgar pelo estado em que se encontrava. Entramos e estava quente lá dentro. Deixamos a porta entreaberta. Havia uma mesa de pedra lá dentro, com bancos igualmente feitos de pedra. Eu me sentei, retirei as velas e os fósforos da sacola e as acendi. Malu logo em seguida abriu a mochila e retirou a garrafa de vinho e também as canecas, colocando-as em cima da mesa. Pousou também sobre o tampo da mesa os livros. Deu um sorriso e, abraçando a mochila, avançou para um canto do mausoléu que estava mergulhado na escuridão, “Onde vai, o que vai fazer?”, eu perguntei, mas a única resposta que ouvi foi a reverberação da minha própria voz.
Alguns minutos depois, vi um vulto e, aos poucos, percebi que era Malu, que estava de volta. Vestia um biquíni, a louca, um biquíni branco. “Que isso? Vá se vestir, sua louca! E se o coveiro aparecer? E se ele for um tarado? E se um tarado estiver andando por aqui?, os tarados costumam freqüentar esses lugares, você sabe…” Malu riu e sua risada reverberou no ambiente. Um relâmpago. Virá um trovão. Sim, trovejou. Choveria mais? Logo em seguida, o barulho da chuva. O cheiro de terra molhada, lá fora, e o cheiro de mofo do mausoléu que despertava, seu cheirar a séculos. As chamas das velas tremulando, quase se apagaram. Eu já havia aberto o vinho e o despejava numa das canecas. Vinho parece sangue, comentei. e faz barulho de mijo caindo na privada quando se enche uma taça. Ofereci a Malu. Enchi a minha caneca e propus um brinde. Brindamos. Demos a primeira golada juntas. Malu pousou a caneca na mesa enquanto uma gota do vinho escorria do canto dos seus lábios. Malu tinha os olhos fixos em mim.
Ela avançou, rápido, e quando percebi, já estava com os braços e pernas me envolvendo, e os lábios no meu pescoço. “Não”, eu disse, e tentei afastá-la. Já havia acontecido antes, mas não agora, não aqui no mausoléu. Senti o cheiro de seus cabelos, o cheiro natural que emanava deles. Malu continuava agarrada no meu pescoço e, com um gesto mais brusco, consegui empurrá-la. Não, não agora. Senti nesse momento uma picada no meu pescoço: os dentes de Malu me arranharam quando a empurrei. Coloquei a mão no local e senti uma ardência. Olhei para os meus dedos e percebi sangue. Começou a ventar forte lá fora e uma corrente de ar fez com que a porta do mausoléu se escancarasse. Senti a corrente de ar que invadia o mausoléu passando entre os meus dedos sujos de sangue. Logo em seguida, um barulho, vindo do interior do mausoléu, da parte que estava encoberta pela escuridão que as bruxuleantes luzes amareladas das velas não tocavam. Madeira estalando? O vento, claro, o vento.O cheiro de mofo ficou mais forte, quase sufocante, minha garganta ardeu e minhas narinas deram sinais de congestão. Sou alérgica. Cheiro de terra e de roupa apodrecida. “Machucou muito? Desculpe, desculpe”, disse Malu, pegando em minha mão, curiosa com o sangue.
O barulho agora de alguma coisa que se arrastava. O vento, lógico, o vento. Mas alguma coisa parecia arrastar-se pelo chão, como um fardo sendo transportado com dificuldade, o material do fardo em atrito com o chão. Uma corrente de ar soprou novamente, com muita força, e as velas se apagaram. Meu coração disparou. Malu riu, porém foi um riso breve, daqueles nervosos, que logo cessam. Ela segurou na minha mão, sua mão quente, quase febril, levemente úmida na palma pelo suor, eu só conseguia ver o vulto dela no escuro, e os cabelos, os longos cabelos com seu cheiro forte e embriagante. O som do fardo que se arrastava parecia mais próximo, bem perto de nós.
Ao acender as velas reparei que Malu olhava para baixo, sorrindo, mas havia um traço de lágrima em seu rosto, a maquiagem levemente borrada. Ela olhava para baixo e roçava os pés descalços um no outro, como uma criança tensa. O barulho do fardo se arrastando soou com mais força, bem atrás de Malu, que girou o corpo no banco para ver o que era, o que fez com que eu também visse, o homem, que a princípio parecia estar de joelhos no chão, ou talvez, quem sabe, um anão, mas que na verdade não tinha pernas, os ossos e a carne aberta e sanguinolenta na altura dos joelhos, o homem patético, porém belo, e sua estranha beleza que nos paralisava, seu rosto de menino, pálido, o homem-menino que não tinha pernas mas que na velocidade de um relâmpago já estava ao nosso lado, com seus braços abertos, braços compridos demais, envergadura de asas de morcego, anormalmente compridos e que barravam qualquer possibilidade de fuga, que terminavam em mãos finas como os galhos do arvoredo, com seus lábios extremamente vermelhos como o vinho que enchia nossas canecas e que acabava de ser derrubado da mesa com o movimento de nossos braços assustados, o homem-menino-de-rosto-branco-de-lua que abria a boca com dentes caninos enormes e ameaçadores, o homem cujos olhos brilhavam mais nas trevas do que as velas que tinham se apagado novamente, deixando no ar aquele odor de cera, o homem-menino-sem pernas, vestido com farrapos putrefatos, enegrecidos, e que tinha parte da cabeça descarnada.