Intervalo

14 06 2009

Senti um vento muito frio bater em meu ombro e estranhei, porque fazia sol e não vi nenhuma folha que cobria o chão se mexer. Me virei para perguntar à Lilian se ela havia reparado na repentina lufada de vento quando vi um teto pintado de branco com pequenas rachaduras e ouvi um som agudo que aumentava de volume. O despertador, meu quarto- se ainda fosse a Casa da Salamandra de Lisieux- e a mão gelada de Sofia pousada em meu ombro. O “você nunca ouve o despertador” misturou-se ao cheiro de amaciante e de cabelo do lençol como o chocolate em pó se mistura ao leite. Na minha época, as pessoas costumavam dar bom dia. Hoje, as coisas mudaram e estamos casados há x anos. Ah, sim, o vento frio, mas o caminho repleto de folhas e o sol de inverno junto com a Lílian ficaram para trás. Restava o banho frio- porque era verão. Mais o café, as torradas, uma conversa que não ia muito longe- caminhada de monossílabos que quase não venciam as barreiras do jornal e da revista de fofocas- e o ônibus bege a caminho do centro da cidade.

Foi logo após o acesso de tosse, eu esperava outra coisa, não me espantaria nem mesmo em expelir sangue, após tantos anos enchendo e esvaziando cinzeiros. Tenho certeza de que não foram aquelas estrelinhas que você vê depois que comprime os olhos, tenho certeza de que foi uma palavra, quem sabe um nome, mas não digo nem morto que palavra nem que nome eu vi, porque sou discreto e não quero comprometer ninguém, ainda que esse alguém seja uma mera palavra (infelizmente, é muito mais do que isso). As palavras, pude perceber, têm a capacidade de flutuar e brilham, o que me remeteu a um daqueles seres que vivem nos abismos marinhos, aqueles que nadam em câmera lenta, sós, completamente sós e que lembram lenços agredidos por arame farpado. Eu descobri tudo isso no momento em que vi a palavra e comecei a acreditar naquelas teorias que falam a respeito da relatividade temporal.

Eu não tinha muito o que fazer além de observar a danada da palavra que flutuava como um peixinho por cima da pia de aço inoxidável. Eu poderia ter chamado a Sofia, mas provavelmente ela já estava debaixo do chuveiro recitando listas de compras e, além disso, eu senti que uma certa privacidade entre nós, entre mim e a palavra, era necessária. Tive medo da chegada da Sofia espantar a palavra. Imaginei o silêncio sepulcral invadindo a cozinha, subindo do chão para o teto, como um gás, sobrepondo-se ao silêncio pré-existente, formando uma pilha de silêncios que, cedo ou tarde, nos esmagaria. Um pouco de egoísmo também, eu confesso. Não tive vontade de compartilhar aquele momento com mais ninguém. Eu e a palavra, éramos suficientes, nos bastávamos, o mundo podia acabar lá fora, ficaríamos só nós dois, eu a palavra: eu, parado, em pé, com um pano de prato pendurado no ombro e as roupas em desalinho, e ela, a palavra, dançando o seu balé aéreo.

Notei um detalhe: a danada da palavrinha não projetava sombra e também tinha uma área transparente nas bordas de cada letra que a compunha. Mantenho a idéia de não dizer nada a respeito do significado da palavra (guardo-o como um alquimista), portanto, limitar-me-ei ao terreno da fisionomia. Como sou bom fisionomista, estou certo de que o relato terá algum interesse e sua leitura será menos maçante do que a leitura da seção de economia. O que posso dizer das cores? Pelo menos cinco delas compunham a pigmentação da pele da palavra e eu nunca as havia visto antes. Enquanto eu tentava confirmar o ineditismo daquelas cores, fui pego de surpresa por um novo acesso de tosse.

Eis que expeli uma nova palavrinha, que logo se juntou à primeira. O movimento das duas formava o símbolo do infinito no ar. Qualquer pessoa entraria em pânico, mas aquilo foi motivo de felicidade. Foi um grande alívio porque durante anos eu imaginei que era incapaz de falar. Sim, eu era capaz de ouvir o som da minha própria voz e recebia respostas (muitas foram evasivas, mas dane-se, se responderam é porque ouviram). Também tive oportunidade de gravá-la. O problema é que muito do que eu disse num caso em particular não foi ouvido, por isso, a desconfiança. Pior, não foi registrado. Foi como se eu não tivesse aberto a boca. Ou então tudo o que eu disse foi tomado como polidez e até mesmo mentira e, consequentemente, esquecido. E eu sei que expeli aquelas palavras espontaneamente. Agora eu me recordo: elas formaram no ar figuras ainda mais belas do que a do infinito, porque o infinito é um pouco assustador. Não houve ensaio. Eu não irritei a minha garganta para forçar a tosse. Demorei para descobrir que as minhas palavras não surtiram efeito algum. Eu cheguei a desconfiar disso, mas, como dizem, a esperança é a última que, então eu esperei durante um longo tempo, até constatar que eu entrei naquela história mudo e saí calado. Outras palavras foram ditas, não por mim, por outros, palavras parecidas, sinônimos, e foram registradas, por isso pensei: o problema é meu. Eu é que sou mudo. Não compreendi a dor. Eu a entenderia, caso tivesse reprimido a dança das palavras. O acúmulo delas na minha garganta, a pressão, sim, nesse caso, faria sentido. A dor ainda incomoda, como aquele cano que range na madrugada, aquele móvel que estala. Mas não me assusta mais. Não me surpreende.

A dupla de palavras começou a voar em círculos perto da janela da área, que estava fechada. Senti que elas queriam sair, porque se aproximavam do vidro e o tocavam com seus cílios quase transparentes. Tive um impulso de atraí-las para o meu bolso. Mas como? Com alguma isca, uma guloseima. Mas o quê? O que palavras comem? Então percebi o quanto esse ato seria egóico. Estendi as mãos e afastei delicadamente as palavras do vidro; pude até sentir seus cílios tocando o dorso de minha mão. Abri a janela e deixei que elas fossem. A dupla vôou, contente, até desaparecer do meu campo de visão. Foi triste, mas dormirei tranqüilo, pois acho que agi certo. E uma noite tranqüila de sono é melhor do que encontrar uma nota de 500 centavos perdida no chão. Agora, depois desse acesso de tosse, eu percebo que não sou mudo, só que tanto faz, porque fui mudo num momento em que eu disse tanto e não é possível voltar no tempo, apesar da relatividade. O caminho coberto por folhas, o sol de inverno e a Lílian ficaram para trás. Resta o silêncio de tudo o que foi dito.


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