Sobre uma jangada de pães, e sobre Karla

19 06 2009

Impossível esquecer aquele inverno, aquela semana tão curta, quando tudo começou de repente, uma coisa aqui, outra ali, sem combinação aparente, mas com cheiro de conspiração no ar, conspiração metafísica, porque tudo parecia orquestrado, mas por outro lado, as pessoas envolvidas, era como se elas não tivessem a mínima idéia a respeito do que faziam e por que faziam, elas agiam simplesmente a partir de um impulso extremamente forte e de origem desconhecida e é exatamente aí que entra a idéia de algo arquitetado por alguém exterior- ou por alguma coisa exterior; por coisas…

No entanto, uma conspiração serve para alguma coisa, uma conspiração tem um fim, só que não sei dizer que finalidade essa conspiração em particular teve, se é que foi de fato uma conspiração. Eu não sei, fico confuso quando penso sobre isso. Dizem que às vezes é melhor não saber e eu não sei se concordo com isso, acho que não, porque certas dúvidas são uma merda, elas podem te corroer até você ficar oco como uma cabaça. Nisso sou mestre, só não fiquei oco porque me alimento muito bem, aprendi a recuperar pedaços meus, tal como alguns animais são capazes de fazer, e tenho aquela coisa esquisita e louca dentro de mim- e às vezes fora- que chamam de esperança. Pode ser o caso também de não ser exatamente esperança e sim teimosia, até mesmo burrice, mas, sei lá, pode valer à pena: a causa me parece nobre.

Foi numa terça-feira e o primeiro a ser atingido por aquela aparente epidemia de insanidade foi o Juca que, do nada, começou a quebrar sua casa com o objetivo de transformá-la numa catedral gótica. Nas primeiras horas, a esposa do Juca, uma enfermeira chamada Deise- que era gostosa e figurava nas fantasias da molecada da época, eu incluído- até aturou as marteladas, mas fugiu no meio do jantar, depois que Juca usou o purê de batatas para fazer a estátua de uma quimera.

Na quarta-feira, foi a vez do Dr. Mauro, que construiu um tanque no meio de seu jardim com o intuito de criar tubarões. Como a cidade ficava bem distante do litoral, não demorou a desistir da idéia. No entanto, pegou seus pertences mais caros, colocou-os numa mala e mudou-se para o tanque- vazio, lógico, já que ele não era um tubarão.

Na quinta-feira, Marlene, uma pacata e reservada professora de matemática começou a andar pelas ruas da cidade imitando coreografias de antigos musicais. Nesse mesmo dia, Gilberto, dono de uma granja, invadiu a emissora de rádio local e recitou um mesmo poema de Casimiro de Abreu quarenta vezes. À noite, quando o restante da população atônita pensou que nada mais iria acontecer, Túlio, o dono da lanchonete, colocou uma escada no topo de seu telhado, pois queria subir aos céus para beijar a lua.

Sexta-feira, treze- será que…?-, e a cidade ficou com o café da manhã incompleto, sem os pães, porque João, o padeiro, levou-os para a lagoa e resolveu construir uma jangada com eles. É claro que João afundou rapidamente- deve ter sido o naufrágio mais rápido de toda a história náutica- e aquele deve ter sido o dia mais feliz das vidas dos peixes e dos patos. À tarde: pessoas que passeavam no campo refugiaram-se apavoradas num celeiro porque afirmaram ter sido prontamente atendidas num órgão público. Noite: Dona Flauzina acorda a família inteira ao despertar batendo palmas. Levanta-se da cama, entra no quarto de seu filho que estava fora, na faculdade, e pega a gaita do rapaz. Tocando cantigas de roda, do tipo “Escravos de Jó”, caminha até a sala, como uma sonâmbula, acompanhada de perto por seu marido e filhos boquiabertos, até recostar-se na poltrona e cair num sono profundo. No dia seguinte, rouba o boneco de plástico de seu filho caçula, o Marinho, e o envolve com uma antiga manta, empoeirada e de um azul desbotado. Sai em ritmo de procissão pela cidade até se fixar no coreto, dizendo a todos que aquilo que ela carregava não era um boneco de plástico, mas sim o Menino Jesus de Willoughby, que viera salvar as pessoas solitárias, os filhotinhos de cães e as sementes de mostarda, conforme havia visto em seu sonho.

Como vocês puderam notar, nada de realmente grave aconteceu, exceto um homem que foi agredido por uma sopa. A coisa não parou na sexta-feira, o sábado foi igualmente marcado por ocorrências insólitas. A questão é que nada vi, porque foi justamente nesse dia que aconteceu minha primeira experiência sexual, que foi também insólita, não porque eu e ela tenhamos feito coisas tão bizarras na cama (algemas, cremes, livros de auto-ajuda, teatro engajado, você sabe), mas porque começou de um modo não convencional. Nessa época eu era um adolescente que tinha acabado de descobrir o sexo- mas não de decifrá-lo-, cheio de fantasias e ansiedades, ou seja, mais ou menos como sou hoje.

Karla, chamava-se Karla e tudo o que eu sabia sobre ela era uma meia-dúzia de coisas, das quais no mínimo três eram mentira. Ela era mais velha, já estava na universidade e só sei que eu ainda não havia me levantado da cama- falta de coragem, era inverno- quando ouvi um barulho que vinha da minha janela. Ao olhar, lá estava ela, Karla. Ela era tão bonita e eu estava tão surpreso e excitado- havia acabado de acordar, logo…- que nem sei descrever que tipo de roupa ela estava usando. Ela se aproximou da minha cama com a rapidez de um relâmpago e ao mesmo tempo com a leveza de um praticante de Tai Chi Chuan e me beijou antes que eu pudesse falar alguma coisa, é claro, e se eu fosse tão loquaz quanto um Fidel Castro?, ela estaria esperando até hoje, isso já faz uns trinta anos e hoje ela já deve ser avó. Foi tudo muito rápido e muito bom, as roupas dela, que não sei descrever até hoje, caindo no chão como meteoritos, o meu ridículo pijama. Jamais vou me esquecer dos cabelos dela, castanhos, do cheiro que tinham, leve perfume misturado ao perfume natural, the best of all. Dos olhos pretos, dois céus noturnos. De seus ombros alvos, macios e quentes, que os raios de sol invasores do quarto tentavam beijar com tanta sofreguidão quanto a minha boca trêmula. De seu colo, dos seios, das coxas. Do seu sexo, do momento em que me senti homem de verdade, finalmente, sensação de (re)encontrar um abrigo e um calor iniciáticos que eu buscaria para sempre a partir dali. Dos gemidos e do grito último, mas não menos importante. E ela se foi, assim como chegou, pela janela, sem explicação. Nunca mais a vi.

Naquela sábado, portanto, nada vi, por ter visto muita coisa, mais do que eu poderia imaginar. No domingo, tudo voltou ao normal. Nada de pessoas navegando em pães ou de cenas de filme mudo. Todos evitaram o assunto- ninguém se arriscou em aprofundar investigações- e seguiram suas vidas. Lá se vão trinta anos, nos quais nada demais aconteceu, além da rotina, que de tão chata chega a ser absurda, e que por isso, também parece fruto de um motim cósmico.


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