Uma estranha concentração de pessoas numa madrugada de quinta-feira na porta de um restaurante que serve pratos mediterrâneos- ao menos no cardápio e no sotaque snob do garçom- não chamou atenção alguma da imprensa, que por sinal não estava presente na festa comemorativa-e-à fantasia dos três anos de aniversário do blog O Sublacustre. Na vitrine do restaurante, cuja vidraça encontra-se num tom tabaco muito provavelmente por conta dos fumos que insistem em escapar da cozinha que fica no mezanino, estava um cartaz feito de pano de prato, daqueles de origem hippie e até mesmo mambembe-alternativa, no qual era possível ler, em letras panais- pois se garrafais fossem, seria justo que estivessem gravadas numa garrafa- “Traje livre; use qualquer coisa, desde que o tema seja subaquático”.
Na calçada em frente ao restaurante jazia um sofá vermelho, cujo forro do acento estava rasgado, e uma mola emergia dessa fenda tal qual um bicho saindo de uma maçã- o sofá era vermelho, o vermelho é uma cor erótica e todo mundo sabe a que uma maçã cortada ao meio remete (assim como as orquídeas e as ostras, que são ligas metálicas igualmente afrodisíacas). No entanto, isso não interessa, porque o sofá não disse a que veio, certamente por timidez. Pode ser até o caso do sofá ser um agente secreto, vai saber? Ainda assim, isso realmente não tem interesse algum para os nossos propósitos.
De fato, muitas pessoas que estavam no interior do restaurante trajavam roupas de feição subaquática: a maioria, de homens-rã, uma minoria, de escafandro, por causa do tempo abafado, o que é perfeitamente compreensível. Apenas as garçonetes usavam trajes, digamos, terrestres: 1/3 do corpo servente vestia uniforme de cheerleader, o outro terço, uniforme de amazona, e o terço restante, que não era a banda de brazilian prog rock nem o objeto religioso, biquíni de peças amarelo-canário. Estavam uma graça, por sinal. E eram habilidosíssimas com as bandejas, aquelas adoráveis mocinhas.
A festa teve três partes. Na primeira parte, um coquetel, onde foram servidos canapés de espaguete à carbonara (linguiças subversivas que viviam nas florestas alemãs e italianas), croquetes de camarão com bife, sanduíches chineses do tamanho de uma cabeça de alfinete- sabor não identificado- e pizza de tamarindo. Pães fariam parte do cardápio, mas o Padeiro Lagosta comera tudo outra vez, aquele malandrão. Para beber, vodka à milanesa e água insípida e inodora. O autor, que fez um discurso na terceira e última parte da festa, bebeu com moderação, mas ficou tonto depois de dar algumas voltas na cadeira giratória, por causa de uma discussão a respeito de geometria Não- Euclidiana que teve com uma mosca. O som ficou ao cargo dos maravilhosos, fantásticos, monstruosos, nojentos, absurdos e impagáveis (o cachê é caríssimo, até o 20° aniversário quitamos, Deus é pai) caras do Mean Dad’s Combo, banda obscura de jazz-blues-rock-tecnho-dodecafônico. Um momento igualmente impagável- e inesperado- foi o cozinheiro incorporando Stockhausen e dando um concerto para dois garfos e um açucareiro . Houve ainda participações especiais do Residents, Katy Perry e do Tutuca, cantando Unchained Melody, como nos bons tempos do teatro de magazine. Um homem que entrou por engano no restaurante foi confundido com o Walmor Chagas e ovacionado: isso aconteceu exatamente às 3:00 da madrugada e todos pensaram que se tratava de uma das surpresas da festa. Mas não foi. Ah, sim, não falamos sobre a segunda parte da festa. Na segunda parte da festa, o autor distribuiu autógrafos, usando uma caneta de nanquim fosforescente. Depois de duas horas e meia de autógrafos, o autor declarou, com a mão enfiada numa terrina de patê gelado: “Meu pulso não doía desse jeito desde a adolescência”.
Os convidados receberam brindes, é claro, não usufruíram apenas da boca-livre que nos custou os olhos da cara- redigi este artigo usando os olhos que peguei emprestados com meu caracol: algas lacustres, feitas de açúcar e espinafre (sabor hortelã strong, do tipo black Halls) e canecas para cerveja sem fundo.
A festa terminou quando os primeiros raios de sol já pingavam no asfalto e só terminou ja auch por causa do número realmente expressivo de reclamações da vizinhança. A palavra “balbúrdia” apareceu em 300 das 234 reclamações, de acordo com o telefonista da polícia, que ficou com as orelhas em pandarecos.
Pois é, acabou (Parabéns, Sublacustre), terminou, ano que vem tem mais, a vida é assim mesmo, c’est la vie, não se vive só de festa, voltemos ao trabalho, felizes são os caras do Kiss que têm rock’n’roll toda noite e party todo santo dia ( incluindo os dias pagãos). Faltam apenas 364 dias para a próxima festa. Nos vemos lá. Beijos (e abraços e, e) para as mocinhas e cumprimentos cool humphreybogartianos para os brotha.
Enquanto você continuou firme e forte com o seu blogue, quantos eu fiz e apaguei? hahahahahahaha… O importante é que, por mais que as coisas mudem e os rumos se separem e essa coisa clichê toda, a sua escrita continua divertidíssima, non sensin’, britanicamente cheia de trocadalhos do carilho e… Genial! Não imaginaria tal festa de outra forma. Bisous, Driekie, e até mais ler
Puxa, muitos, mas deve dar pra calcular com uma Regra de Três, hahahahaha. Obrigado, liebling, meus olhos ficaram meio subaquáticos com a homenagem. Küsse e até mais ler!