Viscoso

22 12 2007

Não reconheci minha sala quando a olhei de fora de casa, tinha saído para pegar o jornal de madrugada. Por um instante muito breve, aquela sala não era a minha sala, a sala pela qual eu havia acabado de passar. Era como se eu olhasse um quadro retratando um ambiente que me era estranho ou uma foto mostrando uma sala alheia. Ainda assim, entrei, porque tinha que entrar, era minha sala, minha casa, já havia pegado o jornal, não tinha mais nada a fazer fora da casa. Olhei para o céu que começava a clarear, aquela estrela insistente e enorme brilhando. Penso que larguei o jornal numa cadeira de vime e pus as chaves num prego que fica pendurado na parede- as chaves balançando, dlin,dlin, pararam.

Não me recordo se voltei direto para o quarto ou se antes passei na cozinha e peguei um café. Sim, eu fui à cozinha, peguei o café, mas não voltei para o quarto. Parei na sala e acendi as luzes. A sala não me parecia mais um lugar exótico, seu clima familiar e hospitaleiro tinha voltado. A velha e boa desordem da sala. Ela esqueceu um casaco na sala e lá estava ele, estirado num sofá. Ainda emanava um leve perfume. Parecia me olhar. Lã que olha, lã que observa atentamente meus gestos desengonçados de não-lã. Toquei o casaco, um afago rápido, porque a lã não responde, a lã não se arrepia, como a pele dela, a penugem não se eriça, não há bolinhas que brotam do arrepio, não há gemidos nem suspiros nem risadinhas nem variações respiratórias, ao menos não percebo isso, meus sentidos não estão treinados para um diagnóstico da lã. Não havia dado tempo para saudade. Não sei por que toquei o casaco. Ela voltaria logo, antes do final de semana, certamente. Ligou cerca de uma hora atrás, eu dormia e o telefone pareceu um boi enfurecido invadindo um tranqüilo e silente oásis. A lua caindo e batendo na minha cabeça, o eco de uma visão de binóculo embaçado. Ela disse algumas sacanagens, fiquei excitado, isso expulsou meu sono. Ela viria antes do fim de semana.

Não queria estar ali. Queria estar em outro estado, outro país. Um dor de cabeça me disse um olá amargo. Esqueci de comer durante o dia, dia cheio, atendendo pessoas chatas que queriam resolver problemas chatos. Não gostava tanto do meu trabalho. Queria ser esgrimista. Ou caminhoneiro. Ou desenhista e projetar coisas interessantes. Poderia fazer quadrinhos também. No ano anterior, tive vários empregos. Me metia em trabalhos curiosos: carregador, encanador, garçom no turno da noite, porteiro. Larguei durante esse ano o escritório para buscar empregos diferentes, uma decisão de Ano Novo. Daí voltei a trabalhar na minha área.

Então, quando você derrama café ou refrigerante ou suco adoçado ou alguma bebida alcoólica. A sola do chinelo grudou em alguma coisa. Olhei para o chão e não reparei em nada. Algo transparente, quem sabe? Não fosse o chão, seria o próprio chinelo. Mas porque só senti o chinelo grudar naquele ponto da sala? Se tivesse pisado em alguma coisa lá fora, sentiria desde o primeiro passo dado na sala, porque o chão lá fora é de pedras. Dei um passo à frente. Nada. Pisei naquele ponto. O barulho outra vez, a sensação de grude, de pisar em líquido viscoso.

Andei por toda a sala e só sentia o grude naquele ponto, naquele taco de sinteco em particular. Repeti a operação de deambular por toda a casa. Nada, nada, nada. Voltava ao ponto e lá estava o grude. Passeei pela casa várias vezes, numa peregrinação louca, numa procissão sem vela nem fé. Pensei em ligar pra ela e comentar: “Olha, tem uma coisa que faz com que meu chinelo grude no chão, mas é só num ponto da sala, no mesmo ponto, já aconteceu com você?”. Mas era tarde, mais de das duas da manhã, creio que ela não gostaria de ser acordada para responder a uma pergunta tão sem sentido. Eu que ficasse com minha dúvida, com meu pequeno mistério.

Eu tinha é que dormir, isso sim, trabalho dali a algumas horas. Fui deitar. Apaguei as luzes do quarto. De barriga pra cima, olhando pro teto azulado com a claridade que vinha do poste da rua. Meus olhos deviam se fechar, mas não, abriam-se cada vez mais. Sabe aquele colírio que o oculista pinga na sua vista e que faz você sentir seu olho inchando, dando a impressão de que ele vai explodir? Pois é. Eu só pensava numa coisa: naquele ponto da sala.

Em segundos, estava de volta à sala. Olhava de longe o tal ponto, o sinteco grudento entre tantos outros que compunham o mosaico do piso da sala. O casaco de lã dela no sofá me olhava também. Acho que estava numa outra posição antes. Te acordei, minha linda? Fui até ele. Ele, o taco. Parei diante dele. Ergui uma perna, desci a perna e pisei. Schruuff, o chinelo continuava grudando nele. Papel de pegar moscas- existe isso ainda? Planta carnívora. Café ou refrigerante ou suco ou bebida alcoólica. Esmalte. Esperma. Cola. A dor de cabeça tinha passado. Que bom. Tomei uma decisão. Sim, aquilo não podia continuar. Fui ao quarto dos fundos. Depois peguei um fone de ouvidos, pluguei no I-pod e comecei a ouvir sambas antigos.

Agachei. Estava diante do taco. Entre mim e você, cara. Somos só nós dois e temos que resolver isso. Fazia calor. Aos poucos, comecei a suar. O suor gotejava, molhava a camisa, a camisa grudando no corpo, tive que tirar. Impressão de que alguém batia na porta, impressão de vozes, mas o samba alto. Sombra, uma sombra que ia e vinha, ritmada, lembrei das sacanagens que ela me falou, o suor escorrendo pelo rosto, os cabelos molhados, tudo molhado, eu água-viva.

Terminado o serviço, levantei e fui em direção à porta da sala. Mal abri e quase um vizinho caiu. Ele reclamava de alguma coisa, esqueci do nome dele, só vi um pijama que reclamava, e havia outros, com ou sem pijamas ou camisolas, rostos sonolentos, alguém já estava de terno, tinha uma mulher com roupa de secretária, todo mundo parecia irritado. Não tinha me dado conta, mas já amanhecera. Não estava sol, tempo nublado, calor terrível. Bla-bla-bla-bla-bla, pessoas reclamando, pessoas reclamam de tudo, não é verdade?

Eu parecia um homem que esteve perdido num matagal por dias. Barba por fazer, suando em bicas, a bermuda esfarrapada que uso pra dormir. É o que devem ter pensado. É o que um espelho me diria. Eu não queria estar ali, queria estar fora, em outro estado, em outro país. Logo, o mato era ali. Eu estava é num matagal, perdido, realmente perdido. Dentes trincados. No entanto, não era uma expressão de ódio: eu sorria na verdade. Não tinha mais dor de cabeça, mas naquele momento meu pescoço me incomodava um pouco…

Numa das minhas mãos eu tinha um martelo; na outra, o taco, o taco que arranquei. O taco viscoso, o taco que prendia o chinelo, que o atraía como um ímã. Andei na direção da lixeira. Abri a tampa. Ergui o braço, segurando o taco viscoso com o polegar e o indicador, como quem segura um rato morto pelo rabo. Joguei e o taco sumiu na escuridão do plástico preto que forrava a lixeira. Nem fez barulho ao cair lá dentro. Fechei a tampa. Fiquei parado diante da lixeira por alguns instantes. As pessoas, as pessoas olhando de longe.





O buraco na areia

6 12 2007

Lembro bem do dia em que vi Laís pela primeira vez, uma cena difícil de se esquecer. Ela parada na calçada, coberta por uma tinta cor de uva, e chovia, a tinta escorrendo pelas suas pernas, pintando as poças da calçada, que se alargavam, como o vinho derramado numa toalha branca. Depois descobri que não era tinta que cobria o corpo de Laís, era vinho mesmo, ela acabara de quebrar várias garrafas numa loja, nunca descobri por quê. Acostumado que estava a lacunas e mistérios, não liguei para aquilo. Já havia visto um homem emitir uma luz verde numa escada rolante, lembro que o homem gargalhava; brilhar parecia a coisa mais feliz que tinha acontecido na vida daquele homem. Também vi uma bola de futebol de salão ser tragada pelo teto; sim, tragada, ela não furou o teto, o teto a engoliu, absorveu-a como uma esponja absorve líquido. Já vi pessoas serem execradas pelos motivos mais banais ou mesmo por nada, assim como vi gente da pior espécie ganhar aplausos. Mas nesse dia, tirei-a dali, fomos para um hotel. Transamos por horas e também ficamos mudos por horas. A palavra parecia ser algo proibido dentro do quarto daquele hotel e isso foi um acordo tácito. Conversamos muito com os olhos e com as mãos. Por que aquele quarto de hotel parecia um túmulo? Talvez porque nós estivéssemos mortos. Ou prestes a morrer. Não sei. Eu não sabia, ela também não, embora ela pareça ser bem mais esperta do que eu. Esconde sua sagacidade num sorriso bobo.

Laís era uma náufraga da vida e foi minha tábua de salvação naquele momento, porque eu, igualmente náufrago, estava na iminência de descer para as profundezas geladas. Mais do que náufrago, acho que eu era um suicida, porque quis me lançar ao mar, mesmo sabendo que aquela travessia era impossível. Não era a minha primeira vez, parece que gosto de repetir erros. Parece que eu também fui uma tábua de salvação para ela. Fomos úteis um ao outro. Ainda somos. Parece que um salvou a vida do outro. Respeito-a por isso, mas não a amo. Se ela me ama? Creio que não, creio que haja um respeito muito grande e mútuo. É tudo. Talvez não seja o ideal, mas o que é ideal senão uma imagem que passa pela nossa cabeça? Ela teve uma vida muito conturbada e eu também. Agora as coisas estavam nos seus eixos. Há muito tempo atrás eu me peguei, sentado numa poltrona, de manhã muito cedo, pensando no quanto minha vida era aborrecida, porque não acontecia nada. Anos depois eu me peguei sentado não naquela poltrona, mas numa outra, me arrependendo amargamente de ter pensado tamanha estupidez. Nessa segunda manhã de filosofia estofada, decidi não pensar mais a respeito desse tipo de coisa; decidi não reclamar, pelo menos não reclamar demais daquilo que estava ao meu redor, porque paguei um preço muito alto pra descobrir que sempre pode ser pior. Não acredito em castigos, não se trata disso. É apenas uma questão prática, acredite. Quanto à Laís, Laís passou a ver, tanto quanto pôde, as coisas de um maneira bastante superficial. Como ela quase foi ao fundo, ou lá esteve, provavelmente esteve lá, é muito comum que tenhamos estado e não tenhamos nos dado conta, porque lá é escuro, é provável que tenha se agarrado a essa superficialidade por medo. Também se transformou numa pessoa fútil, tanto quanto pôde. A futilidade pode ser assustadora, mas é compreensível quando vista como fuga. E tenho visto demais isso. E ingênua, passou a ser ingênua: eis o porquê da sagacidade escondida atrás do sorriso bobo.

Há muito tempo não íamos à praia. Há muito tempo não íamos a lugar nenhum que não fossem nossos malditos trabalhos e compromissos- leia-se pesadelos- sociais. Portanto, era um feriado prolongado- não escrevi “feriadão” porque me parece bobo esse aumentativo, parece que essa última sílaba opera uma mutação plástica na pessoa que a pronuncia, parece que faz com que a pessoa que diz “feriadão” fique com um queixo tão comprido quanto uma prateleira- e pegamos o carro e dirigimos a manhã toda até chegarmos na praia, que era muito longe de onde costumávamos morar- atenção nisso: “onde costumávamos morar”. Bom. Chegamos cansados e começamos aquele ritual de armar barraca e cadeiras e estender esteira e tirar coisas inúteis e algumas até úteis da bolsa e de nos despir de camisetas e bermudões- você pode perguntar por que não apliquei aqui a minha regra que consiste em evitar aumentativos. Tudo o que posso dizer é que não sei a razão. Ou melhor sei: para mim, o aumentativo de bermuda não me remete a um queixo que cresce exageradamente e que põe em risco a existência de uma sala; não põe em risco a pessoa, a dona do queixo. No máximo, coloca em risco a estética, pois ela fica bizarra.- e chinelos. Só estávamos nós na praia. Estranho, porque era um feriado, deveria haver mais gente. A primeira coisa que fiz depois de cumprir esse ritual foi dar um mergulho. A água estava gelada, mas gostosa. Estava quente. Não fazia sol, tínhamos um mormaço. Quando voltei, sentei-me na cadeira, acendi um cigarro mentolado e pus-me a olhar para o horizonte. É bom olhar para o horizonte. Não sei por quê. Por favor, não me encha de perguntas. Estou realmente cansado. Pra ser sincero, exausto. Pra falar a verdade, gostaria de sumir; não definitivamente. Com isso quero dizer que, naquele momento, gostaria muito de ser tragado pelo teto, como aquela bola a que me referi lá atrás, com a diferença de que, ao contrário da bola, que não voltou- os caras que trabalhavam no ginásio e alguns jogadores foram lá em cima e não viram sinal algum da bola-, eu queria voltar.

Laís estava deitada de barriga para baixo na esteira, tentando bronzear-se com o não-sol- se bem que dizem que no mormaço queima-se mais. Fiquei olhando para Laís, para as costas dela, para a bunda, para o biquíni. Biquínis me dão um tesão, mesmo fora da praia. Eu desatando com os olhos os laços do biquíni da Laís. Para as pernas que ela balançava meio que nervosamente, como quem bate as pernas nadando, num ritmo menos intenso, é claro, enterrando e desenterrando as pontas dos dedos dos pés na areia. Queria que a areia fosse feita de açúcar e canela… Fui pegar no cigarro e queimei os dedos, a porra da guimba colou nos meus lábios e eu odeio quando isso acontece. Estava com os lábios secos e eu odeio quando isso acontece, porque é sinal de que alguma coisa vai acontecer. Eu não sou o tipo de cara místico. Já fui, deixei de ser diante de tanto desencanto. Por outro lado não acredito na ciência. Não sei no que acredito. Laís estava tão distraída que nem notou o quase salto ornamental que dei da cadeira quando a brasa do cigarro queimou meus dedos. Palavras muito belas passaram pela minha cabeça naquele momento.

Laís virou-se de barriga para cima, ergueu-se e sentou na esteira. Logo em seguida, ficou de pé. Olhava para algum ponto que distava de nós uma dezena de metros. Colocou a mão na testa, como quem faz viseira, para tampar aquele não-sol, aquela luz fraca que descia até nós ali na praia. Tinha uma expressão séria. Via alguma coisa que eu não podia ver. Mais do que isso, ouvia, sentia o cheiro, todos os sentidos dela pareciam estar ligados, captando algo que eu não captava.

Foi aí que Laís estendeu o braço e me tocou. E disse baixinho: “Celso…” Foi aí que eu vi, finalmente vi o que ela estava olhando. Ela olhava, como eu disse, para um ponto que distava de nós uma dezena de metros, isso por alto- não sou muito bom para calcular distâncias; não tenho aptidão para cálculos. Era como se a areia naquela altura caísse numa ampulheta, como se a areia estivesse sendo tragada por um buraco, um buraco que começou como um ponto, pequeno, mas que foi aumentando, expandindo seu diâmetro tal como a gota de vinho na toalha branca de uma mesa. Um buraco negro, uma mancha enorme de nanquim se espalhando pela areia. Que era aquilo?

Começamos a pegar nossas coisas, mas o buraco continuava crescendo, de tal modo, numa velocidade tão grande, que decidimos largar tudo lá na areia; só pegamos nossas bolsas e corremos em direção ao calçadão- calçadão também me parece um aumentativo idiota, mas é o que há. Enfim, fugimos. Ridículos, os dois. Ridículos como todos que fogem correndo. Mas sinceramente, não estávamos interessados em cair naquele buraco, até porque não sabíamos se ele tinha fundo. Um aspecto irritante desses acidentes naturais (?) é que eles não vêm com instrução, nem com garantia. Já na calçada, viramos para trás e vimos que o buraco tinha parado de se expandir. Apesar de já ter visto coisas bem absurdas, confesso que aquela coisa me assustou. E, creia-me, não me assustava há anos, apesar de não terem me faltado motivos para.

O fato de estarmos na calçada não nos deu a sensação de segurança que esperávamos. Tratamos de correr em direção ao carro. Entramos e arranquei com o carro, os pneus cantaram como uma soprano louca. Pelo retrovisor dava pra ver o sinistro negrume do buraco, que só foi diminuindo porque o carro se distanciava da praia. Ele, o buraco, continuou lá, em sua fria e plácida inércia, depois da fúria da expansão. Ele, o buraco, não emitiu barulho algum durante sua expansão. Mas tive a impressão de ouvir um riso, um riso contido, mas enervante. Eu devia estar ficando maluco. Ou não, quem sabe o buraco não ria de nosso espanto, de nossa ignorância, de nossa pequenez diante dele. Talvez o buraco tenha rido porque sabia da minha atração por buracos, por cavernas, por coisas escuras e subterrâneas, rido do meu interesse uterino.

Não conseguimos dizer nada um ao outro, dirigia em silêncio. Laís ligou o rádio e pegamos um noticiário começado. Falava da aparição de outros buracos em outros pontos do litoral. Nossa praia- oh, como somos possessivos- estava vazia, mas as outras não, então foram vitimados até aquele momento um vendedor de sanduíches-naturais, um quiosque com seu dono e mais dez clientes, um cachorro, uma bola de vôlei, um golfinho de plástico, uma família de oito pessoas e uma Kombi. Geólogos foram chamados para analisar o fenômeno, mas as explicações não vinham.

Mais havia as vítimas. O tempo passou e foram feitos enterros simbólicos, embora a esperança de que elas voltassem tenha permanecido. E Eu e a Laís lendo aquilo tudo nos jornais e revistas, vendo aquela coisa toda nos noticiários da tevê, conversando sobre a coisa, tecendo teorias incríveis, o que era uma fuga das discussões. Aliás, ao longo dessa época em que buracos apareciam nas areias mundo afora, mudamos várias vezes de apartamento, com medo de que nosso prédio fosse engolido por um buraco. Não sei se buracos mudam de hábito, mas e se começassem a surgir também no asfalto? Tive um pesadelo com isso, Laís teve vários, mas ela não me contou sobre eles. Como sei que teve? Porque ela acordava com uma sombra no rosto, era como se tivesse um véu, e aquilo me lembrava do negrume do buraco. Além disso, ao despertar, ela ficava por algum tempo fincando os dedos indicadores no colchão. A vida tem lá sua graça, porque as vítimas começaram a reaparecer na medida em que os buracos iam sumindo. O vendedor de sanduíches-naturais apareceu no Tibete; o quiosque com seu dono e os dez clientes foi parar no meio de uma exposição em Osaka; o cachorro reapareceu em cima de um muro em Valença; a bola de vôlei e o golfinho de plástico foram encontrados dentro de um daqueles bolos enormes que fazem para comemorações de aniversário de cidade: o aniversário no caso era o da cidade de Manaus, foi engraçado quando cortaram o bolo, a faca esbarrou no golfinho de plástico, e ele explodiu, lançando bolo pra tudo que é lado; a família de oito pessoas foi parar na Austrália e a Kombi, num ponto isolado da Cordilheira dos Andes. As vítimas do buraco não souberam dizer o que aconteceu enquanto estiveram sumidas. Todas voltaram com um sintoma em comum: seus discursos se alternavam entre o gecar e o falar. O golfinho morreu, bolas não dão testemunhos. A Kombi buzinava normalmente, com uma única diferença: sozinha, mesmo quando ninguém acionava a buzina. O cachorro passou a tritinar. Nas poucas vezes em que latia como qualquer cachorro comum, latia de uma forma muito triste, como um cão que sente dor. É possível que essas pessoas tenham visto coisas inacreditáveis e mesmo horríveis, e por isso suas falas tenham sofrido tal alteração. Entendo menos de sintomas, mais de nãotomas, por assim dizer. Sobre os buracos, apareceram em vários pontos do mundo, soube disso depois. Soube também que muita gente sumiu e que também reapareceu em lugares insólitos. Numa manhã acordei e Laís tinha sumido. Procurei-a por todo o apartamento. Procurei por um bilhete. Pensei em descer correndo as escadas para ver se ainda podia alcançá-la, mas detive-me diante de uma mancha no carpete. Uma mancha pequena e escura, como um pingo de nanquim, que começou a se expandir.





É apenas fantasia

10 11 2007

Agachado na relva, agitado, mexia em parafusos, placas de metal, molas, fios, fusíveis, pedaços de plástico, periféricos. Tudo isso estava misturado de forma confusa numa bolsa de couro, e agora, espalhado na grama. Ele procurava por uma peça que possivelmente faltava à máquina que acabara de montar, máquina que estava voltada para o norte. Também havia ferramentas de todos os tipos, que estavam numa segunda bolsa que ele carregara com certa dificuldade até aquela clareira, pois eram pesadas, ambas as bolsas, ele trouxe de casa tudo o que pôde. Parava vez ou outra para conferir um esquema traçado numa folha de papel: era quando largava as peças e ferramentas que tilintavam ao caírem no solo. O barulho atraiu uma fada que lia atentamente um manuscrito gravado numa pétala de flor. Curiosa com aquela agitação que quebrava o silêncio da floresta, abandonou o aconchegante arbusto onde se distraía e flutuou até a clareira onde se encontrava o rapaz. Flutuar no ar não é como flutuar numa piscina. Sei flutuar numa piscina; no ar, não sei, por isso não posso descrever os detalhes da flutuação da fada. Qualquer coisa que eu escrevesse a respeito disso seria mera especulação e até mesmo mentira, e, portanto, não o farei. Peço desculpas por isso.

Percebendo a possibilidade de diálogo, os canais abertos no ar, a mudança nas cores do vento e a pulsação dos galhos das árvores próximas- porque o diálogo entre elementais e humanos é raríssimo; e o diálogo entre humanos e humanos também está se tornando igualmente raro, algo triste de se constatar- , perguntou ao rapaz:

- O que faz?

- Tentando consertar uma coisa. – respondeu sem tirar os olhos do complicado esquema traçado na folha de papel.

- E o que é essa coisa?

- Uma porta, uma passagem para um lugar aonde eu ia sempre e que se fechou, não sei por que, talvez um acidente, talvez a mudança de temperatura, alguma peça que se soltou da máquina, eu não sei… só sei que gostava de ir para lá.

- Por que não vai a outros lugares? Daqui, do seu mundo…

- Não tenho para onde ir…- respondeu com o olhar distante e triste. Olhava provavelmente para o local onde a porta costumava se abrir, ponto que para outras pessoas seria o nada.

- É apenas fantasia.- disse a fada num tom amável.

- Eu sei… – respondeu o rapaz. Parecia amargurado e confuso. – Mas é tão bonito lá…

- Você tem o seu mundo, seus afazeres… – continuou a fada.

- Não gosto daqui. Tudo daqui perdeu o encanto, é como se tudo tivesse sido coberto por fuligem ou lama, sabe?

- Eu sei. – A fada ficou pensativa.

Ele também pensava. Buscava uma razão para o fato. Erro ao calcular os ângulos? Estaria a máquina realmente voltada para o norte? Era o que dizia a bússola. Sempre deu certo, desde a primeira vez, contrariando expectativas. Por que não funcionava? O que tinha acontecido? Um dos infernos é o não saber. É melhor saber, acredite, por pior que seja, é melhor saber. Quando se sabe, há um impacto inicial que traz dor, mas é dor que passa. Quando não se sabe, a dor permanece.

Enquanto isso, a fada lia os pensamentos do rapaz. A priori, pensou que se tratava do mesmo que vinha observando em todas as pessoas que passavam pela floresta, escapismo, medo de crescer, medo do retorno de dores anteriores, retorno que parecia eterno, da descida ao inferno medíocre e ao mesmo tempo excepcional, tipo de excursão em que todos os humanos se metem, mesmo quando estão de férias. Ela nunca compreendeu a razão de tanto sofrimento, nunca entendeu por que uns torturam tanto os outros, grandalhões confusos, perdidos… Mas essa leitura foi rápida- porque as fadas captam tudo de um jeito muitíssimo rápido-, e ela viu que não era o caso daquele jovem rapaz: não era à toa que ele queria fugir. Decidiu ajudá-lo, embora essa atitude pudesse contrariar certas leis. Essa decisão foi igualmente rápida para nós, humanos, porque a contagem de tempo dos elementais é completamente diversa da nossa.

- Gire a chave para a direita e para a esquerda, faça isso três vezes. – disse a fada.

- Como é?- perguntou o rapaz, que estava enredado por suas dúvidas.

- A chave, gire-a para a direita e para a esquerda. Faça isso três vezes. Depois, digite no teclado a tecla A, também por três vezes. Faça o mesmo com a tecla C. Por fim, comprima a mola que fica próxima ao cabo amarelo.

- Ta, entendi.- e ele executou a operação ditada pela fada.

- E agora?

- Espere…

Silêncio, nada podia se ouvir na floresta, o que é, convenhamos, difícil. Nada de som de pássaros, nada de som de insetos, nada de som de pequenos e de grandes mamíferos que costumavam circular por ali, nada de som de folhas e de galhos, nada de som da água que corria no regato.

- Não aconteceu nada!- reclamou o rapaz.

- Espere mais um pouco- disse a fada.

- Não é possível abrir mais esse portal… Sinto muito.

- Não! – gritou o rapaz. Você já viu uma expressão de desespero? Se viu, pense nisso, e poderá visualizar claramente a expressão do rapaz.

- Sinto muito!- repetiu a fada. E ela sentia muito mesmo, não era apenas modo de dizer.

Grossos pingos de chuva batendo na máquina, na relva, no rapaz, em tudo que estava abaixo das nuvens, quebraram o silêncio sepulcral da espera de que algo ocorresse. A máquina entrou em curto-circuito. O rapaz ficou imóvel por alguns instantes, com o desespero ainda estampado em sua face. Aí ele se levantou e começou a correr. Para onde correu, não se sabe… Se a fada não soube, imagine eu. Tudo o que nós- eu a fada- sabemos, é que ele não correu para onde queria ir.





Argolas e Pinos

28 10 2007

Um texto era o que eu via claramente, um texto cuja redação era incessante. Não era texto escrito manualmente, era texto digitado, apesar de eu não poder ver quem o digitava e como o fazia- se com máquina de escrever, creio que não, pois não ouvia som algum e máquinas de escrever emitem algum som, ou com um computador. O espaço das folhas era preenchido com uma velocidade grande, mas que não chegava às raias do absurdo. O texto crescia e esse detalhe não me era o mais incômodo, o que me incomodava realmente era o fato de não saber do que tratava o texto, que tipo de texto era esse, se era artigo acadêmico, se era crônica, se era conto, se era um romance que acabara de explodir… Tampouco sabia em que idioma o texto estava sendo redigido, confesso que podia ver os caracteres, mas não conseguia lê-los, nem uma palavra sequer. Sem formatação aparente, como trepada sem corte de palavras, silenciosa, daquela que estoura só com olhares e gestos, selvagem, rápida, de pé, tendo como cama uma parede, com calças e saias e cuecas e calcinhas descendo como as argolas descem nos pinos naquele jogo que não sei como se chama. Não consigo descrever a que distância eu me encontrava da folha- que estava entre mim e a janela do quarto; antes que perguntem, não, a folha não aparecia na vidraça da janela, porque entre mim e a vidraça da janela existe uma persiana preta-, se é que era folha, podia ser uma tela. Agora, pondo em ordem meus pensamentos, percebo que era sim uma tela; aliás, é uma tela, porque o texto continua sendo digitado, digamos, apesar dos não-dedos, apesar da não-presença do digitador, então seria um prestidigitador? , apesar da não-máquina-de-escrever, do não-computador. No entanto eu disse não-computador. Assim sendo, há um não-monitor, então não-tela. Retângulo? que tenho diante de mim, o que és? O que estou dizendo? Se és texto mas não estás impresso em papel, nem aberto em tela, não és texto, és um não-texto. Entretanto és texto porque vejo em ti todas as características de um. Chamar-te-ei de Avantexto, texto fantasma, pareces com as palavras que não disse a ela, palavras fantasmas, logo, Palavrasmas.

Linha após linha, o Avantexto crescia como um bolor, como massa misturada com fermento podre em tabletes, como carne esponjosa, como uma teia de aranha feita em forma de cortina, caía como chuva sem vento. Disse que caía, mas como cair, se é não-forma, se apenas assemelha-se a retângulo? Então não cai, porque não está sujeito à gravidade. Eu durmo e acordo, acordo e durmo, isso durou a noite toda, começou quando ainda estava escuro e dormi e acordei dezenas de vezes, já era possível ver a claridade lá de fora penetrando no quarto através das frestas da persiana e Tu continuas aí, aqui e ali, a crescer. Ambos, Vós, Avantexto, e Ela Fantasma, Elasma.

O Avantexto avança, grotesco. Grotexto. Penso que as páginas já preenchidas somem, quiçá sejam engolidas por uma boca invisível, quem sabe sejam depositadas numa não-urna, nada sei de fato, tudo é mera especulação. Escrevo em nome do desespero do não-saber, atacado pelo não-saber como um porco-do-mato picado por vespas. O Avantexto e sua presença opressiva. A densidade daquilo que desconheço. Não, palavra infeliz. Não. Não somente em casa, saio para trabalhar, para resolver as coisas, ônibus, metrô, caminhada nas ruas, trabalho, estudo, como, converso, fumo, mijo, muitas horas se passam, o avanço do tempo é parecido com o progresso do Avantexto, se é que se pode chamar de progresso o avanço do Avantexto, já que desconheço seu escopo, e o Avantexto me acompanha, Elasma idem, o Avantexto com sua sobrecarga de palavras escritas que não leio, Elasma com seu excesso de ausência de palavras faladas que só ouço internamente.

Custa-me escrever, cada letra vem com uma gota de suor que brota da testa, cada letra é uma gota de teto de caverna, cheia de calcário, que quando cai faz um plosh que reverbera assim como a imagem de Elasma se multiplica na Casa-de-espelhos-deParque-de-Diversão que tem sido minha cabeça, cada palavra é um trabalho de estiva, trabalho penoso, tripalium, sento e levanto, ando em círculos, o corpo ficando oleoso, crescendo e diminuindo de maneira desproporcional e bizarra, tal como ocorreu com Alice, faz calor, faço na esperança de que cada palavra apague a angústia, o Avantexto tira as palavras da minha boca, suga meu repertório como um vampiro, a figura ridícula de alguém arreganhando os caninos, um sombrio dentuço-que-arregala-os-olhos. Um inferno de Jimmy Hatlo, embora eu não tenha rabiscado nas toalhas de mesa de restaurante, um inferno polar do Zé do Caixão, com pessoas presas pelo gelo nas laterais de um túnel, embora eu não tenha pecado, praticamente.

Repare como são as coisas, eis que olho e o Avantexto não está mais aqui, ele sumiu. É possível erguer P com os dedos indicadores, desde que as mãos sejam colocadas umas sobre as outras- e que ambas as mãos de um mesmo operador não se toquem- na cabeça de P por um breve intervalo. Primeiro veio um alívio, alívio muito grande, foi cansativo aquele cinema incessante, aquele videoclipe que parecia infinito, um pergaminho que se desenrolava como uma estrada que liga vários Estados, porque o movimento do Avantexto era mecânico, instintivo, ele seguia em frente e ponto, nothing more left to say, Mas depois vieram o vazio e o medo, cara, nem sei de que exatamente, para ser sincero. A cabeça oca, o cansaço, a angústia pressionando o peito. Veio uma vontade de rir, riso antes nervoso que alegre, também de chorar, as palavras parecem sempre insuficientes para expressar as coisas tal como elas se passam, ainda mais agora que o Avantexto roubou-as de mim e foi-se, simplesmente foi-se, deixando vazia aquela distância entre mim e a janela, a distância entre mim e o quarto de onde fugi, para não voltar mais a não ser na hora em que o sono aparecesse para roubar-me o estar desperto, o espaço retangular que crescia para baixo, agora desocupado, eu tentando encontrar explicações, para quê?, é assim mesmo, a coisa acontece e você fica com cara de máscara de borracha enquanto balança a cabeça como quem diz “Sim”, com aquela sensação de querer voltar para um pesadelo, embora esteja aliviado por despertar, apenas para buscar o sentido que ele encerra, para buscar a porra da chave que ele contém, o tal do significado, nesse momento um solo de trompete vem lá da rua, um carro-de-som, não-trompetista solando, e eu aqui, Avantexto algures, porque se foi, sem maiores detalhes, nem menores, nem sórdidos, nem belos. Faz um calor grande, e o mundo tem um céu líquido, uma terra gasosa e mares, lagos, lagoas e rios de consistência gelatinosa. Você abre a torneira e caem cubos, não gotas.





Vãos de escada

17 10 2007

Uma vez, ao apaixonar-se por uma moça, um homem percebeu que seu ombro esquerdo tombou. Como tinha uma certa obsessão por simetria, tratou de se apaixonar o mais rápido que pôde por outra. Mas nada aconteceu e ele continuou andando como se fosse um ciclista numa curva. “Vejam só o sujeito da bicicleta de vento”, era o que diziam lá de dentro da barbearia quando o homem passava por ela. Quando ele passava em frente ao supermercado, gritavam “Perinervo!”. Ao passar pela farmácia, nada diziam, pois o farmacêutico e os clientes que lá entravam tratavam de não acordar a balança, pois ela queria ser um relógio-de-pulso, e quando ela acordava e percebia que não era um relógio-de-pulso, punha-se a chorar lágrimas de adoçante. Isso era mau, porque fazia com que o piso da farmácia ficasse pegajoso. O homem ficou triste. Sendo assim, apaixonou-se novamente pela primeira moça e logrou êxito: seu ombro direito desabou. O homem casou-se com essa moça, numa catedral que tinha a propriedade de girar em torno de seu próprio pátio, quando os casamentos se realizavam na primavera. Ela era uma noiva tão linda, mas tão linda, que os anjos dos vitrais ficaram com as faces coradas quando ela atravessou a nave central. O casal teve dois bebês: no dia do nascimento do primeiro bebê, o ombro esquerdo do homem ergueu-se; no nascimento do segundo bebê, o direito. Li isso no jornal pela manhã e pensei cá, com meus botões: “A vida é bonita”, e passei a mastigar as maçãs de um modo muito mais generoso.

Ontem eu beijei minha parede, e consegui ver na grave retidão dela suaves curvas suas.

Sabe-se que uma ninfa, para escapar do assédio de Pã, fez-se bambu, do qual Pã fez uma flauta. Faria de você uma orquestra.

Conheci uma moça que atrasava relâmpagos com sua tosse.

Comprei uma planta que bebe café-com-leite e que cita versos de Drummond.

Vampiros temem morsas.

Cortinas são criaturas solitárias.

Um homem transformou-se num regador após comer um pedaço de torrada integral.

Num planeta de ferragens, os quatro elementos são: martelo, artelo, fogotelo e terratelo. Nesse planeta, os parafusos dançam balé e há 55 signos no zodíaco.

Um sujeito decidiu sapatear no interior de uma biblioteca, e isso irritou imensamente as pessoas que lá estavam para estudar e pesquisar. Chamaram os seguranças que, ao chegarem no recinto, igualmente começaram a sapatear como dançarinos ensandecidos de musicais. Alguém teve a idéia de pegar uma boneca inflável, vestí-la de enfermeira e colar a mão da boneca junto aos seus lábios. Levaram a boneca para a biblioteca e puseram-na diante do homem e dos seguranças, que sapateavam sem parar um segundo sequer. Daí alguém pegou um alfinete e pic!, espetou na boneca, que começou a esvaziar com um chiado, “Shhhhhhhhhhhhh”. Senhoras e senhores, estética de videoclipe. Ah, sim, o homem e os seguranças pararam de sapatear imediatamente, bem entendido.





Os Campos de Ialu

13 10 2007

Minha intenção não é outra senão a de narrar os fatos ocorridos naquele verão de 1982 da maneira mais fidedigna possível. Acompanhei inicialmente a estória pelos jornais e fui testemunha ocular de seu desfecho porque fui vítima- talvez vítima seja uma palavra por demais dramática, mas enfim…- de um acidente medíocre. Não sei se posso dizer “Tive a sorte de estar lá no exato momento em que…”, pois a cena que vi junto com muitas outras pessoas perturba-me até hoje. A sorte, portanto, seria o prêmio para aqueles que se encontram comigo e que querem estar a par da estória.

Começo pelo que soube através da leitura de jornais e revistas, por coisas que foram publicadas e comentadas por pessoas mais próximas após o encerramento do caso. Devo advertir que é uma estória incompleta, carregada de muitos pontos obscuros e de saltos no tempo. Era uma família sem muitas posses, pais e dois filhos homens, com uma diferença pequena de idade entre os irmãos, dois, três anos no máximo, é o que parece. O irmão mais novo morre, ao que tudo indica, vitimado por uma meningite. Não é desnecessário dizer que foi uma tragédia, que esse acontecimento representou uma ave negra que abriu suas enormes asas projetando uma infeliz e amarga sombra na família. Os pais, que eram pessoas falantes, emudeceram. O filho sobrevivente, o mais velho, que já possuía uma forte tendência à introspecção, mergulhou nela obstinadamente. Contam que os jantares naquela casa pareciam quadros de natureza morta, apesar da presença de pessoas na mesa, diante daqueles pratos e talheres e pães e frutas. Num desses jantares, o pai morreu: seu último movimento foi levar uma colher de sopa à boca, e assim ele ficou, exatamente nessa posição, com o braço segurando a colher diante da boca. Congelou, como se um expectador invisível tivesse apertado a tecla de pausa de um controle remoto. Ele ficou lá, sentado, como uma estátua de museu-de-cera, com um sorriso nervoso nos lábios, sorriso de quem faz pose para foto, de praticante de ginástica aeróbica, de dançarina de programa de variedades, tal qual um carimbo, uma caricatura bizarra dele mesmo, sorriso provavelmente provocado por alguma dor que sentira antes de morrer, até que o carro da funerária o levasse embora. Não se sabe a causa mortis daquele jovem senhor. A mãe, desde esse fatídico dia, só saía de sua cadeira de balanço para tomar banho, alimentar-se- mal, muito pouco- e para voltar ao quarto para dormir. O rapaz, que era ainda um estudante na época desses eventos miseráveis, foi obrigado a largar os estudos para trabalhar numa farmácia. Mas parece que lia muito e compensou com isso a sua ausência do mundo escolar. Vivia na biblioteca da cidade, nas horas vagas. A presença dele chamava a atenção, pela alta estatura, pela compleição física- era forte-, e pelo fato da expressão facial ser marcante. Anos depois, a mãe morreu e ele ficou só no mundo.

Era um bairro relativamente tranqüilo, sem histórico até aquele momento de muitos roubos, furtos, assassinatos, acidentes. Ocorriam incidentes aqui e ali, mas nada de extraordinário, o que por si só já era de certa forma extraordinário, levando em consideração o fato de estarmos numa cidade grande. Foi então que tudo começou. Havia- e ainda há- um parque em nosso bairro, onde as crianças costumam brincar, onde os jovens se encontram para namorar, aposentados jogam partidas de xadrez , damas ou jogam cartas, enfim, uma praça, como eu poderia dizer?, bastante praça. É tudo, eis a descrição. Pois bem, uma menina brincava com sua boneca, quando um vulto passou e arrancou o brinquedo de suas mãos. Não é preciso dizer que a menina gritou e começou a chorar, apontando na direção em que o vulto corria. A mãe e outras pessoas que estavam por perto olharam, com espanto, sem entender direito o que estava acontecendo, mas puderam ver com clareza uma figura toda vestida de preto dobrando a esquina do outro lado da rua, enquanto acudiam a pobre criança em seu desespero de brinquedo roubado. Foi possível perceber que se tratava de um adulto, o que fez com que todos ficassem ainda mais intrigados, inclusive o guarda, que coçava insistentemente a cabeça e que tinha um leve tique nervoso: apertar os dentes caninos com o polegar. Por que um adulto roubaria uma boneca? Devia ser um louco. Mas o bairro tinha loucos? Ninguém o sabia… A questão foi discutida na reunião de associação dos moradores e um homem deu um murro na mesa, enquanto gritava “Nosso bairro não tem loucos!”. Ele esmurrou a mesa algumas vezes e repetiu a mesma frase, “Nosso bairro não tem loucos!”. Espumava, como um sonrisal imerso num copo (experimente dizer seguidamente copocopocopo, é legal). Um dos moradores cochichou com outro: “Este velho diz que o bairro não tem loucos. E ele é o quê?”, e o outro perguntou “Acha que ele é louco?”, ao que o primeiro respondeu: “Uma vez eu o vi dançando valsa na rua, de madrugada, sem par. E dizem que ele cria girinos na banheira.”

Alguns dias se passaram, e quando o bizarro caso estava quase esquecido tal e qual o carrinho-de-mão de uma antiga obra que ficou numa esquina do bairro e que virou um mini-pântano, novos eventos se sucederam. Uma boneca roubada na praça novamente, à luz do dia, e sem que ninguém pudesse impedir, outra roubada perto de uma porta de colégio, uma terceira na fila do caixa de uma loja de brinquedos… E só dava tempo de ver a tal figura de preto sumindo numa esquina ou perdendo-se na multidão.

Ele não soube explicar o porquê. Era uma vontade que crescia, que ficava cada vez mais forte, um vício como o próximo cigarro ou a outra barra de chocolate, uma compulsão, já lera sobre isso, só sabia que era incontrolável. Uma vez, teve um trabalho danado. Viu uma menina entrar numa casa, numa casa grande e bonita, com um jardim imenso, cheio de árvores, carregando uma boneca enorme, quase do tamanho dela, parecia uma outra menina, e ele estudou minuciosamente os hábitos daquelas pessoas que habitavam a casa, e aproveitou um dia em que saíram, para pular o muro, invadir a casa, pegou a boneca, não contava com a presença da empregada, teve que empurra-la pro banheiro e trancar a porta, e ela o xingava de todos os palavrões do mundo, ele ficou corado ao ouvir aquelas palavras pesadas que ela gritava, A Pesada das Palavras, chegou a chorar, a maquiagem ficou um pouco borrada, foi complicado escalar o muro carregando aquilo, a tal boneca que era bem grande, agora a polícia já tinha uma descrição, era um homem todo vestido de preto- isso já sabiam, mas não sabiam que era homem, muitas testemunhas afirmavam que a figura usava um vestido preto, como uma viúva-, maquiado, era estranho, afirmou a empregada, era como um travesti, usava maquiagem, muita maquiagem, parecia uma mulher de zona lá da cidade pequena de onde vim, ela afirmava, e era esquisito, porque ele tinha o rosto bem másculo, queixo quadrado, maçãs-do-rosto proeminentes, nariz aquilino, ficava muito estranho maquiado, com aquele batom vermelho, tinha olhos arregalados, olhos de louco, de santo em êxtase, tudo foi muito rápido mas ela pôde reparar nos detalhes, era tão esquisito que ela “gravou tudo na cabeça”, jamais iria esquecer, poderia reconhecê-lo até durante um blecaute, obrigado pela sua colaboração, senhorita, se lembrar de mais alguma coisa, procure-nos na delegacia, etc.

A descrição batia com a figura de Rodrigo, mas que coisa estranha, ele era conhecido no bairro, a estória trágica da família dele ainda estava fresca na memória de muita gente, ele nunca se envolvera em confusão, brigas, bebedeiras, era pacato, solitário, apenas isso, e era compreensível, levando-se em consideração aquilo tudo por que passou. Uma armadilha, tinham que fazer uma armadilha, não era nada tão grave, apenas bonecas roubadas, mas aquilo tinha que parar, aquilo podia dar merda, como disse o delegado, podia acontecer uma desgraça maior, uma morte, sabe-se lá, de qualquer maneira, tinha que parar, as notícias já corriam, “Ladrão de Bonecas à solta no bairro Bloblobló”, era desagradável, ridículo, e a reputação do bairro?, “Nosso bairro não tem loucos!”, berrava o sonrisal-man.

Pois deixaram uma boneca tão bonita, ainda maior do que aquela que ficava no casarão que teve que invadir, não houve jeito, era forte demais, mais forte do que ele, e ele pegou a boneca, nem estranhou o fato dela estar solta ali, sem dona, sem menina por perto, ou se estranhou, não se importou, talvez estivesse cansado daquilo tudo e quisesse dar um basta, pessoas o seguiram, ele subiu devagar a escadaria do sobrado em que morava, bem devagar, sombras lá embaixo, as pessoas que estavam em seu encalço, policiais, curiosos, eu também estava lá, cruzei com ele na escadaria, queria descer, fui ao sobrado tirar uma radiografia do tornozelo que torci horas antes, eu quis descer mas o fluxo daquelas pessoas no encalço dele me empurraram para o segundo andar de novo, aquela correnteza de malucos, ele abriu a porta do apartamento, tudo estava escuro, cruzou a sala, toda escura, uma fraca luminosidade invadia a sala através de um buraco do papel pardo que cobria a vidraça da janela, provavelmente feito por uma traça, ele seguiu pelo corredor igualmente escuro, lá no fundo do corredor, um quarto, uma luz tremulava lá no quarto e dava à entrada do quarto um aspecto de pesadelo, ele tirou o xale preto dos ombros, pousou na Cadeira, acendeu um incenso, as pessoas seguiam cada passo vagaroso que ele dava, guardando uma distância segura, é claro, e no quarto havia urnas de barro, tocha, havia uma tocha na parede, que estava coberta de fuligem, muitas urnas de barro, tinha um armário duplex enorme, de jacarandá, ele abriu as portas do armário, a sombra dele na parede, de perfil, lembrava um chacal, tinha um escaravelho lá em cima do criado-mudo, escaravelho feito de porcelana, tinha umas estátuas diferentes também, mas ele abriu as portas do armário, e caíram várias bonecas, o armário cuspiu bonecas, bonecas envolvidas em linho, pareciam múmias, lá na prateleira do meio, dentro do armário, a boneca grande, toda envolvida em linho, pareciam múmias, “Ele mumificava bonecas!”, ele ficou Estático, olhando fixamente para a boneca maior de todas, a que era a mais bonita, chorou, em silêncio, as lágrimas borraram sua maquiagem forte.





Nada para dizer

7 10 2007

Por que uso isso? Primeiro, porque enche a barriga, enche sem encher, mas enche, porque esqueço que a barriga tá vazia, porque aplaca a fome, aplaca quem diz é quem escreve, não sei o que quer dizer isso. E tem a tontura, meio sono, e vejo uns brilhos estranhos, fica tudo meio feliz, meio torto, já vi as coisas assim, na água que fica perto da calçada, que vai pro ralo, na fumaça quando alguém taca fogo na lata de lixo, quando bebi também, porque já bebi.

Não tenho muito pra dizer não, só que as coisas são assim. Não sei o que é pensar, isso que dizem aí, de pensar, deve ser a minha voz que eu escuto aqui dentro. Tem um monte assim como eu, e é isso. O que tô falando é só falar, porque já falei, vou continuar falando, e acho que não muda, não adianta, porque lembro de ontem, e de outro dia, e é tudo parecido. Isso é que é pensar, é?

Acho que penso então, penso sim. Escuto muito “por quê”. Dentro da minha cabeça. Já falei sozinho isso também. Tem esse negócio de sorte, de azar, que ouvi gente falando por aí. Acho que tenho azar, porque não sei o que tô fazendo aqui, assim desse jeito, porque os outros são diferentes, têm pra onde ir, têm coisas que não tenho, têm tudo. Tem esse negócio de Deus aí. Uma vez um cara de Deus disse que ele ia ajudar, tô esperando, não veio ninguém. Vem muita gente que passa, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá.

O que eu queria mesmo é que o asfalto se despregasse, e começasse a se enrolar feito um rocambole, feito um tapete, um rocambole de piche, uma faixa de buraco negro, e que os postes se curvassem em genuflexões perante a passagem do tapete-real-de-piche. O tapete-real-de-piche seguiria seu trajeto, sem freios, sem sinal que o impedisse, sem guardas, sem apitos, sem sirenes, sem multas, cem quilômetros, percorrendo retas, curvas, lépido, sem perda de tempo, maldição do hoje, perda de tempo, de momento que não volta, que fica na geléia da memória, cultura de laboratório. Antes a memória tivesse cheiro de geléia, tem cheiro de laranja estragada, de amônia, de gás, de esgoto, de rio sujo, de carne crua, de suor impregnando pêlos, de rato morto.

Podia em mãos ter flor
Tenho pedra? que te parece?
Tenho nada, tenho calos
Na anemia das unhas, horror

Tudo isso só para ser engraçado, só para rirmos um pouco, rirmos de verdade, sem vergonha, sem medo, sem pausa, porque seria engraçada a passagem do asfalto-rocambole, da faixa-de-luto-do-sistema-econômico, da faixa-grevista-japonesa. Faz tempo que não rimos; se rirmos, pode ser perigoso, pode parecer que há diversão, quando não há. Alguns podem dizer que sim, e portar-se como se a resposta fosse afirmativa, mas isso não passa de uma capa, que não protege do frio e da chuva, não totalmente, só um pouco, é como uma peneira, mas que protege do amplo terror de se estar desperto.

As pernas muito finas, cada vez mais finas, se é que é possível- o que é impossível? De uns tempos pra cá, tudo aquilo que era possível, todas as doces estórias que nos contavam antes que nossas pálpebras descessem como grades de lojas -, que só sabiam mover-se de duas maneiras, vagando e correndo, vagar de zumbi, de bêbado, de dopado, de desanimado, de viajante sem rumo definido que procura algo; correr fora de brincadeira, fora do esporte, Não-Paul-Tergat, correr de fuga; corriam, e corriam, e corriam, era um dos momentos felizes e tortos, pedaço do dia cortado à faca sem simetria alguma, sem etiqueta, sem educação, sem preocupação de repartir, apenas de cortar, corte nervoso, inábil, débil. Não deu tempo, apesar dos freios acionados, apesar do guarda, do apito, da multa, não deu tempo.





Um, Dois, Três, Quatro!

29 09 2007

Levava a vida que queria. Seus planos para o futuro foram decididos numa noite de insônia ainda na adolescência, de estalo: “quero tocar (guitarra), morar numa rua de ladeira, ter bons amigos e amores com quem eu possa tomar algumas cervejas, e comer macarronada às quintas-feiras, é tudo”. Bastava-lhe, e assim se passaram muitos anos.

Subia quase todas as noites no palco, boa parte da semana. Não era membro de uma banda que freqüentava a mídia; só era conhecida por um público não tão grande, mas cativo, que enchia o lugar onde tocavam. Receberam uma proposta de gravação. Uma vez. Mas não quiseram. Na verdade, não ambicionavam mais do que aquele nicho em que estavam- seus amigos tiveram o mesmo estalo que ele teve, no mesmo dia- melhor dizendo, na mesma noite, para que não falem por aí que estou me contradizendo. A única diferença é que não faziam questão do item macarronada às quintas, como ele. De resto, possuíam gostos gêmeos. A vida deles era aquele contexto e, meu amigo, o palco flutuava quando eles começavam a tocar, apesar da porrada da massa sonora. Os amplificadores pareciam feitos de massinha de modelar, porque ondulavam, sabe quando você vê uma coisa através do vapor que sobe do asfalto num dia muito quente? Então… Tinha gente que pulava, girava como pião; tinha muito air guitar, air bass, air drums; alguns ficavam estáticos, mas percebia-se nesses um leve tremor, como o de uma janela vibrando com a passagem de um trem ao longe- essas figuras ficavam nos cantos, como sanguessugas de pilastras, já que era impossível ficar parado voluntariamente no meio do recinto; as garotas ficavam loucas e bebiam e cantavam as músicas ao mesmo tempo sem engasgar, demonstrando uma habilidade oral bastante interessante. Ah, quase ia me esquecendo, havia uma figura que batia palmas muito altas, produzia um som metálico, e eram tão altas que, numa ocasião, o tarol do baterista furou, e ele fez o papel do tarol, com suas palmas, ou seja, ele batia palmas toda vez que o batera teria que bater no tarol, em perfeita sincronia, porque sabia de cor o repertório inteiro. Certa vez, uma garota se empolgou e quis tirar a blusa. O gerente, que ficava sentado num daqueles bancos altos de madeira, fez menção de se levantar assim que viu a moça começar a puxar a blusa e disse “Nô”. Desceu do banco. Só que recebeu uma vaia de alguns que perceberam que ele impediria a nudez da moça. Aí ele mudou de idéia, disse “Jimm-a”, pulou de volta pro banco- era um homem baixinho e troncudo- usando a propulsão das molas que tinha em seus coturnos, e voltou a conferir as contas dos clientes. A moça fez seu strip-tease parcial, sem maiores problemas (que seios bonitos ela tinha, latinha, latinha, favor considerar o eco, par de bexigas de festa não tão cheias de água, mamilos rosados). Os freqüentadores sabiam que “Nô” era a negativa do cara, e que “Jimm-a” era o sim. Mas não sabiam de onde ele era oriundo. Ele chegou no bairro num balão e logo depois abriu a casa de shows. Isso mudou a vida do bairro. Grande figura, esse sujeito!

Acontecia uma coisa esquisita. Sempre. Todos os dias em que a banda tocava. Mas escrevo sobre isso daqui a pouco. Antes, deixe-me escrever sobre um episódio que aconteceu com nosso amigo guitarrista. Num belo dia, ele ficou mal, deprimido. Bebeu muito. Acordou péssimo e sem vontade de tocar. Sentou no sofá, com o corpo inclinado pra esquerda. Parecia um churros- ficou com a roupa e a cara marcadas pelos frisos desse mesmo sofá onde apagou embriagado. Vendo essa cena, a guitarra saiu do case, plugou-se no amp e tocou a primeira música que nela foi tocada. Depois parou de tocar a si mesma e consolou nosso amigo, dizendo notas muito bonitas, que acabaram por reanimá-lo. E aí ele ficou bem novamente, fez as coisas que tinha que fazer naquele dia, e à noite partiu pra casa de shows, pra tocar, como vinha fazendo há anos, como queria fazer pra sempre.

Porém, contudo, todavia, ocorria um estranho fato, todos os dias em que a banda tocava. Antes do show da banda começar, uma sombra gigantesca invadia o ambiente. O público ficava assustado, a banda também, o dono da casa igualmente, obrigado. Depois vinha um tranco, como se a casa de shows estivesse sendo puxada de suas fundações. Tudo balançava um pouco. Aí vinha a sensação de se estar voando, como se a casa de shows tivesse sido erguida no ar. Um novo tranco, desta vez, como se a casa tivesse pousado, após o breve vôo. Então um novo movimento era sentido, era como se a casa se deslocasse como um carro, só que por poucos metros, pois logo parava. Daí, ficava tudo escuro! e a casa parecia girar como um disco. Vinha uma luz bonita, um facho de luz, que cortava a escuridão. E a banda começava a tocar. Pedro ouvia aquele cd gravado ao vivo quase todas as noites, boa parte da semana.





Thank U, Gracias, Obrigado, Merci, Danke

18 09 2007

Ainda na segunda página do livro sobre hialurgia e reparou nos dois pares de botas no meio do tapete da sala, deu um pulo, o livro acompanhou, mas logo caiu, maçã de Newton em brochura, eram dois homens, ladrões!- ladrinhos, eram de baixa estatura, ela perdia a vida, mas não perdia o trocadilho-, entretanto vestiam-se como detetives particulares de filme antigo, não deu tempo dela perguntar, porque disseram em coro:

- Viemos te limpar da coisa.

- Coisa??? Minha casa tem alarme-que-toca-lá-na-delegacia!- e bateu com o calcanhar na base do sofá, no botão inexistente.

- Não insista, boneca, é para o seu bem!

- Boneca?- ela pensou.- São mesmo de filme antigo (isso ela disse em voz alta).

- Aprendemos seu vocabulário indo ao cinema, baby.

- O que vocês querem?

- Já dissemos, fofura. Viemos te limpar da coisa.

- Não, esperem!- e tentou passar entre os dois, fugir pra cozinha, pegar uma frigideira, uma faca, um vidro de maionese, mas eles, mais rápidos, empurram-na de volta para o sofá.

- Socorro, tarados!- e braços de metal saíram das costas dos dois sujeitos, como asas de um anjo se abrindo, só que eles pareciam pterodátilos, não anjos, os braços tinham garras de ferro- pterodatilografia-; um par de braços segurava penas, o outro, uma garrafa com um líquido viscoso e que tinha cor roxa.

- Parem!- e as penas fazendo-lhe cócegas, enquanto o líquido era derramado. O cheiro do líquido lembrava baunilha.

- Loucos! Monstros!- e as penas não paravam, moviam-se com a mesma rapidez das cerdas de uma escova-de-dentes elétrica.

- Não vai demorar, princesa!- disse um dos nanicos. – Princesa, meu Deus…- ela pensou.

- Ei, parem, parem!- O conteúdo da garrafa acabou, mas o nanico que estava à esquerda meteu a mão no sobretudo cinza e puxou uma outra garrafa, desta vez, com o líquido verde.
A garra de ferro afastou-se da moça e, curvando-se, pegou a garrafa da mão do tal nanico, destampou a rolha com seu polegar de metal e começou a derramar o conteúdo. Esse cheirava a papel queimado.

-Chega! Chega!- mas a insana atividade dos agentes de algures não parava. Eis que o aparelho de som liga sozinho e começa a tocar uma música:

Velha amiga eu volto à nossa casa

- Não, essa música não, ela me lembra do…

- Por isso mesmo, docinho!- disse o nanico da direita (Queremos una vida mejor para nuestro pueblo).

- Nãããããããããããão!- penas, líquido e viravam a moça pra um lado e pro outro, pra um lado e pro outro, pés pra cima, cabeça pra baixo, cabeça pra cima, pés pra baixo, frente e verso, vice-versa, prosa e verso.

A confusão durou cerca de uma hora. Quando ela deu por si, os nanicos já haviam sumido. Nenhum sinal deles na sala, só o cheiro de baunilha e de papel queimado. No corpo, nenhum sinal das penas e dos líquidos, mas o cabelo bagunçado e as roupas amassadas, tortas. Resolver tomar um longo banho. Refeita, voltou pro sofá e pro livro de hialurgia. Sentia-se leve. Sentia-se livre. Feliz. Livre da coisa. E não é que eles tinham razão? Estava livre da coisa.





Palavrões

16 09 2007

Exaustos, estavam largados na cama, quase formando uma letra xis- sorria, eles sorriam, “n or cheese”-, ela por cima, espalhando o peso que de peso nada tinha de, e ele acariciando os cabelos soltos dela, enquanto entabulavam uma conversa que só os pássaros que se escondem da chuva sabem fazer. No teto, um ventilador preguiçoso, ligado só para constar, porque naqueles últimos dias o tempo mostrava-se mais ameno- só para parecer filme, um clima de cinema noir, no ar, percebe?, entende?, hein?, sacudo você só como desculpa para tocar nos seus ombros.

É (era) uma coletânea de diálogos das mais sensacionais. Jamais conversarei com alguém desse (daquele) modo. Eis um estranho ponto da vida: jamais. Se jamais, para que aconteceu? Só para ser uma lembrança? Por que não aconteceu e ficou eterno? Será que não seria eterno, será que nosso virtuosismo se esgotaria? Então veio a outra, ainda mais linda. Parece que se foi, porque veio mais uma, igualmente ainda mais linda. Não, ela não se foi, gosto das duas. Jamais (novamente a palavra) pensei (sempre penso, é um inferno, minha cabeça não tira férias, é workaholic, maníaca) que isso fosse acontecer… Achei que era ficção; só que ficção é diferente de falso. Enquanto isso, alguém trabalha com cera num país onde os barcos têm pernas.

Sentia-se liberta de toda dor e de todo fogo, no não-lugar, pouso, oásis, porto destinado a todos aqueles que se libertaram das tormentas da paixão; no estranho vazio preenchido, na parede branca, sem quadros, mas cheia de furos de pregos e de sombras que insistiam em gravar suas superfícies cinzentas. Imersa naquela sensação de convalescença, em que se duvida da cura e se sente certa saudade da doença, porque há a fraqueza, o pedido de colo, a regressão da idade, o deixar-se levar pela sonolência e pelo delírio, mas agora não, era um novo dia, o que fazer dali pra frente, o que esperar, se nada havia para?

Antes e durante toda a dança frenética de troncos, braços e pernas, beijaram-se como sanguessugas, como ventosas de polvo, como aspiradores de pó. Fizeram-se pó e ao pó voltaram, contentes como partículas que formam um cutão dum canto abandonado de casa. Alguém falou sobre a impossibilidade física da transferência de força, mas é mentira, quem baila a dança frenética sabe, ah, se sabe. Primeiro, a força emana dela e o envolve; depois ele, como um escorpião cutucado e irritado por uma vareta de madeira que antes tinha sido usada por um radiestesista insano e sonhador, enquanto se esconde sob o limo da fenda da rocha, explode e devolve a força. As metáforas são tolas e alcançam o teto da questão tanto quanto uma formiga usando pernas-de-pau. As metáforas serão desnecessárias quando houver um cabo que transmita para um monitor aquilo que se sente, aquilo que se pensa. Metáforas são desnecessárias quando se sabe ler as entrelinhas do globo ocular, quando a voz cardíaca- que começa rouca, tímida, mas que aumenta de volume gradativamente até que pareça ser um barítono com papada de bigorna que sobe e desce as escadarias de uma escola de música solfejando árias obscuras e talvez nunca marcadas em pauta- consegue ser ouvida. Metáforas são desnecessárias quando o muro dela desaba e permite a passagem do operário- note bem: é sempre o muro dela que desaba e não o operário que levanta a marreta. Ledo engano de quem pensa o contrário. Faça as faculdades de engenharia que quiser, foda-se. Quando isso ocorre, não há mister de cabo, tampouco de monitor, muito menos de aparelho algum. Quando isso acontece, pode-se dizer um “Puta-que-pariu!” amoral e ao mesmo tempo beato, num P.A., para que os quatro ventos sejam todo ouvidos.

Ainda exaustos, levantaram-se, colados pelo suor, colados por uma irmandade xipófaga, porque não queriam separar-se nem que a vaca tossisse- e para prevenir um incidente de tão infeliz quilate, anotaram num papel de bombom o telefone de um laboratório de xaropes-, e foram até a janela. O céu estava com uma cor alaranjada e ela achou isso muito, mas muito estranho. Se ela achava que algo era estranho, era porque de fato era. Fato…

A primeira dor, ah, sentimo-la ao ver que não embarcamos. E ela sobe, aguda, como dor ciática, como broca de dentista, pula o fosso da alma e é isso mesmo, tanto faz, é imponderável. E você sobe num elevador alucinado. Depois, a queda livre, agora tem isso em parques de diversão, veja você. Poft!

A segunda dor é ver o barco partir, ver que não tem lenço branco nas mãos para dar adeus. Então, resta a mimese de mariposa, de bruxa, de inseto que fica parado por horas, independente do tremor das telas oleosas dos quadros. Segurança ontológica é saber que o cofre não vai cair no toldo de um caminhão de entulho, porque cofres não costumam passear pelos parapeitos de edifícios antigos. Mas é saber que não será assim, porque sempre foi. Porém, o susto da percepção do não-embarque- “sinto muito, não posso levá-lo como passageiro, seu estilo de nado não me agrada; gosto de natação, mas vou levar o passageiro que pratica squash e come waffles, ainda que goste de nado, ainda que waffles remetam minha língua ao papelão, ainda que o som do squash me lembre o de uma pipoqueira”- é o mesmo de um cervo que vê uma leoa (quem caça é a leoa, palhação, ela é a rainha da selva). É um direito seu- e ainda um esquerdo seu, caso sua opção seja a via oriental revolucionária- tentar moldar o que já está, hã, como direi, faltam-me expressões, porque minha cabeça está cheia de frases que já foram ditas à exaustão, mas de uma sincera e singela beleza, pré-fabricado. As estrelas, sempre elas.

A terceira dor é a consciência de abandonar o sonho, sendo o sonho o embarque. Porque é irritante, triste, e você se questiona: por que diabos tenho que fazer isso? O diabo não responde, não é louco de meter-se numa furada metafísica dessas. Ele sai pra jogar boliche ou rir de jornais sensacionalistas. Ele é louco de querer entender? Querer entender é para nós, mortais, cara pálida, cara de pão, cara de rosto. Viadutos e túneis são obras de arte, segundo o Código Nacional de Trânsito.

Certa vez, ele brincava de pique-esconde. No lugar onde morava, havia pátios cercados por canteiros cheios de pequenos arbustos. Escondeu-se tão bem, que a brincadeira cessou sem que o achassem. Ouviu a voz dos outros meninos, que voltaram para seus apartamentos com a certeza de que ele havia feito o mesmo. Ele conseguiu a proeza de ficar ali, camuflado pelas plantas, por uma hora, é bem provável que tenha sido uma hora mesmo.

A terceira dor é a pior. Talvez. Não, é a pior sim. Mas passível de cura com sono, vinho tinto, caminhadas sem destino pelas ruas, pornografia e cambalhotas no tapete, pois são coisas comuns, nós é que somos insanos de querer o incomum (?)- eu diria que somos sãos. Como recursos extremos, um beijo de língua no travesseiro- travesseiros são eróticos, porquanto rechonchudos- e sonhar com decoração de interiores. I think I ping, therefore I pong. Tinha algo mais a dizer, mas… esqueci (?). Depois da pausa, a coisa recomeça. Ora, pueril ilusão, essa a de não existir um moto-perpétuo. Só não é máquina, está dentro de uma.Sempre perco a memória quando como massas ao sugo, capisce? Lá maior, afinação de concerto, 4/4. Dispenso o metrônomo, bato levemente com o sapato no chão. Assim ele segue tocando seus acordes.

… e de fato, não importa qual era a cor do céu, ou se fumaram ou se riram dos carros que passavam lá embaixo e que pareciam engraçados porque tão pequenos eram. O que importa é que metáforas são insuficientes. Só as utilizei até aqui porque eu sou insuficiente e porque não sei o que fazer, além de tentar esculpir marretas no meu prato de mingau. Não sei o que fazer da minha vida. Não sei trabalhar com figuras e comparações. Não sei o que fazer da minha vida, além de concordar que o céu encontra-se alaranjado.