No Verão fazemos coisas estúpidas

3 12 2008

Ele acreditou piamente que aquele senhor era um vampiro. Tudo começou numa tarde de verão, daquelas em que há muito calor e nada, absolutamente nada para se fazer, a não ser ficar largado num canto, mole como uma trouxa de roupas, executando o mínimo possível de movimentos e bebendo litros de qualquer coisa que seja mais ou menos líquida, gelada e capaz de ser absorvida pelo estômago sem maiores problemas- portanto, esqueça os produtos de limpeza; sei que são bonitinhos, atraentes e coloridos, a fragrância atrai, eu sempre fico tentado a provar o detergente de côco, mas esqueça-os.

Conversávamos, eu e um amigo. Na verdade, não chegava a ser uma conversa e sim uma troca de frases muito curtas. Era o máximo que nossos cérebros podiam produzir, tal era o calor. Pelo que me recordo, quebrei minha inércia e me dirigi à janela, que dá para o pátio que fica entre um bloco e outro dos apartamentos do condomínio onde moro, na esperança de sentir uma lufada de ar-em-movimento. Ao lado direito?, sim, do lado direito do condomínio, há uma vila e é possível ver algumas das casas dessa vila até que um determinado ponto do muro nos separe.

Não me lembro a razão de ter feito o que fiz, mas lembro de ter apontado uma determinada casa, uma das que era visível através da minha janela, sombria, diga-se de passagem, e de ter dito que, naquela casa, morava um homem que era um vampiro. Meu amigo se levantou e se aproximou da janela. Olhou para a casa, olhou para mim e perguntou: “Tem certeza?”, ao que respondi “Sim, algumas pessoas já foram atacadas por ele.” “E ninguém faz nada a respeito disso?”, ele questionou. Olhei para ele esperando encontrar uma expressão de deboche, mas o que vi foi uma expressão indignada. “É um absurdo!”, ele completou (que você tenha acreditado no que eu disse, pensei eu, completando a indignação do meu amigo; é um absurdo também eu estar inventando uma história tão idiota). “Pois é, ninguém faz nada. As pessoas são muito egocêntricas. Só se mobilizam para bobagens, sabe…” Não sei como consegui permanecer sério. Normalmente eu já teria caído na risada, só que, por razões misteriosas, meu lado ator estava forte naquela tarde.

“Mas ele machuca pessoas inocentes. E animais. Alimenta-se de sangue (talvez ele seja uma seringa frustrada, pensei; “Alimenta-se de sangue”. É, há gosto pra tudo. Eu prefiro arroz, bife e fritas). É um monstro, uma criatura do demônio”, disse meu amigo. Desta vez eu nada disse, dei de ombros. Afastei-me da janela, coisa que ele também fez pouco depois. Voltamos aos nossos lugares, a nossa inércia e às bebidas, que, se não estou enganado, eram refrigerantes. A conversa sobre vampirismo não seguiu adiante e eu fiquei aliviado por isso. Estava um pouco arrependido porque ele parecia ter acreditado nas minhas palavras. A não ser que o lado dele de ator estivesse igualmente forte naquela tarde e ele estivesse igualmente me sacaneando.

Pouco tempo depois, alegando ter alguma coisa para fazer, ele se foi. Não me lembro mais do que fiz após a saída do meu amigo, se fui ouvir música ou se fui ler. Talvez eu tenha saído também. Não, eu só saí mais tarde, quando já havia escurecido. Depois voltei, já era madrugada. Vi um pouco de televisão, depois dormi.

Acordei com minha mãe de pé na porta do meu quarto com cara de sapo de desenho animado, os lábios caídos, os olhos arregalados. Caco, do Muppet Show pintado por Bosch. Pensei em processá-la por susto culposo, porque meus batimentos cardíacos se aceleraram de tal forma que, não que minha mãe fosse feia, ela era uma mulher bonita. Não quando assustada. Segurava numa das mãos o telefone. “Fim do mundo? Golpe de Estado? Que foi, porque essa cara?” “É a Dona Marluce, mãe do seu amigo Guilherme. Ele está na delegacia. Foi preso!” “Quê?”- esse “quê” brotou violentamente de um bocejo, rompendo-o em dezenas de pedaços. E pedaços de bocejo grudam no tapete. “Invasão de domicílio, parece que ele entrou na casa de um velho e…” “Puta que pariu, a história do vampiro!”- eu pensei. Pulei da cama, fui rapidamente ao banheiro, vesti a primeira roupa que encontrei e parti para a delegacia. No caminho, fui pensando: “Que louco de merda, que imbecil, como pôde acreditar numa história ridícula dessas!” Torcia também para que ele não tivesse ferido o velho e tornado a confusão ainda mais grave. Mas o velho estava lá, vi quando cheguei. Estava bem, irado, mas estava bem. Não tinha curativos, não parecia com uma bagagem. A mãe do Guilherme também estava lá, e uma tia e uma criatura que não consegui identificar, algo entre uma criança e um anão. Podia ser a sombra de algum objeto, mas era tridimensional—portanto não sombra– e segurava um carrinho amarelo—provavelmente uma criança mesmo.

Prontifiquei-me a pagar a fiança. Afinal de contas, eu era culpado em parte pelo desastre. Se eu soubesse que o Guilherme tinha o cérebro torto, jamais teria inventado aquilo. Conversei com o velho também. Expliquei-lhe que meu amigo não regulava bem das idéias, que o pai, quando criança, surrava-o com uma peruca, menti, dizendo que ele tomava remédios fortes e que ouvia vozes e via vultos e acreditava em horóscopo de jornal e em livros de auto-ajuda e em políticas públicas, que tinha mania de perseguição, que colecionava fotos de prédios tombados pelo patrimônio histórico e de esculturas em barro, blá, blá, blá. “Ele é louco, louco!”, repetia o velho em voz alta, e o louco parecia ele, o velho.

O velho me contou que estava tranqüilamente em sua biblioteca lendo um livro, quando alguém ou alguma coisa saltitante saiu detrás de uma das prateleiras segurando um enorme crucifixo de prata e berrando ladainhas. “Esse louco passou a noite me torturando de uma forma que nunca imaginei nem nos mais terríveis de meus pesadelos”- disse o velho. “Ele me obrigou a passar diante de um espelho dezenas de vezes. Não acreditava na aparição do meu reflexo, dizia que eu estava blefando. Jogou dentes de alho no meu rosto. Fez com que eu mastigasse alguns dentes de alho. Obrigava-me a tocar no crucifixo, a segurá-lo com ambas as mãos, a encostá-lo em minha testa. Borrifou na minha roupa e por toda a casa um líquido que dizia ser água-benta. Trancava-me em alguns cômodos, por alguns instantes, abria por fim a porta, e ficava esperando que eu passasse por ela. Arregalava os olhos, contrariado, e perguntava por que eu passava pela porta, apesar de não ter sido convidado. Rezava todo o tempo. Nunca ouvi tantas orações, nem na minha época de catecismo. Ao amanhecer, abriu todas as cortinas da casa, segurou-me diante de cada janela, de modo que os raios de sol iluminassem meu corpo. Graças a isso, um vizinho notou que algo de errado estava acontecendo e chamou a polícia. Seu amigo é um celerado!”

Poderia ter sido pior. Graças a Deus ele não levara uma estaca. Repeti mentalmente esse agradecimento. Várias vezes, pois, do contrário, estaria ouvindo o relato de um defunto. Imagine o velho com uma estaca tosca, feita de cabo de vassoura, cravada em seu peito. Criei, a partir de uma história impensada e idiota, um novo David Farrant… Uma versão masculina da Buffy. Poderia ter sido pior. Guilherme não mencionou meu nome, não disse que fui eu que contei a história do vampiro. Disse simplesmente que pensou ser o velho o Príncipe das Trevas em pessoa. E que diante disso, tinha que fazer alguma coisa. Era uma questão de comprometimento cívico. Comprometimento cívico… Ele foi obrigado a fazer um tratamento psiquiátrico, o Guilherme. Com uma frase, despertei algo latente, uma loucura que devia estar adormecida em Guilherme. O que me assusta, até hoje, é o fato do Guilherme não ter se convencido de que o velho não é um vampiro. O velho tinha dentes caninos bastante caninos, mas não era para tanto. Estava extremamente quente no dia em que estourou toda essa confusão. Fazia um sol forte, o céu estava bem azul, sem nuvens, um clima que não lembrava em nada os filmes de terror. Se bem que, vez ou outra, o bizarro se aproxima do terror, vice-versa. No verão fazemos coisas estúpidas, realmente estúpidas.





Checagem

14 11 2008

Só notou que havia deixado o rosto em casa ao tentar coçar aquele vão que fica entre as sobrancelhas, porque o porteiro, que tem um olhar de desenhista e que tudo comenta, nada disse a respeito, além do bom dia de costume. Também não reparou diferença alguma ao passar diante do espelho da portaria, se bem que não olhou direito por estar com pressa. Reunião. E estava atrasado. Por isso, o esquecimento. Onde poderia ter deixado? No banheiro? No quarto? Na saleta? Teria caído no elevador? Não, dificilmente, se tivesse caído no elevador, teria feito algum barulho, e ele não ouviu nada além do monótono som do cubículo de metal descendo e descendo. Pior, o cachorro do vizinho teria abocanhado o rosto, tão logo o encontrasse no chão, cães abocanham coisas que caem no chão, bem como as coisas que caem no ar, deve existir uma lei canina para. Poderia ser o caso de ter esquecido o rosto no dia anterior, no táxi, no restaurante. Podia, portanto, já estar sem rosto desde ontem.

Sentiu vontade de voltar ao prédio, mas não podia, estava realmente atrasado, não dava para perder tempo, era uma reunião que não podia começar sem a presença dele. Por outra, quem acreditaria nessa razão esquisita para o atraso?: “Desculpem-me, senhores, tive que voltar dois quarteirões porque esqueci meu rosto em casa, sabem como é, esses rostos… Além do mais, nem tinha certeza se estava em casa. O rosto; ele, o restante do corpo, estava na rua. Pensou em ligar para Janete, querida, você viu meu rosto por aí?, mas lembrou-se de que estavam separados há dois meses. Piloto automático, mesmo, porque já estava com o celular na mão e podia ouvir, nitidamente, em alto e bom som, com os tímpanos da mente, a reclamação de Janete, você só não esquece sua cabeça porque ela está presa ao pescoço (queria ouvi-la dizer isso na Revolução Francesa). Podia estar sem rosto há dois meses. Era esquecer que havia esquecido o rosto e ponto final, dia que segue.

Incrível, ninguém o olhou enviesado, nenhuma cara de espanto ao longo dos dois quarteirões (tinha que ir a pé, local de trabalho na contramão, as voltas que um ônibus ou que um táxi dariam não compensavam, atrasar-se-ia ainda mais), nenhum cão que latiu, nenhuma criança que tenha se agarrado às pernas da mãe e chorado convulsivamente. Petrônio, o jornaleiro que tinha um tentáculo, não teceu nenhum comentário quando ele comprou o jornal e ainda fez uma piada sobre o time dele, que estava em iminência de cair para a segunda divisão. Petrônio balançou o tentáculo, de modo octópode, mergulhou-o no aquário cheio de refrigerante, como sempre, e deu-lhe o troco, moedas reluzentes, Petrônio limpava as moedas (usando os cabelos) e, com isso, elas pareciam sempre novas, sempre moedas de brinquedo de tesouro do pirata ou aquelas moedas de chocolate que imitam as de metal. Gaspar, o aposentado que tinha asas de borboleta também não teceu comentários (afinal, borboleta, não tarântula) e olha que o velho era capaz de notar as espinhas mais recônditas, os fios brancos de cabelo mais tímidos, as calvícies ainda inauditas, pois era um daqueles sujeitos mal-educados o suficiente para agir desse modo sem culpa alguma, muito pelo contrário, achando que comentar esse tipo de coisa era a atitude mais natural do mundo, tudo bem que o velho Gaspar tinha um coração de mãe apesar desse olhar inconveniente, sempre coberto pelo fog marrom do Ray-ban, cuja marquise era a testa similar a uma casca de noz. Tudo bem. A Camila, sim, a Camila, a garota da agência de viagens, com aquela saia azul-marinho e com aquelas pernas sobrenaturais, que atende na porta por ter medo do interior da loja, não falou nada e, repare, ela o conhecia bem, saíram algumas vezes, mulheres são tão detalhistas quanto o Gaspar, só que mais educadas, de modo geral, exceto na ida ao banheiro em companhia das amigas, ocasião na qual fazem análises das mais cruéis, gélidas e calculistas. Entrementes (a minha, de narrador, e a sua, de leitor), Camila fora da loja, sem amigas por perto e sem banheiros.

Entrou no prédio da firma, foi cumprimentado pelos seguranças que olharam para a cara dele do mesmo jeito que olham há quatro anos, apesar de não haver cara ali sabe Deus desde quando. Podia estar sem rosto há muitos anos. Lembrou-se do enorme espelho no saguão do prédio e correu até ele. Queria ver com os próprios olhos a ausência do rosto. Decepção: o espelho havia sido retirado. Mas, por quê? Por causa do assalto. Ontem, de madrugada. Ah, o senhor não soube… Sete bandidos foram presos, mas o danado que carregava os malotes fugiu para o espelho. A polícia levou o espelho para perícia. Esperam que o ladrão renda-se e saia, por causa da fome e da sede e do cansaço e do tédio pelo dielétrico polido. Caso não saia e morra lá dentro, a idéia que eles têm em mente é a de enviar um esquadrão pró-reflexo para o interior do espelho. Recuperam o dinheiro e nós recuperamos o belo espelho que ornamenta esse saguão desde 1938, ano em que comecei a trabalhar aqui, o senhor sabe? Eu tinha quarenta anos e…

E se fosse apenas impressão? O resíduo de algum pesadelo? O rosto poderia estar lá, em seu rosto, onde sempre esteve. Afinal, ninguém apontou para ele e disse “Ei, cadê seu rosto?” Melhor, como não pensou nisso antes?, ele não seria reconhecido, claro, ninguém o cumprimentaria. Só notou novamente que havia deixado o rosto em casa quando foi enxugar com um lenço as gotas de suor que lhe brotavam da testa, enquanto subia pelo elevador, já não tão preocupado com o atraso para a reunião.





As águas de Almon

12 10 2008

Achei que fosse parte do sonho que eu estava tendo, aquela campainha tocando, insistente, um som desagradável, incômodo mesmo, que feria meus ouvidos, o som, distante, que foi aumentando, num fade in alucinante. Quando você desperta, tudo parece mais intenso, uma mosca voando é como um helicóptero. Ainda tonto e com muita pena de ter que abandonar as cobertas, era a madrugada mais fria do ano segundo os boletins meteorológicos, e eles tinham toda a razão, levantei-me e fui até a porta, Isa não se mexeu, invejo o sono pesado dela, e lá fui eu, escorando-me pelas paredes, como um bêbado, atender a porta, quem diabos poderia ser àquela hora que eu nem sabia qual era, ao levantar, olhei para o relógio por instinto, mas sem as minhas lentes ele me pareceu um borrão, nada mais que isso.

Abro a porta e me deparo com um senhor engraçado, baixinho, atarracado, de membros curtos, de pijama listrado, com um bigode de ditador, uma piteira com cigarro apagado pendurada no canto da boca, e com uma cara muito séria, zangado, eu diria, zangado não, impaciente, eu tentava fixar suas feições, meus olhos embaçados, era familiar, sim, o vizinho do andar de baixo, tinha visto aquele homem recentemente, numa daquelas aborrecidas reuniões de condomínio, creio eu.

Creio também que eu tenha conseguido dizer “Pois não?”, se é que não fazia parte do sonho, quem sabe eu tenha adormecido novamente antes de chegar até a porta, eu andava tão cansado naqueles dias… Havíamos nos mudado recentemente, ainda com as obras do apartamento por terminar, não houve como esperar a conclusão. Eu fui designado para um novo local de trabalho, fui escolhido para gerenciar uma nova sede da firma. Local novo, equipe nova, problemas novos. As coisas por lá estavam fora dos eixos e cabia a mim a responsabilidade de pôr tudo em ordem, “para ontem”, como sempre diz meu supervisor. Isa estava grávida, faltava menos de um mês para o bebê nascer- era uma menina. Meu pai estava adoentado, ele sempre foi muito dependente das pessoas, ficou ainda mais depois que minha mãe morreu, então eu tinha que ficar de olho, caso contrário ele não se cuidava direito, não tomava os remédios, alimentava-se mal… Nosso cachorro também estava doente, velhice. A mãe da Isa, idem. A velha estava com câncer. Eu não gostava dela, confesso, não tínhamos diálogo, e eu bem que tentei, não foi possível, mas cacete, câncer é uma doença pesada demais… Eu sofria mais pela Isa, muito agarrada à mãe. Como pode, elas são completamente diferentes: é difícil pensar que aquela velha de gênio insuportável- e meio mau-caráter- não só gerou como educou uma pessoa tão maravilhosa quanto a Isa. Incrível, tão díspares as duas… Tudo acontecendo ao mesmo tempo, minha amiga, 576 fatos se espremendo no mesmo espaço- curto- de que dispomos sempre, 7 dias por semana, 24 horas por dia, por que a madrugada é tão curta?, já reparou nisso?, as horas voam na madrugada, enquanto o dia parece infinito. A ciência mente, os relógios mentem, o tempo não é nada disso que falam por aí. Aliás, tem dias em que tudo, tudo parece ser uma grande mentira, até mesmo a verdade.

- Meu caro… – disse o vizinho, tentando se lembrar do meu nome. – André- respondi. – Caso não saiba- e afastou do pulso a manga do pijama, mostrando-me um relógio de um modelo antiqüíssimo, Deus, eu tive um daqueles quando eu era criança, dado pelo meu avô, se não estou enganado. – são três horas da manhã. Seria possível parar com esse silêncio?

- Como é que é??- Eu não podia acreditar no que aquele cara dizia. É, só podia ser um sonho. Ou melhor, um pesadelo, daqueles um tanto quanto ridículos, mas que deixam uma má impressão ao longo do dia, um gosto amargo no espírito.

- Silêncio… Não se faça de tonto, caríssimo! – “Caríssimo!”, eu pensei.

- Olha, senhor…

- Marcondes!- ele disse

- Seu Marcondes, me desculpe, mas não estou entendendo bem o que…

- Meu filho, esse silêncio que vocês estão fazendo. Parem com isso, são três da manhã, onde pensam que estão? Só porque são novos? Há regras aqui, não é a casa da mãe Joana- “Casa da Mãe Joana”, eu pensei. “De onde esse ser de pesadelo vem, da época das novelas de rádio? Só faltou ele empregar o termo “Fuzarca”. – Será que vou ter que chamar o síndico, ou mesmo a “polhícia”- tenho certeza de que ele pronunciou “polhícia”. – Tive vontade de rir, mas fui fechando a porta:

- O senhor está louco? Qual é???- e ele ainda tentou impedir que eu fechasse a porta, ainda vi o rosto dele colar-se à fresta, avermelhado como um caqui, tremendo como uma gelatina, enquanto ele dizia em voz alta “Ishpere! Hey, Hou, você não pode tratar assim um… SLAM, bati a porta. Agora a Isa acordou.

- Que que houve?- ela perguntou assustada.

- Você não vai acreditar…

- Hã…

- Sabe aquele cara aí de baixo, o bigodinho? Estava falando com ele. Ele veio reclamar do silêncio que estamos fazendo…

- Como é que é???- Isa quase cuspiu o gole de água que estava tomando.

- Pois é… Deve ser louco, só pode. É mole isso?

- Eu hein… Que esquisito…

- Também acho… Escuta, vamos voltar pra cama, daqui a pouco eu me levanto e não quero perder o sono.

Não foi difícil voltar a dormir. Como eu disse, andava extremamente cansado. E o diabo do tempo passa muito rápido de madrugada, então logo o despertador tocou, eu me levantei, jornal, café, banheiro, barba, banho, roupa, beijo de despedida, trabalho.

Na noite seguinte, tremi quando a campainha tocou. Olho no visor, o mesmo pijama, os mesmos cabelos grisalhos despenteados- ou penteados de uma maneira que quebra os cânones do pentear. Abri a porta, mas não destranquei a corrente. A mesma reclamação, parem com o silêncio, coisa e tal. O mesmo aconteceu três dias depois. Não cheguei a abrir a porta, mas vi o homem através do olho mágico. Os cabelos brancos formavam um redemoinho no alto da cabeça, como um redemoinho de água cheia de espuma de sabão num tanque entupido, o redemoinho girando, meu estômago girando, dor de cabeça. Pontas de cabelo, mechas que se estendiam como pedaços de arame, como galhos retorcidos, galhos brancos levemente amarelados nas pontas, sebosos. E havia também os cachos, alguns, poucos. Anéis de cebola. Cinco dias depois, a campainha, na mesma hora. Desta vez nem me levantei da cama. Aguardei, em silêncio. Ele insistiu, apenas uma vez. Dormi.

Fui conversar com o síndico e expus o problema. Ele não me pareceu surpreso. Disse: “Não ligue, daqui a pouco ele esquece.” Daqui a pouco ele esquece.

O dia foi infinito como de costume e eu mal podia esperar para pôr os pés em casa, tomar um banho quente, me jogar no sofá, ver alguma coisa bem idiota na televisão, conversar com a Isa, que, aliás, tinha passado a tranca, estranhei, “Isa, Isa, tá tudo bem? Sou eu…”, ela custou a abrir, mas ao perceber que era eu, sorriu aliviada e enfim retirou a corrente. Me abraçou como se não me visse há dias. “Que que aconteceu, por que você ta assim?” Ela me soltou e me entregou um papel. Era uma folha pautada de caderno. Tinha uma mensagem escrita à mão, em letras de fôrma, grandes, que diziam:

- É melhor que parem com esse silêncio todo.

- Fique aqui- disse para Isa- Eu vou falar com aquele doente!

- Cuidado!- ela gritou. – Nem pensei em esperar pelo elevador, desci pelas escadas. Ao chegar ao andar de baixo, pensei ter ouvido um grito abafado e também um rumor de passos vindos do andar de cima. No mesmo instante, notei que o elevador, subindo, passava pelo andar, vi a luz esbranquiçada de seu interior brilhar através do visor da porta. Era um elevador antigo, o prédio, aliás, era bem antigo, então ele tinha lá os seus rangidos que lembravam gemidos, era algo macabro. Nas primeiras noites, aquele som sofrido me incomodou um pouco. Depois eu me acostumei. E o cansaço faz milagres. O cansaço é o melhor ansiolítico.

Estava diante da porta do bigodinho e toquei a campainha. Nada. Insisti. Nada. Passei a bater na porta e ela recuou, com um rangido. Estava aberta! Mas que diabo? O apartamento, com as luzes apagadas. Tive uma sensação ruim. Resolvi subir, voltar para o meu apartamento, não quis explorar o do bigodinho. Era uma sensação muito ruim, a que me invadiu, uma angústia tremenda. Subi as escadas saltando os degraus de dois em dois, subi o mais rápido que eu pude. E a escada era, naqueles instantes, como o dia, infinita, os degraus pareciam se multiplicar. Cheguei ao meu andar e continuei correndo, ignorando o barulho que eu fazia no corredor, os passos atrapalhados ecoando, até constatar, aterrado, que a porta do meu apartamento estava aberta, Isa, a minha filha.

Porque teria arrombado a porta, mas estava aberta. Quando ceguei na sala, apenas a luz da luminária da mesa de centro, as sombras dos móveis cobrindo a parede. Num dos cantos da sala, Isa, sentada numa cadeira, parecia amarrada. “André!!!”, Ela gritou, e alguém saiu de trás da cortina. A sombra ambulante se moveu com extrema rapidez para trás da cadeira onde estava Isa e envolveu seu pescoço com um dos braços. Com o outro, parecia segurar uma faca. Meus olhos já tinham se acostumado à iluminação fraca da sala e pude perceber que a sombra não era sombra, era o velho bigodinho. Tinha uma expressão que misturava pavor e raiva estampada na sua face avermelhada de caqui. –Silêncio!- ele gritou. – Eu só pedi que parassem com aquele maldito silêncio… que estava me deixando louco!!!! O desgraçado aproximou a faca do pescoço da Isa, sua mão estava trêmula. Na verdade, ele estava inteiramente trêmulo. Gotas de suor brotavam de sua testa.

- Se você machucar minha mulher e minha filha, eu estraçalho você, seu maníaco desgraçado!

Tinha um celular em cima da mesa de centro, o meu celular. Ele tocou e, quando ele toca, suas luzes se acendem, naturalmente, luzes azuladas. Logo após o primeiro toque, o velho espirrou e exclamou: – Minha alergia, não!, desligue isso, desligue isso!

O celular tocando, as luzes se acendendo, o velho se afasta da Isa, espirra novamente, sua mão trêmula larga a faca, eu pulo como um goleiro e caio em cima do velho, ele espirra, grita, tenta se defender, grita, espirra, eu aperto seu pescoço, ele se debatendo como uma sardinha, espuma no bigode dele, a cara dele ainda mais vermelha, ainda mais apavorada, ainda mais raivosa, um olho de vidro, um dos olhos dele é de vidro, Isa grita e grita, parece que alguns vizinhos entraram no apartamento, também, com aquele barulho todo, o velho agora quieto, o velho com o silêncio que ele não queria.





São todas iguais

2 10 2008

E quando a inspiração não quer vir, quando ela não comparece, não dá o ar de sua graça? Fica, meu amigo, aquela espera ansiosa de primeiro encontro, de andar de um lado para o outro, olhar o relógio, verificar as propriedades geométricas do presente que você pretende dar e um olhar perdido em vitrines e notícias de jornal batidas caso haja uma banca de jornal por perto, aquela espera ansiosa de ônibus raro em altas hotas da madrugada, de espera por prato pedido quando a fome quase faz com que você devore a mesa a começar pelas bordas tal qual um mingau, deixando a toalha, copos, talheres, saleiros e outros eiros que portam ou contém alguma coisa como sobremesa. Fica aquele silêncio, aquela falta de barulho de dentaduras de desenho animado que mascam os próprios dentes, castanholas protéticas ou de dentes pontiagudos de piranha que a digitação ligeira no teclado produz. E aquela tela branca com um traço de aparição intermitente, traço que pisca. Mas antes disso. Antes disso, o papel em branco e a caneta, coitada, que em menos de um minuto vira baqueta que acompanha uma música que invade os pensamentos do escritor, talvez a música seja um chamariz para a inspiração, ela ratinha, a música, vinda da flauta- será que a inspiração curte música?, creio que sim, tantas vezes ela vem da música. Ainda sobre a caneta, caneta batendo no papel, no tampo da mesa, no próprio corpo, o escritor sem inspiração transformado em membro do Stomp, e coitada, a caneta sangra seu sangue azul ou preto porque não escrevo com tinta vermelha, que me cheira à correção e como vou corrigir alguma coisa que ainda não fiz? Aí o escritor tonto se vê obrigado (de nada!) a se levantar para lavar as mãos sujas de sangue esferográfico, um Pôncio Pilatos escriba, e o papel feliz- feliz?, será que o papel curte ser riscado, ou melhor, riscar a caneta, se não me engano, é algo relativo à química, faz tempo que não estudo a, lembrança de cabeça, é complicado, quanto tempo mesmo, meu Deus?, uns vinte anos, vinte anos, conforme dizia tantas vezes aquele Clementino da novela que já é água passada, mas não seca, vinte “ano”, sem a letra ésse mesmo, sem o plural. Sim, o papel “filiz” ou “infiliz”, como queira, porque ganhou um sinal de vida, uma mancha de tinta, do sangue da caneta.

Portanto lavar as mãos, a ida ao banheiro, a água, o sabonete, a toalha, quem sabe a água chame a inspiração, quem sabe o perfume do sabonete seja uma armadilha para a inspiração se ela for em parte abelha atraída pela flor ou uma bela garota igualmente seduzida pelo olor floral, ou ainda a água, se o signo dela tiver como elemento água em seu curriculum vitae astral. A toalha, quem sabe a inspiração goste de toalhas, a força gravitacional felpuda, um ímã com amaciante e perfume de sabão em pó que há de sucumbir à naftalina do triste caixão das gavetas- porque, se ela não vier, guardo a toalha, guardo a toalha não antes de usá-la como bandeira ou como fole na ausência do mesmo, para excitar as chamas de uma fogueira de vaidade acesa para espalhar alôs para o céu com sua fumaça densa de propriedade de balão.

Nada, ela não vem mesmo. Está com dor de cabeça, está em greve, está dormindo, foi à esquina comprar cigarros ou pão ou ambas as coisas mais uma terceira porque listas de compras crescem como elas sós, viajou, foi para a serra, para a região dos lagos, para o litoral, para outro estado, outro país, outro planeta, outra dimensão. Ou talvez esteja no quarto, largada na cama a comer pipocas ou algum chocolate vendo filmes que já foram exibidos 546 vezes.

Às vezes, ela vem, só que está, mas não está, tipo o tem mas acabou, está de corpo presente, e que corpo!, mas de alma ausente, distraída, blasé, trocando coisas de lugar, pegando em livros e não lendo, ligando um aparelho de som mas não ouvindo nota musical alguma, velando-se com as colcheias e semi-colcheias, levanta-se um pouco, espreguiça-se. Tira uma peça de roupa, se está calor, abraça a si própria ou veste um casaco, caso esteja frio, até esboça um sorriso. O escritor pergunta “Então?” e ela desconversa, “Espeeeeera…”, ela diz, e passa a mão nos seus cabelos, afaga-os rapidamente, e você bobo. Bobo. Não raro, ela resolve tomar uma ducha e demora-se tanto quanto um filme épico, uma leitura de nota de rodapé escrita por Weber, uma namorada aprontando-se para sair enquanto o namorado é fagocitado pelo sofá-ameba ou embalado pela conversa sobre “no meu tempo” do pai dela, demora, enfim, tanto quanto uma reunião de condomínio ou uma festa infantil na qual os sistemas estelares das bandejas dos garçons só têm refrigerantes em órbita. E ela volta molhada, enxugou-se mal, convém não mexer, principalmente se o autor está com um PC ligado, água e eletricidade são um casal perigosíssimo. E além do mais, ela tão bonita cheia de gotículas de água, orvalho, madrugada, opa, talvez seja o começo de alguma coisa, só que não passa de uma armadilha, ela só quer seus olhos voltados para a tela ou para a folha do caderno, os olhos, seus olhos vidrados nela- vidrados nos dela. O autor ousa perguntar novamente “Então?”, mas teme que ela, irritada, se aborreça e vá embora, largando a porta, que se fecha lentamente, nunca com um estrondo, inspirações são delicadas, inicialmente. Depois… Lá, ou melhor, aqui está ela, aninhada entre almofadões, aos seus pés- mas trata-se do inverso, não é, meu amigo? You know, it’s always the same damn thing. Ela está, ao menos isso, então você se sente um pouquinho mais aliviado. No entanto…

Ela faz biquinho, faz doce, fala manso, e o escritor derretendo-se todo, como um sorvete gigante, basbaque, ele esquece de sua espera, hipnotizado pela cena, pelos gestos, pelas atitudes, é uma atriz, espertinha ela, espertinha como todas as inspirações: elas são todas iguais!





Bloody Potato Chips

2 10 2008

Se existe uma frase a ser considerada como emblemática para a pós-modernidade, ela é, sem sombra de dúvida, “Esqueça tudo o que você aprendeu há 10 minutos” (NIEDERMAYER, 1948: 112-517)- frase esposa do irmão pelo filósofo Julio Niedermayer. Quem poderia supor que um inocente (?) lanche de feição fast food, que uma simples fritura poderia gerar uma polêmica tão grande quanto a que foi gerada pelas Bloody Potato Chips, a “genial e rubro-amarela delícia”- segundo o The New York Times- criada pela rede de lanchonetes Uncle Jaws, aquela em que um velho marinheiro sorridente e maneta faz um sinal de Ok nos seus letreiros luminosos de neon cinza, a placa mais conhecida do mundo desde o gol de Diamante Negro aos 14 minutos do intervalo, na vitória por 3 a 3 do Flamengo sobre o Náutico de Araraquara.

O cenário: antes, milhares de pessoas aglomerando-se e formando filas indianas diante das vitrines sempre embaçadas pela gordura e pelo fumo das guloseimas; depois, os mesmos milhares de pessoas aglomerando-se em frente aos principais órgãos públicos de seus distritos, segurando cartazes, cantando hinos de protesto e jingles de comerciais esquecidos desde há 50 anos. Antes, portanto, alegria; depois, tensão, clima de guerra. Parte desse grupo, disperso pelas ruas, cometendo pequenas infrações e atentados grotescos. Por trás disso tudo, uma porção de pequenos pedaços de tubérculo cortados longitudinalmente, fritos e embebidos no mais puro catchup. O estopim: a proibição da venda das Bloody Potato Chips.

O decreto partiu do governador Schwarzenegger, de forma indireta, já que atingiu outra variação de batata. No minúsculo pedaço de papel manuscrito emitido pelo gabinete do governador, podia-se ler (em voz alta ou baixa ou em monólogo interior, como queira): “Away with frizzle fries!” Caesar May, governador do vilarejo de Sebastian, divisa com a Micronésia, adotou a idéia e proibiu os pães de queijo com ervas finas. Por fim, o sindicato dos alfaiates de Boston entrou com uma liminar impedindo a venda das Bloody Potato Chips num raio de 180 quilômetros. O juiz Barnaby Crimson acatou. Sal Johnson, senador eleito pelo Estado do Pará, criou jurisprudência, ao provar que as Bloody Potato Chips podiam ser consumidas com segurança entre as três primeiras horas da madrugada, desde que houvesse um pirilampo por perto. Entretanto, nesta altura, as Bloodies já eram uma febre e as medidas tomadas (110-220 volts) revoltaram as centenas de milhares de consumidores e glutões do sanguinolento tubérculo frito.

O que poderia acontecer? Muita coisa. E não deu outra: onda de protestos e de atentados. Uma senhora emo decepou com uma navalha a orelha da gravura da Monalisa exposta no Museu da Imagem e do Som do Soho. Gritou “Vincent vive!” enquanto era contida pelos seguranças. Um bedel de uma auto-escola na Geórgia foi surrado com petecas. Em Nova Orleans, um cd de Screaming Jay Hawkins foi tocado ao contrário através de caixas de som (espalhadas pelos telhados e árvores, não se sabe por quem nem como), durante cinco horas seguidas, ocasionando um engarrafamento de zumbis.

Como se pronunciou a comunidade científica? O excesso de ferro contido numa porção de 50 gramas de Bloody Potato Chips foi suficiente, segundo pesquisas, para fazer com que o estudante Ernesto Tombstone adquirisse- involuntariamente, por mutação- joelhos de bronze. O rapaz não pôde mais freqüentar a biblioteca de sua faculdade porque seus colegas declararam em abaixo-assinado que “era impossível a concentração com uma armadura medieval caminhando entre as prateleiras.” Os advogados da rede de fast food Uncle Jaws publicaram uma nota na qual diziam que “Todos os testes feitos nas melhores- e também nas médias e nas piores- universidades do país eram inconclusivos com relação à periculosidade da absorção das Bloody Potato Chips pelo retículo endoplasmático rugoso, tal como foi afirmado pela Liga dos Defensores da Comida da Mamãe. “Além do mais- completaram-, casa de ferreiro, espeto de pau: nenhum cupim apresentou baixo rendimento no trabalho após o consumo das Bloody Potato Chips.” Houve rumores de que a banda de música regional Black Sabbath teria se inspirado nas Bloody Potato Chips ao compor Iron Man, o que foi veementemente desmentido por Robert Downey Junior, que por sua vez afirmou ser ouvinte e groupie de Miltinho.

A celeuma não se restringiu ao âmbito científico: o entomologista Jasper Leônidas Souza Leão Neto chamou a atenção para uma possível multiplicação- e conseqüente desequilíbrio ecológico provocado por labirintite da Mãe natureza- das Abelinhas Francolinas. Os odores de óleo de girassol misturado aos odores de eucalipto e de hemoglobina exalados pelas Bloody Potato Chips ativam o chacra 15 B-309 das Abelinhas Francolinas, situado psicologicamente (mas achtung*: psicologicamente porque somatizado por influência do Id e do Sistema Nervoso Municipal) entre o Objeto a e o Mais Gozar da clavícula esquerda de seus exoesqueletos (LACAN, Sec. 3 d.C.: pergaminho 12). Para os leitores não iniciados em Cálculo II, as Abelinhas Francolinas são insetos anti-sociais, fisiculturistas, trogloditas e hirsutos que possuem bíceps hipertrofiados e extremamente desenvolvidos, utilizados no espancamento de ursos, apicultores e bisbilhoteiros que mexem em suas colméias em busca de amálgama (tanto que em Sevilha, em 1682, o vice-rei Juan Moriarti baixou um decreto que só permitia o vôo das Abelinhas Francolinas em logradouros públicos caso estas estivessem trajadas com camisas-de-força). Jasper foi quase ridicularizado por Nicolas Sarcozy, que declarou: “Nem…” Já uma comissão formada por bruxas ocultistas-pop concordou com as teses sobre o conto de Piglia (AA) e declarou em entrevista concedida à revista Men’s Health que a lua em Escorpião é responsável pela compulsão por comprar persianas roxas nos nativos de Sagitário.

A guerra prossegue e parece não ter fim, assim como os filmes de Kurosawa- vide Kagemusha; vide e leve uma espreguiçadeira e provisões para quatro meses e não se esqueça do casaco, pois os cinemas durante o período de inverno ativam o ar-condicionado com tal potência que é possível transformar um refrigerante num cone de gelo, bem como um poodle num Mapinguari ártico. O pastor Humpert Higgins, da Igreja do Losango Rupestre- Wyoming-, afirma que o Senhor não aprova os comedores de Bloody Potato Chips; que o consumo das Bloody Potato Chips constitui um pecado tão grave que um novo mandamento deveria ser incluído no Decálogo: “Não fritarás”. E termina seu discurso inflamado (porque se esqueceu de comprar azul de metileno na drogaria) afirmando categoricamente que “Um comedor de Bloody Potato Chips é tão pecador quanto um indivíduo que telefona às nove horas da manhã de um sábado para o seu semelhante. Estes, os comedores de Bloody Potato Chips, não irão para o inferno: irão direto para uma fila de banco!” As forças armadas negam o fenômeno e afirmam que foi um balão meteorológico e que não existem estudantes de tuba. A polêmica apenas cresce. Aqueles que viverem, outono.

* uma mímesis de J.C.P.





Por caridade

29 09 2008

Escrevo aqui, assim como tenho escrito nos lugares mais exóticos, calçadas, paredes de corredores de prédios comerciais, tetos, banheiros, postes, hidrantes, gramados- sem pisar na grama, a pedidos, tenho meus métodos de contorcionismo-, assentos de ônibus, vidros de janelas e de carros, escrevo com os dedos nas superfícies empoeiradas. Já mandei e-mails e cartas para revistas especializadas e sites igualmente especializados em comportamento humano de modo geral, para aqueles links “Fale Conosco”, eu falei, não obtive resposta, por isso escrevo aqui na esperança de.

Coisas bizarras acontecem comigo o tempo todo, o insólito desceu pela clarabóia, quis ficar e não sei mais o que fazer- até porque a casa é pequena, vivemos nos esbarrando e o insólito é pegajoso como caramelo; e cheira a gelo. Sempre acontece. Tudo começou quando, ao tentar subir uma escada, o degrau se afastou. Não, eu estava sóbrio, sei bem o que você está pensando. Prosseguindo, ficamos eu e o degrau nesse jogo, eu flexionando o joelho para pisá-lo e iniciar com isso a subida, ele recuando, até que encheu o saco, desisti, chega. No momento em que eu ia dar as costas à escadaria para ir embora, espirrei- minha rinite está ligada ao emocional- e comecei a subir, sim, flutuar como um balão, voar, voar, subir, subir, como costumava cantar o Biafra, mais ou menos na velocidade em que um elevador sobe. De modo a encurtar a estória, meu corpo se elevou até a janela do andar onde eu pretendia chegar, eu tinha uma entrevista de emprego marcada. Entrei pela janela, única solução que me pareceu plausível e literalmente, não me refiro a ter conseguido o emprego levando vantagem alguma, até mesmo porque não o consegui. O gerente de recursos humanos, sujeito organicamente preparado para defenestrações, ao me ver entrando pela janela como se eu fosse um pássaro desnorteado ou um mosquito, engasgou com o chá que tomava, e o entrevistado, o homem cuja entrevista estava marcada para antes da minha ficou nervoso e começou a girar na cadeira- embora ela não tivesse rodinhas- e a repetir “Mas… mas…mas…”

Isso que contei foi apenas o começo, infelizmente. Logo em seguida, fui adotado por mariposas. Na minha casa, em todo cômodo que entrava, via uma mariposa voando e não fazia a mínima idéia de onde elas vinham. Era como se eu fosse o bicho de estimação delas. Numa bela manhã, recebi um abaixo-assinado de vizinhos reclamando que eu cantava trechos grandes de músicas da Maria Rita em alto e mau som- porque não sou lá muito afinado- a altas horas. E ficar gripado passou a ser um transtorno ainda maior do que já era para mim, porque sempre que espirro o prédio onde moro pula. E mais: ao fazer inalação, algo necessário para minimizar aquela sensação de que as fossas nasais estão cheias de cimento, os apartamentos vizinhos ficam abarrotados de jujubas, daquelas coloridas, sabe? Quase fui processado por uma mãe aflita diante de um filho que abandonou as refeições preparadas por ela com tanto carinho- e com tanto carrinho de supermercado, porque ela tem menos braços do que Visnhu- por causa das jujubas e que, com isso, adquiriu sete cáries. Nesse ínterim, recebi telefonemas anônimos- e anômicos: “Seu criminoso, vovô é diabético e a dentadura dele agora parece um painel psicodélico!”; “Minha vida agora é doce, case-se comigo, case-se comigo”; “Tenho uma loja de doces, fique gripado para sempre e seja meu sócio…”, coisas que tais. Mas graças a Deus o Paracetamol.

Minha webcam entrou em depressão e o chato disso é que as teleconferências são vitais para o meu trabalho. Por causa da depressão, a webcam passou a gerar imagens de atletismo e cenas de filmes de kung-fu ao invés da minha imagem, meus clientes pasmos, irritadíssimos, adeus, porque não estamos aqui para brincadeiras, tempo é dinheiro, business is business.

A solução para esse problema de difícil epítome me foi dada por uma lapiseira triste cujo grafite saía em gotas como lágrimas- porque ela era triste- tornando a escrita impossível. “Jogue adedanha com ela (a webcam), que passa”, disse a lapiseira. Foi o que fiz sem pestanejar e olha, obtive resultados.

Aí veio a fase das compulsões, algumas delas, as menos ridículas, que posso confessar: fazer cócegas em árvores frondosas; declamar poesias para balconistas de lojas de lingerie e para porteiros de hotel. Eu entrava numa loja ou parava em frente à porta do hotel e, bem, declamava as poesias; enviar pedaços de barbante e migalhas de bolo para pessoas com nome iniciado pela letra tê: eu as procurava na lista telefônica. Até aqui, tudo mais ou menos bem, eu ainda era capaz de falar, até que o bizarro afetou de vez o meu discurso (diz-curso).

Minha garota começou a se queixar de que eu só me dirigia a ela através de onomatopéias. Ao invés de “Te amo”, “Bing”, “Ring”, “Tum”, “Plosh”. Era algo que eu não percebia e que só acreditei quando ela me mostrou uma gravação. A bem da verdade, minha comunicação com ela já não era fácil, e com isso piorou consideravelmente… Aliás, o que dizer para as mocinhas sempre foi um problema. Se eu era sincero, não dava certo, se mentia, também não. Com relação a minha garota, gostaria de me fazer entender. Gostaria de falar a língua dela, que ela visse as coisas que eu vejo, obviamente com seu próprio olhar- como vê, não é uma questão oftalmológica, é algo mais profundo (tenho a impressão de já ter escrito isso, mas não senhor e senhora, não vou reler conto por conto a essa hora, então ficamos assim). O problema da comunicação se estendeu para o âmbito extra-namoradas. Sinto-me como um alienígena. Sinto-me (menor) a falar com as paredes- só não tento falar com elas efetivamente porque receio que elas respondam. Nada pessoal, mas não quero ser amigo de uma parede, não quero amar uma parede. Ando amargurado e triste. A impressão que tenho é a de que nada do que eu faço presta, nada do que eu faço é relevante, de que tudo passa batido, acaba encoberto por uma sombra, por uma cortina. Quando é percebido, não é levado a sério, porque é esquisito. Quem se importa?, e assim vão passando os meus dias, que mais parecem um filme existencialista daqueles exibidos em sessões Cult vistas por, no máximo, oito pessoas, em algum cinema longe de você. Longe de você. Não importa o que eu faço, as coisas meio que se repetem. Estou cansado. Cansado de verdade. E a solidão. A solidão é ter como companhia você mesmo num dia em que você mesmo não está muito a fim de papo com você mesmo, então não convém forçar a barra, para não incorrer no risco de ser chato. Tudo menos ser chato. Antes ser um ancinho.

Sei que há coisas muito mais graves acontecendo por aí, disseminando-se como pragas, violência, os preços assustadores- cada vez que minhas contas chegam e que vou ao mercado o meu rosto fica igual ao daquele cachorro chinês que tem cara de papel amassado-, a solidão urbana, o desamor- ou os dez amores, a fartura também é um problema, hein?-, a incompreensão- Ah!- o egoísmo, mas peço encarecidamente que leia, que reserve um tempinho para isso, e que me ajude, caso possa, obrigado.





Não foi nada

16 09 2008

Tudo correra bem na lanchonete, os hambúrgueres tristonhos, um pouco murchos, as cervejas, o café ralo- como sempre, mas sempre voltávamos. Tudo correra bem, antes da lanchonete, peguei-a na saída do trabalho, ela não se atrasou, às vezes os milagres acontecem. Depois de forrarmos os estômagos na lanchonete, que não estavam tão vazios assim, é que parecemos roedores, na verdade, penso eu, somos roedores e precisamos afiar nossos dentes. Nos dirigimos, eu na verdade, ela dirige mal, muito mal, parece que num passe de mágica cercas atraem metal, ela tem uma coordenação motora sui generis, para o hotel, um hotel de beira de estrada como aqueles de filme, como aqueles que não existem aqui nesse país ou que são raros, ou seria uma pousada, qual a diferença?, mas enfim…

Quando ela se levantou para saltar do carro o banco catapultou uns três ou quatro chicletes que julgávamos perdidos e depois, já fora do carro, ela calçou os saltos altos, primeiro o direito, depois o esquerdo, como quem atarraxa uma lâmpada num bocal, não é uma crítica, apenas uma observação, eu observo detalhes. O caso é que tenho tesão nela, grande, e a comparação com a troca de lâmpada não desabona a sua (dela) conduta. “Você sempre repara em detalhes, como uma mulher”, disse uma amiga, bem, pode ser, nunca parei para refletir sobre essa questão. Apenas observo, apenas penso, ponto final (ou melhor, vírgula, porque vem aí o seguinte período:), (ei-la, a vírgula) não entro nos méritos das questões. Ou todos os demais quartos estavam desocupados ou as pessoas em seus interiores tinham sido afetadas por algum tipo de congelamento, quem sabe, as frentes frias, imagino nuvens com expressões de dândis. Um vira-lata passou por nós, não nos olhou, limitou-se a seguir aquele caminho misterioso que cães seguem, com paradas aqui e ali recheadas de farejar, e idas e vindas. Ontem eu vi uma mariposa girar como um ponteiro de cronômetro na vidraça, e pensei “por quê?”

Ela ligou a televisão e eu abri a geladeira que parecia um cofre ou um criado-mudo desenhado por um arquiteto nos anos sessenta, peguei uma lata de cerveja, não estava tão gelada quanto eu gostaria. Frente fria, come here. Por coincidência, a moça da previsão do tempo, na TV. Ela abriu um pacote de biscoitos, eles não têm gosto de nada, dizem ter sabor de queijo ou de presunto ou de lagosta, de escorpião tailandês, vá lá, eu não sinto, mas, ainda assim, são saborosos. Ela, em posição de iogue, uma blusinha curta, branca, barriguinha de fora, então as migalhas douradas do biscoito como estrelas formando uma galáxia na barriga, um shortinho, a barriguinha indo e vindo, life of ups and downs, uma respiração, como definir, ansiosa?

Ela riu, era uma propaganda, eu não entendi. Tive nojo, daquele senso de humor… é… idiota, como ela pôde achar graça daquilo? O som da mastigação dos biscoitos começou a me irritar de verdade, a me incomodar. A simplicidade dela, enorme, mas não, não era isso que me incomodava, porque também sou simples, também não ligo pra nada. Talvez tenha sido uma raiva da alegria dela, daquela pequena epifania privada que ela repartia quase sem querer comigo. Tive um impulso e o segui, aquele tipo de crueldade que fazemos sem razão alguma, neurônios que ficam bêbados, do nada, e que dão um comando qualquer. Levantei, sem largar a lata de cerveja, abri a porta do quarto- ela desgrudou os olhos da tela e olhou pra mim com aqueles olhões bonitos paca, expressivos, eu disse algo do tipo “Vai embora”, e ela “Quê?”, eu de novo, “Vai embora, fora daqui”, “Mas por quê???”, “Aqui, as chaves do carro se quiser levar o carro, leva…” O rosto dela se apagou assim como os rostos se apagam quando se recebe uma notícia de demissão ou de morte. Eu avancei para ela, puxei-a pelo braço, continuando a dizer “Fora!”, ela pegando a bolsa, às pressas porque eu quase a arrastava como um trator, ela falando coisas mas eu já não ouvia, tudo era visão, visão dos movimentos labiais, de uma poça de lágrima nos cílios dela que não ousava escorrer talvez por timidez. E o som, depois que fechei a porta, as batidas, as perguntas, agora, que eu não a via mais, certamente as lágrimas, a voz rouca, palavras cortadas por soluços. Sentei na cama e tapei os ouvidos

Cinco minutos? Ela se foi. Não levou o carro, a chave de ignição caída no capacho da porta do quarto. Tinha um ponto de ônibus não muito longe. Eu podia correr até lá. Não. Corri, mas corri tarde demais, de propósito, tempo suficiente- que calculei- para o ônibus, para um carro passar, vários até, uma carona.

Voltando para o quarto, havia esquecido a porta escancarada. Tive pena dela. E pavor do que eu fiz. Horror de mim. Sentei-me na cama, a porta ainda escancarada, estiquei o braço para pegar o pacote de biscoitos no chão. Creio ter adormecido porque sonhei com um bairro onde tudo era invertido, adultos eram carregados no colo pelos bebês, animais levavam os donos para passear. Vi um homem-hamster, numa gaiola, enchendo a boca de sementes de girassol, as bochechas inflando, Dizzy Gilespie, Kiko do Chaves narciso diante de um espelho de circo. Não foi sonho, ouvia um programa de rádio, “Causos do Pedro Chibanca”, um sulista chato até dizer chega. Levantei, fui no banheiro, abri a torneira, molhei minha nuca, estava calor. O que estaríamos fazendo agora? Ela, voltando pra casa.





Novelos de lã e gatos

7 09 2008

Se os tempos são assim mesmo, se tudo o que podemos ter- e sonhar- são fragmentos, sou um glutão. Dentro em breve, terei que fazer uma cirurgia de redução d’alma, é bem capaz. Nunca imaginei que viveríamos uma realidade de álbum de figurinhas. Aí está ela. Poucos, os que completam o álbum. Um toque- na verdade, muitos-, cigarros compartilhados, olhares devoradores. Depois você me liga; instantes depois, estamos numa aia movediça de lençóis, o suave choque entre os corpos, leis da física e da química, ao vivo e em cores abafadas pela escuridão do quarto. Você fica por mais uma hora, é tudo, porque você deve ir, tem satisfações a dar- e eu não-, escolheu um caminho- e eu, vários; escolhi? Você telefona na noite seguinte e sinto vontade de sua presença ao mesmo tempo em que desejo- e anseio- estar só ou estar com aquela sua amiga, a que curte escritores americanos e que tem o desejo estampado no rosto alvo- faça amor comigo ou trepe comigo, ambas as três coisas, como queira. Tudo começou com olhares, com a observação discreta das bocas levemente tortas- um morder de lábios-, sorrisos sem graça, pés às cegas sem cão guia por debaixo da mesa, porém precisos, preâmbulos e cones de luz de lanterna. É sempre assim. Não faço idéia se sua amiga será uma nova figurinha, na imaginação tudo se adianta, possíveis futuros são passados concretos, (falsas) lembranças que voltam enquanto eu engulo uma drágea de comprimido combatente de enxaqueca e sintonizo uma estação de rádio para embalar o meu barco preso ao cais.

Parece que o bombardeio de lembranças ilusórias é um benzodiazepínico. Sofri uma decepção tremenda, puta decepção, e a dor, os músculos do meu pescoço tensos, o início de semana caótico, andei pelas ruas como um vagabundo- com a diferença de que eu tinha um destino- e fiz tudo aquilo que tinha que fazer embriagado sem uma gota sequer de álcool- apenas bebo no crepúsculo da semana-, foi tão patético, mal podia conter minha mágoa, e a tristeza pesa como chumbo, talvez, talvez por isso eu tenha caminhado com dificuldade, a mágoa é uma baforada negra na cabeça de qualquer um,talvez por isso eu tenha sentido dificuldade em pensar nas coisas mais banais, por isso tenha esquecido de comprar, por exemplo, ovos, pra uma droga de omelete, apesar das listas e dos lembretes de agenda. Amo você, mas foda-se, não é?, quem se importa? Amar é uma coisa demasiado compacta diante de uma era que bem poderia ser representada por uma esponja. Você- não você, uma outra, você não virá; você viria?- liga novamente, quer ver aqui, pois venha. Confesso que não será nada mau, não será ruim, sua blusa branca atraída pela gravidade, sem vida no carpete, chorando em vincos de tecido porque separada de seu colo, de seus seios, sua pele bronzeada, as trilhas das alças do sutiã, o perfume adocicado, a música das suas pulseiras e dos seus brincos, seus gemidos, palavrões, mordidas, suas unhas…

Queria tanto dormir mais e ter aquele sonho novamente no qual, por alguns segundos, tive a chance de escolha, de voltar atrás, bastava o despertar no quarto ao lado. O diabo é que existe um caminho, uma marcha incessante, você, eu e você, todos nós, somos moscas pousadas numa esteira- sem botão de desligar, então ela rola e rola-, estamos parados, mas a infeliz da esteira está em movimento, e você, eu e você, todos nós, andamos uns míseros centímetros que cheiram a quilômetros para trás, para logo em seguida estarmos à frente, de volta ao ponto de partida. “Estou confuso”- digo, num rompante de sinceridade, de desabafo, posto que sou um cara fechado, e você ri- “As He begs you for some more, you frozen smile (Blood, Sweat and Tears- isso é que dói, “you frozen smile”, mas eu sou imbecil, adoro seu sorriso). Eu termino por acompanhar sua risada, sem deixar de me sentir perfurado pela sua frialdade. O pior de tudo é que sei que você não é assim, que existe arte pela arte em seu espírito, mas a vida cobriu você de camadas e mais camadas de tinta e de massa, coisa que procuro entender, também tive meus retoques. Só que, porra, será que custa tanto não jogar, dizer o que você sente, ao menos hoje- ou será ilusão minha, e você não sente? É capaz…-? A vida é tão curta, tão breve… Por que a perda de tempo, por que não podemos ser francos, fracos, ridículos, anti-heróicos, enfim, nós mesmos?

Tenho sono, vou me deitar tarde, acordarei cedo, ainda assim, deito-me tarde e sei que vou me levantar cuspindo vespas enquanto o céu ainda está lilás e pouco se importando. A atmosfera não tem fígado, o ar não toma tranqüilizantes: sua catarse é o vento.

O triste é que depois, a médio ou a longo prazo, ainda pousado na esteira, ainda mosca, estarei aqui, neste ponto da borracha em movimento, rindo, bebendo, tapando minhas úlceras com tira-gostos, aproveitando para consultar minhas vísceras, de modo a saber se farei uma boa viagem, se Netuno há de ser generoso, se minha legião há de vencer os bárbaros (as pequenas estatuetas, você entre elas, the wall of dolls, representação, magia de imitação), tricotando com os neurônios-agulhas essa filosofia de lã (com botões de sonho e colarinho de paixão; sabia, sabia desde sempre que não deveria, inútil dizer que invariavelmente fazemos justamente aquilo que não devemos e os retratos dos nossos antepassados franzem as testas- um ou outro que viveu ais intensamente chega a sorrir). Essa filosofia de lã que, no final das contas, há de servir como brinquedo de filhote de gato, gato que saiu vencedor (eu percebi). Sempre vencem, os gatos. Cães como eu são estabanados e fiéis demais, amigos do dono. O felino é amigo da casa, dizem.





Água parada

3 09 2008

Esticar as pernas, a idéia inicial, quando o trem parou e saltou do vagão. Pouco antes de o trem parar, tocava alguns acordes, aleatórios, era música nenhuma, mais ou menos no pé em que estava a vida dele, música nenhuma, acontecimentos que se espalhavam como aquele jogo de varetas. Uns poucos acordes, estes repetiam-se, como num quadrado.

Por outro lado, havia barulho, muito barulho, o que trazia confusão, tontura, certo torpor, era desesperador ver como suas idéias se chocavam e iam para um lado e para o outro, ele tentando chegar a um consenso, raciocinar, sempre fora tão racional, como é que pode, agora, agindo como um bêbado decadente, como um imbecil, como um moleque que nunca havia enfrentado um problema antes, virgem diante do caos, sem norte depois de tantos mapas, de tantas bússolas, inaceitável; queria entender. Talvez o grande mal fosse justamente esse, querer entender, a necessidade de respostas, o pânico diante do silêncio, do obscurantismo, do nada ou do tudo que crescia como uma massa fermentada, um pão monstruoso, um desaparecimento que não havia deixado vestígios- Clarisse foi no poço pegar água, o ar a envolveu como uma manta, três das dez pedras ficaram azuladas, ela foi embora, ela foi embora. Aquilo que não existe e que existe, mas talvez não exista de fato. Um medo maior (haveria?): a resposta banal, de gravidade ausente.

Respirar fundo o ar daquela manhã cinzenta, o ar do campo, daquelas planícies quase desertas, habitadas apenas por matagal, árvores solitárias com seus galhos de mão de bruxa, e por nuvens que se assemelhavam a colecionadores de besouros, olhando para a enorme e desnivelada mesa de pôquer, assim como os colecionadores observam seus insetos alfinetados com seus globos oculares de balão; deixar que o ar do campo entrasse pelas suas narinas e fumar um cigarro, coisas que parecem- e talvez sejam incompatíveis.

Inspirou com força o ar úmido, o que lhe deu uma sensação de despertar. Mais do que isso, de conforto. Tinha no peito uma pressão fortíssima, de bigorna, de montes de pedras caídas num desabamento de entrada de mina. Na garganta, o familiar nó, chamado de bolo histérico pelos chefs-de-jaleco-branco-da-seita-de-Hipócrates. O velho e mau nó, a desagradável gravata invisível de uma profissão que ele não queria, mas que o recrutava sempre, como um batalhão em tempos de guerra. Prometera a si mesmo como a ave agourenta, “Nunca Mais”, tantas e tantas vezes. De que adiantava, alma burra, por isso o trem e o violão, o campo deserto, por isso aquele lugar, pra esquecer, apagar, sumir, por isso.

Um bando de gaivotas cortou o céu, achou estranho, longe do mar, tão longe do mar. Distância. Um homem do campo passou por ali e dançou, acompanhado por uma melodia que só ele ouvia. Achou natural, porque ele também ouvia músicas que ninguém mais… Não seria esse o problema? Meteu a mão num dos bolsos e achou uma propaganda de uma loja de doces, o papel tão amassado. Mesmo assim, leu. As letras, tortas, tinta do flyer borrada pelo suor. Lia sobre a variedade de doces, sobre os preços, formas de pagamento, formas de entrega. Lia como se aquilo fosse um conto, interessantíssimo. Não se lembrava de ter prestado tanta atenção anteriormente a uma coisa tão banal. Meteu a mão no outro bolso e puxou um telefone celular. Ora, mas que diabo de modernidade que desencanta e que estraga a cena de filme, ainda que seja um clichê. O que na vida não é clichê? Uma mesa que masca chicletes e que recita poesia? Eu nunca vi uma, você já? Logo, tudo é clichê. Entretanto, ele pensou, lá no campo, com o capim, a madeira e o deserto, e eu, aqui, com o aço, o concreto e o deserto, pensamos juntos, por que são tão dolorosos, se clichês? O que justifica tamanha dor?, que se repete como um eco, como os acordes do quadrado, mi, lá, si, os dedos ganhando calos, as unhas ficando cobertas de azinhavre e o choro que teimava em não vir… E, finalmente, por que somos tão estúpidos- ou seria a vida, com suas asas de morcego e com suas patas de vespa e com sua voz de cantora de blues, que desce por uma teia e que aperta um aerosol na nossa cara, e então agimos como Jerry Lewis-?





Plasticidade *

2 07 2008

Acordou e percebeu, após olhar que horas eram, o ambiente que estava mais sombrio do que deveria. Talvez o inverno, lembrou-se de que o inverno já havia chegado. A resposta que deu a si mesma não foi convincente. De fato, estava mais escuro do que de costume e as persianas estavam levantadas. Olhou para os lençóis em desordem, atentou para o silêncio, o que lhe chamou a atenção. Por que esse silêncio, se eu… Se todos deveriam a essa hora… Espere. Não era apenas a iluminação, essa decoração impalpável de interiores, mas o espaço em si. Não era familiar, embora não tivesse notado logo que despertou, mas quando se desperta, naqueles instantes que podem ser mais ou menos longos, nada o é. Quando se desperta, bem… É aquela coisa. Mais um dia. Venci um dia. Ou ele teria me vencido? Porque diante dos dias ela se sentia como um velhinho chinês trabalhando meticulosamente, durante muitos anos, numa obra de arte que jamais seria exibida.

Todos deveriam estar acordados a essa hora. Todos, ora: os filhos, o marido. Mas onde estavam? Teriam saído? Começou a andar pela casa, com certo receio porque, pouco a pouco, foi reconhecendo que, de fato, estava num ambiente hostil. Talvez hostil não fosse o termo apropriado, mas foi o primeiro que lhe veio à cabeça. E bem que poderia ser, já que não sabia onde estava e que diabo de apartamento era aquele, então qualquer coisa poderia acontecer, uma sombra que salta de um canto e que se precipita, um discurso incoerente, gritos, um animal?, enfim, qualquer coisa. E o bairro? Olhou pela janela, viu uma rua cheia de árvores frondosas- que pareciam cabos de couve-flor àquela altura, notou que estava num andar elevado, talvez nono ou décimo- e rasgos de lataria de carros de diversas cores que conseguiam fugir pelas frestas da capa de folhas que se abria ao capricho do vento. Não conseguiu se localizar; nunca vira a tal rua antes, nunca estivera naquele maldito lugar.

Depois de fazer uma inspeção durante um tempo que não saberia medir, descobriu que não havia fotos de seus filhos e de seu marido- ah, sim, e não havia bilhetes, logo, se saíram, não disseram para onde foram, a que horas voltariam etc. Por que não a chamaram? Nem de outros familiares, nem de amigos. Tampouco de colegas ou mesmo de conhecidos de bom-dia-boa-tarde-boa-noite. Havia fotos nas quais estava acompanhada por completos desconhecidos. Mas sorria e parecia estar feliz junto daquela gente, como se a conhecesse há décadas. Décadas, eu disse- ou ela disse- décadas?

Um cheiro de pólvora invadiu suas narinas, um cheiro forte, e isso ao menos era familiar, aliás, a única coisa familiar no meio daquele disparate, daquele absurdo, daquele não-reconhecimento, daquele não-apartamento, não-lugar, não-vida, não-ela e daquele algo-que-ela-não-queria-mais- enganou-se. É por acaso proibido enganar-se? Algumas lembranças surgiram, junto a uma leve dor nas têmporas- talvez o cheiro da pólvora?- e um arrepio percorrendo sua espinha. Lembrou-se do pedaço de antimatéria que ganhou de um velho homem- cujo sotaque lembrava o som de uma foca-, um dia, num parque, e de como ela o guardou numa caixinha multicolorida. E de como a cor preta da antimatéria brilhava na penumbra- apenas na penumbra- e, particularmente, no inverno. Tão linda de se ver, a antimatéria. Em seguida, recordou-se do tamanduá fumante, que descobriu viver no baú de seu sofá-cama, e que sempre dizia com voz de barítono “Horloge! Dieu sinistre, effrayant, impassible, dont le doigt nous menace et nous dit: ‘Souviens-toi!’”* E do esquimó caçando baleias, numa falha da costura de seu edredon.

Vieram as imagens dos primeiros saltos, das primeiras tentativas de mudança, assim que descobriu que, mas a imagem dos filhos e o marido, sim, era isso, teria desejado um amanhã diverso e por isso, a caixinha multicolorida, onde estaria, precisava dela já que, não, não queria aquele amanhã- que naquele momento era hoje- diverso, voltar, onde estaria a caixinha, se não conhecia a disposição das coisas naquele apartamento? Então pensou que, apesar de todas as diferenças, haveria uma lógica, isto é, ela teria guardado a caixinha num mesmo lugar, onde quer que estivesse no planeta, num mesmo lugar: sempre no criado-mudo. A gaveta, algum suspense. Medo de abrir e de ser esbofeteada por um vazio ou por um excesso de diferenças, de inutilidades discrepantes. Abriu só um pouco. Hesitou. Agora abriu por completo, num só puxão- a gaveta só não caiu porque era presa ao criado-mudo. Reconheceu com alegria as cores da caixinha. Abriu a tampa e fixou os olhos no belo, tão belo pedaço de antimatéria, beleza hedionda.

O velho, encontrou-o num parque, na Holanda, na última viagem que fizera com os pais à Europa- porque no ano seguinte morreram- era um domingo de céu cinzento, ele se aproximou dela, dizendo aquelas coisas que, de início, eram incompreensíveis, lógico, ele falava holandês, mas que passaram a ser inteligíveis quando ele abriu o punho cerrado, estendendo a mão de falanges encardidas e mostrando o pedaço de antimatéria, e ela riu quando o velho contou que um pedaço de antimatéria foi confundido com uma batata e que, por isso, foi engolido por um aborígene- que teve sua altura reduzida a 18 cm-, e que, antes, muito tempo antes, um fragmento caiu do céu- eles caem com mais freqüência do que se imagina-, na Bolívia, apagando um pedaço do firmamento, onde as nuvens não mais se formaram e por onde os pássaros não ousaram mais bater suas asas. Aconselhou-a prudência para não se enamorar do fragmento de antimatéria- Apaixonante, a antimatéria-, pois aconteceu com uma mocinha irlandesa, no que apareceu um anti-homem com quem ela se casou, mas ela vivia infeliz pelo fato dele, seu anti-marido, fazer apenas anti-coisas, tais como tragar moscas, colocar limo na sopa e dançar polka ao ar livre, em noites de temporal. Enfim, um monte de anti-estórias, carregadas de anti-causas e de anti-efeitos. Uma lista expressiva de incidentes tragicômicos e mesmo lamentáveis, quando analisados em sua totalidade.

O cheiro de pólvora ficou mais forte e uma luz azulada invadiu o quarto, que parecia pulsar. A visão turva, as coisas ao redor- os armários, o papel de parede, os móveis, a luminária, uma gueixa de porcelana, uma foto de Berlim, um caderno de anotações de páginas lilases, a cartela de anti-concepcionais amassada no fundo de um cesto e o maço de cigarros e o tamanduá fumante, pensou tê-lo visto entre o torvelinho de objetos- ficando tortas, como se desenhadas num papel amassado, o quarto derretendo como cera de vela queimando, um som de música distante, muito distante, uma temperatura quente como a de um banho morno envolvendo seu corpo, uma aura amigável de abraço octópode, beijos roubados de ventosa de molusco, uma sensação agradável, mas que foi interrompida por uma dor lancinante, parecida com a dor de crise de ciática. Era sempre assim, o retorno era sempre o mesmo. E depois vinham as cãibras. Também um certo enjôo. E urticária. E gosto de formaldeído nos lábios, junto com a sensação de ter sardinhas pulando em sua língua.

A questão é que o ambiente estava mais sombrio do que o normal, levando-se em consideração o fato de que eram apenas dez da manhã e de que sua casa era tão bem iluminada pelo sol, as janelas, enormes, espreguiçou-se e num movimento lento pôs os pés no chão esperando o suave contato com o carpete, mas ao invés disso, sinteco. Quê? Sinteco? O carpete… Mas… Olhou o ambiente, ainda com os olhos um tanto embaçados, e notou que havia uma triste familiaridade: o quarto era o mesmo, ainda se encontrava no maldito apartamento, não em sua antiga casa, para onde deveria ter voltado, por quê, se sempre voltava, como explicar os sintomas, todo o processo que se deu como de costume, tanto que sentia a repercussão dos efeitos, e as dores, mas o lugar era o mesmo, como podia ser? Apenas uma diferença, o velho sofá-cama, o mesmo dos tempos em que era muito jovem, aquele mesmo, a vivenda do tamanduá fumante. Por falar em tamanduá fumante, lá estava o bicho, do lado de fora do baú do sofá-cama. Ela teria perguntado “Por quê, por que não voltei?”, mas seus lábios tremiam, dois riscos quentes escorrendo em suas faces e um gosto salgado começava a prevalecer sobre o de formaldeído. Antes mesmo que pudesse terminar de formular as perguntas, talvez antes mesmo de pensar nelas, ouviu o tamanduá-que-apreciava-tabaco dizer: Esgotou sua cota, senhorita. Esgotou sua cota…

* O Sublacustre completou no dia 25 do mês passado dois anos. É curioso, a sensação que tenho é a de que ele existe há bem mais tempo, certamente porque esses últimos dois anos foram muito intensos- não tanto quanto à freqüência de postagem, mas de um modo geral. E a escolha do tema do post novo foi competamente casual, já que cismei que o aniversário seria neste mês que se inicia. Enfim, parabéns pra você, velha criatura do lago.

*Charles Baudelaire, L’Horloge.