Já esteve naquela sala antes, mas muita coisa parecia diferente. Muita coisa parecia diferente também na vida dele. Muita coisa parecia diferente no mundo que se estendia para além daquelas janelas de vidro coberto com película marrom, sempre escondidas atrás de grossas cortinas de veludo cor-de-vinho, que parecem músculos expostos numa aula de anatomia. Quando alguma coisa muda, por mínima que seja, uma porta é aberta, isso é fato. O máximo que você pode fazer é abrir outra, e mais outra, porque uma vez aberta, não mais se fecha. Você pode marcar a porta, sim, isso você deve fazer, todos os dias, notadamente aos sábados, na alvorada, antes dos raios agressivos do sol empalarem as nuvens, é coisa extremamente salutar, meu caro amigo.
Lá estavam os cinco maiores acionistas da firma, sentados numa antiga mesa redonda de mogno, reparou na base empoeirada e com traços de teia de aranha, percebeu que o tampo estava arranhado, e que tinha sulcos que possivelmente haviam sido feitos com ponta de adaga. Dias antes olhou para uma árvore enorme na rua e se impressionou com a forma do tronco, aquela coisa parecia humana, lembrava o dorso de uma mulher e foi assaltado por uma vontade de descer da condução e lamber a planta. Não o fez porque se atrasaria para o trabalho e também porque a menininha do banco de trás certamente puxaria a manga da blusa da mãe e falaria realmente alto “Olha lá, mamãe, o homem lambendo a árvore”, com os olhos arregalados de bola-de-gude, e os passageiros torceriam seus rostos como roupa molhada sendo tirada da bacia, como os nódulos dos gravetos, porque seria patético, independente do ônibus ser patético, independente de ser patético um troço que corre e que carrega um bando de gente sentada e de pé, uma variação de biga, de carroça-que-carrega-vítimas-de-peste-negra- nesse caso as portas eram marcadas quando era demasiado tarde.
Pois bem, estavam presentes o Sr. Tridente, presidente, o Sr.Machado, vice-presidente, o Sr. Foice, o Sr. Marreta e o Sr. Esquadro, porque de perfil era o que parecia, um esquadro, não sabia que cargos ocupavam esses últimos três, via-os pouco, porque viviam viajando por todo o globo, era o que diziam na sala do cafezinho e nos cochichos após os almoços nas cantinas, quando pareciam feras com o apetite saciado e o molho do espaguete, sangue. O silêncio da sala era barulhento, o ar denso, por conta da fumaça dos charutos, a perspectiva à frente dele era uma tela cheia de olhos, dez olhos, nove, porque um ficou na Segunda Guerra, dizem que foi na Normandia, mas eram dez, já que o globo ocular vítreo não passava batido, não mesmo, era o olho que mais olhava.
- Algum problema no negócio com os Messino? Falei há pouco com o Dr. Catapulta e ele me disse que…
- Nada errado- disse o Sr. Tridente-, não se preocupe. Você agiu de forma notável, como sempre.
- Não estaria entre nós se assim não fosse- completou o Sr. Machado, sorrindo ou não, porque existe um meio-termo nisso que não consigo definir.
- Mas algo aconteceu, porque, como os senhores sabem, estava já no check in, e o celular privativo tocou, a Dona Castiçal não me deu muitos detalhes, disse para eu voltar tão logo fosse possível…
Enquanto falava e procurava uma razão para aquele chamado urgente, viu um enorme painel e um quadro, dispostos na parede com uma assimetria curiosa, não acidental, mas planejada, que ocultava no fundo uma simetria, uma lógica qualquer que lhe era obscura. O painel era um planisfério, no qual estavam em destaque a Europa e a Ásia, sendo que os outros continentes estavam cobertos por uma coisa que parecia espuma de travesseiro (?). O quadro era uma pintura a óleo e representava um homem numa paisagem desértica, de joelhos, no chão, com uma das mãos na fronte, e uma expressão de pesar. Próximo do planisfério, chumbado- recentemente, os sinais eram perceptíveis- na parede, estava um spot de prata que jogava luz negra sobre os dois continentes em destaque. Achando aquilo tudo por demais intrigante, não se conteve em perguntar. Optou pelo quadro, porque era algo mais comum do que um mapa coberto por espuma.
- O homem naquele quadro, quem é? Perdoem a curiosidade, mas é que…
- Ora, meu rapaz- disse o Sr. Esquadro, que até agora estivera ocupado com anotações de sabe-se-lá-o-quê e cochichos com uma moça japonesa vestida de preto que havia entrado na sala sabe-se-lá-como, porque só havia uma porta ali.- não fosse a curiosidade, estaríamos ainda lascando ossos- e riu com catarro na garganta. – Embora a curiosidade tenha limites, bem entendido- completou o Sr. Marreta.
- O homem que está no quadro- prosseguiu o Sr.Esquadro- foi o primeiro a ser enganado.
- Enganado?- perguntou o rapaz.
- Não me diga que nunca procurou o significado do nome dele? Jovens executivos, só pensam em papéis e secretárias nuas…- A moça japonesa olhou pra ele de forma libidinosa.
- Nome dele?, quem? Do homem do quadro? Não entendo…
- Não, daquele que o enganou.
- Muito bem, Sr. Marcos, vamos direto ao assunto, embora o tempo não seja um empecilho, nem para o Senhor, muito menos para nós, que somos velhos, muito velhos. O Sr. Foi chamado aqui porque hoje é o dia, é o dia, como posso dizer?, ah, o dia da troca.
- Dia da troca?
- Ora, Sr. Marcos, o Sr. bem sabe que fizemos uma troca. Nós lhe demos o que o Sr. Queria. Tudo o que o Sr. queria e sempre quis. Chegou a hora do Sr. nos dar o retorno. Parece justo e é assim que as coisas funcionam, não é mesmo? Desde o tempo em que lascávamos ossos. Lembra-se disso, pois não?- e estendeu para o rapaz uma pasta de couro de cor púrpura. O rapaz pegou a pasta, com as mãos um pouco trêmulas; toda segurança de homem de negócios que tinha até então, toda frieza, foram para o espaço, para o cacete. Abriu a pasta e reconheceu sua assinatura no contrato, a mancha vermelha que lembrava selo de cera, de correspondência medieval, enegrecida pelo tempo, bem ao lado da assinatura; acima, um monte de parágrafos que não quis ler novamente, pois se lembrava deles, ora, como não se lembrava?, achou engraçadas as letras góticas, uma excentricidade de empresários tradicionalistas, velhas raposas do mundo dos negócios. Viu uma mecha de cabelo castanho, cabelo que era dele, e um pequeno saco plástico costurado com linha cirúrgica no couro da pasta. No interir do saquinho plástico, um dente.
- Não! - Marcos largou a pasta no chão e recuou. Encostou-se na parede. A moça japonesa havia tirado a blusa e alisava um dos seios nus. Ela ria e jogava beijos para ele, passava a língua pelos lábios. Os lábios dela eram cor de vinho como as cortinas, e agora as cortinas acompanhavam os movimentos que os lábios da moça faziam, dançavam freneticamente, como aqueles que outrora foram perseguidos, o velho e familiar bailado. Os lábios dela eram carnudos, brilhantes, úmidos, ao contrário dos daqueles velhos que tinham as bocas ressecadas como múmias. O Sr. Tridente tinha herpes, dava para se notar.
- Não!- gritou mais uma vez o rapaz. A moça agora estava completamente nua e o Sr. Esquadro bebia licor usando o scarpin dela como taça. Libação. E ela ria, ria e ria. Um carneiro saiu de baixo da mesa.
-Ora, rapaz, não seja infantil…- disse o Sr. Tridente.
As pesadas cortinas de veludo abriram-se como o Mar Vermelho. Nas vidraças, nenhum sinal da película, porém a luz não entrou, embora fosse dia. O nome daquele que enganou foi murmurado pelas seis vozes que não eram mais humanas. As sombras acenderam. Ele disse “não” uma vez mais, antes que a moça o calasse com um beijo de língua, boca fumegante, parecendo lava vulcânica. Não tem três letras. Sim também.