Brevediálogo

13 09 2007

- Queria ser uma pedra de gelo.
- Por quê? Pela frieza? Metáfora?
- Não… porque ao menos a pedra de gelo sofre mudanças. Sou uma pedra comum.
- Pedras-que-não-de-gelo também mudam; o processo é mais demorado, só isso…
- Parece auto-ajuda isso que você falou…
- Não ajudei a mim mesmo em nada ao ter dito isso.
- Sarcasmo, sarcasmo.
- Sinceramente, não pensei nisso.
- Ok…





Rascunho de carta que não terá como destino o cesto de lixo

12 09 2007

Planície Oval, 13 de dezembro de 1999

Querida ———-,

É segunda-feira de manhã e continuo

Finalmente encontrei uma brecha na louca correria em que estou para escrever estas linhas tortas pra você- não são seus olhos, é minha caligrafia que anda péssima. Sinta ao informar isso ao seu oftalmologista, aquele cara engraçado que parece uma figura de desenho animado e que pinta pontos pretos no aparelho de medição de grau só para pregar peças em seus pacientes.

Não saberia dizer com convicção se tudo por aqui está bom ou ruim, e lamento por isso, pois sou sabedor de seu gosto pela objetividade. Por outro lado, assim deve ser, já que (Cousteau) não posso mentir; não seria capaz de mentir pra você: dormiria mal, acredite. Sendo assim, não sei em que situação me encontro. A coisa é complicada, eu seria injusto ao contar que as coisas estão ruins. Você sabe que algumas coisas boas têm ocorrido- minha máquina de lavar se deslocou por 5 metros, batendo um recorde familiar que não era quebrado desde 1978, época em que meu avô em segundo grau criava camarões na banheira, consegui tomar um rumo que me parece enfim seguro, muito da minha vida tende a melhorar, a não ser que um cofre caia no meu ombro, impossibilitando-me de dançar ritmos latinos durante uma pá de tempo. A palavra-chave seria confusão.

Tenho evitado de ficar só, procuro seguir seus conselhos. Então venho saindo com uma mulher, —— o nome dela. Uma boa moça, mas confesso que não estou satisfeito. Digo mais: pensei em você o tempo todo- sua imagem é muito forte; não a culpo, não entra na minha cabeça essa fantasmagoria de culpa aplicada a cada movimento que fazemos-, enquanto estive com ela ontem, enquanto transamos e… você sabe o que eu penso, você me conhece, não me sinto bem fazendo esse tipo de coisa- se ela estava se entregando a mim, se ela tentava dizer meu nome entre gemidos e respiração arfante e palavrões e arranhões e mordidas e na linguagem muda-barulhenta de expressões faciais e pêlos arrepiados e taquicardia e calor irradiado pela pele como uma lâmpada amarela de muitas velas e eu não estava ali, estava em você, logo, ela entregava-se a alguém que não era eu, mas a um simulacro, a um ator que

Não dá pra escrever quando alguém te interrompe a cada três minutos

Por causa do tempo que perdi a interrupção a cada três minutos continuou e agora tenho que sair sinto muito pela pressa mas tenho realmente que ir diga a sua mãe que nada tenho contra ela é uma impressão ruim que ficou tudo por causa tinha também aquela coisa de me sentir inferior indigno de estar ali entre vocês grande bobagem por isso parecia amuado fechado um grande abraço no seu pai no irmãozinho ele ainda gosta de aviões vi um na semana passada lembrei dele e o cachorro ainda com problemas coitado está velho você sabe e a casa nova adaptando-se bem minha querida saiba que ainda que eu não consiga escrever por um período mais longo ou que não escreva nunca mais você será querda querida pra sempre haja o que houver muitos beijos do seu

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No início da página 161, tinha uma quinta frase; tinha uma quinta frase…

10 09 2007

Ontem recebi um desafio curioso- que me deixou ainda mais curioso*- da Amanda, que consiste em: 1) pegar o livro mais próximo; 2) abrí-lo na página 161; 3) procurar a quinta frase completa; 4) postar a frase no blog- lembre de colocar um link de retorno/ trackback; 5) não escolher a melhor frase nem o melhor livro- usar o mais próximo-, e, last but not least, 6) repassar o desafio para cinco blogs.

O livro mais próximo é um que comecei a ler na tarde de ontem- domingo, 9 de setembro-, “Signos em Rotação”, uma coletânea de ensaios do poeta mexicano Octavio Paz. Livro aberto na página 161, busco a quinta frase completa, que vou postar a seguir. Ok, não posso dizer se é o melhor livro- porque comecei a leitura há pouco-, nem dizer se é a melhor frase; logo, creio que esteja tudo nos conformes. Eis a frase:

““Os objetos imperfeitos e frágeis- uma pedra arredondada, um ramo torcido, uma paisagem não muito interessante por si mesma mas possuidora de uma certa beleza secreta- possuem qualidade furyu.”

Dos cinco blogs escolhidos, postarei o nome de três, já que não fui autorizado- ainda- pelas suas respectivas donas a divulgar a url de dois deles- excentricidades de escritor que entendo numa boa. Mas o desafio seguirá em frente. Os blogs que escolhi são:

Algodão Hidrófilo
Lightday
Templários sem teto

*por causa dos números. Fiquei pensando no porquê de ser a página 161, de ser a quinta frase… Acendeu-se logo a lâmpada do insólito na minha cabeça. O trio Dupin- Holmes- Bond começou a trabalhar.





Capítulo Zero

8 09 2007

Fomos informados através de um sinal sonoro- algo como um bip- precedido por uma luz- pense num sonar; não é exatamente a mesma coisa, mas é o melhor que pude arrumar por hora- da chegada de uma carta. A epístola foi largada na selva, ponto. A selva ficava distante de nossa base, ponto. Isso significava que teríamos que pôr aquelas vestimentas estúpidas e pesadas, que faziam com que andássemos como patos ou caricaturas de astronautas, já que a gravidade não era zero. Deixava ela vestir-se primeiro. A porta do vestiário sempre ficava entreaberta e eu espiava o corpo dela libertando-se do casulo das roupas de laboratório, que eram penduradas no armário com um capricho de camareira. Depois vinha a segunda pele de látex, a droga do macacão, as botas e toda aquela parafernália. Ela sabia que eu a espiava, parecia não se importar com isso. Às vezes, ela olhava para a fresta da porta e nossos quatro globos oculares se encontravam. Era uma coisa de segundos. Segundos eternos, o mar observando a pedra. Era tudo o que podíamos ter, até que recebêssemos um sinal de que a peste estava extinta, e de que ao fazer sexo nossos corpos não ficariam parecidos com nozes e passíveis de virar pó com o menor toque. Mas estava pra chegar o dia em que um grande foda-se seria o estandarte de nossos destinos, nós na cama, gozando juntos, e depois, dois montes de poeira ocre, dois montes alegres de poeira, pra que ser sólido num mundo como aquele? Tinha tanta vontade de tocá-la que sonhei. Sonhei na noite anterior que estávamos num quarto e que lá estava também uma terceira pessoa. E então ela estendeu a mão, eu segurei- pude sentir a mão dela sem segunda pele, sem luvas, o calor, a delicada firmeza e tudo mais-, e ela disse algo mais ou menos como “tudo vai dar certo”, sorriu e tinha os olhos úmidos, aquela coisa de rir e chorar ao mesmo tempo que só mulheres fazem, coisa bonita. Mas tive que sair pra ver uma outra casa, e o caminho até a casa era em preto-e-branco, a casa com a porta aberta, coisa que estranhei, mas eu estava preocupado em voltar porque ela estava lá no outro ponto do sonho e acordei.

Não dava pra saber de fato se o dia estava quente ou não, só através dos termômetros, do pequeno computador com seu display. Através das viseiras, enxergávamos um mundo azul, como um cara com óculos psicodélicos na esquina em 1967. Não era possível ver o sol, o sol estava com frio, vejam vocês, e ficava metido num edredom de nuvens. Na tundra, era difícil avançar com aquela quantidade grande de noquis- novas quimeras- pululando. “Os fauninhos e sereiazinhas”, dizia ela. Ainda tinha a capacidade de se encantar. Mas sabia ser durona, se sabia…

Seguindo as coordenadas, chegamos ao ponto onde deveria estar a carta. E lá estava ela, dentro de um plástico. Claro estava que não podíamos abrir ali, que teríamos de seguir os procedimentos, era tão ridículo o objeto achado flutuando e sendo escaneado por aquelas luzes coloridas, e pensar que um dia eu gostei de ficção científica, na verdade, muitos dias, quando era moleque, e que isso me levou a ser cientista.

Ouvimos um barulho de graveto seco sendo pisado e vimos uma moça. Hesitei, e minha ajudante me puxou, lembrando que aquela presença obviamente era efeito do octocarbol, que tomávamos em doses nada homeopáticas há quase uma década. Alucinação. Hesitei porque se tratava de uma mulher, quem sabe a situação toda tivesse voltado ao normal, quem sabe fosse uma moça de um outro posto, e nós ali, desinformados, presos num presente estúpido, numa rotina torta como garfo torcido por paranormal. Já nem me importava mais com rinocerontes em cima de postes abandonados ou minotauros barítonos.

De volta ao posto, aconteceu o ritual de troca de roupa, e percebi que a coisa tinha se invertido, agora era ela quem me olhava. Não tinha percebido antes. Logo em seguida, após o estrondo do fechar da porta do vestiário- como um piano caindo do segundo andar numa piscina-, pusemos a carta no cubo de análise. – Você ou eu? Quer abrir?- ela perguntou, mas já tinha começado a passar o pequeno bastão de laser no envelope.

De repente ela começou a rir, e não parava mais,e eu ali, perguntando “por quê?, o quê? O que foi?”, sem resposta, as gargalhadas ultrapassando qualquer tentativa de explicação da parte dela, ela só mexia o outro braço, o que não segurava a carta, na intenção de indicar alguma coisa, mas o riso imperava. Por fim, estendeu o braço e me passou a carta. Olhei com atenção enquanto ela já estava sentada no chão, rindo, com ambas as mãos pousadas na barriga. A carta era uma lista de compras. Eu tentei rir, mas não consegui, nos primeiros segundos. Depois sim. Amanhã começa tudo de novo. Esperar que encontrem novos objetos, esperar por um grande achado, por uma resposta, pela salvação. Esperar.





Método

31 08 2007

Diga-me uma holofrase. São quase seis da tarde e o último esgarçar de dentes seu brilha como relâmpago no horizonte. Mas o horizonte está lá, distante, entre mim e ele jaz areia negra e úmida pela chuva que ainda não veio, ou que já se foi, sem que gota pudesse sentir.

A rua chamou-me atenção, aquela que se encosta no viaduto, nela vi um dia nublado como o de hoje, quando comi uma pizza furtiva, celebração de um encontro cujo motivo já me fugiu, aquela rua não era a de costume, e lembrei do terror da quebra da rotina, do passar pelos portões de ferro após a hora, sensação de angústia, máscara de idiota, porque aquele fragmento não mais será, tal como a pizza que poderia ter sido devorada com mais calma, porque não adianta correr, a corrida é fuga cega para quem não é atleta como eu, como você. Não posso me condenar, era novo demais, demais, mas a lembrança é torta e tem ponta que fere. A insegurança foi tola, o futuro é muito pior, agora eu sei, sei que tudo é a porra do medo- o que haveria de ser?, absorvido como um nutriente o é por uma ameba? Agora sei que não. Será tarde demais? O que é tarde, além do que está entre o dia e a noite?

Sinto um enjôo muito grande. E a confusão. A dor de cabeça já se foi, o sono fica. As certezas também, e acredite, elas podem ser irritantes, dúvida é escuridão alegre de útero, anda de mãos entrelaçadas com a esperança.” Não” é a chave, porque do contrário me forço a crer nas palavras de pasquim do profeta-palhaço, nos sinais supersticiosos de uma ginástica oculta que eu mesmo criei, numa dose cavalar de fatalismo. Ainda que eu seja um títere, deixe-me sonhar com cordas que se arrebentam e com folhas que eu mesmo hei de riscar. É apenas sono, você diz; não, eu digo, é como sono e embriaguez. Durma, você diz, e amanhã, quando você abrir a janela, verá que o parapeito é capaz de se dobrar, e que as pontas opostas irão se tocar, como aquela teoria do universo, embora o parapeito seja feito de mármore. A minha resposta seria, que me resta fazer, caso isso não aconteça, que não chamar seu nome, olhando para os lados como alguém que chega numa cidade desconhecida? Certamente você dirá: ria disso, e é tudo.

Sabe-se que a moça vivia numa cidade pequena, mas não o bastante para que fatos espantosos não ocorressem. Diante disso, após a análise dos dez casos que haviam tomado o maior vulto naquela semana, ela decidiu rasgar tudo o que aprendera. Sim, porque ficou difícil, parecia não haver mais parâmetros para nada, coisas que mudam numa velocidade inaudita e que deixam você boquiaberto, com os quatro-pensamentos-pneus atolados no barro. A questão “Por quê” torna-se inútil, já que não encontra resposta. Nem ecoar ecoa mais; infere-se que a acústica é uma louca especulação.

Seria um trabalho colossal, a moça já não era tão nova, então havia muito o que rasgar. Começou. Pensou que seria fácil, mas a cada página partida, um choro impunha-se- é fácil apenas em tese. Além de ser um material farto, estava ele distribuído por vários escaninhos- esses escaninhos a que me refiro lembravam, em seu conjunto, uma estante de adega-, e não se encontrava em ordem alfabética. Na verdade, não havia ordem, e a moça era obrigada a se valer de sua memória, algo do tipo “Ok, guardei tal aprendizado no escaninho do centro, no dia ístmo de guardanapo de mil, novecentos e inoxidável!”.

Enquanto a moça tentava pôr em prática sua idéia, novidades chegavam com o vento da tarde. Já não eram mais dez casos expressivos, eram vinte, trinta, quarenta, e ela não tinha rasgado nem um terço do que aprendera. Pensou em fazer o serviço com maior pressa, ser menos detalhista no picotar dos papéis, contudo o espanto invadia de forma espantosa, eu diria- e não se trata de uma piada, falo das coisas tal como elas se desenrolaram- a sala bastante arejada. Isso não a desanimou, ela pôs-se a trabalhar com maior empenho, suava, parecia um goleiro desesperado diante de uma cobrança perigosa de escanteio, e as novidades espantosas que não paravam de chegar, invadindo a sala, começavam a se depositar no chão, junto com os pedaços de papel picado, uma esquisita decantação, ela bem que podia parar, nada a obrigava a seguir em frente, mas era a saída que achara, podia ter pensado no que a outra moça me disse, ria disso, e é tudo, mas não, e a pilha crescia, muita coisa já foi coberta pelas dunas, os desertos avançam, sabe-se disso, o teto não parecia tão alto quanto antes, o vento preenchia o espaço, mas ficava cada vez mais difícil de se encontrar ar, as narinas tremiam como um focinho de coelho, chão já não havia, só um lago branco de papel, um lago de líquido seminal (acho que ontem sonhei com você), e a pilha crescia crescia, Crescia, CRescia, CREscia, CRESCia, CRESCIa, CRESCIA





Coro de Canudos

26 08 2007

Passava pela rua quando a luz se apagou, ela passava perto do viaduto, não seria chato se fosse só um poste, mas todos, todos eles apagaram-se juntos, um motim elétrico, que péssimo, ela pensou, porque a cidade já está cheia de ladrões e agora tudo escuro, e eu andando sozinha aqui, embora soubesse lutar- não era nenhuma arte marcial, era luta de sobrevivência, com o que estivesse à mão, incluindo a própria mão, aprendeu na fazenda, com um capataz de seu pai-, já dera de presente 15 pontos cirúrgicos para um vagabundo que tentou roubar sua bolsa, e aquele sujeito, que se julgava mais esperto do que Sartre e possuidor de um índice de vilania superior ao de qualquer Fratello da máfia foi chorar na enfermaria com um sulco de terremoto na testa; pedras ainda conservam alguma beleza após o espasmo das placas tectônicas, já os tecidos humanos não.

Estaria ela por lá? Sim, foi um pensamento pertinente, visto que era uma terça-feira, e ela não costumava atender os clientes numa terça-feira, mas ela precisava de uma bela massagem, precisava de contato humano, contato humano íntimo, precisava de duas horas de labirintite erótica, da embriaguez do licor, e dos cigarros de bali, e do cheiro do incenso, e das conversas bobas, e do murmúrio do ar-condicionado, e das persianas fechadas como uma muralha da China que a protegia das preocupações e da droga da hipocrisia da sociedade civil que marcha com medo de si mesma e do totem carrancudo inventado por figuras que vão passar a vida engendrando cosmogonias de Dr. Frankenstein enquanto coisas de maior vulto acontecem nos melhores points da galáxia- justamente por isso-, precisava também de uma agenda nova e de créditos em seu celular. Precisava da cortina dos cabelos castanho-claros dela. As lâmpadas dos postes continuavam apagadas em sua greve silenciosa e antipática, já reparou como postes são antipáticos, aquelas girafas de concreto e de ferro?-, enquanto os carros passavam e jogavam impunemente detritos de farol, acendendo cantos inexpressivos e formando sombras engraçadas dela mesma, do grupo de pessoas que voltava de alguma festa, dos pedintes, do rato que deambulava como um ioiô solto do cordão, dos hidrantes, dos postes inertes, do mundo inteiro.

Ouviu um som, uma cantoria, os ouvidos dela tateavam a escuridão na busca de um mapa que indicasse o local de origem daquela estranha musicalidade. Bem executado, afinado, que seria? Foi se aproximando, era um beco, seria redundante dizer “beco escuro”, seria um tipo de tautologia naquela exata situação, diante da greve da iluminação pública local.

Não é que uma luz se acendeu? Um spot, e o iluminador era uma lagartixa. Ela fingiu espanto, fez cara de “Oh, meu Deus”, expressão bem cabotina, não que não fosse espantoso, mas porque nada mais a espantava. Fazer o quê? Culpa da barbaridade do mundo hodierno e dantesco. Que respondeis vós, ó criadores de totens, ó criadores de atum?_ _ _ _ _. N; do AuToR: Atuns costumam descrever octógonos enquanto nadam; e filhotes de atum são Atinhos. Posto isto- concordando com o movimento Pré-Romântico Sturm und Drang-, é momento de prosseguir.

Então o spot, que a lagartixa segurava com uma certa dificuldade, usando luvas de corredor nas patinhas, porque o ferro do negócio esquentava, coitada dela, destacou da treva, que nem caneta de marcar texto, um grupo de canudos, sim, de canudos- veja, escrevo como aqueles anunciantes de produtos de canal de vendas tentando os telespectadores, marketing hipnótico-, de canudos de sugar refrigerante. Bem, os canudos continuaram cantando, pareciam felizes, não havia espanto em suas expressões por causa do aparecimento daquela espectadora inesperada- falando em esperar, o que ela esperava da vida, além daquelas duas horas de sumiço do mundo? Ah, tanta coisa… e dói muito quando as expectativas despencam como toalha molhada pendurada no banheiro. Pois bem, após a apresentação dos canudinhos listrados como pijamas, ela perguntou o que era aquilo, disse que nunca tinha visto coisa semelhante- era verdade, ela apenas não se espantava mais com nada, só isso, mas que não tinha sido testemunha de fato semelhante, isso não tinha-, ao que os canudos responderam que era um ensaio para um show beneficente do qual iriam participar, show que arrecadaria fundos para ajudar sucos que são pouco pedidos em lanchonetes, e que contribuem, com seus desempregos, para engrossar as fileiras do tal exército industrial de reserva. Ela aplaudiu- de verdade. E ela se comoveu- de verdade. E se comprometeu- de verdade, eu juro- a escolher um desses sucos nas sua futuras idas às lanchonetes do centro da cidade. Os canudos agradeceram em uníssono, O-BRI-GA-DO, porque além de afinados, são polidos. No agradecer, têm voz de robozinho.

Subiu a escadaria e sorriu ao ver sinais de lâmpada acesa por trás do vidro da porta dela. Os cabelos castanhos estavam presentes. A outra abriu a porta, envolveu a cintura dela, disse alguma coisa daquelas que são ditas quando portas são abertas para visitantes esperados, beijaram-se. Depois que entrou, quando já se sentia à vontade, em casa, fora do mundo, sem a blusa nova e incômoda que arranhava sua nuca com a etiqueta, sem a saia apertada, contou o caso dos canudos para a moça-dos-cabelos-castanho-claros, enquanto ela massageava suas pernas. Na televisão, ligada e sem som, passava um filme antigo. “E eles disseram que não fui a única!”- lembrou, -“Disseram que Frei Caneca também os viu certa vez.” A moça-dos-cabelos-castanho-claros murmurou algo, talvez tenha sido um “Ah, é?”, e sorriu, como ela, diante da porta iluminada, porta que sinalizava presença. Estava finalmente em casa, fora do mundo, em seu tão querido barco, à deriva daquela coisa toda lá dos outros seis mares; parecia que as coisas não seriam tão ruins dali pra frente. Será? Tomara que sim, essa é a nossa esperança- custa tanto um punhado de sonhos? Ora essa!, não é possível que custe… Igualmente a dos canudos cantantes. E de muitas pessoas que navegam lá pelos lados ondulantes dos seis mares restantes.





Nerval

18 08 2007

Não conseguia dormir, já era o segundo dia seguido. Poderia dormir, mas não queria, o que era aquilo, uma penitência? Ouvia a mesma meia-dúzia de cds, álbuns diferentes, que não tinham relação entre si, ao menos aparente. Gesto mecânico, o braço direito se esticando, não seria absurdo ser chamado de juke box. Só faltavam as luzes. Falar de juke box no dia em que Elvis não morreu. Sempre que via a foto de uma juke box, tinha a impressão, quase nítida, de que ela iria saltar de seu canto e atacar alguém. Ela parecia recolhida como um animal acuado.

Entre a esperança, símbolo do futuro, e as reflexões, armaduras do passado, o vazio. Queria escrever, mas algo o impedia. Quem sabe, o cansaço. Uma força invisível qualquer. O branco da página ali, então, esse era o chamado, a química, o feromônio, a página ali, imaculada. Letrinha escrita, sensação de alívio, o branco indo embora, só não sabia onde aquilo ia parar, que letrinha ficaria diante da rua sem saída do ponto final.

Dias antes, numa papelaria, algo chamou sua atenção. Parou diante do algo que puxou sua atenção como prego solto de cadeira puxando linha de roupa. Refletiu sobre o quanto aquilo em que pensou fazer seria bonito. Desistiu e voltou pela rua escura com certa tristeza, pensando na desistência, porque é chato desistir. É como ser que não vinga; o botânico planta a semente, mas ela fica lá no vaso, coberta por um edredom mineral, não brota, não dá flor. E é isso, a planta que não foi. Parece que tem muito disso por aí, de coisas que não vieram a ser. E é isso- É o que NÃO foi. Só que tem as outras coisas, inicialmente esvaziadas de encanto- ou com um encanto outro, forasteiro-, porquanto não desejadas. Dias depois lhe ocorreram duas novas idéias, num cenário que já era outro. Mesma coisa, ele achou razoável não pôr em prática. Teve provas de que estava certo num curto espaço de tempo. Pergunta: isso fez com que não se sentisse triste novamente? Resposta: não. Quando você renuncia, parece que não comeu, parece que não dormiu, parece que esqueceu a chave em casa, parece que não encontra o termo que queria usar num discurso, o termo que seria importante para tornar sua idéia inteligível- e não pensarem que você está falando uma língua morta. Línguas mortas são boas de se ouvir, porque não precisam do purê de batatas.

E as pálpebras pesadas, a merda da gripe e dos lenços, os apontamentos, o lanche devorado, o contraste de temperatura, o livro caído, a bagunça, a bica que precisa de veda-rosca, o tabaco, a semana que seguiu feito bicho cativo que é solto na beira do mato, só soube do terremoto depois, bem como do empresário que desencapou a tomada, tomou descarga elétrica e viu um biscoito sapatear, tipo um musical dos estertores da década de quarenta.

Saiu para pegar o jornal e deixar os sacos de lixo na rua. Os sacos de lixo seriam certamente revirados por algum gato ou por pessoas. Talvez não houvesse mais lixo quando o pessoal do serviço de coleta chegasse. Lixo era essa situação, isso sim, meu irmão! Positivismo- ouvir risos; pode usar um saco-de-riso. Olhou para o céu e viu que seria um dia ensolarado. Numa janela, a dezenas de metros dali, uma mulher fumando e olhando para o nada. Era bem cedo. Fixou-se nessa oração: “Era bem cedo”. De fato! Voltou. Escreveu. Desvirginou a página. Dormiu.





Conciliábulo

12 08 2007

Já esteve naquela sala antes, mas muita coisa parecia diferente. Muita coisa parecia diferente também na vida dele. Muita coisa parecia diferente no mundo que se estendia para além daquelas janelas de vidro coberto com película marrom, sempre escondidas atrás de grossas cortinas de veludo cor-de-vinho, que parecem músculos expostos numa aula de anatomia. Quando alguma coisa muda, por mínima que seja, uma porta é aberta, isso é fato. O máximo que você pode fazer é abrir outra, e mais outra, porque uma vez aberta, não mais se fecha. Você pode marcar a porta, sim, isso você deve fazer, todos os dias, notadamente aos sábados, na alvorada, antes dos raios agressivos do sol empalarem as nuvens, é coisa extremamente salutar, meu caro amigo.

Lá estavam os cinco maiores acionistas da firma, sentados numa antiga mesa redonda de mogno, reparou na base empoeirada e com traços de teia de aranha, percebeu que o tampo estava arranhado, e que tinha sulcos que possivelmente haviam sido feitos com ponta de adaga. Dias antes olhou para uma árvore enorme na rua e se impressionou com a forma do tronco, aquela coisa parecia humana, lembrava o dorso de uma mulher e foi assaltado por uma vontade de descer da condução e lamber a planta. Não o fez porque se atrasaria para o trabalho e também porque a menininha do banco de trás certamente puxaria a manga da blusa da mãe e falaria realmente alto “Olha lá, mamãe, o homem lambendo a árvore”, com os olhos arregalados de bola-de-gude, e os passageiros torceriam seus rostos como roupa molhada sendo tirada da bacia, como os nódulos dos gravetos, porque seria patético, independente do ônibus ser patético, independente de ser patético um troço que corre e que carrega um bando de gente sentada e de pé, uma variação de biga, de carroça-que-carrega-vítimas-de-peste-negra- nesse caso as portas eram marcadas quando era demasiado tarde.

Pois bem, estavam presentes o Sr. Tridente, presidente, o Sr.Machado, vice-presidente, o Sr. Foice, o Sr. Marreta e o Sr. Esquadro, porque de perfil era o que parecia, um esquadro, não sabia que cargos ocupavam esses últimos três, via-os pouco, porque viviam viajando por todo o globo, era o que diziam na sala do cafezinho e nos cochichos após os almoços nas cantinas, quando pareciam feras com o apetite saciado e o molho do espaguete, sangue. O silêncio da sala era barulhento, o ar denso, por conta da fumaça dos charutos, a perspectiva à frente dele era uma tela cheia de olhos, dez olhos, nove, porque um ficou na Segunda Guerra, dizem que foi na Normandia, mas eram dez, já que o globo ocular vítreo não passava batido, não mesmo, era o olho que mais olhava.

- Algum problema no negócio com os Messino? Falei há pouco com o Dr. Catapulta e ele me disse que…

- Nada errado- disse o Sr. Tridente-, não se preocupe. Você agiu de forma notável, como sempre.

- Não estaria entre nós se assim não fosse- completou o Sr. Machado, sorrindo ou não, porque existe um meio-termo nisso que não consigo definir.

- Mas algo aconteceu, porque, como os senhores sabem, estava já no check in, e o celular privativo tocou, a Dona Castiçal não me deu muitos detalhes, disse para eu voltar tão logo fosse possível…

Enquanto falava e procurava uma razão para aquele chamado urgente, viu um enorme painel e um quadro, dispostos na parede com uma assimetria curiosa, não acidental, mas planejada, que ocultava no fundo uma simetria, uma lógica qualquer que lhe era obscura. O painel era um planisfério, no qual estavam em destaque a Europa e a Ásia, sendo que os outros continentes estavam cobertos por uma coisa que parecia espuma de travesseiro (?). O quadro era uma pintura a óleo e representava um homem numa paisagem desértica, de joelhos, no chão, com uma das mãos na fronte, e uma expressão de pesar. Próximo do planisfério, chumbado- recentemente, os sinais eram perceptíveis- na parede, estava um spot de prata que jogava luz negra sobre os dois continentes em destaque. Achando aquilo tudo por demais intrigante, não se conteve em perguntar. Optou pelo quadro, porque era algo mais comum do que um mapa coberto por espuma.

- O homem naquele quadro, quem é? Perdoem a curiosidade, mas é que…

- Ora, meu rapaz- disse o Sr. Esquadro, que até agora estivera ocupado com anotações de sabe-se-lá-o-quê e cochichos com uma moça japonesa vestida de preto que havia entrado na sala sabe-se-lá-como, porque só havia uma porta ali.- não fosse a curiosidade, estaríamos ainda lascando ossos- e riu com catarro na garganta. – Embora a curiosidade tenha limites, bem entendido- completou o Sr. Marreta.

- O homem que está no quadro- prosseguiu o Sr.Esquadro- foi o primeiro a ser enganado.

- Enganado?- perguntou o rapaz.

- Não me diga que nunca procurou o significado do nome dele? Jovens executivos, só pensam em papéis e secretárias nuas…- A moça japonesa olhou pra ele de forma libidinosa.

- Nome dele?, quem? Do homem do quadro? Não entendo…

- Não, daquele que o enganou.

- Muito bem, Sr. Marcos, vamos direto ao assunto, embora o tempo não seja um empecilho, nem para o Senhor, muito menos para nós, que somos velhos, muito velhos. O Sr. Foi chamado aqui porque hoje é o dia, é o dia, como posso dizer?, ah, o dia da troca.

- Dia da troca?

- Ora, Sr. Marcos, o Sr. bem sabe que fizemos uma troca. Nós lhe demos o que o Sr. Queria. Tudo o que o Sr. queria e sempre quis. Chegou a hora do Sr. nos dar o retorno. Parece justo e é assim que as coisas funcionam, não é mesmo? Desde o tempo em que lascávamos ossos. Lembra-se disso, pois não?- e estendeu para o rapaz uma pasta de couro de cor púrpura. O rapaz pegou a pasta, com as mãos um pouco trêmulas; toda segurança de homem de negócios que tinha até então, toda frieza, foram para o espaço, para o cacete. Abriu a pasta e reconheceu sua assinatura no contrato, a mancha vermelha que lembrava selo de cera, de correspondência medieval, enegrecida pelo tempo, bem ao lado da assinatura; acima, um monte de parágrafos que não quis ler novamente, pois se lembrava deles, ora, como não se lembrava?, achou engraçadas as letras góticas, uma excentricidade de empresários tradicionalistas, velhas raposas do mundo dos negócios. Viu uma mecha de cabelo castanho, cabelo que era dele, e um pequeno saco plástico costurado com linha cirúrgica no couro da pasta. No interir do saquinho plástico, um dente.

- Não! - Marcos largou a pasta no chão e recuou. Encostou-se na parede. A moça japonesa havia tirado a blusa e alisava um dos seios nus. Ela ria e jogava beijos para ele, passava a língua pelos lábios. Os lábios dela eram cor de vinho como as cortinas, e agora as cortinas acompanhavam os movimentos que os lábios da moça faziam, dançavam freneticamente, como aqueles que outrora foram perseguidos, o velho e familiar bailado. Os lábios dela eram carnudos, brilhantes, úmidos, ao contrário dos daqueles velhos que tinham as bocas ressecadas como múmias. O Sr. Tridente tinha herpes, dava para se notar.

- Não!- gritou mais uma vez o rapaz. A moça agora estava completamente nua e o Sr. Esquadro bebia licor usando o scarpin dela como taça. Libação. E ela ria, ria e ria. Um carneiro saiu de baixo da mesa.

-Ora, rapaz, não seja infantil…- disse o Sr. Tridente.

As pesadas cortinas de veludo abriram-se como o Mar Vermelho. Nas vidraças, nenhum sinal da película, porém a luz não entrou, embora fosse dia. O nome daquele que enganou foi murmurado pelas seis vozes que não eram mais humanas. As sombras acenderam. Ele disse “não” uma vez mais, antes que a moça o calasse com um beijo de língua, boca fumegante, parecendo lava vulcânica. Não tem três letras. Sim também.





Cheiro de desinfetante

5 08 2007

Pela primeira vez não senti o frio na barriga, tradição ao passar por aquele declive. Lembrei-me da infância, quando gostava de passar por ali só para sentir o peixe invisível mergulhando no estômago. Não sei dizer se era um peixe dourado ou daqueles de cor-de-alumínio cujo fado é repousar no gelo picado de balcão de mercado, sala de espera da frigideira, sem revistas datadas pra se ler- e não sei por que eles ficam com aqueles olhões abertos, rapaz, se nada têm para ver. Então o futuro pulou o muro dos fundos e o cachorro nem latiu, enquanto postes tentavam esbofetear-me a despeito da vidraça do ônibus, e aquelas ruas nada significavam, a não ser ruas. Nuas. Porque se eu quisesse, podia pensá-las como gramados. Mas dificilmente é assim.

No futuro, reticências. E isso me deixa perplexo. Como verter em palavras o espanto? Como uma receita de bolo? Não. Demasiado simples. Mas quem disse que é pra se entender? Provavelmente um Símpio. Símpio é um ser que fica no corredor de um neurônio e que gosta de entender e de ouvir rádio. Melhor seria se o que está aqui pudesse ser visto, como num filme, seria mais rápido, porque a leitura é dinâmica. Portanto, vou prosseguir com a escritura, ainda que a cena não se perpetue em mídia alguma, o problema é meu, e a perplexidade, idem. Se uma pessoa pode ter como mania estalar os ossos do joelho ímpar ou espalhar a correspondência pela mesa em sentido anti-horário, eu posso cultivar o meu plot como uma mania. Mania não, como um hábito, como tomar chá.

Antes disso tudo- quiçá depois-, Manú, que ignorava os Símpios, buscava no campo uma espécie nova de flor que havia visto há cerca de duas semanas atrás, à esquerda de uma árvore que mudava de lugar a cada três dias. Parece complicado, não para Manú, pois ela é sábia o bastante para ignorar o Simpiismo. Porém, nesse dia a que me refiro, ao invés da árvore nômade, Manú encontrou um homem que parecia muito ansioso. O cara tinha os cabelos grisalhos e segurava na mão direita uma folha de papel. Falou em espanhol, Manú pediu que falasse em português, embora tenha entendido, o homem riu de nervoso, olhou pro relógio- que estava parado, Manú percebeu a inércia dos ponteiros, a aura de peixe-cor-de-alumínio-de-mercado pairando sobre eles-, por fim disse o homem depois desses dois gestos aparentemente infecundos: “Precisamos fazer algo, porque o céu vai se dobrar!”

Precisamos… fazer… algo… porque… o… céu… vai… se …dobrar. Antes mesmo de poder questionar a afirmação do cara, só houve tempo- mesmo com o relógio do cara parado, mesmo com a nudez do pulso de Manú- de Manú franzir a testa- tão bonitinho quando ela fazia isso, que merda, que saudade que me dá, enfim…-, porque o sujeito prosseguiu:

- Veja, podemos reverter a situação, que é grave, não vou te enganar. Basta que você me responda algumas perguntas, certo?

- … certo- tão bonitinho quando ela dizia “certo”, que merda, que saudade que me dá, enfim…

- Muito bem, apenas duas perguntas, ok?- ele parecia um pesquisador.

O homem demorou pra começar o pequeno questionário. Não era a tal situação grave? Se era grave, se era urgente, qual a razão da demora? E o cara parecia cada vez mais tenso, gotas de suor começavam a brotar da testa, Manú achou-as semelhantes a cogumelos brotando de estrume, melhor ainda, lembrou dos cogumelos que viu num resto pútrido de cadeira de balanço de ébano abandonada no terreno dos fundos da casa da avó, as gotas que mal acabavam de escorrer e que já tinham substitutas, porra, o homem estava muito tenso, a coisa devia ser realmente feia, mas, nesse caso, por que não começava o diabolos do questionário?, eram apenas duas perguntas…

Ele começou, que bom, graças a Deus. Vejamos:

[Ler isto após o ponto final do texto: “Ei, legal, brother, tipo assim, parece um rocambole, o céu, o céu, o céu- substituir uma das vogais de uma das palavras, pt]

- Alfredo Moranga Portinho, jornalista e comerciante, participou de que revolução?

- Da Revolução das Telhas, em 1817- respondeu Manú.

- Si- disse o cara, olhando novamente para o relógio e em seguida para o céu. Agora a segunda questão: qual a sua maior mágoa?

- Minha maior mágoa foi… a de ficar sem entender os motivos do Pedro ter ido embora. Por isso vim pra cá e…

- Não!- berrou o sujeito.

- Sim senhor, por isso vim pra cá, como pode dizer que não?, não sabe nada da minha vida…

- Não, não, você tentou entender agora, e eles me disseram para procurá-la justamente porque você não dava ouvidos aos Símpios!!!

- Mentira, não tentei entender porra nenhuma, você tá me ouvindo? Hein? Hein?- Manú chorava e balançava o homem, segurando os ombros dele.

- Tarde demais…

Só sei que o céu ficou lilás. E que o disco solar ficou com um amarelo desbotado. E que veio um cheiro de desinfetante. E que eu fiquei imensamente triste. E que um barulho muito alto de papel sendo amassado machucou meus ouvidos. E que o formato do céu- se é que se pode dizer “o formato do céu”- ficou engraçado. Engraçado mesmo, porque ele se dobrou.





Um interessante despertar

2 08 2007

Foi um dia daqueles em que você acorda e se pergunta com pesar pra quê? Aí você começa a procurar um culpado, o telefone?, não foi, ele quieto na mesinha, a porta?, não, ninguém bateu, a multidão na rua?, não, de novo, porque a droga da janela do quarto dá pros fundos, onde só tem concreto, concreto é quieto, não incomoda ninguém. Mas ouvi um barulho…

Mas ouvi um barulho, sim, foi esse o obstetra que me tirou com fórceps do maravilhoso nada onde eu estava: o tudo do dia anterior havia sido péssimo e agora o tal barulho, que coisa isso… Levantei e meus ouvidos foram se acostumando aos poucos com a claridade. Vinha da parede, o barulho. Encanamento? Canos cantam algumas vezes ao ano, não, é bobagem, é que buscava uma resposta, mais do que uma resposta, um culpado.

Canos não batucam, nem gemem. Quarto ao lado. Um casal… Por que não foram trepar num trecho de mata atlântica? Por que tem que ser num hotel? Hotéis só servem para turistas, para quem não tem ou não quer ter onde ficar e para pessoas que querem dormir. Do contrário, os recepcionistas deveriam atender os locatários de quarto com roupas sumárias e com expressões sensuais! Por que não fui dormir em casa? Ah, lembrei: porque meu casamento é um morto-vivo. Mortos-Vivos, sempre achei uma palhaçada esses filmes, viu…

Aqueles gemidos me eram familiares. Todos os gemidos são familiares, todo mundo já ouviu gemidos de todo o tipo, não é isso que eu queria dizer. Achei que conhecia aquelas pessoas; não fosse a droga da parede, fosse eu um aparelho de raio-x, confirmaria minha suspeita sem ter que me dar ao trabalho de vestir as calças e sair.

Eu ia apenas reclamar, não sei com que direito, talvez o direito natural que as pessoas têm de dormir depois de um dia desgraçado de trabalho. Ontem eu quase fui baleado, sou policial, já fui quase baleado umas trezentas vezes, efetivamente baleado umas oito.

Quando meu braço se esticou antes mesmo de ser possível pensar na palavra “bater”, percebi que aqueles dois imbecis deixaram a porta entreaberta. Numa cidade como essa? Loucos! Já que meu braço estava esticado, ele me fez o favor de tocar na madeira da porta e movê-la, bem devagar, porque policiais são treinados para agir lentamente numa hora dessas. É, o mal é que somos treinados para tudo nessa vida, notadamente para coisas idiotas.

Entrei. O ambiente estava claro, esqueceram de fechar as cortinas, ou não, talvez gostassem de luz, quase tropecei num sutiã e numa sandália, tive que fazer um movimento extremamente ridículo para não cair.

Estavam no chão, a cama vazia. Não deve ter dado tempo deles chegarem até lá, enfim, hahaha- ri por dentro, porque policiais em serviço, numa situação dessas, não podem rir por fora; mas o riso não brota de dentro? Bah! Conheço aquele quadril de macho entrelaçado por pernas fêmeas que também reconheci. Que situação miserável o fato de não somente os gemidos serem familiares.

Eles congelaram, aperte pause, não sei como a gente consegue parar, eu já parei, uma vez, numa situação como essa.

- P-Pai??- tartamudeou certamente porque eu estava com a arma em punho; como eu disse, sou policial, e numa situação daquelas, poderia não ser um casal, poderia ser um bandido e uma vítima, uma assembléia de bruxas, poderia… Ela nada disse, ficou com a boca aberta como uma boneca inflável. Eu conhecia bem aquela boca.

- Fora!- eu disse. Quem mais diria?

- A gente pode… espera… calma, é que…

- Fo-ra-da-qui!- as palavras acabaram e minha boca continuou se mexendo.

Disse que era uma situação miserável, antes mesmo de ser, ainda no âmbito da audição; meu filho e minha amante. Sentei na cama intacta e eles saíram como coelhos assustados, não antes de recolher parte das peças de roupa emboladas no chão. O sutiã ficou. Belo sutiã, aquele eu não conhecia. Tive um forte impulso de dar um tiro no joelho e ser baleado efetivamente pela nona vez. Como eu disse anteriormente, procurava mais do que tudo por um culpado, e levantei da minha cama graças ao infeliz movimento dobradiço do meu joelho. Voltei para o meu quarto, deixando no outro tudo conforme estava antes. Tirei minhas calças, botei a arma debaixo do travesseiro e deitei. Fiquei perplexo por um tempo, mas enfim dormi, porque era o que eu estava fazendo antes e detesto deixar um serviço inacabado.