Parede Sórdida
DomiNós
Um relato puxa o outro. Recordei-me agora daquelas imensas fileiras de dominó nas quais as peças, os dominós, estelas de plástico preto com sarampos multicores, vão caindo, uns por cima dos outros, numa velocidade realmente grande, para ao fim e ao cabo o conjunto formar uma figura ou figuras. Um bocejo que produz outro- não foi o caso aqui-, o do comer e do coçar etc. Foi assim. A inspiração para escrever surgiu de um comentário que fiz num blog de uma amiga. No post que ela escreveu, fazia um pequeno inventário de eventos e de sensações que esses mesmos eventos suscitaram- e que ainda suscitam, memória, torneira que pinga incessantemente, e que encharca nosso carpete com atlânticas e profundas poças de recordações.
Daí que comentei algo do tipo “Todos nós devíamos escrever autobiografias; autobiografias que ficariam disponíveis para as futuras gerações.” Porque, a idéia que me ocorreu, muita coisa se perde. Esquecemos de muita coisa. Muita coisa não nos é contada, ou contada pela metade- os notórios segredos de família ou “vergonhas”-, ou a versão que nos chega aos ouvidos e que fica gravada nas nossas memórias é uma versão incompleta, fragmentada, diferente- nossa memória também nos prega peças, misturamos estórias, impressões com fatos, principalmente quando os fatos foram vivenciados há muito tempo, na época da infância, por exemplo. Diferente, com certeza, vide aquele jogo em que uma palavra- ou frase- é cochichada no ouvido do sujeito que fica no primeiro lugar de uma fila, e a tal palavra vai sendo transmitida aos sussurros, de ouvido em ouvido, até que o sujeito que está no fim da fala é autorizado a revelá-la. Sempre sai uma outra coisa. Agora me ocorre uma outra coisa. Talvez biografias autorizadas. Não faço idéia do como isso seria organizado. Um ghost writer pendurado no lustre, no teto do ônibus, colado às janelas como uma sanguessuga, correndo atrás de você pelos corredores do escritório, emergindo de bueiros…
De modo que seria muito interessante essa prática. Esse livro ficaria sempre exposto, na estante, para ser consultado por aqueles que não sabem e também por aqueles que gostariam de re-saber. Mas e a prática desportiva da lembrança, das rodas de memória que se formam nas salas na hora do café-pós-jantar ou nos bares da vida, das perguntas que as fotos provocam- quem é?, quem foi?, como é ou era? Tudo bem, uma coisa pode conviver com as outras. Enciclopédias, dicionários. Não consultamo-los? Pois então, a idéia não é tornar a profissão do contador oficial de estórias da família extinta.
Outra razão que me recordo de ter colocado é a de que toda vida merece ser escrita. Porque toda vida é rica. Toda vida é uma saga. Com toda vida se aprende, muito, muita coisa. Vidas são exemplares, tanto para os bens a serem copiados, quanto para os males a serem evitados. Toda a vida é bela; a beleza da vida consegue emergir mesmo quando a maior parte do terreno é pantanoso, espinhoso, cheio de galhos retorcidos e árvores frondosas cujas copas obnubilam em capa de veludo preto.
Os ritos de passagem, as correrias desenfreadas, as alegrias, as dores, as dúvidas, as sombras. É possível que haja este aspecto, o do interesse pela beleza e pela parte interessante das vidas, presente na febre dos reality shows. Pode ser que não exista apenas o voyerismo puro e simples e o terrificante e comezinho “pavor das distâncias” a que Nietzsche se referiu. Pode ser algo além do puro entretenimento fetichista- fulano é in, vamos absorvê-lo, consumí-lo, raspar o prato; agora não é mais, está out, é outro, prossigamos. Existe um lado positivo de se querer saber acerca de um foco de admiração. Você pesquisa, lê entrevistas, vê fotos. Surge uma familiaridade, cresce um afeto, aumenta a admiração- aprende-se com isso, lembro-me do quanto foi bom descobrir hábitos e manias do Eça para escrever, e do Cortazar ou, no terreno da música, de coisas do Keith Emerson, do Gene Simmons. Obviamente, isso não dá o direito de encher a paciência das pessoas, como ocorre com artistas, você não adquire direitos com esse saber, não está contido um micropoder foucaultiano nesse saber, groupie!, respeite algo que já existia lá atrás, no império bizantino, a vida privada.
Toda vida é digna de registro, há umidade, gotas que sejam, mesmo por trás de vidas secas. Não é que se queira vivê-las, as vidas “secas”- você quer uma vida carregada de sofrimento?, é claro que não, ninguém quer, nem o especialista em faquirismo, você quer uma vida que contenha as duas faces da moeda com o mesmo tamanho ao menos, sempre que possível, já que a contrapartida da alegria, o sofrimento, existe, é fato- não se trata de otimismo esvaziado de conteúdo, simplório, ou de estoicismo hipócrita. Toda vida é interessante, exemplar, e digna de registro, ponto.
A Santíssima Trindade Imagética
Os cartazes têm muito mais do que 15 minutos de fama. Ao menos alguns. Perdoa-se Andy Warhol, porque sua profecia referia-se a pessoas e não a objetos inanimados como esses papéis, cartolinas, adesivos plásticos e acrílicos. O cartaz é um dos símbolos da Modernidade, segundo Eric Hobsbawn. Teve seu auge por volta de 1890.
Quando penso em cartazes, o primeiro que me vem à cabeça é aquele vintage em que uma enfermeira leva aos lábios o dedo em riste- talvez seja o primeiro de que me lembro pela aura erótica que envolve a figura da enfermeira. Abaixo ou acima da figura, dependendo do caso, lê se a palavra “Silêncio”. A expressão da enfermeira é amigável e ela tem belos traços. Certamente, uma estratégia para tornar mais brando e educado o pedido de calar-se. É mais do que razoável, já que o ambiente onde ele costuma estar afixado é o hospital. Lá, o silêncio vale ouro, porque é um lugar onde há pessoas que convalescem de doenças de todo o tipo de gravidade- por que será que nas bibliotecas, onde o silêncio igualmente é necessário, por motivos outros, não há cartazes com a figura impressa de uma bibliotecária com o dedo nos lábios? Normalmente vemos apenas a placa com a palavra “Silêncio”. Quando não prestamos atenção à placa e esquecemos de onde estamos, ouvimos o som sibilante e constrangedor, justamente por termos esquecido do lugar em que estamos e também porque nos remete às admoestações da infância, do enervante “Shhh”. Não haveria necessidade desse tipo de cartaz, nem em hospitais nem em bibliotecas, fôssemos nós mais cônscios. Tenho um amigo que vai ainda mais longe: para ele, não haveria razão de ser para vários outros sinais; a existência deles seria uma prova de nossa estupidez. “O ser humano precisa de aviso para tudo!”- e ri. A tese pode ser radical, mas como dizem os ingleses, well, he has a point.
O segundo cartaz notório que tenho em mente é o “Proibido Fumar” ou “Não Fume”, que já serviu de inspiração a Roberto Carlos para compor um de seus hits. O cartaz pode ser formado simplesmente pela frase ou pode ter um maço ou ainda um cigarro cortado por uma faixa vermelha diagonal, tal como na placa de trânsito que proíbe o estacionamento- e outras ações de feição automobilística. De uns tempos para cá, com o avanço do anti-tabagismo, o cartaz ganhou tintas mais dramáticas ou sinistras: temos desenhos de crânios, e nos maços, imagens de livro de Medicina Legal. Não pretendo discorrer aqui sobre uma moral do tabagismo. Todo mundo sabe que fumar faz mal, logo, fuma quem quer, já que o cigarro é uma droga lícita. Nos presídios, o cigarro equivale à moeda. Seria um fetichismo da mercadoria-vício? Creio que Marx não tenha escrito a respeito.
O terceiro cartaz é o “Sorria: você está sendo filmado”, aquele no qual a bolinha amarela sorridente ou smiley é onipresente- como nem sempre o desenhista é talentoso, a bolinha chega a perder a característica circular que lhe é inerente, aproximando-se de outras figuras geométricas; às vezes são criadas figuras geométricas inexistentes, o que não deixa de ser um talento. No tempo complicado e violento em que vivemos, esse é talvez o cartaz mais visto no cotidiano. Está afixado por toda a parte. É um aviso na tentativa de conter os instintos menos civilizados, digamos, da parte de alguns, e se transformou também num convite a ajeitar o penteado, aos sorrisos, às caretas, já que o exibicionismo anda em alta. Nem sempre você está sendo filmado. É o caso de outros dois avisos bastante conhecidos: “Cuidado- cachorro feroz”, quando não há cão por perto e “Não estacione- garagem”, quando na garagem não há carro; ou nem garagem por trás do portão de ferro. No entanto, comporte-se, você pode estar sendo observado de fato por belos olhos eletrônicos. Quebrando o silêncio não-verbal e soltando uma baforada especulativa, penso: qual será o próximo cartaz que vai para a parede da fama?
![]()
A Órbita de uma Cozinha ao Redor da Clave de Sol
Um dos horrores da adolescência ou da pré-adolescência- não entendo muito bem essas classificações; coloco essa em particular em parentesco com a dúvida de Mário Prata acerca de miúdos e putos, ou seja, quando uma criança portuguesa deixa de ser um miúdo pra ser um puto ou vice-versa?- são os desejos de adulto, que teimam em brotar tal como uma planta que cresce num ponto de infiltração da parede. A parede é um não-lugar para a planta- não me refiro a trepadeiras-, levando em consideração que essa coisa reta e que não testemunha confissões de amor conforme diz a letra daquele antigo e famoso fado não é um vaso, e lugar urbano de planta é num vaso ou num canteiro ou num parque ou num jardim. Entretanto, como disse Charles Fort, uma estrebaria é uma casa caso alguém more nela. A natureza é insistente. Conta a história que o bairro onde moro há 16 anos- e onde minha família paterna deu seus primeiros passos após pequenas navegações ítalo-lusitanas- foi uma fazenda de solo muito fecundo. E a terra daqui não perdeu a fertilidade após séculos, porque plantas curiosas e gramíneas vivem a vencer o cimento e o concreto, proporcionando um espetáculo belo e insólito no chão do meu quintal que tinha a pretensão de ser cinzento. Nessa época liminar em que não se é mais criança tampouco adulto, já realizava alguns dos desejos da outra extremidade da escala, como fumar e mentir- algo que os adultos fazem mal ao fazer muito bem. Já tinha as minhas musas, algumas concretas, mas a maioria delas fantasiosas e inalcançáveis- já era um iniciado no Ultra-Romantismo, mas não fumava ópio- ainda bem, do contrário eu não seria hoje-, apenas cachimbo, ocasionalmente, à francesa, e apenas umas goladas de cerveja, que já me eram mais do que suficientes. No entanto, algumas coisas têm suas compensações e uma das grandes delícias da adolescência é a falta do que fazer.
Eu era um garoto que como eu mesmo amava os Beatles e não ligava para os Rolling Stones. A memória vai pregando peças com a passagem do tempo. Em episódios dramáticos e traumáticos, ser o bobo da memória é algo bem-vindo; quando queremos precisão, puxar um arquivo original de uma das gavetas da mente e não uma fotocópia ou versão apócrifa é péssimo ouvir as risadinhas da caprichosa Srta. Mnemos. Caso ela esteja de folga e não queira me ludibriar, creio que era uma sexta-feira à noite, e eu encontrava-me na cozinha do apartamento de minha avó, procurando algo para fazer. Acho que não tinha para onde ir. Talvez não quisesse ir. Ou não pudesse. Eu não sei. O que sei é que só me restava o deleite de não fazer nada. Cozinhas e banheiros são locais tranqüilos. Lembro de estar sentado na mesa de laca branca da cozinha, pensando sei-lá-no-quê. À minha frente, um rádio AM-FM azul, tão antigo quanto eu pudesse lembrar. O rádio era de minha mãe e durou muitos anos, mesmo avariado, com uma cratera na sua lateral de plástico e com a antena amputada- de madrugada, era possível pegar transmissões do exterior e uma ou outra estação de São Paulo.
Liguei o rádio e comecei a girar o botão sintonizador, ouvindo os chiados e as palavras e sons fragmentados de locutores e cantores que iam sendo deixados para trás no avançar do indicador do dial- era um rádio analógico. Parei por acaso, talvez por uma ação involuntária de minha parte, mas espontânea advinda de um possível cansaço do meu dedo. De repente, ouvi notas de piano. Não era uma sonoridade comum de piano. Eu já conhecia bastante de música como ouvinte e já havia iniciado meus experimentos- bem rudimentares- como instrumentista, com bateria e violão, não com teclas, só travei contato com elas alguns anos depois. Porque aquelas notas e acordes de piano pareciam soar em ambientes completamente diferentes a cada parte da peça. Num momento, o piano parecia estar numa sala comum; noutro, numa gruta; às vezes, debaixo d’água; ou num espaço com propriedades acústicas novas e bizarras. Havia as pausas, que eram mais ou menos longas, o piano calava-se, parecia ter ido embora, mas eis que voltava como alguém que pula na sua frente para te dar um susto. Também voltava com delicadeza, como a materialização de uma ninfa. O som derretendo e pingando como cera de vela. O som rindo, o som-brio. Som descendo pelo ralo, som tonto esbarrando nos ladrilhos brancos da cozinha, som refogado, fervendo. E fiquei ouvindo aquilo com fascínio, aquele som atlântico, que não acabava nunca: tocaram a peça inteira, era uma rádio de música erudita, o som não era cortado por comerciais nem por aqueles locutores de voz acelerada que parecem ligados a uma tomada. Lembro de terem mencionado o nome do compositor: Karlheinz Stockhausen. Certamente disseram o nome da peça, que devo ter guardado por um determinado período de tempo, mas que acabou soterrado por outras coisas que foram penetrando na minha gaveta mental. Mas não esqueci do nome Stockhausen. Do piano também não.
Procurei saber quem era aquele louco que me deu puxões de orelha com dedos feitos de claves e fui descobrindo uma série de coisas aos poucos. Não existia a internet, então as buscas exigiam uma paciência e até mesmo alguns procedimentos arqueológicos. Stockhausen, o pai da música eletrônica; Stockhausen influenciou Kraftwerk- eles foram alunos do cara! Stockhausen me influenciou mesmo que não tenha pensado nele conscientemente quando fiz- cerca de oito anos depois de conhecê-lo- um monte de experiências num quarteto constituído por mim, meu gravador, minha mesa e meu microverb. Música de câmara muito mais no sentido de ter sido executada num aposento, meu quarto, audiência composta pelos meus ouvidos e pelas paredes- elas novamente-, a quem confessei de que som eu gosto. Nessa época eu já tinha passado por alguns ritos de iniciação musical guiados por pajés e minha coleção de autodidatismo já era bem maior.
Após o preenchimento de muitas e muitas pautas do concerto da vida, achei o tal cd com aqueles sons tenebrosos de piano. Mantra, o nome da peça, composta para dois pianos. Descobri mais sobre o alemão já senhor que observou o quarteto de Liverpool na capa do Sgt. Pepper’s: para quem observa a capa, o terceiro à esquerda de Poe, terceiro também à direita de Crowley. Descobri outros trabalhos fantásticos também, como Tierkreis, uma música para cada signo- meus tímpanos despertam meus olhos e consigo visualizar os signos dançando, cada qual se movendo num misterioso bailado nas areias de uma praia, não sei por quê, mas vejo-os numa praia- e os esquisitos ruídos das músicas concretas que ele compôs.
Soube da sua morte numa sexta-feira, assim como foi numa sexta-feira que sua música nasceu para mim, numa cozinha. Nesse mesmo dia, enquanto esperava o sinal fechar para que eu pudesse atravessar a rua, nessa mesma sexta-feira, pensei em como seria bom assistir um concerto seu. Mais tarde, vi o noticiário e soube. Já o mencionei em mais de um conto, creio que numa crônica também.
Passou a dizer nos últimos tempos que teria vindo de Sírius. Por que não? Acho que você voltou para lá, Herr Stockhausen, para compor num piano feito de antimatéria, para ser ouvido por uma platéia de pequenas galáxias que giram no compasso de suas músicas.
A Terceira Mestra
As imagens que tenho dos primeiros anos da infância muito se assemelham àquelas vistas nos sonhos e das quais vez ou outra me recordo, porque a lembrança dessas cenas oníricas, cheias de contraste entre luzes e sombras e carregadas de cores desbotadas como as de fotos antigas, é regulada por um diretor de cinema que segue uma misteriosa metodologia de trabalho, à qual tenho pouco ou nenhum acesso.
Ela não foi a primeira, nem a segunda professora que tive; pra ser preciso, foi a terceira. Não que as duas primeiras (que lecionaram nos Jardins de Infância I e II) tenham sido apagadas da memória, não o foram, tenho-as comigo em fotos, e nem que tenham sido desprovidas de importância, absolutamente, já que foram as pioneiras, figuras responsáveis pelo estabelecimento do contato entre esses seres de tribos tão díspares, criança (o bom selvagem de Rousseau) e adulto (nem sempre bom selvagem)- e que vieram em missão de paz-, sem conotações políticas e espelhinhos que não fossem as da política educacional, graças a Deus (brincando com o título de Zélia Gattai, “Pedagogas, Graças a Deus”). Os dois jardins! Época de correrias com e sem destino, entre os brinquedos de um parquinho que ficava num jardim muito bonito, de chão de terra, sempre coberto por folhas amareladas que caíam das inúmeras árvores que cercavam aquela casa que fazia parte do grande complexo que era a Residência Escola Santo Antônio, particular, internato e externato, localizado na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro- e que acabou, sei-lá-por-quê, hoje em dia é um condomínio. Após os Jardins I e II, estando no Curso de Alfabetização, talvez 1980, com a cabecinha um pouco mais desenvolvida, e já tendo dado alguns passos pouco firmes no mundo ainda próximo da toca familiar, mas que parecia tão distante quanto, por exemplo, Buenos Aires o é daqui do Rio, as recordações já se mostram mais fortes porquanto claras, além da noção acerca da figura da professora também se encontrar bem melhor constituída naquele exato momento do passado.
Maria Emília era o nome dela. Lembro-me de que era uma mulher alta- difícil saber a exatidão dessa medição de estatura, já que todos os adultos parecem enormes perante tampinhas de cinco, seis anos de idade-, de cabelos compridos, pretos, e algo grisalhos. A Tia Maria Emília tinha uma expressão severa, de modo geral- será mesmo?, ou era aquele medo infantil? Mais provável que fosse a desconfiança infantil sim-, mas me recordo de sorrisos grandes, gentis, doces. Gostava do nome dela porque era composto também por Emília, e eu era espectador assíduo d’O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Ligava uma à outra, curiosas pontes erguidas pela engenharia infantil…
A fantástica e querida figura humana Maria Emília me ensinou- e junto comigo estavam mais uns vinte ou trinta coleguinhas- as vogais, o alfabeto inteiro, os números, as primeiras operações matemáticas e um monte de coisas que naquele tempo pareciam tão estranhas e complicadas, até mesmo non sense, mas que foram ganhando pouco a pouco, com a ajuda de outras mestras que a sucederam, com o passar dos anos, todo o sentido do mundo, porque representaram as fundações do edifício que não pára de crescer- e que não pode, não deve parar, nunca- e que vamos construindo ao longo das nossas vidas; do pé-de-feijão-mágico que vai até o céu, mas que, diferente do da estória, não nos faz encontrar com o gigante, e sim nos faz gigantes, gigantes como todos nós devemos e temos o direito de ser. Está na Constituição e, mais do que isso, na lei da vida.
Lembro-me de que foi com ela que efetivamente aprendi a amarrar os cadarços dos sapatos. Nunca pareceu tão fácil! Se hoje em dia, em pleno século XXI, ainda tropeço no âmbito dos calçados, é por conta de Renatoaragonice minha. Gostaria de recordar-me de um número maior de fatos, de aumentar essa parte da estória. Quem sabe agora, ou num futuro próximo, algum inventor que tenha sido alfabetizado por uma dessas irmãs-que-nossos-pais não-tiveram crie uma máquina que possa resgatar esses trechos que se enterram nas areias mnemônicas com o tempo? Por isso tudo, muito obrigado, Tia Maria Emília. Quisera eu voltar àquela época, com a cabeça que tenho hoje, para te aplaudir de pé com uma noção de reconhecimento de um adulto, mas com os olhos e sorrisos e alma de um aprendiz-criança.
![]()
O que se passa com o tempo?
Será que Augusto Comte, que se tornou o papa da física social e do positivismo, tinha razão ao dizer que “tudo é relativo”? Será que o tempo se inclui nesse rol de relatividade? Sim, porque o tempo parece empurrar o espaço de nossas vidas, na base de chutes e petelecos com uma ferocidade cada vez maior. Tem-se a impressão de que os segundos, minutos e horas estão correndo como funcionários que sentem os momentos finais de uma exaustiva jornada de trabalho- não se pode tirar totalmente a razão deles-, ou como maratonistas; parece que as divisões de tempo fogem, suando em bicas e com taquicardia de ejetar o coração do peito, para tirar seus pais da forca.
É um assunto muito discutido e flexível. Há aqueles que defendem a tese de que tal sensação de um “tempo expedito” é psicológica: quando enfrentamos momentos desagradáveis, o tempo se estica como um elástico infinito. Por outro lado, quando estamos vivenciando momentos prazerosos, o tempo se encolhe como esse mesmo elástico infinito, só que cortado por um invisível alicate invejoso e contrário a qualquer modalidade de hedonismo. Faz sentido? Até faz. Dez minutos de namoro equivalem a um flash de máquina. Outros quinhentos já são dez minutos de espera numa fila. Quanto à espera em filas, é curioso notar que, as crianças, embora portadoras de faculdades imaginativas extraordinárias, impacientam-se tremendamente com esse fenômeno, e por isso perguntam quando voltarão para casa, se a tarefa que está sendo cumprida pelos pais ainda vai demorar muito, etc. Já um adulto consegue se valer de artifícios para suportar com uma certa resignação os mais ou menos longos períodos de tempo gastos em filas e outros sacrifícios semelhantes. Podemos dizer que, nos adultos, a capacidade de abstração é mais treinada, graças à maturidade.
Outros dizem que não seria possível um aumento do passar do tempo- certas tautologias são difíceis de se evitar-, já que o planeta continua girando com a mesma velocidade, embora alguns cientistas venham defendendo a tese de que o movimento de rotação da terra em torno de seu próprio eixo pode ter sofrido alguma alteração. Por quê? Já li em algum lugar uma tese doida- será doida de fato?- que põe como causa desse efeito um leve deslocamento de inclinação, provocado pelo peso acumulado até aqui- sim, porque a superfície do globo está entupida de construções de todos os tamanhos e pesos, bem como de pessoas, igualmente de todos os tamanhos e pesos.
Uma terceira “corrente” propõe a idéia de que, de nas últimas décadas, temos cada vez mais atividades, ou seja, as 24 horas continuam as mesmas, quietinhas dentro do círculo do relógio ou do quadrado display dos digitais, mas ocupamos essas 24 horas com uma quantidade de tarefas que as pobres horas não dão conta; seria necessária uma prorrogação,e até mesmo um golden goal, e ainda assim, muita coisa ficaria para o dia seguinte. O “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje” constitui uma tarefa cada vez mais árdua de se cumprir. Vivemos sob o signo da velocidade: tudo tem que ser rápido, dão-nos mil tarefas, nós mesmos arrumamos uma série de atividades de lazer com as quais nos deleitamos. Antes, era o tempo dos cavalos, das carruagens, das cartas que demoravam meses para chegar ao destinatário. Hoje um e-mail chega numa caixa-postal em um segundo, temos as pontes aéreas, o metrô, o trem bala, carros que atingem mais de 100 quilômetros num piscar de pneus. Enquanto isso, Cronos ri, bebericando em vinholadas com Baco, porque para os deuses, não há tempo, ou melhor, há todo o tempo do mundo, com um bônus do tempo do universo.
Seja o que for, parece que há algo de podre no relógio da Dinamarca; algo está acontecendo com o tempo. Que fazer? Organizar uma junta composta por matemáticos, físicos, relojoeiros e geriatras? Bater palmas para Comte? Sinceramente, não sei. Estou sem tempo para pensar sobre isso agora. Até mais.
![]()
Play it again, Kurt!
São comuns, num álbum gravado ao vivo, entre uma música e outra, os discursos feitos pelo líder da banda. O conteúdo em geral é o mero anúncio do nome da música que será executada em seguida, mas há aqueles que gostam de falar sobre a música, contando às platéias- a presente no show e a ouvinte, não-participante, no caso de se estar em casa, no carro ou em algures ouvindo o cd, mp3, cassete, disco de vinil, como queira- algo sobre o conteúdo da canção, um breve histórico de sua gênese e coisas afins.
Há uma banda canadense de rock chamada The Guess Who, surgida no final da década de sessenta do século passado, que teve um grande sucesso não só em seu país de origem, bem como nos EUA e na Europa. Não sei mensurar o êxito que a banda ganhou na América Latina; sei que aqui no Brasil as pessoas mais ligadas em rock and roll a conhecem, notadamente as que viveram suas juventudes nos anos 60/70- a minha foi nos anos 80, a época da ressaca, segundo o pensador-e-vocalista Simon Le Bon. O primeiro hit do The Guess Who, These Eyes, ainda toca em algumas rádios especializadas em flash-back. Mais recentemente, um de seus maiores êxitos voltou à tona do oceano global, na voz e na guitarra de Lenny Kravitz: American Woman. Curiosamente, American Woman foi um grande sucesso nos Estados Unidos, digo curiosamente porque a tal mulher americana de que fala a letra num tom jocoso e agressivo, a “Geni canadense”, é, na verdade, uma metáfora dos Estados Unidos. O álbum seguinte ao álbum homônimo da canção American Woman, Share The Land, foi proibido nos mesmos Estados Unidos que acolheram a cantiga de escárnio, porque foi considerado comunista, já que trazia em sua capa a foto de um índio, além do título, digamos, “subversivo”.
O álbum do índio sentado na marcenaria foi o palco de estréia de um guitarrista chamado Kurt Winter. Kurt é um grande músico (guitarrista, cantor, compositor). Teve a árdua tarefa de cobrir o espaço deixado por Randy Bachman, outro grande músico, co-fundador da banda e co-autor de vários hits da época de ouro do The Guess Who. A banda, que terminou oficialmente lá pelos idos de 1975, continua em atividade, com apenas dois membros originais. Eventualmente, apresentam-se com a formação original. Uma dessas apresentações originou um cd e um dvd, Runnin’ Back Through Canadá, alusão à canção Running Back to Saskatoon. Kurt Winter foi convidado a deixar a banda por causa de seus problemas com o alcoolismo. Infelizmente, a marvada pinga se transformou numa cumulus nimbus que pairou sobre a genialidade do músico. Kurt foi o mentor de músicas sensacionais, carregadas de riffs e de solos muito criativos, como Bus Rider, Hand Me Down World, entre outras. Kurt era fodão no hard, numa balada boba e açucarada estilo anos 50, no jazz, no blues, em todas as esferas sonoras. Além disso, Kurt era uma figuraça, estilo decadente, largado, porque tinha um cabelo aparentemente refratário a pentes, escovas ou qualquer objeto inventado para organizar espacialmente os fios no couro cabeludo, e porque usava a mesma camisa, sempre- aparece em quase todas as capas dos álbuns do Guess Who com ela, uma de propaganda dos amplificadores Garnet-, surrada, como aquelas camisas de time de futebol ou de universidade, daquelas de estimação, que usamos em casa, daquelas temidas pelas esposas. Não sei se ele imitava o Jim Morrison, que vivia com a famosa calça preta de couro, ou o Einstein, que tinha a mesma combinação de ternos multiplicada por dez em seu armário- para não ter que perder tempo pensando sobre o que usar, gênio é gênio.
Como conheci o The Guess Who quase vinte anos após seu fim oficial, sempre fiquei pensando: por onde anda essa figura- o Kurt- ? Será que ainda toca? Será que virou produtor? Ou será que trabalha com algo diametralmente oposto à música- apicultura, engenharia florestal, corretagem de imóveis- ? Volta e meia essas idéias dançavam na minha cabeça, enquanto ouvia a guitarra de Kurt soar.
Ouvindo o tal Runnin’ Back Through Canada e olhando a capa, reparei que, apesar de ser uma reunião de antigos membros da banda, ele não estava presente. Eis que num dos discursos de Burton Cummings, líder da banda, ele começa a falar “Nosso querido amigo, que tocou nessa banda por muitos anos, e que tragicamente nos deixou há algum tempo…” Pause. O anúncio parecia um discurso feito numa igreja, numa missa de sétimo dia, certamente por causa da reverberação do microfone. Mais provável é que essa impressão tenha se formado por conta do conteúdo fúnebre da mensagem. Kurt morreu. Nunca tinha me ocorrido pesquisar sobre o paradeiro de Kurt, não sei a razão. E instantes depois, descobri até o cemitério onde o cara foi enterrado. A internet é um estranho universo, achei um site de busca de túmulos de famosos, uma espécie de Google necromante, e as pessoas podem deixar mensagens na página dedicada ao artista morto, como deixamos na vida real (?) flores e mensagens nas lápides de nossas necrópoles. Um 2 de Novembro virtual, que loucura isso… Kurt morreu de câncer, aos 51 anos, em dezembro de 1997, ou seja, alguns anos depois de eu ter ouvido pela primeira vez uma música do The Guess Who, de autoria dele. Lembrei na mesma hora de uma estória que vivi, de uma viagem que fiz a uma cidadezinha do interior de Minas, onde eu acabei revelando para alguns fãs atônitos a notícia da morte de Raul Seixas. Lembro de que um deles não acreditou, pensou que fosse brincadeira minha.
Escrever algo do tipo “um artista não morre, um artista- músico, escritor, pintor, ator- sempre estará vivo enquanto alguém desfrutar de seu trabalho, etc” é um lugar-comum. O complicado é que isso é verdade- verdade no sentido de se observar o cotidiano e de se constatar que isso é uma das peças que se encaixam no gigante puzzle da vida-, e se tornou lugar-comum porque é muito repetido, não raro e desafortunadamente de forma banal e mecânica, como o “Eu te amo”, “Feliz Natal” e “Tudo de bom pra você”. Então só me resta escrever que Kurt continua detestando pentes, e que continua usando a camisa-que-outrora-foi-verde com a estampa “Sound by Garnet”, e que continua com seus riffs e solos, e que continua compondo as músicas que já compôs, num círculo vicioso agradável; só resta pedir ao aparelho de som “Play it again, Kurt”, numa Casablanca atemporal e exterior à película, e só ficar triste porque Kurt Winter é um grande músico que não é conhecido como deveria ser.
Azulejos de espuma
Um balcão de mármore ou de alumínio, com bancos altos, bancos com assentos de madeira nua ou estofada de couro preto. Nem sempre há bancos e as pessoas ficam de pé, curvadas, com os cotovelos sob o balcão. Uma estufa de vidro e alumínio, onde pairam inertes alimentos estranhos, nem sempre visualmente atrativos, e muitas vezes gostosos- o estômago humano não é tão diferente do estômago do avestruz; ou do tubarão, que come madeira, borracha, plástico, coral, além dos peixes e dos nadadores incautos. Já tive aventuras gourmet com vis salgados dessa espécie e hei de me transformar numa xícara, porque toupeira já sou faz tempo. Havendo espaço, armam mesas de metal, dentro do recinto ou fora, em frente, na calçada- coisa que já foi motivo de debate mais ou menos acalorado entre os pedestres, porque as calçadas andam cheias e não chegamos ainda à tecnologia de um mundo a la Blade Runner. As paredes são cobertas por azulejos e isso dá a impressão de se estar numa macro-cozinha. Caso o lugar seja mal-conservado e invisível à vigilância sanitária, pode lembrar um banheiro, mas nesse caso, convém passar no meio-fio, ainda que se corra o risco de ser atropelado por uma bicicleta de entregador de farmácia.
Botecos são instituições nacionais, como os cafés europeus e os pubs. Esses últimos são mais chiques? Sem duvida, embora os primeiros tenham o seu charme, digamos, decadente, cafajeste. O boteco é como o Carnaval sob a ótica do DaMatta: “evento” onde são todos iguais, onde “nobreza” e “plebe” extravasam suas fantasias em comunhão. E como somos criaturas ambíguas, temos nossos momentos de fala alta de conversa jogada fora, bermudão e chinelos, bem como os momentos de vestir preto, tomar um uísque e discutir Camus e as benesses da nanotecnologia- apesar do boteco e da erudição não serem antípodas: botecos estão intimamente ligados à vida universitária nacional. Botecos são lugares elásticos: podem ser consultórios, congressos de ciências humanas, casas de festas, fraternidades de letra grega- obrigado, tio Weber-, botecos podem ser tudo. Botecos são o barro, fregueses são os oleiros. Não fosse a atividade dos botecos, certos bairros pareceriam cemitérios à noite, com o restante do comércio fechado e os prédios taciturnos metidos em grades.
Claro que ocorre todo o tipo de debate num boteco. Já presenciei os mais bizarros. Certa vez, discuti sobre migração de almas com uma figura que tinha algo de mago às duas da manhã, nós, as personagens do diálogo, com as auras cheias de espuma de cerveja. O líquido alcoólico pode ser o Letes de que falava Platão, só que um Letes daqui, não do Hades. Numa outra ocasião, chega um homem com uma bolsa de papelão de supermercado- algo da era pré-plástica, década de 80 do século passado- e começa a falar em francês. Logo em seguida, traduz o que havia dito, era um trecho d’O Pequeno Príncipe, e antes de girar os tornozelos e de sair com um sorriso enigmático, fala “Desculpe, estou bêbado!” Num boteco, você chega e entra numa conversa em três minutos, não importando o que você foi fazer lá- tomar um café, uma bebida, comprar cigarros, balas. Em termos de comunicação, boteco é banda larga, enquanto que os outros lugares são conexão discada.
Outro dia, passava eu por um bairro onde já morei e percebi que um desses botecos, embora em atividade, tinha uma placa de “Vende-se” pendurada na porta, placa de papelão com as palavras escritas por caneta pilot, coisa bem boteco. Pensei sobre a complicada situação do comércio e também nas vezes em que parava por ali por cinco, dez minutos, para conversar com pessoas que conhecia antes de partir para outros destinos do sábado à noite. É possível que continue a ser um boteco, mas também pode ser convertido numa pet shop ou num salão de cabeleireiro. De qualquer forma, na lembrança, continuará funcionando como um boteco, dos antigos, com azulejos e tudo mais.
Holy Smoke mais teoria e prática defumadas
Não é um filme novo. Revi ontem “Holy Smoke”, intitulado aqui no Brasil de “Fogo Sagrado”. O resumo da ópera: Harvey Keitel faz o papel de um especialista que resgata pessoas cooptadas por seitas fanáticas, reintegrando-as aos seus seios familiares, aos seus mundos, neutralizando eventuais lavagens cerebrais. O fanatismo por qualquer crença, seja nas potencialidades miríficas de um pedaço de veludo, seja pelos notórios avatares ocidentais e orientais, é uma droga que causa forte dependência psíquica. Eis a segunda parte do trabalho da personagem de Keitel: “limpar” o adicto místico. O tal especialista tem seus métodos e é rigoroso, pois é possuidor de uma estatística favorável de sucesso em seu empreendimento. Esse fato imprime no comportamento da personagem uma certa postura de pop star. No entanto, Keitel se depara com uma jovem bonita e atraente, tanto em termos físicos, quanto nos de personalidade, interpretada pela atriz Kate Winslet (Srta. Kate, você tem meu apreço), e aí as coisas vão tomando um rumo bastante curioso, chegando a um ponto tragicômico- pensem em Keitel trajando um vestido vermelho e de batom, correndo por uma estrada. Acho, e achei revendo, o filme perfeito, pois a idéia é ótima, o roteiro é bem desenvolvido, há ritmo- algo importantíssimo e que ainda é problemático em boa parte dos filmes nacionais, que têm melhorado bastante, justiça seja feita, embora eu sinta um certo saudosismo pelo ar non sense de cinema europeu, notadamente italiano e francês, que pairava nas produções mais antigas- e a atuação, não só dos protagonistas, bem como a dos coadjuvantes, é excelente.
O “desvio” de conduta a que me referi no início ou a ruptura entre teoria e prática é um aspecto interessante. Num determinado momento, toda a bagagem teórica da personagem, que foi construída por uma práxis em grande parte, possivelmente, quebra-se. As armas que ele possui mostram-se ineficientes e o jogo se inverte- o adicto místico passa a ser ele; ela, a deusa de um novo culto, criado pelo especialista anteriormente iconoclasta. Certa vez, numa dessas madrugadas da vida, vi num programa de televisão, no Comando da Madrugada se não estou enganado, um cientista social que colocava como farsantes os sujeitos que diziam estar possuídos por entidades incorpóreas e que, por conta disso, realizavam feitos extraordinários, que vão desde a psicanálise às curas milagrosas, todos nós conhecemos ao menos uma estória assim. Esse posicionamento foi exposto ao entrevistador- Goulart de Andrade- com uma convicção cartesiana de chumbo, tomando de empréstimo esse maravilhoso termo empregado por Louis Pauwells e Jacques Bergier, no livro “O Despertar dos Mágicos”. Muito bem, teoria. Certo disso, o cientista afirmou que provaria por A + B x C + a Fórmula de Báskara que as tais capacidades, não só a da incorporação de um ente sobrenatural como a da ação movida por essa causa, são enganosas. “É óbvio, vocês vão ver, etc.”, essas foram mais ou menos as palavras dele.
Corta para e, pouco depois, o cientista fica frente a frente com um indivíduo que se dizia possuído. Uma exótica acariação. Se um filme fosse, intitularia de “O dia em que o cientista parou”, porque foi o que literalmente aconteceu. A versão masculina e adulta da protagonista d’O Exorcista começou a berrar, de modo desafiador, e o cientista ficou “pianinho”. Não disse uma palavra, apenas ficou olhando- na verdade, para baixo, não chegou a encarar seu oponente. Prática. Como diria José Mojica Marins, já que o assunto mistura em parte misticismo e cinema, “Praticamente”…
Observar e questionar. Nietzsche escreveu, gozando os doutos, que a diferença entre eles e os filósofos seria a seguinte: um douto pula sobre uma pedra num lago, fica parado por lá, pensando, e acaba por afundar, enquanto que o filósofo apenas passa por ela, ou seja, pisa na pedra, apreende o que deve ser apreendido, e segue em frente, pulando para as demais pedras. Há casos em que a teoria pode ser perfeitamente aplicada. Há casos em que a realidade suplanta qualquer hipótese. E há outros em que um fato do tamanho de um mosquito faz com que ambas as coisas desmoronem, e você sente vontade de tomar um sorvete na beira da praia, enquanto estabelece pontes entre o violão clássico e o mergulho de lastro.
Lembranças do Plano Inclinado e das Três Leituras
Quando o telefone tocou, pensei que havia sido o do jornaleiro, posto (de gasolina) que o vibracall do meu celular é tão vibrante quanto uma múmia do Museu Nacional nos momentos em que ando rápido. Enquanto eu me afastava da banca e me arrependia ao mesmo tempo de ter esquecido de comprar balas mentoladas, o som soa novamente, logo existe; eu atendo e digo que já estou chegando. Atravesso a rua e encontro os amigos. Um deles me diz que já havia planos para me linchar, ao que respondo, puxando a manga do meu casaco preto e olhando o jurássico relógio Soviet, que há de completar dezesseis anos, enquanto houver fé e baterias: “Mas são oito horas em ponto!” “Pontualidade britânica!”- ele disse. “So Pünktlich zur Sekunde”- pensei, embora aprecie muito os ingleses: é o nome de uma canção alemã de disco de cervejaria. O outro amigo pouco antes me perguntou se aquilo tudo era frio- sobre o meu casaco; ele vestia mangas curtas, a título de curtir a baixa temperatura, não discordo dele, vivemos numa estufa sem os cuidados de Burle Marx, na qual o frio é uma prenoção polar e excêntrica. Ainda lá atrás, tinha visto algo que não entendi bem: um espaço no meio da calçada cercado por vidro, com uma escada rolante e elevadores- que levavam para baixo, já que não havia andar de cima, ao menos visível. Obviamente é algo passível de explicação, mas obscurecido por um misto de distração com boçalidade geográfico-arquitetônica minha. O centro do Rio é um lugar estranho numa segunda-feira chuvosa (O centro de mim mesmo é um lugar estranho no Rio numa segunda-feira chuvosa). O amigo que quis me trucidar pelo atraso que não houve achou que tal quadrado de vidro era uma descida para a casa dos Oompa-Loompa. “Residencial Willie Wonka”- brinquei.
Ao subir a ladeira da rua, lembrei de que já havia passado por ali. “Já vim fazer alguma coisa aqui…” “Você veio fazer é nada, porque não tem nada aqui”- brincou ele. Mais tarde, já em casa, recordei de ter passado por ali de táxi, vindo de algures, indo para alhures. O lugar, extremamente simpático, aconchegante e cool, pequeno e recheado de objetos curiosos, dispostos de uma maneira intrigante: antigos vinis- francófilos, resquícios de uma festa temática francesa, explicou-me o dono- recheando as colunas da entrada; uma bicicleta antiga pendurada no teto; uma estante com porta-retratos aprisionando fotos do Palhaço Carequinha e de um jovem Sílvio Santos, bem como dezenas de outros fetiches, em termos antropológicos; potes de vidro cheios de rolhas; uma biografia de Madame Satã; uma televisão que passava trechos de séries cujas transmissões já deram voltas olímpicas pela Via Láctea, a julgar correta a teoria de que ondas de rádio e de televisão correm pelo espaço sideral por décadas; um abajur grande e de cúpula vermelha; um quadro de Napoleão Bonaparte no banheiro, onde também residia uma mesa quebrada, imóvel, embora móvel, num compartimento do teto rebaixado; imagens de santos que não pude identificar, iluminadas por lampadinhas- vi isso numa estação de metrô certa vez, usei essa visão num conto que escrevi, e me lembrei naquele momento, minto, lembrei depois, da questão Iconoclasta no Império Bizantino; um álbum de primeira comunhão transformado em cardápio. Isso abalou meu gosto por decoração de interiores- e de exteriores também. Sempre fico dividido entre o exótico e o clean. Uma casa mostrada num livro de Fulcanelli seria uma das que compraria se ganhador de um prêmio lotérico fosse: entupida de esculturas de abominações e símbolos em sua fachada de madeira. Parece uma casa rústica de campo reformada por uma junta de pica-paus composta por Aleijadinho, Goya e Bosch.
Fomos ver uma leitura dramatizada de três contos, feita por amigas que formam uma companhia de teatro. Lá estavam também dois atores convidados. O projeto consiste na encenação de contos de um autor novo mais um consagrado. Nessa ocasião, portanto, foram lidos dois contos de uma autora nova, Lícia Mattos, que é responsável pela escritura de roteiros da companhia e uma das responsáveis pela direção do grupo, e um de Clarice Lispector. Os contos de Lícia pertencem a um livro de sua autoria chamado “Obcecados”, publicado em edição independente.
O primeiro conto de Lícia, “Ciúmes” é bastante nelsonrodrigueano. Um homem, após dois anos de namoro, descobre um lado desconhecido de sua namorada, através do pedido por parte dela da realização de uma fantasia, na qual entrava em jogo uma amiga. O desfecho é trágico, além de perturbador. Faz lembrar aquela máxima de Wilde, “Cuidado com seus desejos…” O segundo conto dramatizado, chamado “Olhos de rapaz”, foi inspirado, segundo nota da própria autora, no poema “O Mito”, de Drummond- aliás, belíssimo, escrito para uma canção-, no conto “O Primeiro Beijo”, de Lispector, e numa personagem do livro “Amar, verbo intransitivo”, de Mário de Andrade. Aqui, a fantasia move um jovem e inexperiente rapaz como uma marionete, fazendo-o correr atrás de uma misteriosa mulher com quem ele se depara no metrô. O conto escolhido de Lispector foi “Felicidade Clandestina”, do livro de mesmo nome. É a estória de uma menina amante de leitura que tenta desesperadamente pegar um livro de Monteiro Lobato emprestado com uma outra, cujo pai é dono de uma livraria. Estabelece-se entre as duas um jogo cruel, no qual a menina que anseia pelo empréstimo do livro torna-se “escrava” do capricho da dona do livro, que sempre adia o empréstimo. O tal jogo deixa marcas na menina que queria ler o livro: com ele já em mãos, ela cria uma série de dificuldades para a leitura do livro, algo que funciona também como uma vingança, um reforço ao poder concedido pela mãe da outra menina, que disse: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” A passagem seguinte é ótima: “Entendem? Valia mais do que me dar o livro: ‘pelo tempo que eu quisesse’ é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.” De fato, diante disso, qualquer espírito grita “Oba”, porque um poder como esse representa uma rebelião contra o tempo- tic, tac, tic, tac, graças e desgraças ao inventor de Palmira pelo meu Soviet de pulso.
Como o espaço era pequeno, foi interessante ver a criatividade do grupo ao pôr em prática os esquetes. E perceber como a imaginação é uma correnteza que nos puxa para outros mundos: no fim do conto de Lícia, ouvíamos através da narradora, uma das atrizes convidadas, as palavras “O céu límpido, de estrelas inúmeras”, enquanto chovia copiosamente lá fora, embora víssemos o ator, cuja marcação naquele momento era no exterior do local, envolto numa não-chuva.
Então, a chuva de canos de pvc deu lugar a uma chuva de pedaços de linha de costura. Após uma confraternização, fotos, e uma mais acurada inspeção nas exóticas relíquias da casa, aparece um táxi- caiu do céu? Não vimos, não ouvimos trovoada de lataria- que estaciona torto, como que fugindo de uma perseguição de carros de cena de filme. Alguns ficam, outros se vão. Embarquei no táxi torto, que seguia imune à chuva de fios-dentais, pensando que aquela segunda era uma não-segunda, mas sim um sim-sábado, e de alma orvalhada, apesar do carro não ser conversível.
Sobre monstros e esportes
Adriana Calcanhoto tocava violão e cantava “Boi da Cara Preta”, na cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007, sentada numa cadeira gigantesca, enquanto era acompanhada por um coro de miríades de vozes. Pouco antes, estava pensando, não sei por que diabos, sobre a condição existencial dos bois. Colando um pedaço de filme mental ao outro, tal qual um projecionista ou um engenheiro de som colando pedaços de fita-de-rolo nos bons tempos pré-pro-tools dos estúdios de gravação, quando corte era corte de fato, feito com gilete ou tesoura, visualizei o tal sujeito, o Boi. Por que não sujeito? Afinal de contas, somos animais também. Se eu digo “O Boi está feliz”, Boi é o sujeito da oração. Talvez tenha sido um impulso vegetariano, uma culpa ocidental, capitalista, uma lembrança de uma vida anterior egípcia ou indiana; já que estamos no terreno metafísico, quem sabe algum espectro de ativista da Ecologia tenha passado por mim- afinal de contas era uma sexta-feira 13-, não sei dizer.
Pensamentos são rápidos e eis que lembrei de uma outra ocasião em que pensava sobre como o mundo adulto é criativo para a invenção de figuras esquisitas cuja função é assustar criancinhas. O tal Boi da Cara Preta é um bom exemplo. “Boi da Cara Preta” é uma figura bem sombria. Analisemos o restante da letra da cantiga- que é de ninar!: “Pegue esse (a) menino (a) que tem medo de careta.” O pequeno, além de não poder sentir medo de careta, ainda se vê na situação de se preocupar com um obscuro Boi que irá persegui-lo justamente pelo fato dele temer a esquisita ginástica facial a que chamam careta. Quantas crianças não tiveram pesadelos com os tais bovinos, perseguindo-os pelo campo, carregando uma ata numa das (p)atas, onde estaria impressa uma lei proibindo o pavor pela careta! Quantas outras não viram o boi flutuando no quarto escuro, um boi meio João-Bobo- um brinquedo protocerâmico, mas feito de plástico, que se enchia de ar, na base do sopro, que eu insistia em derrubar, como um pugilista mirim-, acima de suas camas, esbarrando em seus móbiles- ainda são usados móbiles?-! Eu tive um Bambi inflável. Os anos Setenta eram ricos em brinquedos infláveis, talvez porque as pessoas tivessem mais fôlego- sendo curioso o fato de que o tabagismo ainda tinha seu glamour, resíduo dos filmes Noir, elementar, meu caro Bogart. Pois bem, minha bisavó detestava esse Bambi-de-Plástico: via algo de satânico nele. Ao ver a retrospectiva das aberturas de jogos do PAN, senti-me desconfortável quando Mickey e Minnie apareceram bailando na tela. Entendi minha bisavó. Disney foi uma figura controversa. Mickey é politicamente correto. Prefiro o mau-humor do Donald.
Eu não tinha medo do Boi da Cara Preta. Pelo contrário, a música era-me suave; a melodia, um ótimo sonífero. Mas tinha medo do Moita. Moita? O que é isso? Não me perguntem. Na minha imaginação infantil, era uma moita mesmo, antropomórfica. Talvez Syd Barret, do Pink Floyd, tenha pensado o mesmo para compor “Vegetable Man”. Havia na época ainda a estória do Homem do Saco, que virou lenda urbana, se não estou enganado.
E que efeitos a criação desse bestiário produz no psiquismo humano? Será que isso atrapalha o desenvolvimento do homem? Arrisco a dizer, com meu esguio conhecimento de psicanalista de poltrona-com-abajur-aceso e de bar, que não. Não faz muito tempo que alguém propôs a mudança das letras das cantigas de ninar, por achar que essas eram prejudiciais à educação do infante. Acho que a mesma pessoa ou o grupo que estava por trás dessa tese- cristalização ou cristalizações de Orwell- também pensava que algumas letras das cantigas continham algo de preconceituoso. Não conheço ninguém que tenha traumas por ter entrado em contato com essas fantásticas criaturas de imaginação. Conheci uma pessoa que não passava por uma determinada rua com medo das árvores que nela estavam, mas ela não conheceu o Moita como eu, estou quase certo disso. Bem, eu não tenho medo de plantas, gosto delas. Creio que a maioria das pessoas deixe essa fauna mítica nos gavetões empoeirados da memória. Monstros dão ibope. Ponha monstros num filme, numa revista, agora, na internet, e você verá como são observados com olhos brilhantes. Adultos também também têm seu apreço por monstros. Vide Cortázar, com seu “Bestiário” e Borges, com seu “Manual de Zoologia Fantástica”. Já adolescente, gostava de ler sobre o Monstro do Lago Ness, sobre o Yeti, sobre Lulas Gigantes que derrubavam navios e lutavam com cachalotes e outros seres esquisitos. Exobiologia- ramo da biologia que pesquisa extraterrestres- é interessante, bem como a Criptobiologia- essa ainda mais, que pesquisa criaturas raras e exóticas. Juntei livros e mais livros sobre isso. Ainda tenho dinossauros de borracha guardados no meu relicário bestial: entre eles, um dimetrodonte verde, adicionado aos favoritos desde há vinte anos atrás. Nessa época, dinossauros para mim eram monstros, ponto, nada de Paleontologia, que pode ser fascinante para um adulto, mas é palavrão para uma criança.
Enquanto isso, o presidente foi vaiado e a platéia gritava “Oi!” sempre que o mexicano, em seu discurso no PAN, começava a frase com “Hoy”. O brasileiro é sarcástico. Ora, com tantos monstros não-imaginários, que não são de borracha e que são monstros no sentido negativo andando por aí, só rindo- para não chorar demais.
Uma dica, uma faixa, um piano, o cafezinho e a conta
Indicar é algo complicado. Pode acontecer de uma pessoa não gostar de algo que você indicou e transferir para você, em termos psicanalíticos, a “experiência negativa” que teve ao seguir a tal dica. Essa transferência geralmente é sutil, sinalizada por um olhar quase animalesco- lembrem-se da expressão “Olho de Tigre”, muito usada no boxe e que intitulou um tema de um dos 135 filmes do Rocky Balboa, música gravada pela banda Survivor- de reprovação. Pode acontecer de ser demonstrada com palavras- que podem ser verbalmente agressivas, o que nos remete a um estratagema de Schopenhauer para escaramuças dialéticas. Por último e não menos importante, há casos de agressão física, dignos de desenhos animados e comédias pastelão. Lembro-me claramente de um episódio pelo qual passei : uma amiga da família, vitimada por uma rinite que a perseguia há décadas, pediu-me uma dica de médico. Prontamente dei o endereço e o telefone do otorrinolaringologista que eu freqüentava, santo homem que livrou-me da praga do gotejar dos vis “remédios-de-nariz”, provando por a+ b ao quadrado que “Sim, meu filho, a sensação de que seu nariz foi cimentado é estimulada por essa porcaria, e não o contrário, como poderia supor sua vã filosofia de paciente.” A pressão sangüínea, o coração e o bolso agradecem, porque essas goteiras encerradas em nanovidros estão cada vez mais caras- refiro-me ao valor da mercadoria e não à revista, tampouco ao comparsa do Dr. Gori, da série Spectreman. Muito bem, a pergunta-chave foi “Ele é bom?”, ao que disse “Sim”, e era de fato. Dias depois, encontro com a pessoa e pergunto “Como foi?”, e ela me responde “Ah, não gostei não… Antipático, eu falando sobre minha vida e ele só fazendo perguntas sobre sintomas, remédios… Mal tirava os olhos da receita que escrevia…” Lembro-me de ter sorrido meio sem graça e de ter soltado o meu famoso “Bom”, com reticências não sonoras mas audíveis, ao mesmo tempo em que pensava “Ora, você queria um otorrino ou um psicanalista?” Isso foi um fato, não um esquete do Woody Allen. A arte imita a vida.
Ainda que eu corra os riscos acima descritos, indico um álbum que venho ouvindo ao longo dessa semana, chamado “Backdoor Possibilities”, 1976, de uma estranha banda alemã chamada “Birth Control”. Acabei de fuçar o Wikipedia no intuito de compor uma resenha com um número maior de dados dos que eu tinha disponíveis em mente e não encontrei um verbete. Achei alguns links relacionados bastante curiosos, tais como “Urânio Empobrecido”, “Miles Davis” e “Lista de bandas de Death Metal”- o que não é definitivamente o caso. Rápido histórico: banda formada no final dos anos 60; banda de Krautrock, um rótulo dado a bandas alemãs de rock progressivo e música experimental do fim da década de 60, início da de 70- entre elas, as mais conhecidas são Kraftwerk e Tangerine Dream, que fez a trilha sonora de um dos clássicos da Sessão da Tarde, “Te Pego Lá Fora”; o Birth Control mistura rock progressivo com jazz, música eletrônica, experimental e hard rock.
O que me trouxe a esse álbum foi a música “Behind Grey Walls”, que considero uma das melhores que ouvi. Ela já vale a aquisição do cd, embora as outras 13 canções sejam muito boas. Conheci essa música numa coletânea de Deutsche Rock, ainda nos tempos do vinil e da fita-cassete. A introdução da música é estonteante: apenas um grand piano que toca um tema incidental, misturando elementos da harmonia e da melodia da canção que entra logo em seguida, ainda com o piano e já com os primeiros versos cantados pelo vocalista Bernd Noske, que é também o baterista da banda. A introdução termina com uma trovoada de acorde na região grave do piano, algo bem Stockhausen. Mais Deutsche que isso, impossível (ou unmöglich). Depois entram os demais instrumentos e a música segue adiante, até terminar com uma vocalização que eu poderia definir como uma versão torta- ou bêbada- de um daqueles vocais de Bohemian Rhapsody do Queen. A armação vocal a que me refiro forma um acorde de seis notas, é algo bem operesco. E patético, positivamente patético. O impressionante dessa introdução é o virtuosismo do tecladista Zeus Held. Não satisfeito em pegar uma harmonia e uma melodia dissonantes, o sujeito ainda compõe um tema belíssimo, que bem poderia ser clássico. É como pegar um punhado de Maria-Mole e fazer uma Pietá ou uma Santa Teresa de Bernini. Tenho pra mim que Zeus Held é um mutante com oito dedos em cada mão. Tecladistas eram figuras de suma importância em bandas de Rock Progressivo. Todos virtuoses, monstruosos, criaturas que fazem você desistir de tocar piano e preferir brincar com ringtones de celulares no meio-fio da calçada: Keith Emerson (Emerson, Lake & Palmer), Alan Park (Beggar’s Opera), Peter Hecht (The Pink Mice, Asterix, Lucifer’s Friend)- esses dois pouco conhecidos, infelizmente-, Tony Banks, Rick Wakeman, entre outros. Nem sempre o virtuosismo agrada. Rick Wakeman, por exemplo, foi convidado a se retirar de uma de suas primeiras bandas, The Strawbs, após dar um ataque de teclas durante um show. Keith Emerson costumava esfaquear teclados e sintetizadores Moog- dizem também que ele não falava com ninguém no emprego que tinha antes da banda e que se metia num piano bar, no horário do almoço, pra ficar tocando; coisas de nativo de escorpião. Pianos e órgãos são instrumentos muito bonitos- desde que bem executados. Lembro da felicidade em que fiquei no dia em que consegui tirar de ouvido um pedaço ínfimo de Poet and Peasant, de Saint-Säenz, na versão do Beggar’s Opera, usando a função Jazz Organ do teclado. Mas isso faz tempo. Hoje armo acordes como uma ostra. Preciso de treino. E de dicas.
“O boteco é como o Carnaval sob a ótica do DaMatta: “evento” onde são todos iguais, onde “nobreza” e “plebe” extravasam suas fantasias em comunhão” … boa !! Muito boa!!! Ôh lugar sagrado !!!